Três

A Torre e o Destino

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Junho, 2011

 

Mas por que as estrelas morrem? Caelum se perguntava mentalmente, saíram da aula de ciências com a deixa e agora marchavam com a escola pela cidade, uma excursão com os alunos do jardim de infância pela cidade litorânea de Calisto. Os alunos estavam visitando os pontos marcantes e turísticos da cidade, as crianças animadas andavam em fila indiana com a professora na frente e as ajudantes ao lado certificando-se que nenhum catarrento deixaria a fila e causaria um acidente indesejado.

O trânsito de Calisto é tranquilo e seguro, os carros pararam obrigatoriamente da faixa de pedestres e as criancinhas caminhavam para atravessar a rua. Cantavam a música do bom capitão a toda altura e as pessoas sorriam ao ouvi-los cantar tão animadinhos, música a qual estão crescendo ouvindo, a maioria é filho de pescadores que vão trabalhar cantarolando a canção, logo aprenderam a cantá-la e até mesmo foram as primeiras palavras de alguns quando ainda eram bebês.

“O bom capitão, o bom capitão traz para casa um quilo de tubarão.”

“O bom pescador é um bom capitão, oh, oh, oh, a maré vem então.”

E o pequeno Caelum marchava com seus coleguinhas, uma ruga se formava no meio da sua testa, embora fosse extremamente jovem para tê-las, mas é por causa das sobrancelhas unidas em preocupação com as estrelas. Caelum está triste por que descobriu que estrelas morrem, e na opinião do menininho, estrelas nunca deveriam morrer. Frustrado, ele tentava memorizar o que havia ouvido, porque queria anotar tudinho depois e como tem dificuldade para escrever rápido, não conseguia acompanhar.

— Estrelas nascem e morrem… hmmm… — O garotinho que tropeçava a cada dez passos, repetia constantemente baixinho enquanto sua mãozinha apertava a alça da mochila que carregava sobre as costas e a outra seguia firme segurando a merendeira.

E novamente aquele grupinho idiota de meninos desobedientes riam de si e faziam piadinhas idiotas que Caelum não estava nenhum pouco a fim de ouvir. Seus pensamentos naquele momento eram mais importantes do que qualquer coisa.

De repente, a fila parou e menino sem perceber trombou com um coleguinha da frente que o olhou feio e lhe deu um beliscão que fez o menor ficar com os olhinhos cheios de lágrimas, “olha por onde anda, seu retardado”, foi o que o outro disse. Todo mundo chama o Caelum de retardado, só porque ele esquece as coisas às vezes, além de ter dificuldade para aprender tudo.

O menininho sabe que não é esperto como os outros, sua cabecinha se cansa fácil e é mais lenta do que o comum. É por isso que quando Caelum acorda com dor de cabeça forte ele acaba achando é bom não ter que ir pra escola cheia de gente chata. Os adultos costumam dizer que as crianças são inocentes, não tem maldade, mas Caelum discorda totalmente, alguns de seus coleguinhas são muito cruéis e o fazem ficar muito triste.

Caelum odeia ficar triste.

Olhou para sua frente e sua boca se abriu enquanto os olhos subiam pela torre de tijolinhos de barro antiquados, tão alta que um ‘uau’ escapou da boca do garotinho que ficou impressionado. Tão incrível! Como pode uma simples torre ser tão legal?

— E aqui temos a Torre de Lehna. — Apresentou-lhes a professora, indicando a enorme torre beira-mar. — Foi uma parte importante na evolução da nossa cidade. Seu nome foi em homenagem à esposa do fundador da fábrica de açúcar, ele a prestigiou porque foi a sua ideia de fundar a fábrica, embora ela não trabalhasse na mesma. A produção de açúcar tornou-se um dos pólos da indústria de alimentos, o que mudou totalmente a economia da nossa região. A fábrica não existe mais, mas a Torre foi deixada como símbolo principal da nossa cidade e marco, que é o processo de industrialização e um acelerado processo de urbanização. — Explicou a professora de frente para as crianças admiradas com a torre. E assim que terminou, começou a caminhar em direção à praia dali prontos para fazerem o piquenique que tinham combinado.

Às crianças fizeram uma roda, as ajudantes estenderam as mantas e as perninhas ficaram cruzadas como as de indiozinhos quando eles se sentaram e abriram a lancheira recheada de gostosuras para se dividir com os outros. Tão animados e felizes, rindo e conversando que ninguém deu falta do menino Caelum e os outros garotos.

O rapazinho continuou intacto, nem se dando conta de que seus colegas já não estavam mais a seu redor. Tão sonhador como sempre foi, olhava para a torre com seus olhinhos brilhando imensamente.

— Queria tanto subir lá em cima! — Falou baixinho para si mesmo apertando a alça da merendeira. Caelum sentia aquela sensação enorme crescendo dentro de si, a ansiedade, doido pra descobrir como é lá.

— O bobão tá apaixonado por uma torre. — Disse um dos garotinhos maldosos, Maxim é que mais odeia Caelum, não se sabe por que. Os que estavam com ele, haviam ficado para trás por estarem catando as pedrinhas sobre a areia para depois atirá-las na água. Foi então que lhe ocorreu uma ideia na cabeça desafiadora de Maxim, ele sempre tinha as melhores ideias de desafios e finalmente encontrou um perfeito para o menino. — Eu te desafio a subir lá em cima, Caelum Ronan.

O citado virou o rosto para encarar Maxim com desdém, ele pensa que Caelum é tolo para fazer isso. Ora, o menino tinha plena noção do perigo.

— Não sou burro como você pensa, seu idiota. — Caelum falou bravo e um biquinho nervoso se formou em seus lábios grossos. — Eu vou contar pra tia.

— Você é um fofoqueiro mesmo. — Maxim retrucou bravo e deu um empurrão em Caelum que cambaleou um pouco.

Como sempre, teve medo – embora seus punhos tenham se fechado em defesa e a vontade de empurrar o Maxim de volta fosse grande. Entretanto, não o empurrou de volta, contrário disso, deu um passo para trás. Odiava brigas e não queria se machucar. Já bastava sempre tropeçar e ralar seus joelhos – pelo menos amava os band-aid coloridos que a mamãe colocava.

— Deixa ele, Maxim, ele não é corajoso. — Disse um dos outros garotos malvados.

Bastava, Caelum subitamente se encontrou fulo da vida. Estava cansado de ser o fracote da sua classe, sua mãe havia lhe dito que ele é corajoso e que tudo que ele quisesse poderia conseguir se esforçasse. Determinado, Caelum deu as costas para os garotos, que riam de si, jogou sua merendeira no chão e determinadamente caminhou em passos duros até a escadinha enferrujada da torre.

Os meninos sussurraram surpresos, porém ainda gritando palavras duvidosas, a coragem e Caelum eram apenas um naquele momento. E foi subindo, com suas mãozinhas pequenas agarrando a escada, sua respiração ofegante e o suor escorrendo por seu rosto. Quando chegou na metade fez algo que jamais deveria ter feito naquele momento, Caelum olhou para baixo e seguidamente ficou tonto e quase soltou a escada.

— Professora, o Caelum está lá em cima! — A primeira garotinha sentada na roda do piquenique viu, a professora gritou em pânico vendo o garoto agarrado a escada, parado na metade da torre de 20m de altura. E aí a confusão começou de vez, as crianças se levantaram todas falando alto enquanto viam seu colega de classe lá em cima.

A pobre professora não podia nem gritar para que ele descesse já, não estava em condições, de longe ela podia ver que Caelum estava passando mal. A situação era extremamente grave e uma das ajudantes da professora discou o número da emergência imediatamente.

— Caelum, respire fundo, não abra os olhos, querido. Mantenha-se firme. — A professora auxiliava enquanto o via agarrado a escada tremendo de medo.

O menino sentia que havia cometido a pior travessura de sua vida, sua mãe sempre dizia que ele não podia participar de brincadeiras muito pesadas. Esforço físico foi completamente proibido para o menino, e agora os sintomas da desobediência pesavam sobre seus ombros. O resultado foi uma dor de cabeça aguda que fazia ele gemer de tanta dor, doía e doía muito, pior que sabão nos joelhos ralados enquanto banhava. Sua visão foi ficando turva e o barulho da sirene dos bombeiros ecoava pela baía de Calisto, chamando a atenção dos habitantes. Em poucos minutos o local estava lotado de curiosos que assistiam ao menino lá em cima, não demorou para a Dra. Ronan aparecer usando seu jaleco branco do hospital e a Sra. Ronan – dona da loja de artesanato – que desabou em desespero quando viu seu menino lá em cima.

As mãozinhas que agarravam a barra de ferro com firmeza já doíam, já não sentia seus bracinhos e as perninhas tremiam tanto, tanto. Quando pensou que fosse cair, Caelum sentiu as mãos firmes lhe pegar.

— Peguei você. — Disse o bombeiro que abraçou o menininho e garantiu que tudo ficaria bem, mas Caelum ainda tremia de medo e a dor na sua cabeça só aumentava a cada segundo. Assim que estava firme nos braços do homem, o garotinho que escalou a torre desmaiou.

Graças a Deus tudo na cidade era perto, Caelum recebeu atendimento médico imediatamente. Foi levado para o hospital e quando acordou, sua mãe estava em uma daquelas reuniões no laptop com os médicos dos Estados Unidos.

Caelum nasceu com uma doença, e o acidente que sofreu ainda quando bebê desencadeou a situação para algo ainda mais grave. O aneurisma cerebral, ou aneurisma sacular, é uma dilatação que se forma na parede enfraquecida de uma artéria do cérebro. A pressão normal do sangue dentro da artéria força essa região menos resistente e dá origem a uma espécie de bexiga que pode ir crescendo lenta e progressivamente. Os maiores riscos desse afrouxamento do tecido vascular são ruptura da artéria e hemorragia ou compressão de outras áreas do cérebro.

Aneurisma cerebral é uma doença grave. Apenas 2/3 dos pacientes sobrevivem, e cerca de metade dos que sobrevivem permanece com sequelas importantes que comprometem a qualidade de vida. Como é o caso de Caelum. Um dos fatores que poderiam levar ao rompimento de um aneurisma é o esforço físico.

Para sua completa tristeza e preocupação, dilatou ainda mais a artéria do cérebro de Caelum. Suas mães ficaram extremamente decepcionadas, mas a preocupação é ainda maior. Para sua tristeza, sua situação havia piorado.

Caelum é apenas um garotinho que estava fazendo travessuras de um menino comum. Não era culpa dele. Quem iria imaginar que uma criança iria escalar uma torre de 20 metros?

Foi preciso viajar para o exterior para ver pessoalmente o médico que cuidava do caso do menino, já que é extremamente delicado. Não pense que o tratamento foi fácil, o caso de Caelum é tão grave e incomum que suas mães lutaram na justiça para conseguir ajuda do governo com o tratamento. Mesmo assim, as dívidas são enormes e sabe-se lá como as Ronan vão conseguir um dia quitar essa dívida; e faziam de coração, seu filho é tudo para elas, e tudo que estiver ao alcance, fariam para que o menino pudesse viver uma vida feliz.

Caelum precisou fazer uma cirurgia para aliviar um pouco a pressão no cérebro e de alguma maneira diminuir a dilatação da artéria. Quanto mais cirurgias, mais delicado e comprometido ficava seu cérebro. Cirurgias nesse local são extremamente arriscadas e podem desencadear problemas ainda piores.

Assim como compromete a cada segundo ainda mais as suas memórias. Se antes elas já falharam, agora se agravou.

Infelizmente, Caelum se esqueceu do fato de que as estrelas morrem, também se esqueceu da torre. Caelum não se lembrava o que havia acontecido, mas a tristeza era nítida nos olhos de suas mães. Ele prometeu que o que é que seja o que tenha feito, jamais o faria novamente.

Contudo, ele também se esqueceu disso.

Por isso, oito meses depois, recuperado e de volta à escola – agora conhecido como o garoto que subiu a torre –, Caelum pedalava tranquilamente pelo calçadão beira-mar quando viu a torre e parou para fotografar em sua polaroid dada por suas mães em seu último aniversário. Sentiu uma sensação estranha em seu peito, tão gostosa. Quando se deu conta, estava deixando a bicicleta encostada ao murinho e subindo a escada até o topo da torre.

E dessa vez ele conseguiu chegar lá em cima, como se nada de ruim tivesse acontecido um dia. Ele apenas sabia que não podia olhar para baixo.

Paraíso, Caelum estava no lugar mais alto do mundo, se sentiu o garoto mais corajoso da cidade! Nunca viu ninguém subir até cá em cima, dava para ver tudinho, embora ele tivesse medo de chegar muito perto do parapeito. Tirou fotos com a polaroid que ganhou de Natal. Registrou o céu, o mar, as gaivotas e barcos no horizonte. Pegou o bloquinho de post-its coloridos que sua tia havia lhe dado e sorriu lembrando o que sua mamãe já lhe disse:

“É possível eternizar memórias ao escrevê-las, é como gravá-las em um pedaço de papel em forma de palavras e com a ajuda da tinta que gruda no ofício. E qualquer um poderá lê-las”, Caelum não sabia escrever palavras complexas e difíceis, mas ele o fez. Achava a ideia de eternizar memórias a coisa mais fascinante do mundo, principalmente porque era em um ato tão simples como escrever.

Pegou o bloquinho azul-claro o qual combinava com as cores do céu e do mar e finalmente escreveu sua primeira memória para a torre. Sorriu docemente quando se lembrou do que o padeiro lhe disse essa manhã quando foi comprar um bolinho de chocolate:

“O garoto atrevido que subiu a Lehna”, e assinou suas iniciais: CR, anotando a data em seguida, tudo com sua letra mais garranchosa e ilegível. Destacou o post-it e colou-o à parede de tijolos junto a um adesivo fofo de gatinho. Admirou o resultado já imaginando o quanto ficaria lindo encher essa parede de post-its. Esperava que a cola fosse boa, para que assim eles ficassem para sempre grudados ali.

E foi assim que Caelum Ronan tomou a Torre Lehna para si, todas as santas manhãs lá estava o menino danado subindo a torre quando havia prometido que jamais o faria. Ah, se as senhoras Ronan descobrem! Agora que você sabe que Caelum é um menino desobediente, não conte a ninguém. Esse é o nosso segredo. Não se preocupe, “o que não te mata, te faz mais forte”, e foi bem isso que torre proporcionou a Caelum, força para subir os degraus finos e enferrujados, apenas para lhe presentear com um abrigo no topo do seu paraíso, onde virou lugarzinho de refúgio e baú de memórias do menino.

Talvez a Torre de Lehna tenha alma, porque eu a chamaria de “o destino de Caelum Ronan”, pois não foi só a força e coragem que lhe trouxe – embora também fosse motivo da piora da doença de Ronan. Essa torre deu a ele mais coisas do que lhe tirou, talvez fosse seu pedido particular de desculpas, mas não importa. Se ela contribuiu para lhe tirar suas memórias, fez morada para outras que você só vai descobrir se pular para o próximo capítulo.

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