Um
Conjure ingredientes, grimórios e decisões
PARTE I
Mas os meus dedos estão entrelaçados, fiz uma pequena prisão e nela estou trancando todos aqueles já tocaram em mim.
— Yellow Flicker Beat, Lorde
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Tanisha, a Médium
Pessoas ingênuas tendem a tomar decisões tolas, é importante manter a essência intacta. Prazer, meu nome é Tanisha e você está lendo o livro de uma completa idiota que cometeu um erro terrível.
Você deve estar se perguntando: por acaso você matou alguém?
Quem me dera, teria sido uma decisão bem mais sábia. Ao contrário disso, no Natal do ano de 2021, decidi que iria finalmente me comunicar com a minha mãe morta a todo custo – e bem, devemos considerar que ela claramente não queria ser contatada. E ao invés disso, basicamente, acabei estragando o Natal ao invocar algo terrível.
Decisões irreversíveis te assombram para sempre.
Nunca entendi porque mesmo sendo médium nunca consegui me comunicar com a minha falecida mãe; visto que todos os dias vejo, falo e ajudo milhares de almas presas nesta terra. Mas a Sra. Davina, aparentemente, não estava entre aqueles que vagam no mundo espiritual. O que inicialmente era bom, poderia significar que ela estava bem, nada no mundo terráqueo a prendia – nem mesmo eu, sua filhinha órfã que lastimava até hoje. No entanto, precisava desesperadamente ter certeza disso, pois para mim sua morte estava escondida sob um mistério.
Meu avô decidiu que só iria me treinar como médium quando eu completasse 18 anos, mas adivinha, já tenho 21 anos e ainda sou iniciante com um pé em intermediário. Por isso, com a sábia decisão que uma mulher médium e adulta poderia tomar, decidi que a contataria por conta própria. Mesmo quando vovô me alertou milhões de vezes para deixar a alma dela quieta. Com certeza ele sabia de algo e não iria me contar.
Acima de tudo sou humana, e humana até demais. O que significa que tendo a ignorar conselhos sábios para me ferrar sozinha. É, no meu caso, ser uma médium nunca me tornou mais inteligente.
É que o mistério nos desperta, aqueles que não o ouvem e ousam não os desvendar, estarão sujeitos a morrerem sem saber a verdade.
Todavia, vamos ao que importa, decidi que naquele Sabbat[1] de Yule[2], iria sozinha para a nossa cabana em Mallacht, uma cidadezinha com florestas congeladas localizada na Groenlândia. Considerando que moro em Hólmavík, na Islândia, só precisava atravessar o país e ir para Reykjavik, de lá é bem fácil de chegar em Nuuk – a capital da Groenlândia.
Não éramos Bruxos, apesar de Cristãos, gostávamos excessivamente das comemorações wiccas[3]. Minha família vem de uma linhagem muito amiga de bruxas, assim adotamos algumas práticas para nós, sendo sobretudo as comemorativas. E sinceramente, era muito mais divertido que as comemorações tradicionais, onde o foco hoje em dia é o comunismo e não de fato o nascimento de Jesus.
Calhou que, em minhas pesquisas, se eu conjurasse um parente falecido em um Sabbat, poderia ter muito mais sucesso. A magia é ainda mais forte. É, vocês acabam de descobrir o que farei, e sim, não posso desistir. Realmente preciso falar com a minha mãe, descobrir a verdade sobre a sua morte, matar as saudades que doem. E uma conjuração é o jeito mais simples de conseguir. Assim, efetuarei a minha própria, mesmo não sendo uma Wiccana. O que já indica que começamos errado.
Tanisha necromante, aqui vamos nós!
Visto que estamos juntos nesse Titanic prestes a afundar. Aqui está a lista de ingredientes para um ritual de invocação de um defunto. Fontes? Aquele fórum de wiccas que se tornou o meu guia para essa situação maluca.
Poderia não ter o apoio do meu avô ou da minha melhor amiga, mas tinha o apoio de vários bruxinhos da internet que estavam me auxiliando em tudo.
Portanto, vamos aos ingredientes…
- Um gato preto (calma, já pesquisei tudo e esse tipo de magia não machuca animais como certos maldosos fazem, confia);
- Sal grosso;
- Velas pretas e vermelhas – muitas;
- Um objeto que pertencia à pessoa falecida;
- Um Grimório[4] com o feitiço desejado;
- Lista de ervas: Alecrim, Artemísia, Sálvia, Menta, Hibisco e Lavanda;
- Lista de flores: Margarida, Lírio e Dente-de-leão;
- Lista de cristais: Turmalina Negra, Ônix, Hematita, Ametista, Selenita e Quartzo Branco;
- Uma faca;
- Meu sangue;
E podemos incluir muita coragem nessa listinha, já que tudo pode dar certo, assim como muito errado. Certo, isso é completamente assustador. Entretanto, estava disposta a pagar o preço que fosse cobrado para descobrir se a minha mãe estava bem.
E bom, ainda não tinha tudo que precisava. Para isso, precisava convencer a minha melhor amiga a roubar o grimório para mim, para minha sorte havia uma cópia dele justamente no museu da nossa cidade.
Eu poderia me contentar com o PDF que o pessoal do fórum tinha? Sim. Mas não sou tão burra, sei que pode ser falso. Assim, fiz o que foi possível para conseguir o original e ter sucesso no meu ritual.
Imagina só, usar um PDF para invocar alguém morto.
— Nisha, me desculpe, mas realmente acho que isso é muito perigoso. Tipo, meu deus, uma conjuração é algo muito sério. Nem a minha mãe já fez isso! — Brynja repetiu, agora já a caminho do museu, o que facilitava para mim. — Isso é magia maligna, você sabe, não é?
Tia Edda é a mãe da minha melhor amiga e também foi a melhor amiga da minha mãe por toda a sua vida, elas cresceram juntas e sempre cuidaram uma da outra. Brynja e eu fomos criadas como irmãs. Certamente a mãe de Brynja é uma das bruxas mais poderosas que já conheci e nem mesmo ela atreveu-se a mexer com mágica obscura.
As bruxas da família Sheving são Wiccanas raiz, quer dizer que são bem boazinhas e sobretudo conectadas à natureza. Não realizam absolutamente nada prejudicial, mesmo sendo muito poderosas.
Eu não poderia pedir sua ajuda no ritual, por isso me contentei apenas em fazê-la roubar… É, pelo visto a bruxa má aqui sou eu.
Convencê-la a “furtar” o livro do ritual para mim, não foi fácil. Todavia, para a minha sorte, estava a uma pequena distância das minhas mãos e sendo minha melhor amiga tão talentosa, era fácil.
— Brynja, sei o que estou fazendo. Só confia em mim e consiga o Grimório. — Insisti enquanto atravessamos a rua e a puxava pelo pulso, parando na calçada atrás do Museu Islandês de Feitiçaria e Bruxaria em Hólmavík. Ela é a única para quem contei do meu ritual maluco.
Para contribuir com o acaso, mais de 80% dos casos registrados de bruxaria na Islândia ocorreram na cidade onde nasci e cresci. Justamente por isso é que somos tão próximas de todo esse universo. Nossos ancestrais poderiam ter sido queimados injustamente, mas nós, dos tempos modernos, somos livres para sermos quem somos. Quer dizer, não sou uma bruxa, mas tendo amigos que mais se assemelham a família fazendo parte desse mundo, me sinto muito grata por ninguém mais precisar ser queimado. Mesmo que relatasse uma desgraça, o museu era um marco para as bruxas, querendo ou não fazia parte da sua história e obviamente nenhum sacrifício é em vão. Tudo que são hoje, é graças ao que seus ancestrais enfrentaram.
Naquela época na Islândia, o uso de pequenos feitiços tornou-se comum no cotidiano de algumas pessoas, para os mais diversos fins, desde capturar um ladrão, curar o próprio gado, lançar pragas no do vizinho, conservar comida e cerveja, evitar morte por afogamento, entre outros. No século XVII, um número de aproximadamente 21 islandeses, foram mortos na fogueira por praticarem bruxaria, o primeiro a ser condenado e executado por tal prática foi Jón Rögnvaldsson, acusado de criar um fantasma para causar danos às pessoas e ao gado.
Curiosamente, o principal fato que tornou a caça às bruxas na Islândia particularmente única, é que a maioria dos acusados de bruxaria eram homens. De um total aproximado de 120 julgamentos, somente 10 envolviam mulheres. Desse total, 21 pessoas foram queimadas como bruxas, sendo que apenas 1 era mulher.
Consequentemente, com a proibição da magia islandesa, passou a ser praticada clandestinamente, e muitas informações morreram, exceto com a conservação de alguns manuscritos, cujo estão dispostos no edifício.
Mais do que nunca, estar diante desse museu, me tirava o fôlego. Ao longo dos seus dois andares, descobrimos mais de vinte objetos e recriações que irão nos transportar até a era mais escura da história da Islândia: a Idade Média e a caça às bruxas.
Fui até a bilheteria e paguei por nossa entrada, Brynja encarava-me de braços cruzados e uma expressão azeda de descontentamento. A entendia, estava pedindo para que roubasse por mim, sobretudo, como minha melhor amiga, ela se preocupava comigo. E não só sabia, como pressentia que o que eu estava prestes a fazer não iria acabar bem.
— Faça isso por mim, Bry, por favor. É a minha mãe. — Supliquei, usando os olhos brilhantes como o Gato de Botas.
— Já parou para pensar que talvez a Davina não queira ser contatada? Ela está bem e você está cometendo erro. — Fortaleceu, mais uma tentativa vã de me convencer.
Olhei bem para ela, com toda a minha seriedade e já me sentindo enraivecida pelas tentativas dela de me fazer mudar de ideia.
— Olha, não sei como dizer isso de forma mais sutil, mas sua opinião não me importa, Brynja. Farei isso e não tem nada que possa me impedir. — Respondi, totalmente determinada. — Estou disposta a enfrentar as consequências. Não se preocupe comigo. E aí, vai me ajudar ou terei que roubar como uma boa e velha humana sem poder algum?
Minha amiga arrancou o bilhete da minha mão, rosnou e disse entre dentes:
— Sei que vou me arrepender, mas o que não faço por você, Nisha.
Graças ao Celestial que a minha melhor amiga não quer me ver na cadeia.
Assim, Brynja pisou duro para dentro do museu e prontamente a segui. Lá dentro, executamos com facilidade o nosso plano, fingi passar mal e enquanto a atenção de todos estava em mim, minha melhor amiga roubou o Grimório de suas ancestrais, fazendo o livro cheio de rituais e magia, simplesmente atravessar o vidro da exposição e parar direto em suas mãos.
Seguidamente, a Wiccana colocou-o em sua bolsa e deixou o museu em passos rápidos. Ninguém notou. Subitamente me senti melhor. O principal estava garantido.
[1] Sabbat: O Sábado das Bruxas, também conhecido como Sabbat, Sabá das Bruxas ou “A Roda do Ano”, é uma reunião daqueles que praticam bruxaria e outros ritos associados. Onde geralmente comemoram com banquetes e danças. Se originam nos antigos rituais que celebravam a passagem do ano conforme as estações do ano, épocas de colheita e lactação de animais.
[2] Yule: “Natal dos Bruxos”. Jól ou Yule é uma comemoração do Norte da Europa pré-Cristã. Os pagãos Germânicos celebravam o Yule desde os finais de dezembro até aos primeiros dias de janeiro, abrangendo o Solstício de Inverno.
[3] A Wicca é uma religião que resgata o paganismo, preservando características iniciáticas e sacerdotais, baseada nos ancestrais cultos de fertilidade que se desenvolveram na Europa Antiga. É conhecida como ‘Bruxaria Moderna’, embora seus rituais estejam ligados aos primitivos ciclos solares e lunares e às mais diversas manifestações da Natureza.
[4] Grimórios são livros usados por uma Bruxa, Feiticeira ou praticante para escrever e guardar conhecimentos de rituais, ervas e encantamentos mágicos.
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