Capítulo Um

un oscuro pasado

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4 de Agosto de 2018,
Sexta-feira, 21h

Era uma noite tempestuosa, a chuva desabava com força do lado de fora do edifício que Blu mora, localizado no subúrbio de Mangata.

Enquanto a tempestade furiosa domava a cidade, a jovem estava curtindo uma canção da famosa estação das músicas da época da juventude de seus pais, embalada na voz do cantor que soava pelos alto-falantes do seu velho rádio a pilha. Sim, a pilha, já que era fascinada por velharia.

O locutor havia anunciado o quadro de talentos, onde ouvintes mandavam suas músicas ou covers para serem transmitidos ao vivo para os telespectadores de todo o Brasil. O rapaz de fato possuía um talento, sua voz é doce e suave, deslizava até seus ouvidos e tocava-lhe profundamente a alma.

A música em questão é do cantor B.J. Thomas, ele cantava de forma tão sincera a canção “Rock And Roll Lullaby”, suas notas arrepiavam. A garota cantarolava baixinho em sintonia ao som acústico da voz suave do garoto enquanto pintava as unhas dos pés de vermelho.

Irônico, não? Blu pintava as unhas de vermelho….

Na verdade, azul nunca foi sua cor favorita, a jovem era chamada assim por causa de seu pai. Ser filha do chefe da criminalidade de Mangata não era uma tarefa fácil, se você nasce no berço do crime, tende a ser um fruto criminoso. Não dava para fugir do destino.

Kali Goldie era seu verdadeiro nome, e enquanto não estava à mercê de seu progenitor, conhecido como o “Chefe do Caos” ou apenas “Caos”, ela estava fazendo coisas normais de uma garota normal. Como trabalhar em um bar como garçonete usando um minúsculo vestido, que mostra mais do seu corpo do que ela gostaria de exibir.

De repente, a música parou de forma drástica, interrompendo a suave voz do cantor e dando espaço a voz grossa do locutor da rádio:

“Interrompemos a programação para o aviso oficial da delegacia de polícia de Mangata. Recorrente aos assassinatos em massa que vem ocorrendo, foi-se a época que nossa querida cidade era segura, agora estamos sendo assombrados por um homem cruel. Um assassino impiedoso vem abusando de mulheres de 20 a 40 anos, as vítimas estão sendo encontradas mortas por estrangulamento todas as noites após o abuso sexual. Não é seguro caminhar pelas ruas durante o horário de 18h às 7h, por favor, mantenha-se segura em sua casa com seus amigos e familiares e evite ao máximo ruas desertas do centro. Segundo o Jornal Mangata, cerca de 24 mulheres foram vítimas do assassino em questão nesses últimos meses. Tenha cuidado, população! A polícia avisa que estão trabalhando para impedir o criminoso… Agora, voltamos à bela voz de Sebastian Ernesto…”

E a música voltou a tocar, mas a canção suave já não deixava Blu comovida e sim assustada. Podia ouvir seu coração gritando dentro do peito.

Seu pai estava de mãos atadas, visto que não sabia quem era o assassino. As mortes o prejudicam diretamente. Assim como os filhos de Lúcifer, o ser maligno parece se mover pelas sombras, visto que ninguém conseguiu descobrir quem é.

Era uma caçada violenta, os capangas de seu pai se esforçavam para manter a cidade segura, para impedi-lo. Mas seus esforços eram em vão.

Quanto mais pensava sobre esse assunto, mais medo sentia. Calafrios percorriam suas veias, fazendo-a tremer. Talvez por que, no fundo, ela soubesse de tudo! E continuava se recusando a acreditar, agindo como uma tola. Cega, muda e surda.

Ceticismo e egoísmo certamente podem levar sua alma à ruína. E diante daquele cenário assustador, Blu não poderia negar o quanto os demônios da culpa estavam chicoteando-a nas costas impiedosamente. Não que ela merecesse menos. Nunca foi digna de pena, principalmente quando colhe consequências de seus erros.

O que é isso que ela está sentindo?

Essa sensação tão familiar…

TUM, TUM, TUM, TUM… dizia seu coração… seria, medo?

Medo…

BAM, BAM, BAM!!!

Uma batida forte na porta fez a garota pular do sofá, assustada, levou a mão ao peito, tentando recobrar os sentidos.

Não, não e não! Não podia ser ele

A garçonete se levantou cautelosamente e caminhou até a porta. Seu coração era o único barulho a ser ouvido, até se concentrar e escutar uma respiração ofegante do outro lado da madeira seguida por gemidos de dor.

O que diabos está acontecendo?

Colou o ouvido na porta para ouvir melhor.

Chica… por Dios, ¡puedo oírte! ¡Por favor abre la puerta! — Uma voz rouca gritou do outro lado com o sotaque espanhol estalando na língua.

Blu não sabia falar o idioma, mas podia compreendê-lo mais do que imaginava. Não diferia tanto do português. Ela cresceu ouvindo sua mãe portuguesa com sotaque acentuado, portanto, compreender outras línguas, não era novidade.

Espantada, a jovem tapou a boca com as mãos. Respirando ofegante, tentou regular seus batimentos cardíacos antes de finalmente ter coragem para gritar:

— Isso não tem graça!

No te haré daño, yo… Eu… yo no machucar-te…  — Ouviu um gemido de dor, ele tentava falar de modo que ela pudesse compreender. — Eu… necesito… de…

Blu ergueu toda sua coragem enquanto o homem falava, ao lado de sua porta há uma mesinha de canto onde guarda uma faca cujo sabe usar muito bem. Dotes por ser filha de um criminoso, você nasce sabendo usar armas letais. E ela era um tipo de mulher que precisava estar sempre armada.

Pegou a lâmina afiada e escancarou a porta de uma vez, foi tudo tão rápido que custou assimilar. Assim que a abriu, o homem em questão caiu no chão aos seus pés, molhado e ensanguentado, com uma ferida profunda em seu rosto.

Me ayuda… — Sibilou o rapaz, sua voz era um fio doloroso. Um pedido de socorro, não importa em que idioma, é sempre compreensível.

Ainda em choque, a moça olhou o corredor de seu prédio e não viu nada. Vizinhos são uma piada, vivem vigiando sua vida, monitorando cada passo, mas quando precisa de ajuda eles desaparecem. Não havia ninguém além dela no local pouco iluminado.

Raios e trovões bravejavam fortemente do lado de fora, clareando o seu apartamento escuro com feixes azulados. Blu fechou a porta e passou a tranca, seu coração desconfiado sabia que aquilo não era boa coisa. Ela abaixou para encarar o rosto do homem que estava de olhos fechados sofrendo suas dores. O sangue estava começando a encharcar o carpete de seu apartamento e isso era um problema.

— Quem é você? O que você quer? — Foi logo perguntando rosnando feito uma fera e afrontando o ser ameaçador, ainda armada.

O homem abriu os olhos lentamente para encará-la e sorriu sarcástico. Não era uma cena linda? Uma felina brava pronta para se defender? A natureza selvagem é encantadora.

— Kali Goldie… — Estendeu a mão para lhe tocar o rosto. Seu nome parecia extremamente sexy sendo pronunciado no sotaque do rapaz. A língua tocando o céu da boca com sutilidade. Ela se viu presa nos seus lábios atrativos.

Assustada, desviou de seu toque.

— Como sabe o meu nome? — Perguntou firme, mas o homem não lhe respondeu. — É melhor começar a responder às minhas perguntas, amigo, você está em desvantagem!

E posteriormente, de maneira cruel, Blu apertou a ferida no rosto do homem. Ele gritou e agarrou sua mão afastando-a com a rispidez necessária diante da dor, mantendo-a longe de seus ferimentos.

No me recuerdas… — Constatou o óbvio e sorriu provocante. — , se esforce un poco. No todos los días es salvada por un hombre misterioso….

Ela o encarou sem compreender…

— Do que está falando? — Semicerrou os olhos tentando ligar os pontos.

Os olhos…

As íris verdes e brilhantes, o rosto cheio de cicatrizes, cada pequena pintinha localizada em pontos estrategicamente charmosos, o enigma que seu ser exala, o sorriso sarcástico… sim, isso é familiar.

O homem puxou-a pelo pulso até alcançar o seu ouvido.

— Corra, Blu! Corra! — Sussurrou com sua voz grossa que a fez arrepiar imediatamente.

Um frio percorreu a coluna da moça, seguido por uma eletricidade incomum. Quando fechou os olhos para se entregar a lembrança, relâmpagos iluminaram sua mente…

FLASHBACK ON

23 de Agosto de 2017
Sexta-feira, 1h

— Dê o fora daqui, Blu, já acabou seu expediente e eu não vou lhe pagar horas extras. — Gritou o seu chefe. — Largue a bandeja e vá embora!

A moça bufou e revirou os olhos, odiava seu trabalho, odiava esse lugar. Odiava-se ainda mais por fazer da sua vida algo medíocre. Por estar presa a essa cidade e aos crimes de seu pai.

E sobretudo por se tornar alguém pior do que ele.

Os velhos ricos sentados à mesa que servia, lamentaram sua partida. Tudo que eles queriam era vê-la desfilar em seu minúsculo uniforme e passar as mãos em suas pernas lisas. E óbvio, caprichar em suas investidas, exibir seu dinheiro, na esperança de levá-la para cama. Tudo que ela não precisava é de um velho babão para cuidar. Cuidadora de idosos nunca foi seu forte, nada contra a profissão ou aqueles que atuam nela.

Frustrada, a jovem largou a bandeja na cozinha e foi para o banheiro dos funcionários onde colocou roupas normais que a faziam sentir mil vezes mais confortável. Tinha uma longa caminhada até sua casa – não tão longe, mas era assustador visto que todas as almas de Mangata estavam dormindo e só ela estava na rua. Saiu pelos fundos do bar e foi abraçada pela noite fria, o vento gelado apertava suas bochechas. Seu casaco de lã não era o suficiente para suportar a brisa gélida.

Ao olhar para o horizonte, Blu viu raios brilharem no céu escuro como piche, uma tempestade estava a caminho. Podia sentir a umidade no vento. Era melhor apressar o passo. Pegou um atalho por um beco escuro, já estava familiarizada com o trajeto.

Aliás, o que poderia temer quando era filha de Caos – o criminoso mais temido de Mangata?

As pessoas não seriam tolas de feri-la, bom, isso se o ser em questão tiver amor à vida.

Seu pai, apesar do título, não era perverso. Na verdade, ele era o equilíbrio do mau em Mangata, era ele quem controlava os bandidos, assassinos, tráfico de drogas ou quaisquer tipos de ser humano maligno que habitasse em sua cidade. Tudo que fosse contra as leis, era dever de Caos manter a ordem.

Enquanto os bandidos atuavam e mantinham a ordem dos crimes, os habitantes podiam viver tranquilamente como se nada daquilo existisse. Cada um com sua vida, contando que não atraíssem a atenção da polícia ou não se metessem em problemas, isso funcionava.

Entorpecida por seus pensamentos, Blu não notou quando uma sombra apareceu no beco e a atingiu na cabeça, a garota foi ao chão e sua visão ficou turva.

— Baby… sinto sua falta… — Ouviu o homem dizer. — Como pode me deixar, Kali… eu te amo tanto… como posso perdoá-la pelo que fez…

Blu não se lembra de muita coisa. Mas, alguém a salvou. E esse alguém a ergueu quando não tinha forças. Ela só se lembra do sussurro:

— Corra, Blu! Corra! — A voz grossa suplicou ao pé de seu ouvido.

E ela correu imediatamente, cambaleando pelas ruas. Mas, correu. Com sua consciência alternando entre preto e riscos de chuva golpeando sua face.

Surpreendentemente, Kali conseguiu chegar ao seu edifício. Entretanto, acabou desmaiando antes de alcançar a escada. Quando recobrou a consciência já era dia, se arrastou para seu apartamento e desde então viveu a sua vida como se aquele pesadelo nunca tivesse acontecido.

FLASHBACK OFF

O homem percebeu quando Blu o encarou assustada, ela havia se lembrado. Foi ele quem a salvou naquela noite. Não foi um pesadelo, aquilo realmente aconteceu.

Cuídame primero, luego punteamos el ‘is’. — Ele pediu, respirando profundamente. — Te aseguro que tenemos mucho de qué hablar, Kali.

Os dedos do homem envoltos em seu pulso apertavam-na com força, conforme foi relaxando, ele também o fez.

Se sabia seu nome, todavia também saberia sobre seu pai. Logo, deveria confiar nele, não é?

Blu não sabia a resposta, ela apenas cedeu ao risco.


A moça sabia cuidar de ferimentos, aprendeu isso quando ainda era criança, ao ver sua própria mãe suturar o pai diversas vezes quando chegava em casa ferido ou quase morto. Não era uma tarefa fácil ser um criminoso. Tão pouco esposa ou filha de um.

O rapaz sentou-se ao vaso do minúsculo banheiro, mal podia andar, ela precisou ajudá-lo com o trajeto. Obviamente não foi nenhum pouco fácil sustentar o corpo de um homem tão alto e pesado. Kali limpou o ferimento e fez os pontos no corte do rosto, localizado na lateral direita, próximo à orelha. Era um corte perfeito, provavelmente fruto de uma lâmina muito afiada e feito por mãos habilidosas. Uma criminosa reconhece um ferimento causado por outro.

O homem diante de si era do tipo que já havia se acostumado a dor da sutura. Considerando tantas cicatrizes visíveis só em seu rosto, aquilo provavelmente não era nada.

Conforme ela limpava a face suja, mais impressionada ficava com a beleza do homem à sua frente, embora, aparentemente o mesmo fosse um tanto mais velho do que ela.

Os olhos são esverdeados, o cabelo castanho-claro salpicado de fios mais claros, quase brancos. Pele perfeita tirando as cicatrizes grossas espalhadas por sua face, um enorme ‘x’ na testa e um corte profundo da bochecha esquerda. Um par de sobrancelhas grossas tornavam seu olhar mais rígido, assim como sua expressão. Uma argola cor de cobre estava pendurada em sua orelha esquerda. A barba grande e pontuda no queixo o deixava mais velho, mas ainda assim, mais bonito e um tanto charmoso. A pele clara é claramente queimada pelo sol, dando um toque dourado. E o corpo grande é certamente bem forte, é tão mais alto que Blu, ela quase precisa olhar completamente para cima quando ele estava em pé diante de si.

— Quando vai começar a falar? — Perguntou, ainda desconfiava do homem. Pelo que sabia ele pode muito bem ser o assassino.

— Blu, por favor, não seja ansiosa. — Sorriu bonito para ela. Pela primeira vez, falando um português compreensível.

Joguinhos. Ela detestava ser peça de joguinhos. Blu está acostumada a ser ela a dar as cartas e conduzir o jogo de forma implícita até conseguir o que queria. E ela tinha muitas ferramentas naturais para isso. Mas aquele homem a fazia se render muito facilmente e não estava feliz com isso. Ela precisava tomar as rédeas da situação.

— Eu me lembro de você… — Pensou em voz alta, conforme checava sua memória mais certeza tinha, foi ele que a salvou naquela noite. O ‘R’ vibrando na sua língua a fazia ter ainda mais convicção, é impossível se esquecer do sotaque.

O rapaz evitava seus olhos e isso estava a incomodando. Os felinos gostam de encarar nos olhos, seja inimigo ou presa. Eles gostam de sentir suas emoções. E quando duas feras se esbarram na floresta, nenhum dos dois cedem. Só um sairá vivo.

— Ok, ferimentos do rosto atados. — Disse Kali concluindo a sutura.

O homem finalmente a olhou sério, olhou bem nos fundos dos olhos dela, despindo a sua alma. E ela encarou de volta. Sim, Blu era o tipo de mulher que encarava o suspeito nos olhos. Não temia a morte. Não tinha medo de homens. Ela era uma mulher certamente muito mais forte devido a sua inteligência, a astúcia correndo em seu sangue não a permitia sentir medo. Ela enfrentaria qualquer um que se colocasse à sua frente. E se morresse, seria lutando.

Talvez lhe seja curioso os motivos por trás do seu apelido: Blu. Bem, é um pouco óbvio, eu diria. Blu descende da palavra Blue que traduzido para o português significa Azul. E azul é a cor dos lábios dos tantos homens monstruosos que morreram em suas mãos, asfixiados pelos laços especiais da sua cinta-liga.

É o que ela gostaria de fazer com o tal assassino que perambula em sua cidade, matando as mulheres inocentes.

Ayúdame con esto… — Pediu ele ao tentar remover suas vestes.

Kali bufou, mas ajudou o homem a tirar a jaqueta seguida de sua blusa ensanguentada. Sua visão foi preenchida pela beleza em formato de homem. Lindo, um corpo escultural. Havia tantos músculos salientes, duros e atraentes. Ela seria uma grande idiota se não admitisse a beleza daquele ser. Ou em palavras mais certas, o quanto ele é um tremendo gostoso.

Não a leve a mal, Blu é uma mulher que gosta do sexo oposto até demais. É algo que ela não pode lutar contra. E sendo livre, poderia usar seu corpo para se beneficiar da maneira que quiser. Afinal, em sua opinião, alguns homens só prestam para isso.

Ela precisou piscar forte e voltar sua atenção ao ferimento.

Entretanto, em meio a pele dourada, havia diversos hematomas incrivelmente escuros. Ele realmente parecia alguém que se metia em muitos problemas.

Es feo encarar, Blu. — Ele sorriu malicioso e devolveu o olhar sedento quando encarou seu decote.

Kali o afrontou enfurecida e puxou sua blusa um pouco para cima, para tampar seus seios. O homem riu baixinho e debochado.

— Cheguei até tu padre, Wagner me envió aquí. — Ele a olhou nos olhos, esse era o nome verdadeiro de seu pai. — Estoy esforçando. ¿puedes entenderme? Sei poco portugués.

Kali ergueu uma sobrancelha confusa.

— Está dando pra entender. Agora me explique o porquê. — Pediu, o homem estremeceu quando ela limpou a ferida em seu abdômen, era mais um corte profundo.

— Babel! — O homem semicerrou os olhos ao dizer.

A moça se afastou instantaneamente, o nome a fez estremecer. Babel era seu pior pesadelo. Ele condiz com o significado que seu nome carrega, aonde quer que ele vá, leva consigo confusões, algazarras. Não é de se espantar que ele tenha virado a vida da garçonete de cabeça para baixo. Principalmente quando ela finalmente conseguiu terminar o relacionamento tóxico, depois de tantos anos e várias tentativas. Para no final descobrir que estava carregando um filho do próprio demônio e entender dolorosamente que não tinha capacidade de ser mãe naquele momento, tão pouco ter essa ligação eterna com Babel.

Ela não mediu esforços após tomar a decisão de optar por aborto. Sentia muito por não poder dar à luz aquela vida inocente, mas crueldade seria colocar um filho daquele monstro no mundo. Ela não podia fazer isso com seu bebê. Sua decisão doeu, mas causa-lhe alívio até hoje quando se lembra.

Seu pai não concordava com sua decisão, mas ela vivia no século vinte e um, era dona de si e do seu próprio corpo. Dessa vez ele não tinha o direito de intervir. Sua mãe lhe apoiou do início ao fim. No entanto, quando a notícia chegou aos ouvidos de Babel, ele começou a persegui-la. Obrigando seu pai a intervir e expulsá-lo de Mangata.

Babel é um homem totalmente descontrolado e por esses motivos ela sequer queria ouvir seu nome.

— Vá embora! — Ela pediu, desesperada.

Oye, cálmate, no hay que tener miedo. — O homem ficou preocupado.

— Vá embora, agora! — Gritou.

Blu passou as mãos pelo seu cabelo, e tentou respirar, mas estava tremendo tanto que mal podia raciocinar.

No puedes ignorar o fato de que lo que está pasando es tu culpa. — O homem começou a falar. — Kali, las mujeres se están muriendo por tu culpa.

— Não é minha culpa! — Gritou de volta.

Sí, lo sabes! — O homem a segurou pelos pulsos, obrigando a garota a olhar em seus olhos. — Naquela noche lo envié a la Isla del Diablo, ¿lo entiendes, Kali? ¡DIABLO! No hay forma de que pudiera haber escapado de allí…

A Ilha do Diabo era um lugar um tanto peculiar, completamente controlado por uma máfia perigosa de onde se você atravessasse os muros, nunca mais sairia. As atrocidades que acontecem por lá, é melhor nem citar. Só espere o pior do apavorante.

Ninguém sai tão facilmente da Ilha do Diabo.

— Fui atrás dele en cuanto recibí la llamada, no sabía que se había escapado. No había dúvidas de que estava voltando para cá… y luego… — Ele riu sarcástico. — Mira lo que me pasó… quase morri. Ouvi rumores de que había sido treinado por un killer del Diablo. Pero pensé que no sería tan inteligente. Babel siempre ha sido un idiota fallido, sus crímenes son tan estúpidos.

O rapaz havia encontrado Babel com muita facilidade, eles brigaram, mano a mano, no entanto, o treinamento que o perverso recebeu foi deveras intenso. O que resultou no homem diante da moça machucado e Babel fugindo novamente. Ele se tornou bárbaro.

No entanto, nenhum crime que envolve tirar vidas era insensato – pensou Blu que o encarou abismada.

— Matar mulheres não é estúpido. — Ela tentou se soltar do homem. — Abusá-las e depois matá-las? Isso é cruel.

Pero te gustó, ¿no? — O homem a encarou nos olhos, apertando-a. — Te gustaba cuando te trataba así. ¿Sabes por qué ele se apaixonou por ti, Blu?

Ela fechou os olhos na tentativa inútil de não o escutar.

Babel tinha gostos peculiares dos quais, como uma adolescente apaixonada, Blu se submeteu. Ele tinha todo e total controle sobre si. Ele a machucava e ela apenas deixava. Isso o fez tomar gosto por sangue. O impulsionou a machucar pessoas mais fracas que si. Ele queria ver mais disso, Blu não era o suficiente. Por isso, quando ela descobriu das traições, das moças feridas, não fez nada além de manter-se calada como ele sempre ordenava. Até que, a situação tomou proporções insanas. Ele passou a matá-las. Foi quando Blu não aguentou mais e começou o processo de término. Ela percebeu, só então, o quanto o homem que amava era doente.

Mas não era sua culpa. Não podia ser. Ela era uma criminosa, não podia simplesmente ir até a polícia e delatá-lo. Não podia nem fazer uma denúncia anônima, Babel tinha amigos policiais assim como seu pai. Ela estava de mãos atadas. Jamais pediu para ele matar pessoas, não foi ela quem cortou a garganta daquelas mulheres. Mas é mais fácil culpar uma vítima de relacionamento abusivo, uma mulher fragilizada.

A questão é que ela não é mais aquela garotinha assustada e manipulável. A cada dia se tornava mais dona de si. E jamais permitiria que um homem fizesse isso consigo novamente.

Não era sua culpa. Babel é um monstro e suas atitudes só dizem respeito a si próprio.

— Eu não sabia quem ele era… E você… não sabe da missa um terço. Mas não aceito ser culpada pelos crimes de alguém. Se veio na minha casa me insultar, então pode se retirar. Você é só mais um machista babaca tentando colocar a culpa em uma mulher! Só escolheu a pessoa errada. — Ela rosnou, mostrando os dentes.

— Ele se apaixonou por você, porque você gustaba Esto no lo puedes negar. — Disse o homem e a soltou por fim.

— Você é burro ou o quê? O que te faz pensar que uma mulher gostava de ser maltratada, espancada, estuprada todos os dias e se sentir presa, incapaz de pedir socorro, de fugir, de denunciar…? Você é um otário! Cala a porra da boca! — Blu se exaltou, ainda desacredita que as pessoas possam pensar isso de outras pessoas vítimas de relacionamento abusivo.

Lo siento Blu. Disculpame. Han pasado tantos años que pensé que gustaba dele. — Sim, foram mais de sete anos juntos, e sim, Kali o amou. O pior de tudo é ter que assumir para si mesma que algo dentro dela amava muito ele. E ainda mais doentio, pensava que aquilo tudo… era amor. O único afeto que ela merecia.

— Podemos não falar disso? — Pediu, com o semblante de dor. Aquilo a machucava muito, talvez nunca superasse. Odiava-se por ter se submetido a isso. Por ter deixado um homem fazer o que bem-quisesse consigo.

¡Si si claro! — O rapaz coçou a cabeça de forma afoita, respirou fundo e disse: — Y ahora, he recibido estas llamadas, una súplica, una ofrenda… Con mis investigaciones, he llegado a tu padre que me contrató para protegerte. ¿Y adivina cuándo descubrí que tienes toda esta conexión con el causador de los crímenes?

Blu limpou as lágrimas que caíram sem ela perceber. Se pudesse voltar no tempo… se soubesse que o belo homem com a guitarra na mão fosse um assassino, ela jamais teria cedido ao prazer cruel. Ela gostaria de fingir que não entendeu nada de seu espanhol, dito devagar para que a moça melhor o compreendesse, mas ela já fugiu demais dos seus erros. Era hora de os encarar.

— Meu pai não deveria meter o nariz onde não é chamado. — Ela cuspiu. — Quando Babel me encontrar ele vai me matar, e isso tudo terá um fim…

No sabes lo que dices… — Ele riu melancólico. — Acha mesmo que Babel vai parar? Blu, estaba matando mujeres mucho antes de conocerte. Y ahora está fuera de controle porque está de coração partido y enraivado por que lo joguei al Diablo. ¿Pero sabes que? Él no vai parar después de matarla. Él necesita ser exterminado. Y yo, te adiantando, tú eres el isca. deu início a isso, y solo tú puedes ponerle fin.

Ela não sabia, mas Babel matava mulheres antes de namorar Blu. Ele se controlou por anos, por causa dela. Depois, mostrou sua verdadeira face. Ele estava fadado a isso. Não conseguia se libertar. Não é como se pudesse voltar atrás, após ver alguém morrendo pelas suas mãos e tomar gosto por isso.

Kali riu alto.

— Está achando que eu vou matá-lo? — Encarou o desconhecido.

No. No serías capaz de hacerlo… Embora tus habilidades son invejáveis, no depende de ti hacer eso. No sería tan fácil como suas demais presas. — Abriu um sorriso torto, ele demonstrava toda sua sabedoria. Blu se sentia nua diante dele que sabia demais sobre seus segredos. — Fui convocado para matá-lo. Y tu padre me dio permiso para usarte como isca.

Nem mesmo Caos era capaz de matar a criatura de nome Babel. E por esse motivo ele simplesmente lhe “dá” como isca? Isso a deixou fula.

— Autorização? — Riu debochada. — A questão, querido, é se eu quero ser a isca! Meu pai pensa que tem total controle sobre mim, mas deixa eu te dizer uma coisa, ninguém manda em mim, entendeu? Eu me pertenço e não vou permitir que um bando de babacas, com um par de bolas murchas entre as pernas tentem me dizer o que eu devo ou não fazer!

Qué gracioso escuchar eso, Kali. Ya que pasaste toda la vida sirviendo a tu padre, matando por él, a cuatro patas, haciendo lo que le bem-quisestes. — O homem meteu o dedo na sua ferida.

Blu torceu o rosto, numa expressão azeda, detestando aquele homem. E manteve-se calada. Ela era uma farsa. Todo seu discurso era falso. Falava de uma mulher empoderada, dona de si, que não existia além das barreiras dos seus sonhos.

Tudo que ela mais queria era se libertar do seu pai e deixar de ser uma marionete dele. Mas uma vez que se envolve com o crime, não tem como sair. Senão, morta.

No tienes escolha. — Ele a encarou. — Sabes que no, Kali, porque estas mujeres inocentes están muriendo por tu culpa. Tuvo la oportunidad de detê-lo y o deixou escorregar entre los dedos.

— Olha só quem fala, até onde eu entendi, você fez o mesmo! — Ela bradou em resposta.  — E, porque eu devo confiar a minha vida a você? Quem me garante que vai matar Babel? — Ela se aproximou para olhá-lo com firmeza nos olhos.

Ele abriu um sorriso arrebatador.

Debes haber ouvido hablar de mí, cariño, ¿quién no?

— Quem é você?

Mi nombre de nacimiento es Thauan Lobo, pero este es un nombre que pocos se atreven a llamarme…

— Vamos lá! — Ela ri e revira os olhos. — Qual é seu nome, eu quero saber…

Soy Thunderbird.

Raios e trovões iluminaram o céu.

 

You roll like thunder
FYou’re tryna catch that wind
That lightning in the bottle
That moonbeam in your hand
— Thunder, Lana Del Rey

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