Quatro
O Brilho das Estrelas
Abril, 2003 à Setembro, 2021
A Dra. Ronan não estava completamente certa, nem todos os bebês nasciam do amor. Infelizmente, sinto lhes informar o óbvio, grande partes do bebê não nasce do ato bonito de unir um corpo ao outro, se amar de corpo e alma, fazer amor e blá, blá; oh não, quem dera pudesse lhes afirmar. Talvez mais da metade da humanidade tenha nascido do mais conhecido “acidente”, alguns acidentes se tornam queridos, mas outros são bastante indesejáveis. Lauren Eugene jamais amaria a vida que crescia dentro de si, foi um terrível acidente e ela seria a única a arcar com as consequências.
Lauren morava no subúrbio de Calix onde nasceu pobre e morreria pobre, afogada na miséria. Tratava de sua mãe sozinha, seus irmãos mais velhos a abandonaram, quando engravidou o pai da criança não aceitou o bebê e sua mãe a implorou para que não abortasse. Lauren estava fazendo isso por sua mãe, por isso a velha Eugene deu seu jeito de tentar consertar a situação. Mesmo grávida, a jovem moça não parou de se prostituir, dizia ser o único meio de ganhar a vida e obviamente acabava com sua existência usando drogas dos piores tipos.
O bebê nasceu prematuro e para a alegria da Vovó Daesyn, nasceu saudável. A avó registrou o neto sem pai e com menos de um dia de vida, ele já não tinha mãe. Lauren não poupou tempo, não daria conta de um bebê. Fugiu de casa e abandonou definitivamente sua mãe e o filho recém-nascido.
Kaius poderia ter crescido sem pai e mãe, contudo era extremamente feliz com sua avozinha. Se tornou o orgulho da velha senhora, um ótimo menino na escola, tão calmo e obediente; tão fascinado com qualquer descoberta, falava coisas tão complexas que sua avó ficava atordoada e ria e ria. Mas infelizmente suas vidas eram um tanto complicadas. A avó já não aguentava trabalhar, enquanto Kaius era pequeno, vendia tudo o que sua avó fazia. Com apenas sete anos, passava por baixo da roleta do metrô e ficava escondido em meio aos adultos da estação de embarque, sujo e usando as roupas gastas segurando a caixinha cheinha de doces que sua avó fazia para vender.
E vendia, às vezes bem, muitas vezes mal. Alguns se encantavam pelos doces, outros pelo menino humilde, outros apenas pela pena. Sobretudo haviam os garotos mais velhos e maldosos que pisavam nos doces, batiam no menino e levavam seu dinheiro. No entanto, Kaius nunca se deixou abalar, sua avó o abraçava e dizia que tudo ficaria bem, Deus os abençoaria em dobro. E Kaius acreditava, saindo sorridente no dia seguinte para tentar vender novamente os doces que lhe garantiriam o pão de cada dia.
Tudo que o menino recebia era de doações, na escola algumas professoras o ajudavam, via que o cérebro brilhante do menino lhe daria um futuro e mudaria suas vidas. Contudo a puberdade se tornou mais árdua, a avó adoeceu e agora dependia do neto até para ir ao banheiro. Kaius não pensou duas vezes, largou a escola e foi trabalhar. Seu melhor amigo, Jett, fugiu de casa e acabou vindo parar em Calix, onde viveu na rua por muito tempo. Kaius o conheceu quando o mais velho o salvou de uma turma de pivetes que planejavam dar uma surra no menino que corria para salvar o dinheiro ganho. Juntos despistaram os marmanjos e Kaius o levou para casa. Jett era um menino muito bom que trabalhava entregando jornais com o auxílio de sua bicicleta. Em troca de moradia, o mais novo passou a ajudar Kaius e a avó se tornando em tão pouco tempo um neto querido. Tornou-se o melhor amigo de Kaius, praticamente cresceram juntos.
Kaius arranjou um primeiro emprego em uma oficina mecânica, trabalhava mais do que seu expediente pedia. Dinheiro extra significava que todos os medicamentos necessários para sua avó seriam comprados. Todo o esforço jamais era em vão, tudo para conseguir sustentar a si e sua avó, lidar com as despesas da casa e dos remédios. Mesmo com a ajuda de Jett, não podiam afrouxar, a vó dependia dos dois. Por muito tempo as coisas ficaram assim, até que estáveis, mas então a avó veio a piorar e consequentemente seu corpo cansou de lutar, morreu deixando o menino sozinho.
O menino que ninguém quis estava de pé para o túmulo coberto por rosas brancas, as lágrimas eram silenciosas e tímidas, desciam pelas bochechas de Kaius, com cuidado abaixou-se para depositar sua única rosa qual pudera comprar. Todo o dinheiro que haviam acumulado pagou o enterro e o caixão. Kaius e Jett não tinham mais nada. Quer dizer, tinham sim, um ao outro. Portanto, ali estavam os melhores amigos, tendo um ao outro como a única pessoa verdadeira que lhe restaram.
Lágrima alguma caia dos olhos do amigo branquelo, mas a dor interna era ainda pior. Ele prometeu que estaria com Kaius além do fim, afinal o mais alto era tudo para si, a família que nunca teve. Vovó o ajudou em um momento que ninguém o queria, era grato aos Eugene e sua gratidão se estenderia por toda sua vida. Apertou o ombro do amigo com firmeza.
— Vamos dar o fora daqui. — Disse-lhe com determinação, e deram. Saíram de Calix com destino a Calisto, uma proposta de emprego melhor os levou até ali. Jett é bom com computadores e precisava usar do seu talento para ganhar dinheiro, começou a trabalhar em uma loja de computadores, consertando os dispositivos problemáticos.
Kaius também conseguiu um emprego na nova cidade, se tornou frentista. Trabalhava em um posto de gasolina abastecendo os carros. As coisas foram melhorando, Jett arrumou namorada e deu tudo errado. Seguidamente descobriram o vagão abandonado – quer dizer, o Jett descobriu um dia, quando estava bêbado caminhando com sua namorada pelos trilhos abandonados. Encontraram aquele cubículo e você sabe bem o que fizeram dali.
O branquelo teve a ideia genial de largar o aluguel caríssimo – naquele prédio caindo aos pedaços muito bem frequentado por marginais que vez ou outra invadiam seu apartamento para roubar suas coisas e vender para comprar drogas – e viver dentro de um vagão abandonado nos antigos trilhos inutilizáveis de Calisto.
— Você vai gostar, cara, confia em mim. — Dizia Jett quando atravessaram uma cerca arrebentada e caminharam pelos trilhos abandonados daquele lado da cidade. — É pequeno, mas é aconchegante. Já planejei o banheiro e a cozinha, talvez falte água e energia, mas a gente dá um jeito.
— A gente sempre dá um jeito. — Concordou Kaius enquanto se aproximavam do vagão abandonado todo pichado e enferrujado. O sorriso doce de seu melhor amigo se fazia presente, Jett parecia feliz com o novo lar. Sinceramente, Kaius havia gostado, era melhor do que morar na rua. Se virariam muito bem no cubículo. — Eu sinto que esse é o nosso lugar no mundo.
E de fato era uma casa meio estranha, mas perfeita para os dois. Com o tempo a casa foi ganhando forma, as coisas ficaram melhores com o dinheiro que poupavam do aluguel. Kaius voltou a estudar, Jett foi crescendo no trabalho. O vagão ia ganhando formato de casa, tudo pequeno e apertado, mas tão organizado. Tinham até mesmo uma varanda agora, tudo parecia finalmente em ordem.
O primeiro sonho de Kaius veio a se realizar, um telescópio. Simples, na promoção de uma venda de garagem, baratinho, mas comprou. Ora, não trabalhava também para isso? Nem tudo se resumia a despesas, também havia o fato de que esta é uma única vida e precisava vivê-la, no mínimo sendo feliz com pequenas coisas. Se presenteou em seu aniversário de 18 anos. Subir no vagão não era suficiente, Kaius precisava de algo mais alto. Do outro lado dos trilhos estava o centro de Calisto e se via ao longo – rodeando o oceano –, uma torre alta o suficiente para se observar as estrelas.
E foi assim, numa noite qualquer, céu estrelado e brisa fresca. Kaius foi até a pequena baía com seu skate, não foi direto à torre. Primeiramente, tirou os sapatos e caminhou descalço sobre a areia. O mar estava um pouco agitado, com o jeans dobrados até o meio de suas canelas, pisou na água salgada e sorriu com a sensação gélida. O céu imensamente estrelado é a visão mais linda da sua vida, daqui desse lado as luzes da cidade não atrapalham o brilho das estrelas. Seus olhos se encheram de lágrimas e ele sorriu para o céu, pensando na sua avozinha que amava ouvir as palavras inteligentes sobre seu conhecimento astronômico.
Deixou o mar e caminhou até a desejada torre, subindo degrau por degrau, conhecia alguém que poderia reforçar as escadas para si. Um lugar tão encantador como esse não poderia perder o acesso, de jeito nenhum. E quando chegou ao topo, teve certeza que valeu a pena, a visão era ainda mais bonita daqui de cima. Via-se o tal vagão do outro lado da baía, atrás de si as luzes da cidade pareciam esbeltas, mas nada se comparava ao brilho de todas aquelas estrelas.
E ficou horas admirando-as, estudando sobre cada uma, feliz pela internet do seu celular pegar daqui de cima. E perdia a hora fazendo anotações em seu caderno, pensando e pensando até que… ele finalmente reparou na parede do parapeito que portava todos aqueles post-its e bilhetes pregados com adesivos fofos. Suas mãos foram rápidas em apanhá-los. Um por um, ele foi lendo, mesmo que às vezes tivesse que forçar para entender a letra que melhorou com o tempo, conforme as datas lhe informavam.
Dava pra escrever o livro mais lindo do mundo com aquele pensamentos de “CR”, não era fofo a forma que essa pessoa via o mundo? Kaius não pode evitar, quando percebeu, respondê-lo se tornou sua principal motivação para vir até a torre todos os santos dias.
“É possível eternizar pessoas em nossos corações, jamais direi novamente que não se pode viver para sempre.”, KE.
No dia seguinte, Kaius fez uma tatuagem para sua avó.
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