Capítulo Três

lado oscuro

1 0

24 de Agosto,
Domingo às 5:34 PM

Os saltos estavam apertando tanto seu pé que pode sentir a ferida começar a se abrir. A sola do sapato batia contra o chão de concreto, o estalo ecoava pelo local abandonado.

Ela podia reconhecer a presença maligna atrás de si. Seu coração estava batendo tão forte que podia ser ouvido de longe.

Dizem que a primeira coisa que um assassino vê, é o seu medo. Seu desespero correndo por suas veias, deslizando por sua corrente sanguínea. As palavras vacilando, o coração explodindo, a ânsia por viver…

O medo de morrer.

E isso o excita. É isso que dá a ele o gás para acabar com sua vida.

Kali mal podia respirar, seus pulmões planejavam falhar vergonhosamente. E isso porque ele ainda não pôs as mãos nela…

Ela fechou os olhos com força e desejou que tudo acabasse bem.

Dizem que quando se está prestes a morrer, tudo volta à sua mente, exatamente como em um filme… com flashes de tudo que gostaria de guardar para sempre em sua alma.

Thauan apareceu por entre seus pensamentos.

FLASHBACK ON

Naquela manhã, Blu passou seu batom vermelho vivo, vestiu um belo vestido preto, o pano de seda deslizou por seu corpo e se ajustou a suas belas curvas. Enquanto deixava sua franja perfeita cair sobre os olhos, o homem a observava encostado a porta, Kali podia ver seu reflexo no espelho.

Podia confiar nele?

Ela nunca descobriria a resposta se não se arriscasse. Teria que pagar para ver.

Lo vai ligar para ele, diga que soube que estás de passagem na cidade y qué quieres encontrá-lo en ese endereço. Sólo diga que necesitas hablar.

Mas Babel precisa de mais do que isso. Por isso Kali disse que sentia sua falta e estava orgulhosa por ele ter matado tantas mulheres para encontrá-la. O que nunca seria uma verdade.

E Babel parecia ter acreditado em suas palavras.

Ao finalizar a ligação, encarou seu reflexo no espelho. Inicialmente, sentiu nojo. Depois, pena. Jamais seria a mulher que almejava secretamente em sonhos. Sua família moldou não só a sua vida, mas também o seu destino.

“Você sabe que vai morrer, Kali”, pensou consigo mesma.

Na vida de um assassino, só se devolve o troco com a mesma moeda!

Presta mucha atención. — O Thunderbird a encarou. — Estaré escondido todo el tiempo, solo necesitas mantenerlo distraído.

— E se tudo der errado? — Blu engoliu seco, lágrimas planejaram escorrer por seus olhos. — E se tudo der errado e você morrer?

Thunderbird riu alto e sarcástico.

— Acredite, yo no vou morrer. — Acariciou o rosto de Kali. — Babel es el único que morrerá nessa história, cariño, confía en tu Thunderbird.

E eles se beijaram. Estavam bastante viciados nisso.

Talvez, o Thunderbird não soubesse esconder bem o que sentia pela garota perigosa.

E ela tão pouco conseguia resistir aos seus encantos.

Algumas faíscas teimam em se recostar, esquecendo-se da explosão que esse encontro pode causar.

FLASHBACK OFF

— Blu… — Ele sussurrou seu nome ao se aproximar.

Ela só podia ouvir seu coração. Ergueu coragem e respirou fundo, virou-se lentamente para encarar o assassino. Babel continuava sendo lindo e incrivelmente adorável. O homem inocente com uma guitarra na mão, capaz de fazer mulheres como ela enlouquecer de prazer.

— Babel. — O homem leu seus lábios vermelhos.

— Você está linda. — Aproximou-se da garota. — Dá até pena… — Segurou de suas mãos com unhas longas, pintadas também de vermelho. — Dá pena pensar que morrerá tão jovem. Como eu posso matar algo tão belo? Algo que um dia carregou um pedaço de mim?

Odiava que citasse o bebê, mas ela não podia vacilar agora. Kali encarou nos olhos e sorriu.

— Chega de adiar, não é, baby? — Ela acariciou o rosto do inimigo. — Chega de evitar o que era para ter acontecido há muito tempo.

Diante do homem que dizia amá-la e que estava matando todas as boas mulheres do mundo, apenas para chegar até ela, Kali concluiu que não podia deixar isso nas mãos do Thunderbird. Era ela quem deveria resolver isso, em nome de todas as mulheres que morreram em seu lugar.

Mesmo quando Blu era namorada de Babel, ele matava mulheres, porque ele não podia machucá-la daquela maneira. Por isso, outras mulheres pagavam o preço em seu lugar. E ela estava convicta disso o tempo todo, quando Babel a deixava na cama e saia no meio da noite, ela não impedia, porque sabia que ele precisava fazer aquilo, ou ela pagaria o preço.

Kali merecia morrer.

Trovões bravejaram no céu, anunciando que essa era a última tempestade que desabaria em Mangata. Blu apertou a mão de Babel, abraçou o homem e deitou a cabeça sobre seu ombro. O assassino acariciou suas costas, beijou o ombro nu da garota de forma delicada.

— Sinto muito, baby. — A voz do homem de fato estava coberta por ressentimento. — Eu te amo, Blu. Sempre vou te amar. Com toda a escuridão que há dentro de mim.

Kali viu o Thunderbird.

Ele surgiu no meio do nada, podia jurar que de fato os raios faiscavam de seus olhos. Thauan caminhou silenciosamente na direção dos dois. Estava tudo combinado e planejado, tudo devidamente organizado entre ambos. Era um plano…

“Solo mato con mis propias manos”, afirmou o Thunderbird mais cedo.

Um homem apaixonante.

Enquanto o Thunderbird se aproximava ligeiramente, a jovem sentiu Babel pegar o objeto pontiagudo. E ela teve tempo, vários segundos para realmente se decidir. Não era justo com Thauan, se pensar nele, Blu poderia voltar atrás. Mas não ousariam ser uma mulher cruel novamente, não poderia carregar a culpa pela morte de tantas mulheres. Bastava!

Com essa decisão, quando o Thunderbird deu o sinal, seguindo o que combinaram, Blu quebrou o plano. Um plano que Kali nunca planejou seguir. E o rapaz da lenda só percebeu agora, sendo vergonhosamente enganado pelos encantos da moça.

Thauan viu quando lágrimas escaparam dos olhos da garota, e ela não se mexeu.

Assim soube que ela havia desistido.

O Thunderbird havia encontrado seu grande amor e o perdido imediatamente.

FLASHBACK ON

Para ele, amar é aceitar todos os defeitos e qualidades de alguém. Mas sobretudo, alguém que pudesse suportar sua verdade. Kali é seu espelho. Ela é como ele e, por isso, quando se olhavam, compreendiam-se de uma maneira tão sutil. Como ele poderia tentar não conquistá-la?

— Thauan. — Kali chamou o homem, antes que saíssem do apartamento.

— Blu. — O homem incrivelmente bonito a encarou.

— Qual é a sua recompensa? — Kali sabia que seu pai já havia prometido algo em troca da morte de Babel. — Diga-me.

Thauan baixou os olhos e pensou duas vezes se deveria dizer ou não. Gradualmente, ergueu os olhos para olhar no fundo da alma de Kali, através de suas íris escuras. Não adiantava manter escondido o que ela logo iria descobrir.

El Caos no me ha dado nada, Kali. Estoy aquí, respondiendo una llamada. Pero pedí algo em troca de matar Babel… — Começou a confessar. Blu manteve os olhos grudados aos dele. — Le pedí su libertad.

“Eu pedi a sua liberdade…”

Aquilo ecoou em seus pensamentos e ela se esqueceu de como respirar por alguns instantes. É claro que ela queria ter conquistado isso por conta própria, mas havia ali um homem diante de si que reconheceu o que ela precisava. E ao invés de beneficiar a si próprio, optou por dar a ela tudo que sempre quis.

Não podia ser tão desonesta consigo mesmo, o homem havia conquistado-a em apenas três dias. Era fácil se apaixonar por ele, quem diria amá-lo… Kali queria correr e chorar, mas ela apenas sorriu fraco e fingiu que estava tudo bem, quando não estava. Ela sentia que nunca poderia ser livre.

— Isso quer dizer que meu pai me libertou? — Blu não podia acreditar.

Thauan sorriu.

Sí, você não precisa ser mais uma isca… Ahora eres libre, Blu.

Era tudo que precisava ouvir antes de morrer.

FLASHBACK OFF

Quando a lâmina a perfurou e as lágrimas caíram de seus olhos, o Thunderbird vacilou, por um momento, simplesmente suas pernas pararam de se mover.

“Sinto muito”, viu os lábios dela sussurrar as palavras e os leu com desespero. Era como se a lâmina estivesse perfurando o seu coração.

Ele viu Babel sustentar o corpo da moça, enquanto ela arfava para respirar.

O corpo da garota que amava caiu no chão com um baque.

Sentiu o ódio tomar conta de suas veias. O barulho, ah, o barulho ensurdecedor era seu coração se quebrando. Kali o havia traído, apunhalado-o pelas costas. Traição, sempre seria um ato doloroso. E Thunderbirds não perdoam…

Babel começou a se despir, pronto para seguir com seu ato maníaco e psicopata. Estava tão ansioso para consumar o ato que sequer sentiu a presença do Thunderbird.

Thauan estava convicto de duas coisas:

A primeira era que ele jamais conseguiria terminar isso à sua maneira, não ousaria matar Babel com suas mãos e colocar o que restou da vida de Blu em risco. Seu plano B iria por água abaixo se deixasse seu ego falar mais alto, emoções deveriam ser controladas, isso é ser um Thunderbird.

A segunda é que não deixaria a mulher que domou seu coração, tão facilmente, morrer.

Com isso, não se arriscou, sacou a arma que carregava em sua calça como precaução e atirou no meio das costas de Babel. O assassino caiu no chão, o Thunderbird se aproximou sorrindo. O monstro mal podia se mover com a ligação de sua coluna vertebral rompida, diferente de Blu que mal respirava.

— Thunderbird… eu ainda vou te destruir…

Thauan riu alto e sarcástico.

Dada su posición, ¿todavía tiene el coraje de amenazarme? — Segurou a cabeça do homem. — Te juro que no creo en el infierno, Babel, pero espero que haya uno esperándote.

— Não acredito que a porra do Thunderbird trepou com a minha garota! — Babel bravejou irritado. — Eu preciso te matar, seu assassino de merda! Eu preciso!

Os gritos de Babel eram como combustíveis para a sede de sangue do Thunderbird. Suas mãos finalizavam seu trabalho com gosto, e ao contrário da assassina Blu, o rapaz da lenda fazia questão de fazer uma grande bagunça. Como uma tela branca sendo pintada de vermelho vivo. Ele mentiria se dissesse que não gostava de sentir o líquido quente deslizando por suas mãos.

Todo mundo tem um lado que tenta esconder dos outros, Thauan, um lado que pode se inclinar para a escuridão ou a luz.”

As palavras de Kali foram sussurradas na mente do Thunderbird, a bela garota estava coberta de razão, não poderia ser diferente para o Thunderbird. A lenda também tinha seu lado escuro, e o lado negro era perverso. Sangue, o prazer de tirar a vida de uma pessoa má como Babel, de vê-lo suplicar por sua medíocre existência, de ver sua alma abandonar o corpo. Esse era um momento sagrado para um Thunderbird.

O pássaro-trovão cortou a garganta de Babel, passou lâmina afiada pela extensão de seu pescoço, sentiu quando as artérias foram rompidas e o sangue quente caiu sobre sua mão, os gritos finais, o homem se contorcendo, assistiu enquanto a vida deixava o corpo do monstro.

— Adeus, Babel.

O Thunderbird deu fim ao monstro chamado Babel e trouxe a paz para Mangata novamente.

Thauan pegou Blue enquanto ela arfava para respirar.

— Me deixe morrer… — Kali pediu, tocando a cicatriz de Thauan, bem abaixo de seu olho.

Enquanto eles corriam debaixo da chuva, enquanto Thauan lutava para salvar a vida da garota que ele amava.

— Você prometeu! — Thauan gritou enfurecido. — No te atrevas a morir, Blu. ¡No te atrevas!

— Thauan… — Kali pediu, sua voz foi sufocada por sangue e gritos de dor.

Es tan cruel hacer promesas que no piensas cumplir… — Thunderbird lamentou, e se odiou por ter se enganado em relação à moça. Ela amoleceu seu coração tão facilmente para depois pisoteá-lo com a ponta dos seus saltos agulha.

— Eu nunca poderei ser livre da culpa, Thau. — Ela sorriu, e seus dentes estavam envolvidos de sangue. — Não quando deixei ele matar tantas pessoas inocentes. Você é o Thunderbird, um justiceiro que só mata assassinos. Como poderia ter uma parceira que matou tantas mulheres inocentes? Eu sinto muito, Thau. Eu sinto muito…

Blu, por favor… ¡Tú no tienes la culpa!

— Não foi isso que você me disse quando nos conhecemos.

Yo estaba equivocado. Solo quería convencerte de que esto era lo correcto. ¡Você tinha el poder de detenerlo y conseguiu! Hicimos eso. Livre-se de la culpa ahora…

Thauan caiu no chão, no meio da estrada, sobre o asfalto duro e enlameado. A vida abandonava lentamente o corpo de Kali. Mas ele, melhor do que ninguém, sabia que todos mereciam uma segunda chance. E finalmente a moça poderia viver a sua liberdade. Com ou sem ele.

De fato, alguns encontram liberdade na morte. Mas Blu não encontraria, ele sabia disso.

— Muere ahora, pero cuando despiertes, sé libre.

“Morra agora, mas quando acordar, que seja livre.”

Era a segunda vez que Kali ouvia aquilo naquele dia, e dessa vez havia soado muito mais verdadeiro. Era algo que ela gostaria de ter ouvido enquanto seu coração ainda pulsava quente em seu peito.

E então fechou seus olhos para a morte.

A morte era um evento tranquilo e doloroso.

Dor nos primeiros minutos para uma eternidade em paz.

Kali Goldie estava morta.

O Thunderbird bateu asas para longe do pandemônio de Mangata. Não podia se dar ao luxo de manter-se ali, seus dias como Thauan haviam chegado ao fim para dar espaço a dias gloriosos e banhados de sangue que apenas o Thunderbird poderia viver.

O assassino precisava controlar a tempestade em outros lugares.

E a paz reinou sobre Mangata.

 

You know I’m not a bad girl, but I
Do bad things with you

— So It Goes…, Taylor Swift

Indique para um amigo