Cinco
Conjure compaixão, acordos e possessões
Tanisha, a Médium
Quando a bruxa se afastou, percebi que havia selado nossos lábios. Um encostar suave e sobrenatural, o qual me levou para seu passado, onde pude enxergar tudo o que viveu antes da morte. Era surpreendente o fato dela amar Lorelei, não conseguia acreditar ou enxergar em seu ser, a possibilidade da bruxa diante de mim, nutrir algo tão bom por alguém. Mas era real, muito verdadeiro, conseguia sentir no arrepio da minha pele, nas batidas do meu coração, no sopro em minha alma.
Odessa a amou e foi retribuída na mesma intensidade.
A bruxa respirava pesadamente diante de mim, torceu o nariz quando pareceu entender o motivo por trás do brilho no meu olhar; imediatamente, afastou-se em passos rápidos e parou diante do fogo na lareira, suas mãos se fechavam em punho. Com furor, talvez? Não sabia ao certo, me encontrava paralisada.
O silêncio reinou naquela cabana, algo que definitivamente não aconteceu desde o momento que a bruxa foi conjurada, visto que suas risadas diabólicas estavam sempre ecoando pelo local.
— Acho que posso te dar uma coisa e em troca você me ajuda. — Propus depois de muito ponderar e dessa vez tinha plena certeza do que estava me metendo.
De fato, havia sido enganada pelo ritual milenar de Odessa e Lorelei, mas diante das novas circunstâncias, eu tinha que lidar com as minhas consequências e se possível encontrar uma maneira de conseguir o que tanto almejava. E sem dúvidas uma bruxa goética poderia me ajudar.
Necromancia[1] deverá ser fichinha para ela.
Odessa podia ser extremamente poderosa, mas entrar na minha mente a deixou vulnerável, isso me deu abertura para desvendar seus sentimentos. E agora sabia que não precisava temê-la, ela é horrível, é um fato irreversível, mas havia certa pequena dose de bondade dentro dela e só quem consegue chegar perto o suficiente pode ver. Talvez nem a própria fosse capaz de perceber esse lado existente dentro dela.
Levantei-me e caminhei lentamente em sua direção, parando atrás de si, próxima o suficiente para fazê-la sentir a minha presença, o calor emanando do meu corpo.
— Quer fazer um acordo com uma bruxa como eu? Pelo inferno, Tanisha, você é mesmo suicida! — Ela riu soprado.
— Talvez eu seja, já que sou capaz de qualquer coisa pela minha mãe, inclusive conjurar uma bruxa malevolente. Mas a questão é que, você, melhor do que ninguém, me entende, Odessa. Sabe exatamente como me sinto, pois também perdeu alguém que amava muito. Você está certa, temos muito em comum. — Confessei e a vi virar-se para queimar-me com seu olhar enraivecido, as chamas foliavam em sua íris.
— O que te faz pensar que tenho compaixão? — Rosnou entre dentes.
— Você ainda a ama e encaremos os fatos, sou uma médium, portanto posso te dar a Lorelei. E sabe, depois de tudo que vocês passaram, merecem isso. — As chamas em seus olhos tomaram ainda mais força, ficando mais claras em tons vívidos de alaranjado. — Posso deixá-la entrar, e… — Ergui um dedo para enfatizar o final da minha fala. — Posso permitir que a ame através do meu corpo.
Odessa riu, aquela risada mefistofélica que ecoava pelos cômodos da cabana. Posteriormente, avançou colérica e agarrou-me pelo pescoço, suas unhas afiadas fincavam-se em minha pele.
— Você… — Interrompeu a si mesma, engolindo seco, seus olhos estavam cravados nos meus. Touché. Estava certa e ela queria isso. Sua casca-grossa não poderia superar a minha proposta.
Subitamente, Odessa me beijou e levou alguns segundos para eu entender o que estava acontecendo. Sua boca avançou na minha inesperadamente e a única coisa que pude fazer foi retribuir. Era sobre o jeito que ela pedia passagem com a língua delicadamente, singela, sem toda a agressividade do seu ser; me cativava, derretia-me. Nós duas fomos lançadas pela sala de encontro a uma parede e mais uma vez naquela noite, ela mantinha-me sob seu controle, mas agora estava presa em seus braços que me abraçavam com força, circulando a minha cintura e implorando por muito mais.
Para minha completa surpresa, eu estava retribuindo, pior, estava gostando muito daquilo. Não queria que ela parasse. Agarrei seus cabelos vermelhos e fiz a minha língua dançar sobre a sua. Ela gemeu. Fiz uma bruxa maligna gemer na minha boca. Ela sentia meu gosto com volúpia, degustava de todo o sabor da minha saliva, toda a maciez da minha cavidade bucal.
Até que subitamente parou e se afastou de forma brusca. Estava com raiva de si mesma, não era só o amor que a enfraquecia, mas o prazer carnal também. Mal sabia que toda a humanidade era submissa aos prazeres da carne, fazia parte dos nossos desejos incontroláveis e possivelmente os mais difíceis de se ignorar. Sexo une as pessoas de diversas formas, nos faz conectar com nós mesmos. É benéfico e maléfico se em excesso, é uma dependência humana insaciável.
— Por quais motivos está cometendo esse sacrifício por mim? Não sei se ficou claro, mas sou um ser horrível, não mereço absolutamente nada. — Odessa não falava isso para ser merecedora de pena, era um fato extremamente claro para ela. Acho que às vezes ela se surpreende com a capacidade de receber algo bom vindo de alguém que prejudicou.
O problema de pessoas de coração bom, como eu, é que teimamos em enxergar bondade onde não há. Insistimos em encontrar algo bom nas piores pessoas. E eu queria focar nas coisas boas que encontrei dentro dessa bruxa. Precisava acreditar nela com todas as minhas forças, pois era tudo me restava. A minha última carta.
— Só acho que vocês duas merecem isso, foram condenadas injustamente, é claro que não eram boas garotas. Mas não tira o fato que ninguém deveria ter o direito de tirar a vida de uma pessoa, machucar ou desrespeitar outros seres humanos por causa de quem eles amam, ou do que gostam de fazer entre quatro paredes… Sei lá, você conseguiu sua libertação e Lorelei não está mais entre nós, de que vale tudo isso se não for para ao menos revê-la por algumas horas? — Dei de ombros. — Agora você vai viver num mundo onde pode amar quem quiser, ainda com rejeições e punições vindas da sociedade, mas não é mais como a época que você viveu. Poderá ser quem você é.
Lutar pela liberdade de amar é um direito que todos nós temos. Assim, saber que a bruxa diante de mim, foi morta por amar, me fazia querer ajudá-la. Era o mínimo que podia fazer por ela. E com isso esperar que o amor amenize sua crueldade, é tolo da minha parte, mas não custava nada nutrir esperanças.
Odessa ponderou por alguns segundos, encarando algo atrás de mim. Não tinha como recusar, era uma proposta irresistível.
— O acordo está feito. — Disse simplesmente.
— Prometa-me. — Pedi. Não sou tão idiota, sabia que não podia confiar nela. — Preciso que me dê a sua palavra. Minha compaixão não significa que acredito em você, porque não confio nenhum pouco.
Engraçado dizer quando cedi meu corpo para ser usado por elas. Não que eu estivesse achando ruim, longe disso. Me sentia deveras atraída por essa bruxa maldita e ser palco de transa para ela e a namorada morta, não me incomodava. O efeito era contrário. Estou excitada, ansiosa para isso. Não me julgue, sexo é muito pessoal. Seria apenas um bom prazer carnal. Pelo que podemos perceber, não estou mais preocupada com o que é certo ou errado faz muito tempo.
Odessa rosnou, rapidamente conjurou em uma de suas mãos uma adaga antiquada muito afiada, apoderou-se do punhal e cortou a palma de sua mão direita. O sangue veio rapidamente e num piscar de olhos ela estava diante de mim, forçando sua palma ensanguentada contra a minha boca. Inicialmente recusei, tentei lutar contra o gosto horrível e me afastar, sem entender sua real intenção.
— Não queria selar um acordo com uma bruxa, queridinha? Portanto, beba sem pestanejar. — Ralhou irritadiça, esfregando sua mão contra meus lábios.
Era isso…
Ela firmou o nosso acordo com sangue.
Agarrei a mão dela e forcei contra a minha boca, tomando cada gota de sangue que ela queria me dar. Nossos termos estavam selados.
— Agora traga-a para mim. — Ordenou.
— Preciso de algo que lhe pertencia e sei que você tem. — Encarei a pulseira em seu punho, possuía cristais azuis, era a única coisa no corpo dela que não pertencia a sua própria paleta de cores e não fazia par com as demais. Ela me encarou com afinco, mas sem questionar, prontamente retirou a joia e me entregou.
— É bom que saiba o que está fazendo. — Encarou-me com ainda mais seriedade.
— Sei muito bem o que estou fazendo. — Fortaleci.
Seguidamente, sentei-me em uma das cadeiras da cozinha e segurei o objeto em mãos, fechei meus olhos com força e acho que Lorelei já estava ali, só não tinha manifestado sua presença, pois num segundo que dei abertura, ela possuiu meu corpo.
Minha cabeça tombou para trás quando o espírito forte penetrou minha carne, prendi o fôlego e só soltei a respiração quando os olhos dela se abriram no lugar dos meus.
— Odessa. — Ela chamou e imediatamente a bruxa se fez presente.
— Minha Lorelei. — O reconhecimento foi imediato.
Senti as chamas ficarem mais fortes, a cabana tornou-se minúscula.
[1] Necromancia é uma prática de magia envolvendo a suposta arte de comunicação com o morto – quer por evocação de seus espíritos como aparições, visões ou erguendo-os corporalmente – com a finalidade de adivinhação, transmitir os meios para prever eventos futuros, descobrir conhecimento oculto, trazer alguém de volta dos mortos ou usar os mortos como uma arma.
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