Um

Ser Esquecido

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Setembro, 2021

 

Caelum pedalou tranquilamente, aproveitava ao máximo a brisa vindo do mar. Seguia o costumeiro caminho beira-mar que o levaria até a sua torre. Sim, se achava no direito de chamá-la de sua, já que desde de criança ele a visita pela manhã, aproveitando que esse é o caminho da escola.

Desceu da bicicleta para caminhar pelo caminho apedrejado e arenoso, logo a jogando de lado para se dispor a subir as escadas de ferro – suas mãos sempre ficam sujas de ferrugem. Basta não olhar para baixo e ele logo estaria no topo, é o que repetia constantemente para si mesmo. Sim, pode acreditar, ele têm medo de altura, mas vale a pena o esforço e risco, uma vez que a visão lá em cima se parece muito com a descrição de paraíso.

Muitas pessoas devem subir por essa mesma torre já que é um dos pontos turísticos mais famosos da cidade, mas ainda assim, ela é especialmente de Caelum. Ele não se importa de dividir, principalmente quando alguém com boas intenções frequenta esse lugar; as escadas de barra de ferro não deveria existir mais, porém alguém está sempre fortalecendo a estrutura, tornando o acesso à torre seguro. Caelum é grato por isso. Será que essa pessoa é a mesma que responde seus bilhetes? Bem, não tem como ele saber, já que nunca encontrou ninguém por aqui.

Sorriu ao encarar o céu e o oceano a sua frente se unindo em apenas um, poderia dizer que sua cor favorita é azul. Abriu os braços se encostando ao parapeito da torre, fechou os olhos. Esse era o momento de paz de Caelum, onde ele podia sorrir sem ter vergonha do seu sorriso; onde agradecia por ter sido adotado por pessoas tão boas; onde ninguém faria piada de sua família; onde ele era grato por suas mães – por sua vida, pelo universo. E principalmente por todos os seus post-its em seu quarto e os diários que carregam todas as memórias cujo ele precisa constantemente se lembrar pela manhã.

Desejou que esse ritual nunca tivesse fim, mesmo que um dia fosse se esquecer da torre que tanto ama. Sentou-se encostando no parapeito e pegou seu pequeno bloquinho, concretizando sua ida matinal até a estrutura imensa. Dessa vez, começou a escrever:

“Todos nós seremos esquecidos…”

Logo as lágrimas vieram, mas Caelum persistiu em escrever:

Não, eu não estou falando sobre a morte. Apenas o fato irreversível que seremos esquecidos, acho que dá para encontrar a felicidade dentro da nossa própria alma, enquanto as pessoas teimam em procurar fora. Me entrego a quem sou, que eu seja posse de mim mesmo. Quando tudo acabar, sou eu quem estarei comigo mesmo, além do fim, flutuando entre as estrelas…”

E o rapaz tinha razão, ele teria apenas a si mesmo quando tudo viesse à tona.

Abraçou seus joelhos e se dispôs a chorar deixando sua lástima tomar forma e voz. Não precisou se preocupar, afinal ninguém o ouviria daqui, portanto poderia chorar o quão alto quisesse até toda aquela dor se dissipar de seu peito.

Depois de algumas horas, desceu da torre e como todos os dias, pedalou até sua escola. Seria mais um péssimo dia, onde era empurrado contra armários e pessoas, ignorado, chutado, humilhado e xingado. Apenas por ser filho adotivo de duas mulheres que resolveram viver juntas e ignorar a opinião da sociedade, pois o amor que sentiam uma pela outra era muito mais forte do que qualquer julgamento. E por isso elas adotaram Caelum, um pedaço de amor, a união perfeita das suas metades.

E como Caelum ama suas mães mais do que tudo no universo. A sua família é tão perfeita que só conseguia se sentir cada dia mais grato pelo privilégio de chamar Loana e Irina de mãe(s).

As pessoas são tão tristes, tão desprovidas de respeito e amor. Parecia que o único problema estava dentro delas, como se a maldade não pudesse ser ignorada, impedindo-os de alcançar a verdadeira felicidade. Como todas essas pessoas podiam viver sem amor?

O amor de suas mães lhe transformava imensamente, quase como se pudesse apalpar. Ouvir seus ensinamentos era amor, elas faziam-no ver o mundo de uma maneira diferente e consequentemente o menino se sentia diferente. Uma desigualdade que o tornava único e fazia tudo a seu redor ser tão bom que desejava isso ao resto do mundo, mesmo quando eles não merecem.

Oh, Caelum, não chore, o amor existe para todos, de todas as formas e sentidos.

Não chore, Caelum, não chore mais…

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