Dois
O Amor Pode Suportar
Janeiro, 2004
A típica tempestade se fazia presente na pequena cidade, naquela noite desgraçada e grandemente amaldiçoada uma criança foi destinada a nascer. Assim como uma estrela está destinada a morrer.
O Hospital Central Santa Clarete estava vazio, em uma cidade pequena não há tantos pacientes. A Dra. Ronan cumpria devidamente seu plantão, tempestades poderiam atrair acidentes e sua presença ali nessa madrugada é a segurança de que haveria atendimento se algo ruim acontecesse. Todavia, os funcionários do St. Clarete não aguardavam nada ruim, o vilarejo pequeno demais não tinha tantos acontecimentos assim. De qualquer forma, a doutora cumpria seu trabalho fielmente, caminhando pelos corredores só para checar se estava tudo bem com os poucos que ali estavam internados.
De repente, a sirene da ambulância soou ao longo aproximando-se do hospital, rapidamente o silêncio foi preenchido pelo choro alto enquanto raios e trovões faziam as luzes piscarem. Imediatamente a jovem mulher correu na direção do barulho, a equipe da ambulância entrava na emergência.
— Recém-nascido, foi encontrado abandonado próximo a Catedral, lesão grave na cabeça, grande perda de sangue. — O paramédico começou a lhe passar informações a respeito do estado da criança.
A Dra. Ronan rapidamente se aproximou do bebê que remexia-se e chorava descontroladamente, enrolado a uma manta suja de sangue e tremendo de frio, molhado pela chuva, seus batimentos eram os primeiros de muitos em sua vida – isso, se pudesse ser salvo pelas mãos daquela médica.
Havia nascido a pouco, os sinais eram claros. Os fios negros brotavam da cabecinha delicada, os olhinhos mal se abriam por causa das bochechas gorduchas que os faziam virar pequenos risquinhos. E o sangue escorria por todos os lados, fazendo a médica desacreditar na capacidade do pequeno ser tão frágil ainda estar vivo. O que controvérsia poderia ser um sinal de esperança.
Muito provavelmente o bebê sofreu uma queda brusca. O ferimento na cabeça que jorrava um sangue viscoso era deveras assustador, mesmo que já tenha lidado com diversas situações durante seus dez anos de carreira, jamais esteve diante de algo assim… que a abalasse completamente devido a tamanha dimensão. Às vezes é um tanto difícil separar o emocional do profissional, não poderia negar que seu coração estava acelerado e suas mãos planejavam tremer. Contudo, não podia dar espaço aos seus sentimentos, um bebezinho indefeso precisava de si, suplicava para ter uma chance de viver. Ainda tinha esperança e ela se agarraria a isso.
Respirando fundo, a doutora do St. Clarete fez seu trabalho. O diagnóstico não foi dos bons: lesão cerebral traumática.
O pequeno bebê em defesa entrou em coma e por longos três meses seu estado foi de extrema gravidade, foi submetido a cirurgias extremamente arriscadas no intuito de salvar sua vida. A Dra. Ronan não acreditava em Deus, mas se pegou orando. Todos no hospital se apegaram à comovente história do menino. Quando seus olhos se abriram e ele voltou a consciência, não seria exagero dizer que o hospital entrou em festa, principalmente quando seu novo diagnóstico era estável. Ele tinha uma chance. Sobreviveu. Mal saiu do ventre e já havia ganhado uma oportunidade de viver, mesmo não tendo ninguém e muito provavelmente deveria ir para a adoção.
Embora não pudesse compreender o que levava um ser humano a abandonar um ser tão indefeso, sabia que em milhares de lugares do mundo recém-nascidos e crianças são abandonados. Não é uma maneira triste de começar a vida? Sabendo que não são amados, tão pouco desejados… Bebês deveriam ser frutos de um amor consciente. Eles precisam de amor e cuidados para crescerem e se tornarem bons adultos.
A Dra. Loana Ronan o amou no instante em que o bebê foi colocado em seus braços, deu seu melhor para ajudar a pobre vida tão frágil e gravemente machucada. Lutou com o menininho para que ele sobrevivesse à lesão gravíssima, e o serzinho de olhinhos pequenos parecia estar determinado a viver, tamanha a força que suportou algo tão cruel. E sua esposa, Irina, o amou igualmente quando soube.
A decisão foi tomada, iriam adotar o bebê, pelo amor que as encantou e envolveram. Já estavam na fila de adoção há tantos anos, portanto não foi difícil conseguir a aprovação de um juiz. O chamaram de Caelum Ronan, e não teve um único dia em que não foram felizes enquanto o menino crescia. Embora soubessem que sua memória fosse como uma estrela, pois mais bela que seja, elas também morrem.
Mas tudo bem, não há nada que o amor não possa suportar.
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