PARTE TRÊS
Fins Violentos
E os dias se passaram velozes, o rei Wylan vivia na companhia do caçador, mesmo que separados pelas grades da cela da prisão. Conversavam tanto, riam, se completavam com pensamentos e palavras. Achados em comum, pontos admiráveis na existência um do outro. Tudo era surpreendente como um dia de sol ou o desabrochar da primavera.
Com o tempo, estavam mais apaixonados do que nunca. Não havia mais motivos para Wylan desconfiar do belo caçador, e assim passou a caminhar pelo jardim com as mãos presas em grandes correntes e Qênan lhe ensinava coisas. E não demorou muito para que o beijasse, o tocasse e mostrasse ao rei dos mágicos que o amor, na verdade, não era fraco.
E Wylan mentiu para seu reino de alma pura, afirmava que o caçador havia sido perdoado pela alma de seus pais e que os habitantes de Poeth deveriam fazer o mesmo. E assim, foi feito. Sendo que a mentira jamais resultará em algo bom. Mas ele mentiu, pois estava perdidamente apaixonado por aquele homem.
Bruxos e Bruxas passaram a se curvar ao casal.
Mas se pensa que esta história terá um final feliz, está muito enganado, o caçador realmente amava aquele bruxo, mas estava convicto que Wylan o encantou. Para Qênan, Wylan havia lançado um feitiço em seu coração, o qual o fez cair em paixão.
Uma vez, disse-lhe que o coração do caçador que nasceu na Lua de Sangue é defeituoso. E mesmo surpreendentemente sendo capaz de amar alguém, jamais será capaz de viver em paz. Há um lado cruel que em nenhuma condição poderá ser destruído, não enquanto este viver nesse plano, nesse corpo, nessa vida e com essa marca em sua alma.
Os jovens apaixonados se casaram. Uniram-se diante do povo mágico e finalmente o amor queimou de forma carnal e sincera nos aposentos do rei. Corpo dentro de corpo, pele contra pele, suor e gemidos, sensações indescritíveis. Se casavam como almas agora, uma união completa de amor. Intenso e profundo. O bruxo jamais experimentou uma conexão assim antes, jamais se sentiu tão adorado, tão amado e tão desejado.
— O amo tanto. — Dizia aos sussurros e gemidos para seu amado.
O Caçador chorou, pois o amava também. No entanto, havia uma fera rugindo dentro de si, arranhando-o, torturando-o… Quando o fogo cessou e seu coração tornou a esfriar-se, em um único golpe Qênan enfiou uma adaga no coração de seu marido diante da sua noite de núpcias; acreditando se livrar do encantamento e libertar seu povo, aniquilando essa maldita espécie.
Mesmo que Wylan jurasse que não eram ruins, Qênan possuía um lado negro dentro de si, que o deixava cego.
― Por quê? ― Os lábios trêmulos de Wylan tocou o rosto de seu amado enquanto o gosto ferroso de sangue se espalhava por sua boca, deu um selar suave sobre a boca de seu marido, qual literalmente havia lhe apunhalado, e não por suas costas, foi diante de seus olhos. Foi diretamente em seu coração que o amava de forma tão sincera. ― Eu te amo tanto… — Proferiu ao marido, seus lábios tremiam e seus olhos se enchiam de lágrimas de dor. Não a dor da morte, mas da decepção. Traição, ato imperdoável. Mas lhe jurou amor, antes de falecer, não deixando ser domado por sentimentos negativos nem diante daquela situação.
Wylan foi criado para ser um ser sincero e não podia negar diante da sua morte o quanto amou aquele rapaz que lhe fez tanto mal. O quanto o amor pode ser verdadeiro o suficiente que o torna capaz de perdoar o imperdoável.
Qênan sentia uma dor insuportável em seu coração, chorou com Wylan em seus braços, só havia sangue e mais sangue enquanto o corpo de quem amava se tornava frio e a alma o abandonava. E suplicou perdão.
Entretanto, o perdão nunca lhe foi concedido, porque seu amado estava morto.
E o encantamento que ele acreditava possuir não se quebrou…
O caçador ainda amava o bruxo.
Oh, alguns amores… Certos tipos de amor, aqueles contos que todos gostam de recontar e contar. A desgraça que vagueia na boca dos românticos apaixonados por séculos.
O amor dói. O amor machuca.
É traiçoeiro. É vingativo. É cruel. É uma maldição.
O amor é um veneno.
Se será benéfico ou maligno, sua alma é quem dirá. Do que você é capaz? Pertence às trevas ou à luz? O que sabemos é que uma vez que seja o que é, tendes a ser para sempre.
Amargurado pela própria desgraça que o causou, Qênan escreveu uma carta aos reinos, em seguida, tomou um frasco de veneno, morrendo minutos depois sobre o corpo de seu amado bruxo. Lembrava-se dos belos olhos prateados de Wylan, proferindo juras de amor enquanto se amavam de corpo e alma.
Uma vez cego, para sempre envenenado pelas palavras daquele que mente para conseguir o que quer…
Aqui jaz o fim.
Mortos, como Romeu e Julieta.
Triste seria se lhe contasse que depois da mais bela história de amor entre um Bruxo e um Caçador serem destruídas por mentiras, de nada adiantaria. Felizmente, o sacrifício do amor valeu a pena, a paz entre os reinos foi reconhecida através daquelas cartas escritas diante da morte e houve cessar fogo.
Bruxos de Luz e Caçadores já não eram inimigos e uniram os reinos em apenas um, assim convivendo em completa paz e harmonia.
Não mais fogueiras ou machados, não mais feitiços proferidos ou mentiras contadas.
Não mais veneno ou magia.
A quem diz ver Wylan e Qênan caminhando pela clareira próximo ao castelo dos Poeth e que na morte encontraram o amor e o perdão, além da certeza que tal sentimento era puro e verdadeiro.
Ora, ora, quem imaginaria que um dia um bruxo iria amar um caçador, e o caçador iria amar um bruxo. Não poderíamos esperar menos que tragédia diante de tal união.
Uma coisa estamos certos sobre o amor, não sabemos o que esperar, com quem ou quando irá acontecer. Ele é capaz de unir até mesmo a água ao fogo e o céu ao inferno.
“De toda árvore do jardim, você pode comer à vontade.
Mas, quanto à árvore do conhecimento do que é bom e do que é mau,
não coma dela, porque, no dia em que dela comer
você certamente morrerá.”
— Gênesis 2:16-17
Gostou do capítulo?
Indique para um amigo
Cliquei aqui para ser o primeiro a avaliar!
↓ Deixe sua avaliação nos comentários
Seu feedback faz a Foxtopia crescer 🧡
Compartilhar
Faça parte do Clube de Leitores da Raposa
Está gostando da leitura?
Deixe seu e-mail aqui embaixo.
Ao se inscrever, você concorda com a nossa Política de Privacidade.
Comentários