Sete
Aqueles que Amamos
Setembro, 2022
Estrelas morrem. Até mesmo as mais belas.
Kaius repetia a frase de Osho constantemente, como um mantra que carrega tatuado em sua costela esquerda: “Certa escuridão é necessária para se ver as estrelas”, e de fato era. Prova-se isso pelo fato de que Kaius viu Caelum, porque seu coração estava coberto por escuridão quando eles se conheceram. Ele foi a luz que tocou as trevas e espantou os demônios, ele trouxe a vida de volta para seu coração.
“Porque é que as borboletas azuis não são como vagalumes? Não brilham na escuridão.”, “Porque é que nós só enxergamos estrelas na escuridão?”, Caelum desatava a fazer diversas perguntas.
Às vezes Kaius não consegue respondê-las, certas vezes é ele quem precisa de respostas.
Era a terceira vez na semana que Caelum se esquecia de vir à torre, o que era estranho, já que era um costume que o garoto insistia em manter.
Um ano juntos e o rapaz estava se tornando diferente. Kaius se preocupou, desceu da torre e com seu skate foi até a casa da família Ronan. Bateu à porta, havia um silêncio absurdo dentro da casa e a maioria das luzes estavam apagadas.
Irina foi quem atendeu a porta, espantando-se ao encontrar o namorado de seu filho.
— Oh, Kaius… Entre querido. — A mãe de Caelum estava com os olhos vermelhos, claramente estava chorando.
O rapaz entrou na casa e assim que fechou a porta parou diante da mãe de Caelum. Sentia uma angústia em seu coração, um nó na garganta, alguma coisa estava errada e sua alma teimava em o alertar… e não é de hoje, nem de ontem… têm tempos.
— Sra. Ronan, está tudo bem? Aconteceu alguma coisa?
— Caelum se esqueceu de novo, não é? — Ela o olhou e seus olhos se enchiam de lágrimas novamente, naquele momento ela se deu conta de algo, Kaius agia como se não soubesse… mas ele age tão bem, como consegue? Espera… ele realmente sabe? — Kaius, ele te contou, não é? Ele disse que tinha te contado…
A mulher pensava que o genro agia assim para proteger o amado Caelum, para não o ferir ou deixá-lo mais triste.
— D-do que está falando? — Kaius realmente não sabia.
E então a Sra. Ronan chorou, aos prantos abraçou o jovem rapaz a sua frente que não soube reagir. E com muita dificuldade ela contou tudo a ele, desde o começo quando o bebezinho machucado e abandonado diante de uma noite tempestuosa, deu entrada na emergência onde sua esposa trabalhava. Contou o quanto, desde que nasceu, seu filho lutou bravamente para sobreviver e enfrentou cada grande dificuldade que surgiu em sua vida.
Oh, sim, Caelum era uma gigante estrela vermelha.
Naquela noite, cerca de um ano atrás, quando Caelum chegou chorando à torre, ele havia relembrado do seu diagnóstico certeiro, qual é o que sofreu um aneurisma cerebral quando ainda era muito pequeno e isso causa perda de memória recente. Por anos, ele e suas mães encontraram métodos de fazer seu filho não se esquecer das coisas mais importantes, usando post-its e diários que ele lia logo pela manhã. No entanto, com o passar do tempo a aneurisma foi piorando, comprometendo toda a memória de Caelum Ronan.
Tudo, tudinho… ele estava se esquecendo…
Toda vez que ele dormia, ele se esquecia de mais um pouco do que aconteceu antes. Não tem como prever, tem dias que ele acorda e têm boa parte de sua memória, mas há outros onde acorda, não sabe onde está e sequer quem são as mulheres ao seu redor.
É isso o que está acontecendo agora…
Com a grave situação, há três dias ele não se lembra de nada.
Kaius correu até o quarto de Caelum, sua outra mãe o mantinha em seus braços, ninando-o. O menino que estava protegido no aconchego dos braços da Dra. Loana apontou o dedo para o ser que surgiu em seu campo de visão, e então perguntou: “Quem é esse, mamãe?”.
Poderia tentar narrar o que Kaius sentiu, mas é quase impossível.
Imagine o que é ser esquecido pela pessoa que tanto ama?
No final, não era Caelum que seria esquecido, não, não. Todo esse tempo, era Kaius. Porque Caelum era eterno no coração do garoto bizarro.
Saiu atordoado da casa da família Ronan.
Porque ele não lhe contou antes? Porque?
Não podia compreender nem que se esforçasse muito, os motivos que o levaram a esconder algo tão sério de si.
Kaius caiu na areia da praia e chorou encarando o céu estrelado.
Caelum se esqueceria de todas as noites estreladas que viveram?
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Oh sim, ser esquecido dói. E como dói.
Kaius chorou, lamentou, planejou seu próprio fim. Mas ao respirar e ver uma estrela cadente cortando o céu, ele teve esperança. Amava Caelum com todo seu coração e tudo que eles fizeram juntos era muito significativo.
Encarou o mural de bilhetes em seu quarto. Cada mensagem que Caelum havia deixado a ele. O tempo todo seu amado estava tentando tornar-se eterno no coração de Kaius. E, ele havia conseguido com sucesso. Aquelas fotos de polaroid e bilhetes escritos à mão, era um sinal que ele não queria se esquecer dele, e ter essa certeza, era tudo que o jovem precisava para não desistir do rapaz que tanto amava.
Foi até a loja beira estrada, ao lado de um posto de gasolina, comprou um maço de cigarro e um gravador de fitas.
Kaius não deixaria Caelum se esquecer dele.
Ele o amava o suficiente para lidar com seu cérebro imperfeito.
Porque nós não devemos desistir daqueles que amamos.
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