Oito

Enquanto Você Existir

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Sua mãe dirigiu até a linha ferroviária abandonada de Calisto, Caelum observava a paisagem ao seu redor, composta por árvores de grande porte que ladeavam a estrada.

Calisto é uma das cidades mais bonitas e bem preservadas das redondezas. Aparentemente parece ter saído de um conto de fadas, as ruelas íngremes e estreitas de paralelepípedos, as casas tortuosas de enxaimel e caminhos ribeirinhos exuberantes contribuem para o fascínio desta vila litorânea encantadora.

Oferece aos turistas e aos moradores uma visão do passado medieval, uma ótima escolha para os amantes da história e possui uma das melhores arquiteturas já vistas. Começando as explorações pelo centro da cidade, onde possui edifícios do século 13. As galerias de artes e a torre da antiga fábrica de açúcar, é certamente imperdível, uma série de monumentos históricos podia deixar os turistas encantados por horas.

Estar ali é poder admirar a Catedral por sua arquitetura gótica e belos vitrais, fazer compras nas muitas lojas cheias de lembranças extravagantes, assados e creperias. Calisto foi premiada com a designação de Cidade de Arte e História em 1986 e ainda é o lar de um grande número de artistas, escultores, sopradores de vidro e encadernadores que apresentam suas obras hoje. Até explorar o porto à beira do rio ou dar um passeio nas praças públicas não o deixará desapontado.

Particularmente, Caelum amava a cidade onde morava. A sensação deliciosa de caminhar por outro século, mesmo estando no futuro, é certamente um jeito fácil de pertencer a um livro.

Perdido em pensamentos, o rapaz apertou os braços contra si em um abraço de apoio, estava deveras nervoso pelo que faria assim que chegasse ao seu destino.

— Querido? — Irina chamou sua atenção, só então percebeu que havia chegado e no horizonte, do outro lado do vilarejo, tinha a visão da Torre Lehna e o vasto oceano que a beira. — Quer que eu te espere?

— Não vai ser preciso. — Garantiu a sua mãe, levando sua mão trêmula até a maçaneta para abrir a porta.

— Me ligue se precisar. — Deu o aviso costumeiro.

— Obrigado, mamãe.

E assim a deixou, saiu para o clima fresco do lado de fora, uma brisa suave beijou suas bochechas e o cheiro de terra molhada lhe fez sorrir mesmo que fraco. Encarou os vagões do trem abandonado, cujo ali fazia-se morada do seu grande amor. Suas mães lhe contaram tudo o que aconteceu ontem, precisou criar coragem para vir até aqui e encarar a situação de uma vez por todas.

Todas as consequências dos seus erros.

O problema é que não se sentia tão arrependido quanto deveria. Um lado dentro de si, não podia se arrepender de ter vivido algo tão sincero e se apaixonado. Por outro lado, sabia que mentir para quem o amava tanto, era muito sério. Kaius estava machucado, talvez confuso e a culpa era toda sua.

O carro de sua mãe se afastou e o barulho do cascalho sendo pressionado pelo pneu foi ficando cada segundo mais longe, com mais uma respiração funda, criou coragem e deu os primeiros passos na direção da entrada do vagão. A porta se abriu, fazendo-o se sobressaltar e dali saiu um ser desconhecido. Era Jett, mas obviamente, Caelum não se lembrava dele.

— E aí, Cae. — Sorriu gengival para si, o rapaz branquelo possuía uma mochila enorme nas costas. — Veio ver o Kai?

Assentiu timidamente como resposta, o tempo todo abraçando seu próprio corpo.

— Ele está lá nos fundos, vai lá. — O rapaz segurou a porta pesada do vagão para que Cae entrasse, assim ele fez e a porta fechou atrás de si. — A gente se vê.

Entendeu que Jett estava de partida e assim se encontrou sozinho no recinto de baixa iluminação, uma pequena sala extremamente simples estava diante de si e com apenas alguns passos estava diante da porta improvisada do quarto de Kaius. Sabia que era o quarto dele pois seu nome estava cravado ali, com um velho adesivo impresso em fonte cômica. Bateu suavemente e esperou a resposta do outro lado, cujo veio de imediato:

— Desde quando você bate na porta, mané. Entra logo, Jett. Esqueceu alguma coisa, foi? — Kai respondeu, do jeito brincalhão que fala com seu melhor amigo.

Caelum sorriu com o jeito marrento do seu namorado e avançou para dentro do recinto, surpreendendo o rapaz esparramado sobre a cama, cujo até mesmo desprovia de vestimenta em seu tronco. A visão fez as bochechas do mais novo ficarem rosadas.

— Oi. — Disse, baixo e envergonhado.

— Cae, o que está fazendo aqui? Quer dizer, eu não esperava. Iria à sua casa hoje à noite para… — Se interrompeu, era tudo muito recente, ainda doía.

— Minhas mães me contaram o que aconteceu… — Era tão difícil que o menino precisou fechar os olhos com muita força, apenas deixou as palavras fluírem para fora de si. — Sinto muito, Kaius. Me perdoa. Tentei te contar várias vezes, mas não consegui…

Silêncio.

— E por que não conseguiu?

— Algo dentro de mim temia.

— Cae, você pode me contar qualquer coisa. O que te fez pensar que eu não deveria saber? — Kaius questionou, um pouco magoado.

— Eu sei. Falhei. Não consegui.

Kaius vestiu uma blusa jogada no chão próxima a sua cama e se aproximou cautelosamente do garoto que amava, o mesmo foi sentido a presença física a cada segundo mais próximo de si. Quando os corpos estavam diante um do outro, próximo o suficiente para se tocarem, o mais velho levou sua mão até a bochecha gorducha e macia de Caelum.

— Você pode me contar agora? — Quis saber, pois desejava entender os sentimentos do rapaz.

O menino respirou profundamente, assentindo ao balançar a cabeça suavemente em concordância. Seu corpo inteiro tremia de nervosismo, sabia que não poderia mais guardar seus sentimentos para si. Seu coração desgovernado implorava por libertação.

— Uma vez na minha vida eu queria ser alguém normal, principalmente por você ser tão especial para mim. Toda vez que pensava em como você poderia reagir ao saber sobre a minha condição, me sentia com medo de o perder. — Abriu seus olhos lentamente para encarar os olhos castanhos a sua frente, sentiu sua visão embaçar. — Sei perfeitamente que talvez não me deixaria pela minha condição, mas o que odiaria é saber que você poderia ficar comigo por dó, ou passar a me ver com outros olhos. Olhares que constantemente recebo… Os de pena. Se isso acontecesse, acabaria comigo, Kaius.

— Caelum. — Kaius o abraçou com todas as suas forças, na esperança de que o menino diante de si pudesse compreender toda a imensidão do amor que sente por ele, e que isso o confortasse. — Você está tão enganado, anjo.

Caelum se agarrou ao homem que amava, ele era seu porto seguro. A sua Torre Lehna. O seu destino.

— Você me ama?

— Eu te amo mais do que meu coração suporta.

— Eu também te amo, Kai. E todos os dias quando leio meus diários e vejo nossas fotos pela manhã, meu coração se lembra disso.

— Você se apaixona por mim todos os dias. — Kaius afastou minimamente seu rosto para fitar o alheio. — E isso é que me deixa ainda mais surpreso. Mesmo se esquecendo de mim todos os dias quando vai dormir, você acorda e se apaixona novamente. Fez isso por um ano inteiro, sem deixar que sua condição atrapalhasse nosso relacionamento.

Lágrimas escorriam pelos olhos miúdos de Caelum, que não sabia se sorria ou se chorava, só sabia que havia entrega naquele momento. Seu amado não o olhava de outra maneira, pelo contrário, havia muito mais brilho em seu olhar. Talvez a verdade não seja tão assustadora quanto pensou que poderia ser, talvez seja na verdade o que faltava para se entregar completamente.

— Pude refletir desde que soube de tudo. E eu posso lidar com isso, Cae. Eu quero ficar com você. E tive uma ideia para te ajudar com suas memórias… — Animadamente, Kaius se afastou para ir até sua escrivaninha onde ali havia uma caixa que deveria ser embrulhada com papel de presente, mas que não foi possível. — É para você. — Entregou para Caelum que fitou a caixa curioso. — Um gravador de fitas K7. Sei que não é nada demais, mas pensei se não seria bom que você pudesse gravar mensagens para si mesmo, contando tudo aquilo que você precisa ouvir quando despertar pela manhã. Nós podemos viver o nosso amor, a nossa história…

Caelum encarou o rosto do homem à sua frente, ele soube no fundo da sua alma que havia sido presenteado, que era o garoto mais sortudo do mundo. Kaius é a sua alma metade. Silenciado pelo gesto tão apaixonante, apenas cortou a distância entre seus corpos e o beijou profundamente.

— Enquanto eu existir, vou te amar. — Garantiu ao Kaius.

— Por deus, desde que você apareceu na minha vida, não me sinto mais tão sozinho. Tão pouco abandonado. Sinto que você me ama de verdade.

— Não pretendo te deixar, Kaius Eugene.

— Você me faz existir de maneiras que eu julgava ser impossível, Caelum Ronan.

— E você me dá motivos para acordar, pegar as minhas memórias perdidas e viver sem medo. — Caelum o abraçou ainda mais forte, espalhando beijos por toda a face alheia. — Quero tanto fazer amor com você.

E isso arrancou uma risada do mais velho.

— Então não vamos perder mais tempo.

E o beijo se tornou eufórico enquanto despiam-se de corpo e alma um para o outro, e mais uma vez o amor se concretizou, tomou forma enquanto seus corpos se uniam euforicamente e explodiram em sensações indescritíveis de prazer.

Estavam completos.

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