PARTE DOIS
O Lado Inocente
E certamente o pobre príncipe Wylan Gowdie se irritou, e esse era um bruxo muito poderoso. Sua raiva atravessava os muros de seu castelo e ecoava pelo reino. Qênan Eisen lhe tirou tudo, sua mãe, seu pai… grande parte das bruxas e bruxos de seu reino. Ele machucou seu povo da forma mais cruel existente. Era um coração possuído pelo mal e cujo em sua percepção jamais seria digno de remissão. A verdade é que os Haearn caçavam por diversão, afinal, Poeth não era um reino de bruxos praticantes de magia maléfica. Mas matar o rei, oh sim, isso era demais. Bastava!
Wylan assumiu o trono com fúria e sobretudo declarando vingança contra Qênan.
Foi oferecida uma recompensa alta para o bruxo que lhe trouxesse a cabeça do líder dos Caçadores de Bruxas. Porém nenhum foi capaz de capturar o astuto caçador. Eisen era muito esperto, ele previu os ataques, foi protegido pelo seu rei que agora orgulhava-se de seu caçador e não duvidaria se algum tipo de magia ou ser sombrio o protegesse. Talvez de fato a Lua de Sangue tenha o abençoado, seja com o que for, não diria que é bom.
A caça às bruxas jamais teria fim, seriam eles inimigos para todo o sempre. E os caçadores, aos poucos, iriam dar um fim a essa espécie.
“Queimem! Queimem malditas criaturas!”, gritavam os filhos do ferro, em seu mantra desumano contra os seres sobrenaturais. Resumiam-se a corações esculpidos em pedra fria, não bastava de pragas ambulantes envenenadas.
Os anos se passaram rápido assim como as estações, Wylan usou sua inteligência e estudos voltados ao caçador para preparar uma emboscada, no qual Qênan dessa vez caiu facilmente…
O astuto caçador foi ridiculamente enganado por um espelho encantado. Tão facilmente que assustou os de sangue mágico. Bem dizem que humanos são deveras ambiciosos e que se rendem facilmente quando um pouco de ouro é colocado à sua frente. Finalmente, o Caçador foi capturado e levado ao castelo dos Poeth, onde agora estava diante de seu inimigo – arriscou afirmar que o mais poderoso de todos –, se eu fosse Qênan estaria ajoelhado rogando suas preces, lamentando o fim sua vida ou suplicando pela mesma. Pedindo perdão por sua hipocrisia e crueldade. Manipulável e tolo caçador.
No entanto, não era agradável que um caçador lamentasse tanto sua morte. E Qênan não lamentava, foi feito o que foi designado a fazer, entregar a cabeça do rei do sul para o seu rei. Nasceu para tal e com orgulho assumiria que cumpriu.
O caçador foi ajoelhado diante do rei de Poeth.
— Sabe, Qênan, o que dizem sobre as bruxas? Que são seres sombrios e horrendos, que Caçadores de Bruxas são heróis que livram a terra desse “mal”. Entretanto, creio que lhe contaram a história errada, Eisen. Sua percepção do que é mal, é deveras equivocada. — Dito isso, Wylan se levantou e diante do chão, à frente de Qênan, abriu-se um portal de gelo, onde foi lhe mostrado a verdade. Caçadores queimando bruxas sem dó nem piedade. Selvagem, cruel, sanguinário e como desejado pelo rei do norte: lancinante. — Como seus próprios olhos podem enxergar, conforme sempre esteve diante de sua admissão inútil e mediante a seu coração possesso pelas trevas; O meu povo só executa magia branca! E maldito seja seu reino o qual matou pessoas inocentes que ajudavam animais e florestas, em nome da Vossa Mãe-Terra! Maldito seja seu coração, Qênan Eisen, maldita seja as suas mãos!
Qênan não ousou dizer nenhuma palavra, só conhecia as bruxas por serem ruins, não sabiam que faziam coisas tão boas. Não sabia… não lhe foi contato e ele nunca procurou saber.
Mas não é isso que o gelo lhe expõe… Ele via as bruxas que mais pareciam filhas de Gaia na floresta, ajudando a fauna e flora como se fossem fadas. Até as bestas mais temidas se tornavam dóceis diante delas. Até o ser mágico mais medroso, diante delas faziam aparição. E os animais que elas ajudam, oh, tantas vezes alimentarem seu povo após caçados. A magia era feita de fato, branca e límpida, em prol do que é bom. Enchiam aqueles seres de luz.
Existia o mal, mas também existia o bem. E em Poeth só há espaço para o lado benéfico, eram puros. E agora ele podia enxergar isso.
Poderia ser tudo uma mentira, poderia ser mais um truque para enganar o caçador. Gwrach. Não se confia em bruxas. Mas naquele momento seu coração gritava mais alto e ele teimava em dizer: “assassino”.
O Caçador foi enganado por todo esse tempo. Pois nem tudo o que é contado, é verídico. Nem tudo o que parece mal, é de fato perverso. E muitos morrem incapazes de enxergar a verdade. Tenha cuidado com o que você ouve e conta para novos ouvidos, nunca se sabe quando suas palavras se tornaram falsas verdades para um coração que deveria ser bom.
— Sabe o que eu vejo? Que mentiram para você por todo esse tempo, te enganaram, Qênan. Seu povo egoísta enganou seu melhor súdito. Os maus não são os bruxos e sim os caçadores cruéis e impiedosos. De fato, eu temeria se fossemos bruxos de magia maléfica, mas nunca foi o caso.
Se existiam esse tipo de bruxos, não estavam sequer próximos desse reino. Uma regra absoluta, ninguém tinha permissão para se envolver com o oculto maligno. Uma vez tentado, era expulso de Poeth para todo o sempre.
— Apenas me mate logo! — Exigiu Qênan, sem olhar para o bruxo que “tirou a venda de seus olhos”. Agora que descobriu que foi enganado, teria vergonha de voltar ao seu povo. Vergonha de si mesmo! Sua mãe choraria ao descobrir que seu filho é tão cruel e matou seres inocentes. A culpa lhe devorava vivo, como uma fera faminta.
Não se lembrava dos bruxos atacando seu reino, é verdade. Apenas quando o pai de Wylan ficou farto de ter seu povo queimado. Era sempre os caçadores indo atrás dos seres mágicos.
Qênan era um assassino pungente.
— Olhe para mim! — Exigiu Wylan diante do seu inimigo, irritava o fato de Qênan não o olhar.
E subitamente o caçador ergueu o rosto, jamais demonstraria fraqueza diante de seu inimigo, mesmo que estivesse arruinado.
E quando seus olhos se encontraram, algo mágico aconteceu, tão surreal e inexplicável. Wylan viu a alma do caçador e por ele caiu em maldição, tal encantamento que ele chamava de amor. E que por toda sua existência julgou jamais existir. É doce e amargo, é forte e suave, é calmo e desesperador.
É como uma tempestade.
E o mesmo aconteceu com o destemido caçador.
Eles eram parceiros.
Em palavras mais claras, almas destinadas a se amarem por um período de tempo incontável.
Desesperado com tal sentimento, denominado por pena, Wylan tentou, mas não conseguiu parar o coração do caçador. Era como colocar uma lâmina contra sua própria garganta. Sentindo aquele órgão vital pulsando sobre seu controle, tentou esmagá-lo em sua mente como se estivesse de fato na palma de sua mão, o poder falhou.
Gowdie não era mal, seu povo não matava, apenas o rei tinha autorização para aniquilar inimigos ou ordenar que seu povo mate um alvo. Ele falhou diante das testemunhas no salão do trono.
O amor o deixava fraco, era o fim do seu reinado.
Seria odiado pelo seu próprio povo.
Diante disso, Wylan pediu para que prendessem o detestável caçador.
E com esse desfecho, houve um novo final. Não mais a morte do caçador… Mas uma nova realidade, jamais esperada por qualquer um que vivesse naquela época. O que nos leva ao fim…
Assim que se olharam, amaram-se;
assim que se amaram, suspiraram;
assim que suspiraram, perguntaram-se um ao outro o motivo;
assim que descobriram o motivo, procuraram o remédio.
― William Shakespeare
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