Sete

Conjure verdades, mortes e abismos

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PARTE III

Eles costumavam gritar meu nome,
agora eles o sussurram
— Yellow Flicker Beat, Lorde

 

 

Tanisha, a Médium

Quando abri meus olhos, reconheci de imediato o local em que me encontrava. Minha alma foi traga até o quarto da minha melhor amiga. O mural de fotos bem ao lado da porta indicava os rastros de que vivi uma vida sendo muito amada por ela e sua mãe. Fotos nossas em diversos momentos que passamos juntas, me fizeram ficar ainda mais triste por estar morta.

Brynja estava sentada em sua escrivaninha, relatando seu dia no diário, como de costume, quando subitamente sentiu a minha presença e imediatamente levantou-se e virou na minha direção.

— Nisha? — Arregalou os olhos ao perceber que, agora, sua melhor amiga era um espectro. — Ai meu Deus, Nisha! — Lágrimas invadiram os olhos de Brynja e ela tentou correr até a minha direção, mas parou no meio do caminho, quando sua mente a alertou que não poderia me tocar.

— Brynja… — Sussurrei, entristecida com a minha morte. — Deu tudo errado, como você pode imaginar.

— O que aconteceu? — Seus olhos se arregalaram.

— O ritual era falso, uma emboscada para libertar uma bruxa terrivelmente maldosa. Ela prometeu-me que me ajudaria com a minha mãe, mas suas palavras não passaram de mais engano e eu caí gentilmente. Ela me matou…, mas… — Estreitei os olhos, encarando minha melhor amiga. — Odessa disse que a única coisa que poderia me dar, era alguém cujo pudesse me dizer a verdade.

Brynja engoliu em seco enquanto a encarava desconfiada, sabia o que isso significava.

— Acho que esse alguém, sou eu, não é mesmo? — A wicca respondeu, respirando fundo e soltando os ombros. — Juro que não te trai, Tanisha, só não cabia a mim te contar. Até pouco tempo eu não sabia a verdade.

Nunca mentir ou esconder algo uma para a outra. Jamais quebrar uma promessa. Eram nossos mantras terrivelmente quebrados diante de nós.

— A quanto tempo você sabe? — Indaguei, surpresa.

— Quando você caiu em uma das suas tentativas de andar de skate e quebrou o braço, lembra? — Sorri, me lembrava bem. Eu estava na casa de uma tia e meus primos resolveram que queriam ensinar uma adulta a brincar. — A minha mãe ficou muito preocupada quando você foi submetida a cirurgia. Parece que todo mundo tem medo que você morra. Eu achei completamente sem noção, você estava bem, era só uma fratura, muitas pessoas quebram partes do corpo todos os dias… Forcei um pouco, então mamãe me contou tudo sobre a morte da Tia Davina e me fez prometer que jamais contaria para você…

— Eu acho que não precisamos de mais segredos agora. — Respondi, já sentindo raiva por me esconderem a verdade. Era algo que eu tinha direito de saber e Brynja não me contou.

Tudo isso colocava nossa amizade à prova, é claro que entendia seus motivos para manter-se calada, mas ainda assim, não conseguia evitar o sentimento de decepção. Ela sabia da importância daquilo para mim e deixou que eu fosse atrás de respostas que estavam guardadas em sua própria boca. E olha só onde as minhas escolhas me levaram. Como minha amiga, ela poderia ter me ajudado a evitar… é o que faria por ela, independente de quão dura fosse a verdade.

— Você tem razão… — Ela respirou fundo e sentou-se na beira da sua cama. — Está pronta? — Encarou-me exalando preocupação em seu semblante.

— Não. Mas não é como se eu fosse estar um dia. — Dei de ombros. Pensei estar pronta para a verdade desde que tomei conhecimento de que algo muito errado envolvia a morte da minha mãe. Mas a verdade é que a gente nunca está pronto.

— Tudo bem. — Brynja concordou e após respirar fundo, começou a contar:

“De fato, o universo não consiste em apenas nós, médiuns e bruxas, tudo que os contos de fadas contam, existe. De forma menos romantizada, é claro. Vampiros, lobisomens, fadas, gnomos, sereias… tudo é real.

E você Nisha, é um experimento da raça vampiresca.

Sua mãe apaixonou-se por um cara que escondia plenamente sua identidade sobrenatural. Runar, inicialmente parecia ser uma pessoa muito boa e gentil, mas lentamente suas máscaras foram caindo. Davina ficou grávida e quando o bebê nasceu, ele demonstrou descontentamento por você não ser imortal, revelou-se para sua mãe e contou que os vampiros estavam procurando uma maneira de procriar. Algum tempo depois ele descobriu que para criar uma criança híbrida, precisava tirar a vida dela.

E assim começou a luta de Davina para lhe proteger. Minha mãe esteve com ela por todo o tempo, ajudando-a a se blindar dos ataques de Runar. Aparentemente, sua morte levaria a acionar a maldição. Ao ser morta, o sangue vampiresco em seu organismo seria ativado e daria início a sua transformação, onde você se tornaria por fim uma vampira.

Sua mãe passou muitos anos tentando te proteger daquele monstro, mas por fim, ela percebeu que teria que matá-lo para ficarem livres. A cada segundo ele ficava mais próximo de te alcançar, chegando a persegui-la na escola, em casa, em viagens…

Ele sempre aparecia no Natal, dava um jeito de tentar estragar tudo e sua mãe conseguia fazê-lo recuar. A gente nem notava, mas Runar estava sempre à espreita, não deixávamos você sozinha nem por um segundo.

Naquela noite, Davina estava determinada a enfiar uma estaca no coração dele, sabia dos riscos, no entanto, estava disposta a tudo para salvá-la. Assim, ela pediu para que minha mãe selasse sua alma caso viesse a óbito, para que você jamais pudesse entrar em contato e para que ela não ficasse presa aqui na Terra.

Davina saiu de casa e bem, não sabemos se ela o matou ou não, apenas sabemos da fatalidade que lhe aconteceu. Tememos que seu pai pudesse vir atrás de você, mas nunca mais houve sinal dele. Sua mãe morreu para te proteger, essa é a verdade.”

— Éramos crianças naquela época, não poderíamos lidar com esse tipo de assunto… é isso, Tanisha. Essa é toda a verdade. Por favor, me perdoe por não poder te contar antes, nunca quis esconder isso de você. — Brynja estava mesmo arrependida, mas naquele momento tudo que eu sentia era raiva e tristeza.

— Acho que não vamos nos ver novamente. — Pontuei e a vi enxugar as lágrimas.

— Tem uma coisa que preciso dizer, não ficaria em paz sabendo que você morreu sem que lhe contasse. — Informou-me, o que me acendeu em surpresa. Assenti para ela continuar. — Nisha, eu… eu… a-acho que… sei lá, não sei como você não percebeu, mas… sempre gostei de você mais do que como uma amiga. E me dói saber que perdi todas as minhas chances de te contar e quem sabe, talvez, vivermos algo juntas.

Prendi o fôlego, embora não precisasse mais respirar. Força do hábito sabe. É claro que já estranhei certas atitudes da minha melhor amiga, mas nunca desconfiei que fosse mais do que brincadeira.

Brynja me amava romanticamente, era assustador.

— Meu Deus, Brynja, sinto muito. — É o melhor que posso dizer, visto que… de que adianta, se agora estou morta? Tomei fôlego e tentei procurar palavras melhores… — Acho que nunca percebi, para mim sempre ficou bem claro que éramos somente amigas, principalmente quando você vivia namorando rapazes. Não tive a oportunidade de sequer cogitar esse tipo de sentimento por você. Mas espero que encontre alguém bom o suficiente para amar essa garota incrível que você é. Sinto muito de verdade.

— É, eu também sinto. Mas obrigada pela sinceridade. — Sorriu fraco. — Acho que é isso. Se cuida nesse nosso universo.

Assenti suavemente.

— Adeus, Brynja.

Minha melhor amiga me olhou triste e soluçou alto prestes a desabar em choro.

— Adeus, Nisha.

Gradualmente sua imagem se desfez feito fumaça diante de meus olhos. Senti minha alma sendo sugada pela escuridão, levou um tempo para perceber que ao invés de encontrar a luz, estava diante das trevas. Fui jogada no despenhadeiro e quando acordei, estava deitada sob rochas vulcânicas cujo compunham o chão abaixo de mim. Acima havia um céu escuro sem nenhuma estrela sequer, tudo era vazio e frio. Minha garganta estava seca, ardia de sede, minha mandíbula doía e meu corpo estava diferente. Tudo era irregular, como se não fosse mais eu mesma.

Demorou para minha mente associar os fatos e descobrir onde estava. Era o abismo qual Odessa ficou anos presa, um lugar sombrio entre céu e inferno, onde criaturas terríveis vagam semeando dor, tristeza e caos. Ela me mandou em seu lugar. Foi assim que conseguiu sua liberdade, sendo uma completa traidora.

“Pobrezinha, espero que agora você perceba que foi um erro confiar em uma bruxa tão ardilosa”, disse um dos espíritos que me perseguia, aparentemente eu ainda era médium e Susie ainda não encontrou seu caminho. “Essas são as suas consequências, Tanisha, as quais você afirmou com tanta convicção que iria aceitar.”

A verdade é que quando fazemos uma escolha, na prática, não estamos prontos para encarar as consequências. Mas aqui estava eu, sem ter para onde fugir.

— Me deixa em paz, Suzana. — Ralhei, irritadiça.

Paz é algo que não existe no abismo, querida”, disse ela, fazendo-me arrepender de cada maldita escolha que fiz.

Vaguei por aquele lugar por muitos dias, sem uma gota de sangue sequer. Até me deparar com Jair, um demônio das profundezas que prometeu ensinar-me tudo de ruim enquanto eu estivesse ali. A primeira coisa que ele me ensinou, é que eu teria que me alimentar de sangue demoníaco, considerando o local que fui trancafiada. Assim, nos tornamos parceiros enquanto caçávamos as criaturas mais temidas daquele lugar.

E bem, certas garotinhas tendem a crescer, aprendem a se vestir de vingança e se tornam o seu pior pesadelo.

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