Epílogo

Conjura-se uma vampira safada

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25 de Dezembro de 2022

Odessa, a Bruxa

A libertação é de fato um presente muito bem apreciado em meu perfeito final feliz. Depois de mais de 370 anos trancafiada, enganar aquela médium de meia tigela não foi nada difícil. Na verdade, foi bem divertido e prazeroso. Oh, se foi.

Não consigo dizer do que mais gostei, se foi rever a alma da minha namorada ou se foi degustar do corpo de Tanisha e todas as suas habilidades lésbicas na cama. Sinceramente, acho que dessa vez a minha ex perdeu.

O que me fez pensar naquela maldita médium por todo esse tempo até agora. Me fez desejá-la por todas as noites da minha libertação até aqui. E agora me encontrei desesperada para conseguir trazê-la de volta. Era ridículo, depois de tudo, não sentir desejo por nenhuma outra mulher desse mundo, senão ela.

Ora, não me odeie. Estou fazendo o que sei melhor fazer, ser má. E nesse momento, estou exercendo toda a escuridão que há em mim.

Coloco o gato branco no centro do pentagrama, ali o animal permaneceu imobilizado. Do outro lado da sala, meu gato encarava-me com ódio. Ai que lindinho meu neném com ciúmes. Fui até ele e ignorei seus protestos quando o agarrei no colo e enchi de apertos e carícias.

— Cillian, meu amor, você ganhou um irmãozinho. Fala “oi”, pro Eimhin. — O gato cedeu aos poucos, gradualmente ronronou para mim. — Está pronto para rever a sua médium maldosa, uh? Aquela que te usou para me trazer de volta.

Pela sua expressão, ele não está nenhum pouco contente.

Desde que bani Tanisha para o além, Cillian se tornou meu tudo. Estão surpresos? Não sei o motivo, eu amo gatos pretos e sinceramente, os animais são os únicos seres que merecem meu amor – vamos esquecer o fato do passarinho que matei quando conheci minha ex-namorada, foi só daquela vez, sério. Mas o Cillian é uma exceção, como poderia machucar o animalzinho que contribuiu para que me trouxesse de volta à vida? Assim nos tornamos muito amigos e ele está devidamente bem feliz. Ganhará até companhia agora.

Minha família está crescendo e só está faltando alguém para completá-la. O que nos faz voltar ao que interessa…

Cortei a palma da mão com a minha adaga favorita, já tinha o último ingrediente necessário, meu sangue. Em seguida, o ritual começou a ganhar vida. O gato foi duplicado para que subitamente ela retornasse para o mundo dos vivos, renascendo das trevas.

A energia caótica me possuiu, o ritual tomava força e forma, meus olhos flamejavam, apreciando cada detalhe da cena que se constituía lentamente diante de mim.

— Olá, minha queridinha. — Saudei a garota de cabelos volumosos salpicado de cachos selvagens, seu rosto me encarava com pura fúria, os olhos agora de cor vermelho sangue me atraiam sedutoramente. — Faz tanto tempo, fiquei com saudades, como foi a sua temporada lá no…

Ela não era mais a mesma, aquela Tanisha se foi e deu lugar a um dos seres mais perigosos e temidos. Num piscar de olhos, ela estava sobre mim, agarrando meu pescoço. Ora, ora, os papéis estão invertidos nesse Natal.

— Vou sugar cada gota do seu maldito sangue, sua vadia! — Ralhou contra meu rosto, enquanto me sufocava com suas mãos fortes.

Encarei-a com uma feição que exalava orgulho.

— Tanisha, vamos deixar a vingança para outra noite, é Natal! — Ri, debochadamente. — Vamos, sei que você quer me agradecer. Jair me disse que você se tornou uma vampira terrível. Estou tão orgulhosa de você!

— Era esse o seu plano, bruxinha maldita? Queria o tempo todo ativar a minha maldição? Vai explicando por que me mandou pro abismo quando era você quem deveria ter sido enxotada de volta para lá! — A vampira gritou na minha cara, apertando-me mais e fazendo-me quase não respirar, como se eu precisasse de oxigênio para ficar viva, icônico.

Por Hades, ela se tornou uma obra de arte obscura. Tanisha ficou perfeita. Ela era tão má, podia sentir o quão terrível era em cada célula do seu ser. Criei um monstro perfeito.

— Não ficou claro, queridinha? O ritual da Lorelei não garantia que eu ficaria aqui para sempre, para quebrar meu elo com o abismo, alguém tinha que ir no meu lugar. Te mandei para lá, para que finalmente se tornasse o que você nasceu para ser. Uma vampira. Uma híbrida incrível com talentos médiuns super aprimorados. Uma arma. A minha arma. Tanisha, nós temos o mundo para destruir juntas. O meu maior desejo desde que, fatalmente te matei, era te trazer de volta e eu consegui, amor, parabéns para mim, você está livre! Agora, podemos pular para a parte boa? Aquela que você coloca a boca entre as minhas pernas, sabe? — Expliquei de bom grado, toda trabalhada na paciência.

A vampira rosnou, furiosa e arrastou-me pelo pescoço, atirando-me no chão. Cillian, estranhou a criatura que ameaçava sua dona e até rosnou, mas ela lhe lançou um olhar matador, cujo fez o bichano sair correndo de medo na companhia de seu novo irmão.

Os felinos se entendem, simples assim. E eu estava preocupada em me entender com a minha gata.

Agora, a médiunzinha medíocre que conheci, era ainda mais poderosa. Com a transformação, seus poderes espíritas ficaram ainda mais apurados, podendo fazer ela até mesmo ler mentes, sentir as sensações, intenções ou até mesmo perceber uma mentira com muito mais facilidade. Poderia fazer conexões espirituais muito além de um médium comum. Jair ensinou tudo a ela, coisa que em vida, seu avô a privou por tanto tempo. E conhecimento nos tornam uma arma ainda mais fatal.

Eu estava transbordando orgulho. Tanisha é a minha obra-prima.

— Sua arma? Você acha que sou seu fantoche? Que só porque me transformou nisso, irei ficar à mercê dos seus caprichos? Deixando a vadia da sua namoradinha me possuir para que se divirtam? Sinto lhe informar, isso não vai acontecer. Não deixarei você ter nenhum controle sobre mim, Odessa! — Cuspiu todas suas palavras colericamente.

Inclinei meu rosto na sua direção, puxando-a pelos cabelos e trazendo para próximo de mim, encarando-a com seriedade para dizer:

— Não te trouxe de volta para me divertir com Lorelei, eu trouxe porque quero você, Tanisha. Quero que seja a minha parceira no crime por livre e espontânea vontade. Esteve fora por tempo demais, não tem noção do que aconteceu, ou de quem apareceu. — Agora que ela conseguia ler mentes, sabia que estava me referindo ao psicopata do seu pai. — Temos lutas para travar juntas. Meu plano sempre foi descobrir como te tirar de lá, eu sou má, mas não injusta, tinha uma dívida com você por me libertar.

A vampira vacilou um pouco, sentindo e acreditando em minhas palavras.

— Me valoriza, queridinha, não é toda bruxa má que faz loucura de amor! — Aticei, rindo.

— Sua desgraçada! — Xingou e montou sobre meu corpo, imobilizando-me ao segurar meus pulsos contra o chão. — Chama isso de amor? Eu te odeio! Não vejo a hora de acabar com a sua raça, vadia!

— Oh, sim, isso está ficando interessante. — Me diverti e a vi rosnar mais uma vez, exibindo o par de presas lindas que ela ganhou graças a mim.

— E você acha mesmo que terei compaixão como quando eu era uma humana idiota? — Seu rosto assumia uma expressão completamente feroz, como de um animal selvagem, veias escuras tremiam em sua face. Aquilo estava me enlouquecendo, sonhei com essa garota por todos esses 365 dias que passamos separadas. Ela era a minha vampira e eu a queria à mercê dos meus caprichos. — Me transformei e você me deixou naquele fim de mundo, sem uma gota de sangue sequer. Acha mesmo que estou preocupada com a sua vagina quando essa veia pulsante no seu pescoço me parece ainda mais suculenta?

Rolei os olhos, entediada com essa ceninha de ódio, vingança, inimigas e blá-blá-blá. Podemos ir direto para o lovers do enemies to lovers?

— Não quero sua compaixão, vampirinha, eu quero a sua boceta, deu pra entender? — Ralhei, começando a ficar irritada. — Se para isso preciso te dar cada gota do meu sangue, sirva-se logo. A ceia está sob a mesa. Se delicie rápido, para podermos pular para a sobremesa.

Ela encarava o fogo nos meus olhos e sabia que, no fundo daquele novo ser, cheio de fúria, estava a anciã por me ter. Tanisha queria tanto quanto eu. Nós nos odiávamos na mesma proporção que sentíamos uma atração colossal uma pela outra. E não dava para ignorar. Tão pouco é possível entender. Só era assim que a gente se odiava e amava ao mesmo tempo.

— Eu te odeio, Odessa, juro! Te odeio com todo o meu ser! — Ela gritou, apertando ainda mais os meus pulsos, mas movendo levemente seu quadril sob a minha pelve. Acho que vocês se lembram que quando ela me conjurou, voltei ao mundo sem nenhuma peça sequer de roupa. Pois bem…

Era a minha vez de ser prisioneira de todo seu poder e sua sedução.

— Não te contaram? O ódio e o amor seguem uma linha tênue. — Sorri gentil, meu corpo ansiava pelos seus toques. — Me odeie, queridinha. Mas faça isso enquanto geme meu nome e prova do meu mel. Quem sabe eu te mostre mais alguns truques de mágica que posso fazer com os dedos e a língua. Estamos entendidas?

O vermelho sangue em seus olhos, cintilou. Eu sabia que ela não iria resistir. A verdade é que, não importa o quanto ruim sejamos uma para outra, iriamos nos entender.

Tanisha odiou a si mesma, mas não conseguiu evitar, num movimento rápido ela cravou seus dentes em meu pescoço, arqueei o tronco com a dor. Ela me manteve presa enquanto tomava goladas imensas do meu sangue quente. Aquilo me excitava de um jeito enlouquecedor. Minha vampira safada tomou do meu sangue. Não se engane, ela não estava se vingando, não mesmo. Estava me tomando para si, alimentando-se de sua amada enquanto deliraríamos de prazer. E foi o que fez, após saciada, afastou-se com a boca escorrendo rubro e os dentes manchados, um sorriso diabólico preenchia seus lábios. Minha médiunzinha perdoou-me com gestos, mais especificamente com a boca. Deu pra entender né, queridinhes? Foi um Yule imensamente especial, não fazem ideia.

Contudo, finais felizes não existem para garotas más.

Mas caos, dor e destruição, certamente podem ser provocados eternamente por uma bruxa goética e sua vampira safada e maldosa.

Fique atento, nunca se sabe quando estaremos te vigiando no escuro.

Espero que tenha um feliz Natal, e… cuidado com o que você deseja, pois pode acabar conjurando-me.

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