Quatro

Conjure pecados, maldições e rituais

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PARTE II

Meu sangue é uma inundação de rubis e pedras preciosas,
elas mantêm minhas veias quentes.
O fogo achou um lar em mim,
eu atravesso a cidade,
sou silenciosa como um incêndio.
— Yellow Flicker Beat, Lorde

 

 

Odessa, a bruxa

Morri muito antes das caças às bruxas na Islândia, deverá ser em torno de 1650, não sei ao certo. Minha família estava em temporada de viagens, visitando nossas linhagens de bruxos em diversos lugares do mundo, éramos naturais do Reino Unido de passagem na Islândia.

Eu era uma bruxa completamente má e detestável, estava sempre causando desgraça em tudo e todos – não que isso tenha mudado. O ponto é que não morri por ser bruxa, jamais fui pega por tanta maldade.

Havia outros segredos.

E o meu envolvia amor, por mais ridículo que seja assumir isso. Pelo abismo, sou uma VILÃ. E a verdade decepcionante sobre alguns vilões é esta… às vezes, nós só queremos ser amados e essa maldição de amor é a nossa maior fraqueza. Nossa decadência assinada. É triste assumir que cai nesse golpe de ser cativada.

A grande questão é que me apaixonei por uma mulher.

O nome dela é Lorelei. Ela foi a minha queda e não me arrependo.

Talvez o amor tenha sido a coisa mais pura e sincera que fui capaz de sentir enquanto estava viva. A única parte bondosa do meu ser, porque o restante era podre. Estou sendo sincera, não sou confiável. E obviamente, não dá para esperar nada de bom quando se nasce maligno, mas houve amor verdadeiro por aquela doce garota.

Passaríamos cerca de quatro meses na Islândia, assim que cheguei, me deparei com uma jovem de fios loiros e extremamente doce.

Me lembro da primeira vez que a vi, ela estava no jardim da mansão ajudando um pobre passarinho com a asa quebrada. Abandonou um livro de capa dura, deixado ao lado no banco de pedra cujo estava sentada, só para acudir aquela criatura. Lembro-me até do nome do livro, chamava-se ‘O Bruxo e o Caçador[1], uma estória de amor trágico qual pertence ao sebo da nossa família. O filhote que caiu do ninho, foi curado por suas delicadas mãos extremamente poderosas. Sua magia límpida farfalhava como pó de fada quando proferia seus feitiços, era lindo, sublime. É como ir ao paraíso e degustar da suculenta maçã que destruiu Eva. Parecia a porra da Branca de Neve, acariciando o pardalzinho.

— Você deve ser a Odessa. — Falou assim que me viu a observando. — Katrina me falou sobre você.

Katrina é a nossa prima em comum.

— Presumo que lhe tenha dito apenas coisas boas a meu respeito. — Abri um sorriso sorrateiro e me aproximei, a garota mostrou-me o pássaro acolhido pelo calor de suas mãos que o seguravam como uma concha.

Amor, carinho, cuidado e proteção. Arg, essa benevolência me enoja.

— Não chegamos a tanto, ela só falou que você viria. Fiz torta de maçã para recebê-la. — A doce jovem abriu aquele sorriso lindo que me deixava boba, os olhos dela eram tão azuis que pareciam um espelho, quando a olhava, via meu reflexo. E o que via, não era bom.

Quando eu sabia que não faria bem para uma pessoa, é aí que me aproximava mesmo. Tem algo hipnotizante em corromper almas tão puras. O jeito fácil e tolo com que tais criaturas bondosas não resistem a tentações. Isso era algo que não poderia me afastar nem que me esforçasse, era meu legado, meu ponto fraco, a minha sede por sangue.

— Quanta recepção. — Sorri ladino. — Veja o que sei fazer… — Encarou-me sem compreender minhas intenções, usando apenas a minha mente causei dor no pássaro que começou a se contorcer em suas mãos.

— Pare! — Lorelei gritou, mas continuei até que ele explodisse em uma névoa vermelha de sangue em suas mãos.

Ela me encarou boquiaberta, completamente em choque, vi seu ódio me atingir como se fossem punhais em meu tórax. Seus olhos derramaram lágrimas grossas, acho que naquele momento não tinha mais dúvidas de que me apaixonaria por ela.

A bruxinha revidou, usando seus poderes contra mim, atirando-me no chão.

E aí que está o lado escuro, o vingativo.

Criaturas que se submetem a pura bondade, não se vingam, mesmo que a façam sangrar. Mas Lorelei não era de ferro, ela não suportaria manter-se quieta quando poderia fazer algo a respeito. Foi uma das primeiras lições que aprendi sobre ela.

— Nunca mais machuque uma criatura sequer! — Ela gritou na minha cara.

— Não será necessário, você o fará por mim. — Dei uma risada diabólica e vencedora.

Lorelei sentiu ainda mais ódio, agarrou-me pelo pescoço e aproximou seu rosto para enfatizar sua próxima fala:

— O dia que eu me tornar como você, preferirei a morte. — Cuspiu.

— Portanto, em breve teremos um funeral, docinho. — Ri, desafiando-a.

A garota grunhiu de raiva, saiu do jardim caminhando com força e em seguida bateu portas atrás de portas. Gritou a todos que me odiava. Porventura, ela esqueceu-se do livro. Mais tarde naquela noite, fui até seu quarto e lhe devolvi como um gesto implícito de desculpas. A bruxinha de fios dourados era boa demais para odiar alguém por tanto tempo, baixei a guarda e ela me mostrou cada detalhezinho em seu coração.

A forma com que nos apaixonamos foi estranha, mas diferente dos clichês, Lorelei não me mudou, não me fez chegar nenhum pouco perto do caminho do bem. Pelo contrário, eu quem a induzi ao mal.

Minha existência influenciava diretamente a bondade de Lorelei que acabou se tornando mais que minha amiga, mais que a minha amante, mas a minha parceira na maldade.

Passávamos os dias juntas, enquanto meus pais se preocupavam com seus afazeres. O fato de estar hospedada na mesma casa, tornava tudo mais fácil. Nosso elo ficava mais forte a cada segundo e mesclando nossos poderes, éramos capazes das maiores atrocidades juntas. Aos poucos ela foi ficando interessada a aprender os meus truques, sem se dar conta do quão mal-intencionados eram. E depois, tudo se tornou muito natural para ela.

Fizemos muitos rapazes sofrerem, tínhamos o prazer em torturá-los quando se aproximam a fim de nos cortejar. Brincávamos com suas mentes, fazíamos deles meros fantoches em nossas mãos. Invocávamos pessoas mortas, criávamos fantasmas terríveis, matávamos tudo e todos. Fossem animais ou pessoas, nós tacávamos o terror.

Éramos quentes e não apenas em nossos feitiços cheios de perversidade, mas enquanto estávamos sozinhas, entre beijos, promessas, toques indecentes e pedidos. Era o pecado que nos instigava. O fato de estarmos cometendo algo que a sociedade repugnava.

“Quando retornares para sua casa, pedirei ao meu pai para me juntar a sua família”, ela prometeu, certa noite. Mais especificamente, um dia antes da minha morte. “Acho que meu coração descobriu que és metade do seu, não posso me afastar de ti, Odessa, não sobreviveria a tal fatalidade”.

“Tão pouco eu, minha doçura, certamente adoeceria sem a luz da tua alma sob mim. És o meu sol, Lorelei”

“Se sou o teu sol, portanto és a minha lua”.

“Sendo assim, banhe-se sob a luz prateada”.

Infelizmente, minha amada jamais retornou para o Reino Unido conosco. Estávamos enganadas, imersas na nossa fantasia de sermos invencíveis, acabamos vacilando e fomos descobertas por seu irmão, um mero humano com inveja do nosso poder. Ele nos delatou. Éramos pecadoras por nos envolvermos sexualmente sendo mulheres.

Fui amarrada no centro da cidade, meus pais não puderam impedir, visto que justamente nesse dia, haviam feito uma viagem curta até uma cidade vizinha, implorei para ficar com Lorelei.

Pouco antes de nos apedrejar, usando minhas habilidades mais apuradas, consegui libertar a minha amada das cordas. Ordenei que fugisse, sabia que ela iria ficar bem, pois era uma bruxa um tanto astuta. Mesmo contra e após insistir muito, ela se foi.

Lorelei deixou a promessa que encontraria uma forma de me trazer de volta.

Minutos após sua fuga, os homens daquele lugar partiram a sua caça e fui apedrejada viva pelos moradores locais. Sorria sentindo o gosto do meu próprio sangue na minha boca, enquanto gritavam ofensas que para mim pareciam mais elogios.

Amaldiçoei três vezes cada uma daquelas almas que atirou contra mim. E para seu desgosto, os reencontrei no abismo, quando suas vidas inúteis chegaram ao fim. Lorelei é claro, fez seu irmão pagar bem caro pela traição. Meus pais também não deixaram barato para aquele vilarejo, os amaldiçoaram com escassez severa, semearam pragas e fantasmas das piores índoles possíveis para os destruir.

A questão é, quando uma bruxa morre com tamanho ódio, sua raiva fica presa no local, tornando-o assombrado e cheio de poder, o que posteriormente serviu de ajuda para os bruxos durante a época de caça. Lorelei conseguiu fazer um elo entre meu espírito e um ritual. Minha alma foi destinada a vagar pela escuridão, até que essa cerimônia conseguisse me trazer de volta. Esse não era o meu fim, meu espírito queimava por vingança e desejo por viver.

Lorelei destinou seus próximos séculos de vida a procurar uma maneira de aperfeiçoar o culto para que obtivesse sucesso. E foi assim que ela redigiu o meu ritual um tanto enganoso, que prometia ao praticamente invocar um ente querido, mas que por trás de suas palavras conjurava-me de volta à vida, libertando-me da prisão que me encontrava. Qualquer bruxa que o lesse, desconfiaria, é por isso que tinha que ser alguém ainda mais néscio, como um humano, ou quem sabe, uma médium…

Tanisha foi a lorpa que caiu na armadilha e libertou minha alma.

E para minha surpresa, havia muito nela que me atraia. Seus segredos eram tentadores. Ela clamava por caos e eu pertenço à desordem. Poderia matá-la e simplesmente partir para finalmente viver e destruir todos que cruzarem meu caminho. Mas seria tão benevolente da minha parte não aproveitar cada pedacinho do que aquela humana poderia me oferecer…

Sua alma tão bondosa, tão casta… implorava-me para ser sucumbida.

Como nos velhos tempos, poderia me divertir e depois de tantos anos entediada, presa na escuridão, a luz na aura daquela garotinha, me atraia feito ímã.

Convenhamos, é impossível resistir.

 


 

[1] O Bruxo e o Caçador é um conto de romance, fantasia e tragédia escrito por Indie RedFox.

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