Prólogo

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Para todos aqueles que desejam vingança.

 

 

Foste sempre o meu espelho, quer dizer, para me ver tinha que olhar-te.
— Júlio Cortázar

 

 


 

 

yo te invoco

24 de Julho de 2018
Terça, 6h

A velha senhora chorava com os pés firmes na areia molhada, deixando as ondas irem e virem; lavando sua profunda angústia. Uma dor maçante parecia cortar seu coração profundamente com a faca mais afiada que poderia existir. As lágrimas deslizando por sua face, não cessavam; teimavam em cair, uma atrás da outra, sufocando-a em um luto impiedoso.

Estava escuro, tudo muito escuro e sua única luz era a lua prata no horizonte, beijando o oceano e o céu salpicado de estrelas. Ela se agarrou aos pontos brilhantes, sabendo serem sua única esperança.

Sua neta estava morta.

Foi há dois dias atrás. A velha avó a viu deitada sob a poça do seu próprio sangue que gradualmente passava de quente para frio. Seus batimentos cardíacos cessaram, declarando firmemente a sua partida. Sua última palavra foi de súplica, implorando ao seu assassino que poupasse sua vida. Pedido o qual foi completamente ignorado, tamanha crueldade dentro daquele monstro. Preferia acreditar que sua última visão foi de um céu estrelado começando a se tornar alaranjado conforme os primeiros raios de sol surgiam.

Por que Deus permite que os demônios nasçam em corpos humanos? Por que os deixa nos machucarem?

Optava por acreditar em sua bondade e sendo tão bom jamais teria a intenção de nos ferir. Não era culpa de Deus, não podia ser. Era algo além da nossa compreensão. Eram os caminhos tomados dentro de um livre arbítrio. Cada um faz suas escolhas e assassinos decidem matar friamente, todos os dias, cada uma de suas vítimas. Escolhem. É em sua maioria uma atrocidade consciente.

Iraci foi encontrada na esquina da rua do seu apartamento, com a garganta cortada, nua e violentada. Assim como os dezessete casos anteriores e semelhantes que aconteceram na cidade. Tratava-se de um serial killer, um monstro cruel como dita a dramaturgia, sua principal característica cujo é a sequência de assassinatos que comete, seguindo, por norma, um determinado roteiro estabelecido, assim como uma “assinatura”, que caracteriza o seu crime.

E a velha, tão bem quanto o legista, sabia das características do assassino, considerando que lia as atrocidades detalhadas diariamente nos jornais. Estava escancarado alertando a todos. Na tv, no rádio, nas ruas… O tempo todo e mesmo assim isso não salvou a sua neta. Quantas vezes alertou Iraci sob a ameaça, tudo foi em vão, ela terminou como as outras vítimas, esticada sobre o asfalto e morta.

É assim que os assassinos agem, como se fossem artistas assinando suas obras quando finalizadas. Deixando-a exposta como uma galeria. Não há beleza, apenas sangue, horror e dor. É um espetáculo particular para eles, o momento em que a polícia encontra sua obra-prima e começam a desvendar os mistérios deixados na cena. Eles se divertem enquanto assistem à dor sendo expelida para fora dos corpos familiares.

Como matar pode ser prazeroso para um ser humano? Como a dor pode lhe causar algum tipo de fascínio?

Doentes. Demônios doentios.

Às vezes me pegava desejando tanto que fossem aniquilados do mundo. Ser preso não é o suficiente, eles merecem a morte. Essas pessoas não podem existir. Do que adianta ser preso para pagar por algo? Isso não vai trazer ninguém de volta. Só vai dar mais uma chance desse demônio machucar mais pessoas.

A única condenação é para aqueles que tiveram suas vidas arrancadas de si e não podem mais voltar.

Mais uma vida havia sido interrompida e não era justo. E tão pouco era digno que esse ser continuasse caminhando sob à Terra.

O corpo da moça foi exposto e ferido, conforme amanhecia a luz do dia soava como sirene atraindo olhares curiosos para mais uma fatalidade. O primeiro a ver foi o padeiro, conduzindo sua kombi de pães até as padarias, onde seriam expostos e vendidos como todas as manhãs.

Amana foi convocada até o local e tinha o dever de reconhecer o corpo para confirmar que se tratava de sua neta. A velha encarou a cena com ódio.

— Sra. Guaraci?

Não conseguia chorar, não quando seu coração parecia estar sendo abraçado com tanta força pela raiva.

Como isso pode acontecer?

Por que a sua netinha?

Por que?

— Sra. Guaraci?

Seu corpo tremia profundamente. Os ossos se chacoalhavam de tanto rancor.

Ela queria matar o assassino com suas próprias mãos. Cortar a sua garganta. Abrir sua barriga. Arrancar seu maldito coração. Quebrar cada um de seus dedos. Arrancar suas pernas. As piores atrocidades se passavam em sua mente enquanto assistia o sangue tão vermelho de sua neta escorrer por entre as frestas da boca de lobo.

— Sra. Guaraci? — O investigador a chamou ainda mais alto, fazendo-a despertar de seu surto interior colérico. Seus olhos pairam sob a figura de Henrique Casablanca, o detetive da cidade. — Amana, eu sinto muito pela sua perda, mas preciso que me acompanhe até a delegacia, precisamos do seu depoimento. Quaisquer pistas ou informações sobre sua neta podem ser úteis nesse momento.

Mais uma morte e nenhuma pista do assassino. A polícia parecia estar de olhos vendados. É certo que Mangata é uma cidade pequena, de qualquer forma, esperava-se que no mínimo pudessem cumprir seu dever com mais maestria.

Não pode evitar encarar o policial com ainda mais ódio. Era terrível ser um familiar que perdeu alguém e ter que imediatamente se submeter a entrevistas de investigação ao invés de sofrer o luto em paz.

E pensar que não importa quantas vezes tente repetir que não sabe de nada, não viu nada, não tem nenhuma informação… os policiais vão insistir em repetir as perguntas para ouvir as respostas novamente, tentando encontrar ao menos uma mísera pista ou quem sabe uma brecha que a torne um culpado em potencial. Novamente seria em vão, eles permaneceriam de mãos atadas. E pior de tudo, muito, muito longe de descobrirem quem é o assassino. Dando-lhe mais tempo, mais chances de cometer mais homicídios.

Mas a descendente da etnia Yanomami[1], não conseguia desviar seus pensamentos da verdadeira vontade que assombrava seu coração.

O desejo imensurável por vingança.

— É claro. — Disse, simples em seu sotaque único.

Poucas palavras e muito rancor.

Amana é indígena, nasceu na floresta e veio para cidade com sua família quando ainda era muito pequena. Sua fisionomia deixava sua origem bem clara. Os cabelos lisos, compridos e grisalhos, a pele cor de caramelo queimada pelo sol, os olhos escuros e levemente puxados. Desde que botou os pés na cidade grande, nunca retornou para sua tribo, mas ainda a carregava em seu ser. Ainda partilhavam as mesmas crenças. Afinal, estava no seu sangue.

A senhora seguiu o protocolo, foi até a delegacia e respondeu às perguntas inúteis. Provou seu álibi já que ainda sim, precisam descartar o fato de que ela poderia ter matado a própria neta. E assim, depois de oito horas, foi liberada para finalmente sofrer toda sua dor.

Ela se arrastou para sua casinha, tomou banho e ficou o tempo todo olhando pela janela, esperando as horas se arrastarem. Três dias depois, após a análise do IML, o corpo de Iraci foi liberado para velório – evento cujo não teve estômago para comparecer – e seguidamente o enterro.

Vestiu seu melhor vestido preto e desfilou ao lado da sua família pelo cemitério até o buraco cujo o assassino destinou sua netinha. Ali ela foi enterrada e a velha indígena não conseguiu derramar lágrimas, sua mão fechada em punho tão fortemente fazia as unhas fincarem-se em sua palma e arrancar sangue.

Naquele mesmo dia, quando a noite se deitou como um véu negro sob a cidade de Mangata, Amana deixou sua casa e caminhou até a praia. O velho vira-lata da família a seguiu por todo o trajeto, chorando fino ao sentir os propósitos de sua dona, lamentando de antemão.

Mais uma noite onde o assassino está à solta, planeando seu próximo ataque. No entanto, talvez fosse a última.

Com os amuletos da sua tribo e o diário de seu bisavô, Amana fez um ritual beira-mar, clamando por uma entidade que carregava em si a justiça em forma de vingança.

Não era um trabalho para policiais ou a justiça horrenda do Brasil, havia uma necessidade muito maior de parar esse monstro. E somente o deus da vingança poderia ajudá-la.

En nombre de Iraci, y por todas las mujeres que fueron o serán víctimas de este demonio. ¡Te invoco, te llamo, THUNDERBIRD! — A lâmina em sua mão cortou a palma e o sangue foi derramado aos seus pés, sendo imediatamente lavado pela água salgada.

O céu se fechou na mesma hora e as nuvens cinzentas sufocam a lua prateada, imediatamente uma tempestade começou a cair violentamente sob Mangata. Raios azuis cortaram o céu, trovões estremeceram a terra e o mar ficaram violentos.

Amana caminhou de encontro às ondas, oferecendo a sua vida em troca de vingança.

E em algum lugar do planeta Terra, Thauan Lobo despertou suado e sobressaltado, sentando-se na cama e imediatamente segurando o amuleto que carregava em seu pescoço. Seus olhos reluziam no escuro, soltando faíscas a cada piscar de pálpebras enquanto flashes de uma visão perturbadora domavam sua mente.

Ele ouviu o seu chamado.

O som de uma águia soou por entre os arranha-céus e sobrepôs os trovões daquele pandemônio.

Depois disso, a senhora Guaraci nunca mais foi vista e o vira-lata retornou para casa triste e sozinho.

 

I thought I saw the devil this morning
Looking in the mirror
— I’ll Be Good, Jaymes Young

 

[1] Os Yanomami são um grupo de indígenas que vivem em aldeias na floresta amazônica, na fronteira entre Venezuela e Brasil.

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