PARTE UM
O Lado Sombrio
Os gritos ecoavam pela floresta, a mulher desfalecia-se em dor enquanto a sensação que sentia mais se assemelhava à morte. Liorit só foi abençoada com um único filho e todas as noites de luar lhe trazem a dolorosa lembrança do preço a se pagar por trazer seu fruto ao mundo. Só havia uma sensação maior do que a dor de parir uma criança, a Lua de Sangue. Naquela noite – mesmo dentro da tenda com pessoas saindo e entrando, seu filho rasgando-a de dentro para fora, ainda sim – diante toda a euforia, Liorit viu o céu vermelho e os feixes de luz invadiram o recinto através de frestas abertas que lhe tocava sua face. E com a cor veio o mau presságio, sua criança deixou o abrigo de seu corpo para ser amaldiçoado no instante que sairá de seu ventre.
Ouviu-se um choro e não era do recém-nascido, era da mãe que sentia o que predestinaram ao seu filho.
E assim nasceu aquela criança, amaldiçoada pela Lua de Sangue, o que seu povo ousou chamar de benção. Antes de sequer segurar seu bebê em seus braços, seu rei já havia lhe presenteado com um destino…
Você já deve saber de qual lado estou falando.
Mas o que realmente precisa saber, caro leitor, é que esse conto é uma história trágica de amor. Soa como Romeu e Julieta, doce e cruel. Dosagens difíceis de engolir, considerando que estão carregadas de felicidade e tristeza. Bem dizem que para haver felicidade, precisa-se primeiro enfrentar a dor. Pois bem…
Se passou a muitos anos atrás em uma época de castelos, reis e rainhas. Em um reino onde havia magia e criaturas que se escondem entre as árvores da floresta. Os que ali vivem, pode se dizer que muitos nascem com dons e outros, controversos, amaldiçoados. Onde reinos eram inimigos de reinos, seres inimigos de seres, e sangue era pago com sangue. Olho por olho, dente por dente, cabeça por cabeça e espada por espada. Criaturas sobrenaturais consequentemente vieram a se tornar inimigas de humanos, amedrontados como são diante do desconhecido. Seja diferente e pagará caro por isso. Se não está ao meu lado, não é meu amigo. Contudo, não era qualquer humano.
O que nos leva a começar pelo lado mais astuto.
Qênan Eisen.
O corajoso caçador do reino Haearn, tal reino era de um povoado abençoado pela força. Os guerreiros mais temidos, os violões mais cruéis; dali nasciam, ali reinavam.
Eisen cresceu e se tornou uma celebridade, por assim dizer, suas habilidades de caçador eram invejáveis. Nascido em noite de Lua de Sangue, presenteado pelos deuses com força e crueldade. Os melhores dotes de um caçador. Alguém que certamente nasceu com o coração defeituoso e se torna a cada dia mais incapaz de amar.
Todavia, já era de se esperar que o menino se tornasse tão extraordinário, considerando que desde que seus pés se firmaram na terra e o pequeno pode dar seus primeiros passos, Qênan foi treinado para ser o melhor e mais temido Caçador de Bruxas.
Foi a pedido de seu rei que seu pai o treinou para tal, o motivo era claro. Como todos os reinos, Haearn também tinha seu arqui-inimigo, na verdade, haviam coleções deles, mas o mais temido era a espécie Gwrach – também conhecido como Bruxas.
Oh, bruxas, essas eram criaturas que dominaram o Reino do Sul, o qual era chamado de Poeth, tais seres místicos eram sobretudo uma grande ameaça para os habitantes de Haearn.
E foi por isso que o Rei exigiu que Qênan Eisen fosse criado para ser um caçador de bruxas o mais lancinante possível.
Dito e feito.
Qênan liderava um ótimo grupo de caçadores, conhecia a floresta sombria de cor e salteado, sempre conseguia capturar e queimar bruxas. E sentia um imenso prazer em ver os seres agonizando sobre o fogo.
Arriscava dizer até mesmo que era imune ao poder das mesmas, sempre escapava dos feitiços proferidos contra si.
Uma lenda ambulante carregando um machado de ferro e um amuleto da sorte presenteado por sua mãe quando nasceu, uma lua esculpida em pedra branca, sua deusa madrinha, a Lua de Sangue. Exposta em seu pulso cravado em uma pulseira grossa de couro, uma esfera redonda e neon, brilhando na escuridão com o lembrete constante de quem ele é.
Sanguinário.
Engana-se, se pensa que o reino de Poeth apenas iria baixar a guarda. O rei irritou-se, certa vez juntou sua tropa e saiu em busca de vingança pela floresta sombria onde tinha certeza que encontraria o tal caçador.
No entanto, ao chegar lá, foi surpreendido, e mais uma vez, Qênan e seu grupo venceram. Finalmente, o caçador levou a cabeça do rei de Poeth para seu reino. Cravado em uma estaca como um prêmio, sendo alvo de xingamentos e desrespeito – atormentando a alma do rei que foi morto impiedosamente. Ato bestial. Era um povo bárbaro e não podia se esperar menos do que atrocidades.
Haearn entrou em comemoração, enfim paz, o filho querido cumpriu sua missão. As bruxas cessaram, de fato… Mas só por um tempo. E esse cessar assombrava o coração do astuto caçador, Qênan temeu pelo pior. Afinal, ele havia matado o rei. Agora todas as bruxas voltariam contra si. Ou ao menos, elas deveriam, não? Quem é que anda sobre esse solo maldito e carrega a bondade do mais puro perdão em seu coração? Diga-me um e não tornarei a abrir minha boca, mas aponte-me sete e continuarei apossando-me da minha espada.
E diga-me, quem é que acredita que esse caçador não tinha medo nenhum? Se até o mais heroico de todos os homens tem suas fraquezas, não seria diferente com o ser em questão. Pois que venham e tentem a sorte, ousa-te matar Qênan Eisen e sentirá a força de seu machado.
“Cortem as cabeças! Perfurem seus corações! Despedace-os! Queimem os corpos! Malditas sejam essas criaturas condenadas que nasceram sobre esse solo para trazer bruxarias, amaldiçoar e envenenar nossa farta terra! São meros filhos do Diabo!”
O que nos leva até o outro lado da moeda…
Raramente, muito raramente,
a verdade completa é revelada ao ser humano;
é raro que alguma parte não esteja um pouco disfarçada,
ou mal compreendida.
― Jane Austen, Emma
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