Capítulo Cinco

Esperança

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O diário era desconexo com pequenos textos soltos de diversos pontos da vida de Damiano Barros. Helena leu os pontos mais importantes para Sebastian, o garoto deitado sobre a cama sofrendo suas dores, fechou os olhos para ouvir e analisar tudo.

Ela lia baixinho, para que o monstro não pudesse ouvi-la.

19 de abril 1908

Tomei aspirinas para morrer, mas sobrevivi.

Eu queria morrer, Aiana me salvou.

Eu odeio minha irmã.

Ela tem que morrer…

Ela não sabe como é triste abrir a boca e não sair voz, talvez eu devesse ensiná-la.

22 de abril de 1908

Mamãe me levou ao médico.

Agora preciso tomar remédios para combater a depressão.

Como se eu fosse louco…

Aiana tem que morrer!

18 de março de 1908

Levei Aiana para a escola hoje, costurei os seus lábios, agora ela sabe como me sinto. Quando querer gritar, mas não há som. Em seguida, esfaqueei sua barriga com uma faca enquanto estávamos no bosque. Me afastei para não sujar de sangue, joguei a faca no rio. A deixei para a morte…

Descanse em paz querida irmã.

Nada me deixaria mais feliz do que a ausência de sua vida insignificante.

Ninguém irá me atormentar mais.

25 de maio de 1908

Estão procurando por Aiana. Muitos policiais…

Finjo que nada sei.

Papai é considerado um suspeito.

Mamãe chora todas as noites.

Mamãe jamais poderá descobrir que eu matei minha irmã.

12 de agosto de 1908

Tio Mauro me levou para a cidade, vou trabalhar em sua loja de conveniências e estudar em uma faculdade próxima.

Em breve serei um Advogado.

24 de dezembro de 1908

Mamãe se suicidou.

Estava sofrendo muito com a perda de Aiana.

Deus cuide de ti, mamãe.

31 de janeiro de 1918

Estou trabalhando em um escritório de advocacia, sou apenas um ajudante, já que um homem sem voz não pode ser um advogado. Meu coração se afoga em uma escuridão sem fim, o ódio pertence ao meu coração.

Há uma secretária muito bonita pela qual tenho sentimentos, ela é sempre muito gentil comigo e é a única que me trata bem.

14 de fevereiro de 1918

Não pude controlar o meu desejo, era mais forte do que eu.

Eu precisava ter seu corpo em minhas mãos.

E eu tive o prazer… o amor…

Espero que a bela Maria possa me perdoar.

21 de abril de 1918

Maria está grávida.

Prometi a ela que a tornaria minha esposa.

15 de junho de 1918

Tive um surto de raiva.

Maria e eu nos casamos a pouco tempo.

Bati em Maria, ela perdeu o nosso filho.

1 de julho de 1921

O pequeno Roger nasceu.

És meu primeiro filho, o qual o amo incondicionalmente.

31 de agosto de 1924

Meu amado Samuel nasceu.

24 de setembro de 1927

Maria me irrita o tempo todo.

Preciso corrigi-la.

Uma mulher tem que obedecer a seu marido.

Uma esposa deve ser submissa ao seu homem.

19 de outubro de 1928

Roger quase morreu depois que quase o espanquei até a morte.

Maria evitou que eu cometesse uma desgraça.

Meus filhos têm que aprender a ser obedientes, não suporto crianças malcriadas.

Um bom pai deve possuir uma mão pesada.

27 de setembro de 1929

Minha menina nasceu, estou tão feliz em ter uma pequena flor de cerejeira para amar.

Clélia, serei um bom pai para ti.

1 de janeiro de 1930

Tiramos uma foto em família para comemorar o novo ano.

31 de março de 1930

O pequeno Samuel está internado no hospital, quebrei seu braço ao espancá-lo.

Querido filho, talvez agora você aprenda a não mexer no que não é seu.

12 de junho de 1930

Estou sendo procurado pela polícia. Eles me querem morto.

Após um surto, joguei Maria da escada, ela quebrou a bacia.

Minha esposa saiu de casa com os nossos filhos.

Denunciou para a polícia, ela entregou o meu crime de 18 de março de 1908.

Todos sabem que matei minha irmã.

30 de outubro de 1930

Após meses como um fugitivo, sequestrei meus filhos enquanto eles saiam da escola.

Estamos tendo um agradável momento em família.

29 de novembro de 1930

Aiana está aqui…

Ela sobreviveu.


E as anotações acabaram.

Helena encarou as páginas rabiscadas violentamente.

Folheou mil vezes, mas não havia mais nada escrito ali

— Não… não pode ser. — Chorou baixinho. — Sebastian, não têm mais nada… nada que possa nos ajudar.

Lágrimas escorreram pelos olhos do rapaz, dessa vez era ele quem perdia as esperanças. Jamais seriam libertos. O diário só comprova estarem lidando com um homem muito cruel, impiedoso e perigoso. Não havia outra saída a não ser esperar pela morte.

— Vem… deite-se comigo. — Pediu.

Helena fechou o diário e o escondeu debaixo do colchão. Aos prantos, deitou-se ao lado de Sebastian e chorou até dormir.


Já faz duas semanas, a esperança desabitou o coração de Sebastian e consequentemente o de Helena. Apesar de ainda comerem, tomar banho e sobreviverem, eles já são como mortos-vivos, vivendo por viver. Sua tristeza parece alimentar o coração do monstro, que está dançando na casa ao som de alguma música clássica do século passado. Helena é obrigada a dançar com ele e Sebastian é obrigado a assistir.

Quem dera pudessem voltar no tempo, para junho, na festa de quadrilha onde por uma noite puderam se amar sem medo, estavam seguros, a salvo de qualquer mal.

Quando Deus ainda existia para ambos.


Ele achou o diário.

E está tão furioso…

Sebastian está muito ferido.

Helena está tentando impedir o sangramento, mas é praticamente impossível quando se está trancada no banheiro assustador. Um rato imundo tentou se aproximar do ferimento dele, deve estar desesperado de fome. Ao tentar impedir o ataque. Ela foi mordida pela criatura medonha e precisou matá-lo com suas próprias mãos.

O ferimento nas costas do garoto continua jorrando sangue, há um furo enorme onde o monstro perfurou o atiçador de brasa da lareira. A garota precisou tirar o objeto das costas dele, e agora ele mal pode ficar de pé…

— Helena, recite algo… quero ouvir sua voz… como nas aulas de redação. — Sebastian pediu enquanto agonizava no chão. O cheiro forte de sangue os fazia ficar enjoados.

E pensar que todo o inferno começou com um simples trabalho de recuperação.

Se pudessem voltar no tempo…

E mesmo com a voz falha, Helena recitou:

“E são essas as lágrimas que choro,

as lágrimas que ouso derramar…

Lamúrias de uma esperança roubada,

as lamentações de uma injusta prisão.

Ninguém pode vê-las dentro de mim

emergindo de dentro da minha alma

e escorrendo por minha face

enquanto grito em silêncio

enquanto minha alma morre por dentro.”

Quando terminou, ele a encarava com olhos brilhantes, como se ela fosse a coisa mais linda do mundo. Uma joia rara, uma pedra de diamantes. E bem, para o jovem apaixonado, ela é sim.

— Lena, você é uma razão para se viver. — Sebastian sorriu fraco.

A menina chorou e soluçou.

— Não chora. — Consolou-a, apertou os dedos dela entrelaçado aos seus.

— Sebastian, não morra, por favor, não morra. — Desabou em lágrimas.

E os dois choraram juntos. Porque Sebastian não podia prometer algo que não estava a seu alcance.


É necessário ter o caos para gerar uma estrela… é bom ter esperança, mas é ruim depender dela. É horrível assistir à agonia de uma esperança…

O monstro abriu a porta do banheiro e foi trabalhar. Depois de 2 dias presos, Sebastian mal podia se mexer, seu machucado estava muito inflamado. Deitados e agarrados um ao outro, os adolescentes esperavam a morte os alcançar.

Vez ou outra, Fantasminha aparecia, trazendo consigo um novo pato abatido. Entretanto, os jovens estavam tão exauridos que sequer tentaram cozinhá-lo.

— Você estava certo, Sebastian. — Helena acariciou os cabelos do menino. — De uma maneira ou de outra… nós vamos sair dessa juntos…

A morte parece menos terrível quando se está cansado. A morte parece menos assustadora quando não se morre sozinho.


E a noite escura preencheu a luz do dia, como todos os santos dias, o sol se foi e deu lugar às estrelas. Helena Cabral sabia disso, pois assistiu à escuridão devorar a luz, ela assistia tudo deitada sobre o chão do banheiro, com a porta aberta. A janela refletia o que se passava no dia lá fora.

Quando tudo ficou escuro, Helena notou um barulho familiar o qual não ouvia há muito tempo… eram rodas de carro sendo pressionadas contra o chão. Ela se sentou, sobressaltada, seu coração começou a pulsar forte.

Logo viu faróis preencher a escuridão da cozinha. A luz atravessava a porta da frente e tocava os puxadores de prata do armário debaixo da pia, irradiando ainda mais luz brilhante. O carro parou.

— Sebastian! — Sacudiu o menino desacordado. — Tem alguém aqui!

O menino abriu os olhos sem entender, até ouvir várias portas de carro serem fechadas. Seu coração bateu em sincronia com o de Helena, tão alto e tão forte que o sangue correu quente por suas veias, dando-lhe a força que precisava… esperança.

— Me ajude a levantar! — Pediu, e Helena o ajudou.

Ouviram vozes distantes.

— M-mas… — A garota vacilou. — Ele está chegando, já é noite! E ele vai chegar do trabalho a qualquer momento!

Sebastian ignorou Helena e cambaleou para fora do banheiro, precisou tapar os olhos com a mão, o farol a cegava. Uma sombra passou em frente a luz, e os dois pularam sobressaltados. Tinha mesmo alguém ali do lado de fora.

De repente a porta se abriu, e os adolescentes mal puderam acreditar no que viam.

— Rafael? — Sebastian falou o nome do amigo e ele olhou para si sem acreditar.

— Sebastian! — Rafael quase gritou, de olhos arregalados.

De repente, estavam todos ali. Rafael, Pedro, Nathan, Guilherme, Sérgio e Carlos. Todos os amigos de Sebastian, os que estavam sempre em bando na escola.

— Bast? — Rafael levou a mão à boca. — Você…

— Helena? — Pedro empurrou todos para vê-la melhor.

— V-vocês estão nos vendo? — Lobo soluçou. — Por favor, isso não pode ser um sonho!

— Helena Cabral? — Nathan estranhou.

— Espera a Helena Cabral está aqui? — Sérgio perguntou, ele é o melhor amigo do irmão de Helena.

— Helena? A ex-namorada de Pedro? — Carlos não podia acreditar. — Ela também está aqui?

— Vocês não estão me vendo? — A moça perguntou.

— Eu estou te vendo! — Pedro respondeu, ele parecia o único que a ouviu.

Sebastian balançou a cabeça, negando a situação.

— Ok! — O rapaz aprisionado respirou fundo. — Todos vocês podem me ver, mas apenas Pedro enxerga a Helena, é isso?

— Helena está com você? — Sérgio insistia. — Céus, suas famílias estão inconsoláveis.

— Vocês foram dados como desaparecidos! — Explicou Guilherme.

— Toda a Perolino está atrás de vocês. — Contou Carlos.

— Como chegaram até aqui? — A garota perguntou semicerrando os olhos e encarando Pedro.

— Nós começamos a investigar por conta própria. Conseguimos revelar o endereço da agenda de Sebastian, quando ele anotou, marcou a página debaixo, Guilherme coloriu a marcação e o endereço apareceu. Não pensamos duas vezes e viemos correndo para cá. — Pedro explicou.

— Vocês estavam o tempo todo aqui? — Nathan encarou os adolescentes sem acreditar. — Isso é algum tipo de brincadeira idiota, Lobo?

Sebastian sentiu o sangue ferver.

— Isso parece ser alguma brincadeira idiota para você? — Encarou o menino com raiva. — Helena e eu fomos sequestrados…

Os rostos à sua frente assumiram uma expressão de choque.

— Como assim sequestrados? — Quis saber Pedro.

— Vocês não vão acreditar… — Sebastian baixou a cabeça.

— Fala logo, Lobo! — Rafael exigiu.

— Fomos sequestrados por uma criatura… um demônio…

De fato, os meninos não podiam acreditar. Afinal, quem em sã consciência iria? Era louco demais, parecia coisa de filme. A humanidade jamais poderia suspeitar que de fato o sobrenatural existia e pior, tinha tanta força.

— Acreditem em mim, por favor. — Sebastian deixou as lágrimas escorrerem por seus olhos. — Não podemos sair, há uma magia que cerca a casa, pensamos estarmos mortos, dois policiais vieram aqui e não nos enxergaram… não comemos, dormimos em situação precária… nós estamos morrendo… estamos sendo torturados por essa coisa, esse maníaco!

Os meninos encararam os corpos magros e visivelmente machucados a sua frente. Sebastian tinha uma cicatriz horrível no rosto – que não estava ali a algumas semanas atrás. Sujos, desnutridos e extremamente feridos… tudo isso só podia ser verdade, visto que seus corpos pareciam mais o de um defunto.

Não fazia sentido algum eles estarem presos ali, nas condições em que se encontram, apenas por rebeldia, qual os policiais acreditavam ser o motivo. Rebeldes apaixonados que fugiram de casa.

Um silêncio absurdo se instalou na casa e ao enxergar os olhos confusos a sua frente. Sebastian se deu conta de algo, seus amigos estavam correndo risco!

— Vocês precisam ir embora, agora! — O rapaz quase gritou. — Ele está voltando para casa e se pegar vocês aqui, estarão presos para sempre, assim como nós.

— Ficou maluco? — Rafael o encarou sem compreender. — Você não vem conosco?

— Que parte de: eu não consigo sair daqui, vocês não entenderam? — Sebastian quase gritou. — Vocês precisam ir! Acreditem em mim!

— Eu acredito em você, Sebastian. — Carlos foi o primeiro a dizer. — Pessoal vamos logo, podemos voltar amanhã. Sebastian não mentiria sobre algo tão sério. Vamos chamar a polícia e resolver isso.

— A polícia não pode nos ajudar. — Sebastian lamentou.

— Então nos diga como podemos ajudar. — Disse Sérgio.

— Damiano Santos Barros, é o nome da coisa. — Revelou Sebastian, o garoto pegou algo no bolso de sua calça e entregou para o amigo, era a fotografia do diário, a única coisa que conseguiu salvar. — Vocês precisam descobrir tudo sobre ele e como podemos sair daqui.

— Está falando sério? — Guilherme o encarou nos olhos.

— Vocês confiam em mim? Acreditam em mim? Eu juro, se eu pudesse ir embora, já estávamos naquele carro voltando para casa há muito tempo. — Os garotos encaram o chão e em seguida assentiram, em concordância.

Aliviado, Sebastian respirou fundo.

Esperança, a esperança nunca deve morrer.

Deus existia e a prova estava nas pessoas diante de seus olhos.

— Então vão embora!

Embora fosse louco, seus amigos concordaram.

— Eu vou voltar, Helena. — Pedro sussurrou para a garota.

Eles deram meia-volta e foram em direção ao carro vermelho estacionado em frente à casa. Era do Sérgio, o mais velho da trupe, qual já tinha carteira de habilitação, mas provavelmente o pai dele não imagina que ele saiu por aí com o carro sem autorização.

— Nós vamos voltar. — Rafael olhou nos fundos dos olhos de Sebastian. — Pegue isso.

Rafael entregou seu celular para o menino.

— Fique atento, nós vamos ligar e quando ligarmos é porque certamente teremos respostas. — Garantiu Nathan.

— Amo você, caras. — Sebastian viu os amigos fecharem a porta lentamente, ficar preso e vê-los ir era o fim do mundo. — Obrigado. Obrigado por acreditar em mim.

A porta se fechou, o motor do carro foi ligado, as rodas esmagaram as pedras e o farol de apagou. O silêncio voltou a reinar na casa da colina, assim como o último fio de esperança.

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