Três

Conjure más decisões, pentagramas e gatos pretos

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Tanisha, a Médium

É claro que estava ansiosa para realizar o ritual, mas acabei adormecendo no sofá da sala abraçada ao retrato da minha mãe, enquanto ouvia a madeira estalando na lareira. Estava cansada da viagem e logo percebi a fome cantando no meu estômago. Decidi tomar um banho bem quente, daqueles que embaçam todo o banheiro com o mormaço e seguidamente comi do bolo e biscoitos que havia assado. Tinha o sabor exato dos que a minha mãe fazia, isso fez meus olhos marejarem, mas não chorei.

Devidamente limpa, cheia e descansada, decidi que era o momento para dar início ao culto. Ah, e o gatinho preto que carinhosamente chamei de Cillian, está devidamente bem cuidado, o alimentei assim que cheguei e ele se encontra dormindo entre os cobertores na cama de casal do quarto da minha mãe. Juro, ele está ótimo. Até gravei um vídeo fofo dele amassando pãozinho no edredom felpudo sob a cama. Estamos começando a nos entender.

Tirei o gigante tapete da sala, afastei os sofás, precisaria do máximo de espaço possível. Não era fácil preparar um ritual, sério. São muitos detalhes para considerar, como posicionamento de cada erva, flor e cristal. E também não foi nadinha fácil fazer um círculo perfeito com o sal grosso, ainda bem que trouxe muito.

Finalizei o desenho do pentagrama no chão; tirei o colar do meu pescoço cujo representaria o objeto do familiar e coloquei em sua posição; posicionei cada ingrediente em seu devido lugar e peguei Cillian no colo, interrompi sua soneca de 24 horas para levá-lo para o centro do pentagrama. Óbvio que ele tentou me arranhar em todo o processo, pois me odeia e lembrou-se devidamente disso quando o incomodei. Mas curiosamente, quando o coloquei no centro do ritual, ele apenas permaneceu, sentou-se e ficou imóvel, apenas piscando seus gigantes olhos amarelados para mim e observando cada passo que eu dava.

Ok. Bizarro.

— Prometo que não vou te ferir, amigo. Você é apenas um corpo ao qual dará origem a um novo, depois dessa maluquice, serei uma excelente dona para você. — Garanti ao bichano, não concordo com o uso de animais em rituais, mas estudei o suficiente para saber que ele não irá se machucar, do contrário não efetuaria o culto.

Cillian apenas servia como cópia. Pelo que entendi, precisávamos de um corpo para ser clonado, assim o conjurado poderia usar o clone como uma espécie de concha, onde guardaria sua alma.

“Não faça isso”, ouvi uma voz indecifrável quando peguei o Grimório tão velho que se despedaçava gradualmente.

Eu sentia a presença de entidades e espíritos a todo momento, os via, ouvia e até mesmo podia tocá-los. Imagino o quanto seria difícil lidar com todo esse universo se não tivesse o apoio e conhecimento dos meus familiares. Felizmente, fui criada desde sempre para lidar com a realidade de ser médium, portanto era fácil para mim.

— Gente, com todo respeito, me dê um tempo, ok? Depois do Yule ajudo vocês, mas hoje preciso resolver os meus problemas. — Disse para os espíritos ao meu redor, que provavelmente estavam tentando me impedir ou talvez buscando por atenção. — Não se pode mais tirar férias? Hello, é Natal!

“Tanisha, é um erro!”

— Eu sei, gente. Mas lembra do livre arbítrio? Pois é, estou usando o meu agora. — Respondi, enquanto consultava no fórum wicca qual era a página do ritual. — Vocês morreram e esqueceram que o meu ticket de liberdade de escolha ainda está ativo, eu hein. Foram vocês que perderam os seus!

“Não é brincadeira, menina. Respeite-nos”, sabia que não podia ficar fazendo piadinhas, isso de mediunidade é muito sério e se tem algo que aprendi desde cedo é respeitar as entidades.

— Ai, nossa, é só uma brincadeirinha, vocês estão mortos mesmo. Que saco. — Resmunguei, com a falta de humor dessas pessoas. Me ver por fora é certamente icônico, pois estou sempre falando “sozinha”.

Um espírito passou por mim, fazendo as páginas embaralhar a todo instante que conseguia achar a página 13.

— Sério, me deixem em paz! — Ralhei.

“Nós temos que te proteger, Tanisha”, essa aí é a Susie, uma velhinha. Sério, ela grudou em mim e o pior de tudo é se tratar de um caso aparentemente sem solução, até hoje não consegui descobrir como ajudá-la. Parece que a alma sofreu amnésia pós-morte, não se lembra de nada sobre a sua vida, só está presa, não consegue encontrar o caminho da luz. Pobrezinha. A melhor parte é que ela se tornou uma melhor amiga para mim.

— Juro que não estou precisando de nenhuma proteção agora. — Contrapus.

— Por Bastet, como você é burra! Humanos são definitivamente um bando de patetas. — O gato falou e isso me fez parar tudo que estava fazendo para encarar o animal, que após proferir suas ofensas, se dispôs a lamber elegantemente uma de suas patinhas frontais.

— Você fala? — Indaguei, pasma. Sério, minha alma saiu do corpo.

— Sua raça é ridícula, humana. — Ele respondeu, praticamente virando os olhos para mim. — Quando é que vocês vão deixar os animais em paz? Tem que ser muito descarada pra trazer um fofinho como eu para um ritual satânico. Bitch!

Pisquei os olhos várias vezes, completamente atordoada, o gato deitou-se e miou, foi quando percebi estar delirando. É claro que ele não fala. Não seja idiota, Tanisha.

“Pare com isso enquanto há tempo”, disse Susie.

— Não posso parar. — Repeti para mim mesma e me dispus a procurar a página novamente.

Segurando o livro um tanto pesado, assim que me certifiquei de estar no ritual certo, peguei a lâmina que havia trago e cortei a palma da minha mão. Urrando de dor, deixei o vermelho viscoso escorrer e encher a tigela de vidro em uma das pontas do pentagrama. Era um altar e essa era a minha oferenda.

O clima mudou. Estava funcionando e era só o começo. A próxima etapa seria definitiva.

Comecei a ler as profecias irlandesas.

Komdu aftur, þann sem er fastur

Traga de volta, aquele que está preso

Ég bið guði myrkursins

Imploro aos Deuses da Escuridão

Megi hann sleppa þeim sem var drepinn að ósekju

Que liberte aquele que foi morto injustamente

Færðu það aftur upp á yfirborðið

Traga-o de volta para a superfície

Og gefðu honum aftur lífið sem frá honum var stolið

E devolva-o a vida que lhe foi roubada

Ég býð þér líkama og altari

Ofereço-lhes um corpo e um altar

Não estava chovendo, mas ouvi trovões soando. Uma ventania começou a uivar do lado de fora da cabana. De repente, Cillian saiu do circo em disparada e correu pelo corredor da cabana, escondendo-se em um dos quartos – longe o suficiente do ritual que acontecia aqui. Surpreendentemente, uma cópia dele permaneceu no local que ele estava. O gato preto havia sido clonado e obviamente, aquele novo ser, não era um simples gato comum. Os olhos do animal assumiram a cor de sangue e posteriormente começou a dar forma e vida a um ser.

Uma sensação pavorosa se apoderou do meu corpo, meus ossos chacoalharam em tremelique, estava gélida, morta, paralisada. Meu coração não ousou bater, meus pulmões decidiram que não valiam a pena respirar. Conforme a criatura se moldava, fui me colocando de pé lentamente, me encontrava horrorizada, pálida e muda. Não me pergunte como fui capaz de me manter de pé, mesmo de pernas bambas.

A cada segundo ficava mais nítido a silhueta de uma mulher, desnuda, jovem e extremamente bela. A casca endemoniada deixava seu corpo para exibir sua aparência humana, quer dizer, se é que podemos chamar isso de humano, pois ainda que se assemelhasse a um, suas características condiziam notadamente com um ser sobrenatural. Sua pele é extremamente gélida, os cabelos são cor de fogo, os olhos vermelhos como sangue e cada detalhe do seu corpo era extremamente esculpido. Ela era uma arte em mármore.

Ao seu redor, uma névoa piche a rodeava, revelando-as gradualmente. O clone de Cillian já não mais existia, é como se ela tivesse vindo através dele. Uma alma numa casca.

Para minha surpresa e completa desgraça…

Essa mulher é tudo, menos a minha mãe.

Seus olhos bem abertos estavam o tempo todo sobre mim, devorando a minha alma. Sentia o fogo de suas orbes queimando a minha pele. Assim que se materializou completamente, abriu um sorriso perfeitamente diabólico e uma risada maldosa escapou da sua boca.

— Você cometeu um erro tremendo, minha queridinha. — Ela disse, com sua voz aveludada, cheia de presença, arrepiou-me dos pés à cabeça.

— Meu Deus! — Engoli seco, incapaz de formular frases.

— Ah, por favor, poupe-me. Deus, queridinha? Sério? — O ser rosnou, claramente irritada com o ser celestial citado. — Deus não pode te ouvir agora.

Rapidamente ergueu uma de suas mãos na minha direção, fui atirada ao ar, batendo com tudo contra uma parede. O ar escapou dos meus pulmões e a dor invadiu meu corpo, não conseguia respirar, pois parecia apertar a minha garganta. Meus pés não tocavam o chão, estava erguida por sua telecinese, presa.

— Agradeço imensamente por finalmente ter me libertado, já fazem mais de 370 anos. Pensei que nenhum tolo jamais cairia na armadilha, mas subestimei a burrice humana. Vocês continuam os mesmos… — Riu.

— Q-quem é v-você? — Indaguei no automático, custando a formular as palavras. Buscava desesperadamente por ar, enquanto apertava ainda mais a minha traqueia.

— Oh, me desculpe, como poderia me esquecer dos cumprimentos cordiais. — Sorriu, bela e perfeita. — Meu nome é Odessa, sou uma bruxa muito má, completamente apaixonada por magia goética[1] e estou pronta para fazer da sua vida um verdadeiro inferno.

Engoli seco.

— E-eu n-não sou uma b-bruxa. — Murmurei, arrepiada. Evidentemente não sabia o que dizer diante daquele momento.

Ela revirou os olhos e suspirou.

— Ah, é claro que não, meu amor. Você é uma médium ridícula com um segredo poderoso preso na alma e que achava poder lidar com uma bruxa do meu patamar. Pobre engano! — Aproximou-se sutilmente, os pequenos seios nus balançando-se sutilmente, desfilava como uma fada, mas realmente não parecia ser boa como uma. — Diga-me, Tanisha, não sabia que estava sendo enganada? — Indagou, pronunciando meu nome com desdém. — Fiquei bastante interessada na sua historinha desgraçada, confesso que quase me surpreendeu, mas pensei melhor, você é um tédio, é por isso que resolveu perturbar a sua mãe, não é? Não tem nada melhor para fazer. Sorte sua que sou muito, muito divertida!

A ironia exalava em cada frase dita por ela.

— Não fala assim da minha mãe. — Pedi, incomodada. — Aliás, c-como você sabe m-meu nome?

Ela revirou os olhos mais uma vez, completamente entediada. O ser descolou meu corpo da parede e o rodopiou pela sala como se não fosse nada, colocou-me contra o teto e deixou que meu corpo caísse. Fui ao encontro do chão, tudo doía. Dessa vez livre para me mover, me contorci de dor.

— Não deu pra perceber que sou a pior bruxa de todos os tempos? Seu nome é apenas um detalhe, queridinha. Sei absolutamente tudo sobre você, desde o segundo que meus olhos encontraram os seus, queimei a sua alma por inteiro, li cada minúscula cinza que restou. — A bruxa finalizou com uma risada maléfica. — Agora, se quer um conselho, responderia às minhas perguntas. Você não quererá me ver irritada.

Engoli seco, enquanto a observava, parada diante do meu corpo no chão. Ela ainda não estava irritada? O que foi que eu fiz? Como assim conjurei uma bruxa ao invés da minha mãe?

— E-eu só queria rever a minha mãe. Me falaram que era um ritual de conjuração de ente morto. Juro, só queria passar o Natal com ela… era… era tudo que mais queria. — Revelei, embora já devesse saber, mas já que queria ouvir as palavras.

Odessa riu, alto e maléfica como os vilões de filmes.

— Oh, pobrezinha, é mais tola do que poderia imaginar. — Abaixou-se diante de mim. Sua mão era enfeitada com imensas unhas pintadas de preto, afiadas como as de um gato. — Lamento tanto, queridinha.

Me afastei de seu toque quando tentou acariciar meu rosto.

— Bom, nós não temos muito tempo e já que você conseguiu me libertar, nada mais justo que te conte a minha história. Afinal, você quer saber no que se meteu, não é? — A bruxa me encarava e juro que as cores em sua íris dançavam como chamas.

É claro que queria saber o que libertei, assim assenti freneticamente. Odessa ergueu-me ao ar novamente e me jogou contra o sofá, onde cai sentada, juro que detesto quando ela faz isso. Movendo suas mãos no ar ao redor do seu corpo, teceu um vestido lindo, de cor preta, com mangas bufantes, detalhes em renda e extremamente elegante. A roupa cobriu seu corpo nu, deixando-a ainda mais bela. Seus cabelos foram presos num penteado de época, com pequenos fios soltos dando um charme. Joias enfeitaram-na, eram compostas de prata e possuíam gigantescos cristais de rubi. Ela era o próprio demônio. Muito bela. A perfeição era pouco para defini-la.

— Gosta do que vê. — Ela diz, não era uma pergunta.

Engoli seco. O que eu podia fazer? Essa bruxa me dava calafrios, sem dúvidas. Arrepios de medo e pitadas quentes de sedução. Afinal, não podia ignorar o meu lado lésbico diante de uma mulher tão bonita. Era impossível conseguir lutar contra, estava enfeitiçada. Não sei se é ela entrando na minha mente e hipnotizando-me, ou se é algo natural que exala dela e encanta-me.

— Você é muito bonita. — Observei em voz alta, me arrependendo imediatamente. A gente fica tão bobo diante de pessoas que nos atraem.

— Eu sei. — Sorriu com os lábios cobertos por batom cor de vermelho sangue. — É impossível resistir, não é? — Cautelosamente caminhou até mim, eu tremia de medo. — Não fique tão apavorada, Nisha, nós só vamos nos divertir.

Odessa se curvou sobre mim, sentada sobre o sofá, seu rosto ficou diante do meu, tão perto que o calor de seu hálito batia em meus lábios. Meu corpo inteiro ficou arrepiado.

— Acredite, queridinha, nós temos tanto em comum. — Disse roçando nossos lábios. O que está fazendo? Não consigo me mover e dessa vez não era o poder dela que me impedia. — E eu sei que você vai amar as minhas intenções. Acho que sou eu quem sou a sua salvação, queridinha.

Encarei seus olhos enquanto suas mãos vinham para meu rosto, segurou-me assim como Brynja fazia quando queria ler meus pensamentos, não me esquivei. O que ela queria dizer com isso de termos coisas em comum? Não conseguia imaginar o que poderia ser.

E nem esperava pelo que estava por vir.

Os olhos da ruiva ficaram mais intensos e seu rosto mudou, tornou-se sombrio, com veias escuras pulsando debaixo de sua pele, seus olhos ficaram completamente pretos quando ela me puxou para dentro da sua alma.

 


 

[1] A goécia ou goétia, ainda também magia goética, é um nome para práticas mágicas que são vistas como não naturais, proibidas ou diabólicas quando contrastadas com a teurgia.

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