Cinco
Somos Eternos
Setembro, 2021
Deu a última tragada no cigarro e jogou a fumaça aos céus, suspirou deixando a bituca cair no chão e então esfregou a sola de sua bota contra o concreto, dando por fim o fogo que ali queimava levemente. Deu uma breve olhada em sua última tatuagem feita, aquela que fez em nome de sua falecida avó, uma rosa no antebraço. Foi para dentro do vagão onde mora, usou o banheiro, viu que Jett ainda dormia e lá fora o céu tomava forma escura. Perfeito, costumeiramente saiu da sua “casa” carregando seu skate e sua mochila, como sempre, Kai – como preferia ser chamado –, seguiu em direção a torre da praia.
Passava a maior parte da noite estudando constelações, tinha um amor tão grande por isso. Além do mais, ele estava mesmo ansioso para ver o bilhete de hoje. Sim, é ele quem encontra aqueles bilhetes presos com adesivo fofinhos. Sorria ao ler cada um deles, mesmo que fossem na maioria das vezes tristes.
Qualquer coisa era bem vinda para fazê-lo esquecer-se de sua vida. Kaius foi rejeitado por sua mãe, obviamente seu pai também não o quis, ele viveu por um bom tempo com sua avó materna, mas quando ela veio a falecer, aceitou o convite de seu amigo Jett para viver com ele em um vagão abandonado. Jett é como um irmão de sangue para ele. Entre cigarros, tatuagens e pouco dinheiro, Kaius resolveu que queria terminar a escola. Ok, ele podia ter a visão de um bad boy e “bizarro” assim como é chamado pelos outros, mas ainda assim ele gostava de estudar, gosta de ser um garoto inteligente.
Era tudo que tinha, afinal. Seu cérebro intelectual, sua coleção de canivetes, suas tatuagens com significados, seus cigarros tranquilizantes… não era muito, mas era o suficiente para ele ser feliz. Prendeu o skate na mochila e subiu a escada de ferro até o topo da torre. Essa é uma antiga torre de alguma fábrica que já não existe mais há séculos. Destruíram a fábrica, mas deixaram essa relíquia de tijolos pequenos, fato que Kaius é muito grato.
Todas as noites Kaius vem para a torre, em sua mochila ele traz seu telescópio portátil. Dessa altura é perfeito para ver a galáxia, principalmente porque na direção do mar o céu é mais escuro, as luzes da cidade não interferem na luminosidade das estrelas, sendo assim torna tudo mais visível e bonito.
Antes de começar seus estudos, viu o bilhete.
“Todos nós seremos esquecidos… não, eu não estou falando sobre a morte. Apenas o fato irreversível que seremos esquecidos, acho que dá para encontrar a felicidade dentro da nossa própria alma, enquanto as pessoas teimam em procurar fora. Me entrego a quem sou, que eu seja posse de mim mesmo. Quando tudo acabar, sou eu quem estarei comigo mesmo, além do fim, flutuando entre as estrelas…”.
Ficou longos minutos refletindo sobre aquilo, acendeu um cigarro e tragou ainda olhando o bilhete. Muitas pessoas não têm medo da morte e sim de serem esquecidas. Kaius nunca havia pensado nisso, oh sim, quando ele morresse ninguém se lembraria de si. Talvez Jett, ou Titan – seu cachorro perdido. Kaius chegou na casa de sua avó um dia e o pequeno animal havia fugido. Até seu cachorro havia o abandonado.
Bem, Kaius não se importa em ser lembrado, mas a pessoa que escreveu esse bilhete, ela sim se preocupava com sua existência. Pegou uma caneta e outro pedaço de papel, levaria aquele bilhete consigo como de costume e o deixaria em um lugar seguro: o mural do seu quarto.
Kaius escreveu: “Somos eternos no coração de quem nos ama verdadeiramente!”, não precisava responder mais do que isso, por mais que quisesse, acreditava que todas a palavras que gostaria de dizer ao dono dos bilhetes não poderiam caber em um pedaço tão pequeno de papel. Por fim, colou o bilhete na parede com o mesmo adesivo que estava no outro. Mesmo pensativo começou a olhar a noite estrelada pelo telescópio, mas logo se assustou com um barulho.
Olhou lá embaixo se apoiando contra o parapeito da torre, então viu um garoto jogar a bicicleta no chão e subir apressadamente pela escada. Kaius ficou paralisado, o que deveria fazer? Nada, afinal é só um garoto. Logo percebeu que o mesmo não conseguiria subir tudo aquilo, estava aos prantos, podia ouvir-se o choro. Sabia disso porque às vezes quando chora sente seu corpo mais fraco, jamais conseguiria subir aquelas escadas tão rapidamente. Se abaixou e debruçou-se contra a escada no momento exato que uma das mãos do garoto escorregou, graças aos céus ele estava próximo do topo, Kaius segurou a outra mão com força, o garoto direcionou o olhar para ele.
— Não me deixe cair! — Suplicou o menino com voz trêmula.
— Não olhe para baixo. — Respondeu Kaius o puxando para cima. Se olhasse para baixo isso estragaria tudo, o menino iria ficar com medo e Kaius não tinha certeza se ia conseguir segurá-lo.
Vendo que o garoto confiava em si, conseguiu puxá-lo para cima. Se sentaram no chão, ambos com a respiração pesada, tentavam assimilar o que aconteceu. O rapaz enxugou as lágrimas e respirou fundo, estava com o nariz vermelhinho, os olhos inchados. Oh, que triste presenciar isso.
— M-me desculpe, e-eu não sabia que t-tinha alguém aqui… — O garoto abraçou as pernas, escondia o rosto.
Poucas pessoas vêm aqui, Kaius estava convicto disso, nunca havia encontrado alguém diante de todos esses anos que frequentou esse lugar.
— Não tem problema. — Respondeu baixo, em seguida o silencio reinou por alguns segundos, só podia ser ele, o garoto dos bilhetes. — É você, não é?
O garoto ergueu a cabeça e encontrou o olhar de Kaius, o olhou confuso. Seguidamente o rapaz de pele escura esticou o braço e alcançou o bilhete, entregando a resposta para ele.
As mãozinhas delicadas e trêmulas pegaram o papel, aproximando para ler as palavras.
— Somos eternos no coração de quem nos ama verdadeiramente! — Caelum sorriu, fazia todo sentido. Era uma boa resposta, olhou para o garoto e sem pensar duas vezes o abraçou fortemente, seguindo os impulsos do seu coração desesperado.
Kaius Eugene não entendeu nadinha, mas como poderia recusar um abraço tão sincero? Circulou seus braços ao redor do garoto e deixou o mesmo apoiar a cabeça em seu ombro, suspirou o apertando. Há muito tempo não recebia um abraço, desde que sua avozinha morreu. Encarou aquela atitude como um sim, ele é o garoto dos bilhetes. Finalmente havia o encontrado.
— Você me deu esperança… obrigado.
Sim, caro leitor, Kaius deu esperanças para Caelum.
Mas Caelum deu muito mais a Kaius…
O que posso adiantar é que, aquela foi a melhor noite estrelada da vida de Kaius, foi ali que sua vida mudou para sempre.
Suas noites estreladas nunca mais seriam as mesmas.
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