Dois
Conjure constelações, luzes do norte e lembranças
Tanisha, a Médium
O gato me odiava, muito provavelmente por sentir minhas reais intenções em adotá-lo. Não quero e nem vou machucá-lo, mas ele está claramente assustado e também estou começando a ficar. É que a próxima parada é na cabana da minha família, onde finalmente tornarei tudo que planejei real. Como não ficar apavorada com o que eu estava prestes a fazer? Só de imaginar rever a minha mãe, meu coração se alegrava. Era dor e felicidade simultaneamente. Se tudo desse certo, passaria o meu Natal com ela e finalmente poderia ter uma consciência tranquila em relação aos fatos bizarros do seu falecimento.
Quando mamãe morreu, eu realmente era muito nova, tinha apenas 7 anos. As memórias que me restaram dela, resumem-se em apenas borrões, pouca coisa restou na minha mente. Esse era um dos motivos que mais me movia a fazer o ritual para revê-la.
Mais cedo, quando peguei o táxi para ir ao aeroporto, Brynja estava comigo.
— Nisha, eu pensei melhor, deixe-me ir contigo. — Pediu, para minha surpresa. Esperava que ela fosse ficar o mais longe possível dessa burrada.
Entretanto, a conhecia muito bem. E Brynja não queria me ajudar, e sim, me impedir.
— Sabe que não posso permitir, Bry. Mas agradeço imensamente por tudo. — Por que é que sentíamos que era uma despedida? — Estarei de volta após o Samhain[1].
Ela assentiu tristonha e seguidamente abraçou-me com todas as forças. Afastou para segurar meu rosto com as duas mãos e olhar no fundo dos meus olhos.
“Você sabe que eu te amo”, sua voz soou na minha mente. Gostávamos de nos comunicar assim, sussurrando em mente. Bry conseguia entrar na minha ler os meus pensamentos e transmitir os seus.
“Eu sei, você é a irmã que não tive”, respondi e não sei por que, mas sinto que isso a incomodou visto que abriu um sorriso amarelo.
— Até logo. — Me afastei e por fim entrei no táxi.
— Se cuida, maluca. E vê se volta para casa. — Ela sorriu e acenou. Pude vê-la através da janela do automóvel.
O carro deu partida e deixei o lugar em que cresci sem olhar para trás.
Não acho que verei Brynja novamente.
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Agora estava diante da cabana que transbordava lembranças afetivas, elas me machucam como facadas, mas um dia já foram tudo o que tinha. Foi aqui que estive pela última vez com a minha mãe. Nossa família e amigos bruxos vieram para cá e passamos as festas de fim de ano comemorando. Dançávamos em volta da fogueira, apreciamos a natureza, era um banquete de felicidade. Depois da sua morte, viemos poucas vezes até aqui. É doloroso para todos, quando seus sentimentos são tão profundos é insuportável lidar com o fato de perder a pessoa que tanto ama. Nada é como antes, embora você tente ignorar, a falta que essa pessoa faz é palpável. Não tinha mais sentido vir fazer comemorações se ela não estava aqui para comemorá-las conosco…
Como pode alguém não existir mais? Nem mesmo no mundo espiritual onde estou inserida? A morte é completamente maluca. Talvez ela pudesse me contar o que meu avô tanto me esconde.
Fui obrigada a ignorar meus pensamentos profundos enquanto encarava a estrutura grande e bonita de madeira, atrás da casa havia uma densa floresta de pinheiros e o restante era branco, tudo era gelo. O frio estava queimando as poucas partes expostas de pele. Afundei minhas botas na neve, destranquei a porta e entrei de encontro às memórias que mais me feriam.
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A primeira coisa que precisei fazer foi acender a lareira com a pouca madeira reservada ali, em seguida necessitei novamente encarar o frio para conseguir mais matéria-prima. Não dava para ficar sem fogo e o aquecedor portátil era inútil diante do frio da ilha gelada. Agora no inverno, as luzes do norte[2] iluminavam o céu praticamente o dia todo. Portanto, valia a pena sair para tomar ar fresco e contemplar a arte da natureza. Era lindo, uma verdadeira pintura no céu.
Caminhando com dificuldade por parecer um balão ambulante de roupas de frio, fui até um vizinho a algumas casas de distância, ele vende lenha, o que tornava tudo mais fácil. O senhor já de idade me trouxe de volta em sua caminhonete, ajudando-me a guardar a madeira. De volta em casa, dei força ao fogo, atirando as lenhas nas chamas. Arrumei todo o ambiente, conforme mamãe gostava, deixei bolo de frutas e biscoitos de nozes assando no forno enquanto faxinava. Levou algumas horas, mas logo tudo estava iluminado por lampiões e pronto para ser enfeitado para o Natal. Precisei ir até o sótão, carreguei as imensas caixas de enfeites até a sala, onde comecei a enfeitar devidamente.
Árvore de Yule destacava-se, conforme fazíamos no intuito de agradecer e atrair abundância, com velas, alimentos, flores, frutas, bolas coloridas, símbolos fálicos relacionados ao Deus e o Pentagrama (que é atualmente tido como símbolo da Bruxaria, mas que, na verdade, não é exclusivo desta, pois ele é usado por diversas tradições espirituais e religiosas).
As guirlandas, o azevinho, a Tora de Yule queimando no fogo, tudo é uma maneira celebrativa de homenagear os elementos, agradecer ao Espírito do local e pedir Sua proteção. É, na verdade, um ato de puja.
Na noite do Yule, nós acendemos todas as velas da árvore, fazendo um pedido para cada vela acesa de acordo com sua cor, cantamos e dançamos ao seu redor, festejando e honrando os Espíritos da Natureza e o Deus em Sua forma infantil, a Criança da Promessa, que renasce nesse dia.
Era sempre mágico e lindo, mamãe amava, essa é a época do ano que seu sorriso não ousava deixar seu rosto nem por um segundo. Era isso, a saudade. Não dá pra explicar. É claro que com o tempo você passa a suportar tudo, lidando melhor com a perda. Mas a morte de alguém é sempre um buraco, uma ferida feia que jorra sangue constantemente e jamais irá se cicatrizar. Às vezes o sangramento cessa, mas é somente para voltar a sangrar e te fazer lembrar que a dor vai te perseguir para sempre.
Quando alguém que você ama morre, a morte dela se torna parte importante do seu ser. E com a dor vem a evolução, é o que dizem. Mas se estou evoluindo com as minhas perdas, o que estou fazendo aqui agora? A verdade é que possivelmente eu nunca segui em frente, porque éramos só nós duas, nós éramos o universo uma da outra. Mesmo tendo tantas pessoas ao nosso redor, era sobre mãe e filha. Quando Davina se foi, fiquei sozinha e mesmo rodeada de espíritos, continuo me sentindo a cada segundo mais só. E acho que isso está corroendo a minha alma. Seres humanos não foram feitos para suportar a solidão.
Acho que o que mais doía era não poder me comunicar com ela. Consigo falar com entes de pessoas queridas todos os dias, era tão injusto não poder ter o mesmo. Eu teria crescido com a minha mãe, mesmo diante das circunstâncias e sentido a sua presença comigo o tempo todo. Mas depois que ela morreu, simplesmente desapareceu, como se nunca tivesse existido.
Em uma das caixas, encontrei uma foto dela. Éramos pouco parecidas, mas quem olhava via que se tratava de mãe e filha. Seus fios eram mais lisos, enquanto meu cabelo era de cor avelã, compridos e cheio de cachos perfeitos, optei por um corte cheio de camadas para dar mais volume e curvas, um visual mais selvagem. Já Davina sempre deixava seus cabelos curtos para manuseá-lo mais facilmente. Meu rosto é salpicado de sardinhas fofas – mamãe as chamava de constelações –, os olhos são cor de terra e de pele bronzeada.
Não éramos nativas da Islândia, minha mãe mudou-se para lá quando era criança, vinda do México. Por isso possuímos características físicas diferente dos demais, cujo em sua maioria são extremamente claros e loiros.
Juro que nos via em diversos cenários daquela cabana, como uma lembrança em formato de fantasmas. Abracei o retrato quando nos vi sentadas diante da árvore de Yule, naquele último Natal que tivemos juntas, ela não comprou um presente. Mamãe me deu o colar que jamais havia tirado de seu pescoço. Era uma relíquia antiga de família, que prometia proteger o portador contra-ataques espirituais. Passava de geração em geração na família Liadain. Era lindo, de prata, com esferas de esmeraldas e rubis.
— Assim sempre estaremos juntas, mesmo quando não estivermos ao alcance uma da outra. — Mamãe disse, enquanto eu encarava a esfera brilhante representando a galáxia, as pedrinhas de esmeraldas e rubis eram como estrelas.
Se soubesse que era uma despedida, teria a abraçado com muito mais força e dito milhares de vezes que a amava com todo meu ser.
Se eu soubesse…
Ela não teria saído por aquela porta.
[1] Samhain é o festival em que se comemora a passagem do ano. Marca o fim do ano velho e o começo do ano novo. Se inicia o inverno, uma das duas estações do ano dos celtas.
[2] As luzes do norte são um evento natural que acontece no hemisfério norte, também conhecido pelo nome de aurora boreal ou aurora polar.
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