Capítulo Quatro

Amo você

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Junho e julho são uns dos meses mais esperados pelos brasileiros, além de férias é sobretudo por ser época de festa junina, tradição do povo. Em Minas Gerais, na pequena cidadezinha de Perolino, a energia não poderia ser diferente, estavam todos muito animados para as famosas quadrilhas, cheias de comidas típicas da região, além dos clássicos típicos da festa temática.

Helena não poderia deixar de participar como fielmente faz todos os anos, sua avó ajeitou seu velho vestido de quadrilha cor verde-limão, estava devidamente rodado e cheio de babados, era um dos vestidos mais bonitos da cidade. Neste ano em específico, seus pais viajaram para a roça, onde passariam alguns dias ajudando a tia de Helena, que recentemente operou a coluna.

Portanto, passaria o fim de semana em casa sozinha, mas isso não a impediria de ir na quadrilha da Igreja São Bento, vestiu-se e maquiou-se a caráter sem se esquecer das marias-chiquinhas, assim deixou sua casa na companhia de alguns vizinhos e caminhou até a praça central de Perolino. De frente para a igreja, na pracinha, várias barraquinhas vendiam as típicas comidas e o cheiro de pipoca e pé-de-moleque dominava o ambiente lotado de pessoas todos a caráter.

A primeira coisa que a mocinha fez foi ir até à barraca de sua avó que vendia os deliciosos doces de amendoim. Depois, pegou um milho e seguidamente um potinho de canjica doce, se tem uma coisa que ela não deixava de fazer nessas festas era se empanturrar. Devidamente cheia, ela tenta pescar um peixe na barraquinha, no intuito de ganhar o urso de presente, após gastar 15 reais com 3 fichinhas e tentativas falhas, ela desiste.

— Aposto que você quer aquele ursão ali, acertei? — Ela virou-se para ver de quem era a voz e deu de cara com Sebastian de chapéu de palha, blusa xadrez, calça jeans remendada, botas e é claro a típica barba desenhada com lápis de olho. Ela achou engraçado como ele mascava um palito de dente, devidamente um caipira.

— Sebastian. — Sorriu em comprimento. — Pois é, tá difícil de pescar esse peixinho viu.

— E o ursão é da Marieta! — Anunciou o dono da barraquinha aos berros, quando finalmente alguém ganhou o maior prêmio.

— Ai, que droga! — Helena lamentou.

Sebastian riu e a moça ficou ruborizada, não de vergonha por perder, mas sim por sua beleza. Quem nessa cidade não era apaixonada pelo moço do sorriso bonito?

— Uma maçã do amor te consola? — Perguntou o rapaz, fazendo-a ficar ainda mais quente. — Por favor, deixa eu te compensar de alguma maneira.

Helena ponderou e… bem, não era nada demais. Sempre tem um espacinho para a maçã do amor, que convenhamos, é uma delícia. No centro da praça, um grupo de cowboys e cowgirls dançavam a mesma música de todos os anos: ‘Clima de Rodeio’ do Dallas Company. Atravessaram a multidão até a barraquinha de maçãs, onde o rapaz pagou uma para a menina. Sentaram-se no murinho de frente à igreja e riram dos trajes mais ridículos que passavam à sua frente.

— Então, você e o Pedro, né? — Em determinado momento, Sebastian chegou no assunto que a garota tanto evitava.

— É, eu e o Pedro. — Deu de ombros. Haviam terminado a alguns meses, mas cidade pequena rende assunto por muito tempo.

— Você está bem?

— É claro que sim.

— Mas não quer falar sobre isso.

— É claro que não.

— Ok.

— Ok.

Silêncio.

— Você está muito bonita. Sempre está. — Elogiou, e ela pode ver o rosto dele ficar vermelho feito tomate.

— Ah, valeu. — Respondeu com o sangue fervendo por trás das maçãs do rosto.

Para sua salvação o organizador do evento anunciou no microfone que era hora da apresentação da quadrilha, assim, ela e Sebastian foram para seus devidos lugares.

Depois da apresentação, a qual é sempre um sucesso, Helena passou um tempo com o avô na barraquinha do bingo e quase ganhou um dos prêmios. Quando estava prestes a ir para casa, Sebastian apareceu novamente.

— Ei? — Chamou a garota que lhe deu atenção. — A maçã estava boa?

— Sim, muito obrigada.

— Então, vou ser bem direto. Você quer ficar comigo? Por que eu estou afinzão de ficar contigo, Helena… — Foi curto e franco. A garota ficou sem reação, mas a verdade é que ela era tão quanto a fim de beijar Sebastian, não havia nada que pudesse impedi-la.

Ela ponderou e Sebastian aguardou calmamente pela sua resposta.

— Te encontro em 5 minutos atrás da escola. — Respondeu e deu as costas.

O coração do rapaz quase explodiu de euforia.

Tomaram caminhos diferentes, a escola ficava duas ruas abaixo da igreja. O caminho é iluminado e cheio de pessoas transitando para todos os lados, portanto era seguro. Sebastian chegou primeiro e não demorou para a mocinha aparecer em seu campo de visão, não disseram nada quando ficaram cara a cara. Sebastian a agarrou pela cintura e lascou um beijo nos lábios carnudos da morena.

Se beijaram por muito tempo, aproveitaram ao máximo a sensação de seus corações saltando no peito. Se beijaram pelas ruas de Perolino, enquanto de mãos dadas o rapaz levava sua garota de volta para casa e em segurança. Mais beijos foram trocados no portão da casa de Helena. A cada segundo a temperatura aumentava e quando se deu conta, Helena estava propondo:

— Quer conhecer o meu quarto, Sebastian Lobo?

O garoto ficou envergonhado, mas quando uma menina bonita te faz um convite desses, tolo seria negá-lo. Almejou isso por muito tempo.

— Adoraria, senhorita Helena.

E aquela noite mágica de festa junina, terminou com dois jovens amando-se de corpo e alma. Mas algumas coisas estão cravadas na nossa alma e, os pesadelos estavam sempre ali, não deixando Helena se esquecer que a felicidade dura pouco.

Pela madrugada ela gritou e chorou, Sebastian a acalmou em seus braços.


A criatura sombria pressionou os lábios suturados na testa de Helena, era a forma que ele lhe dava um beijo antes de ir trabalhar. E dessa vez, como Sebastian havia se comportado, ele deu tapinhas de leve nas costas do garoto. Ele parecia sorrir com os olhos, ao menos alguém estava feliz.

“Amo você!”, ouviram sussurrar em suas mentes.

Os jovens assistiram o homem caminhar até a porta e sair da casa, desceu a colina e desapareceu. De fato, ele parecia ir trabalhar, o que era intrigante. Que diabos essa criatura fazia quando fora de casa?

Não fazia nenhum sentido essa história de ir trabalhar. Deverá ser realmente louco. Não se assustariam se descobrisse que o homem em questão frequentava um manicômio enquanto era vivo.

— Você está preparada? — Sebastian olhou para Helena que vacilou. Sentia medo, não queria que algo ruim acontecesse a eles. Não conseguia imaginar o que seria de si caso algo irreversível acontecesse ao rapaz.

Contudo, ergueu coragem e apenas assentiu. De mãos dadas, os adolescentes subiram as escadas para o segundo andar, se depararam com um corredor longo e escuro. Havia três portas no corredor, Sebastian se aproximou da primeira, não havia nenhum barulho, apenas o costumeiro silêncio da casa da colina. Abriu a porta do quarto, havia pouca luz como em todos os cômodos da casa. Era um quarto comum com uma cama de solteiro, guarda-roupas e escrivaninha. Vasculharam o local, mas não encontraram nada óbvio.

— Ei, Sebastian? — Chamou a garota de repente ao se abaixar e ver uma bolsa debaixo da cama.

Era a mochila de um garoto, aparentemente. Seus pertences haviam sumido assim que a criatura os capturou, por isso não tinham celular ou comida e não sabiam onde estavam. A bolsa em questão não pertencia a eles.

Abriram-na e encontraram materiais escolares, uma carteira e chaves. Pertencia a um garoto que provavelmente estava cursando o Ensino Médio, assim como eles. Helena revirou a carteira e o que descobriu a fez tapar a boca chocada.

— O que foi?

— Sebastian, é ele! — Ela apontou para a foto do documento. — O menino desaparecido que pesquisamos antes de vir parar aqui. Ele está a mais de 50 anos desaparecido, céus!

O rapaz arregalou os olhos.

— Isso significa que… ele foi capturado pelo filho da puta? — Sebastian analisou a foto, era mesmo o menino. Antônio Luís da Silva Lopes, é o nome do garoto.

— Não tenho dúvidas que foi isso que aconteceu… — A menina concordou. — A mãe dele ainda tem esperanças que ele volte para casa, vi uma matéria em um site. Ela o espera até hoje, Sebastian.

Helena queria não chorar, mas parecia impossível. Se o garoto nunca apareceu, aposto que o mesmo aconteceria com ela e o garoto que amava.

— Vamos checar os outros quartos… — Sebastian estava tenso, podia sentir estarem próximos de algo.

Abriram a porta do segundo quarto e descobriram ser um banheiro, conseguiram alguns medicamentos úteis para eles, como: aspirinas e remédios para resfriados – estavam muito vencidos, mas era melhor que nada –, guardaram nos bolsos de seus moletons. Ao chegar diante do terceiro quarto, ficaram ainda mais nervosos, seus corações batiam fortemente.

Sebastian girou a maçaneta da porta e abriu, um cheiro horrível bateu contra seus rostos.

— Céus! — Helena tossiu.

O quarto estava completamente escuro, o rapaz tomou coragem e caminhou até a pequena luz através de uma suposta cortina enquanto Helena ficou na porta observando-o. Quando Sebastian abriu as persianas e a luz iluminou o recinto, a garota tapou a boca para segurar seu grito de horror.

Havia o cadáver de um garoto sobre a cama, aparentemente parecia ser o mesmo desaparecido a mais de 50 anos, ele deverá ter entre 14 a 17 anos quando morreu. Sua carne já não existia, sua pele morta e escura ainda estava ali agarrada a ossada de seu corpo, juntamente aos fios de cabelo praticamente soltos de sua cabeça. Era idêntico aos cadáveres de múmias que vemos nos livros de história.

Em outro canto do quarto havia duas meninas nos mesmos estados, eram crianças de aparentemente 8 anos.

Estavam todos mortos…

Aranhas, ratos e outros animais peçonhentos vagavam pelo quarto da morte. Era um local medonho.

Helena caiu no chão, mal podia respirar, mal podia sentir suas pernas.

— Sebastian… — Chorou. — Eu não quero morrer!

O garoto não podia se mexer, também estava em choque.

— Temos que sair daqui! — Disse para si mesmo.

Virou-se para a janela, havia um telhado e a vista para o jardim da frente. Tentou forçá-la usando força, mas foi em vão. Helena ainda estava em choque no chão enquanto o rapaz procurava por algo que pudesse ajudar abrir a janela, foi sentindo um medo tomar conta de si. Ao abrir uma gaveta do criado-mudo, ele encontrou um caderno velho de capa de couro, parecia uma espécie de diário, e sua teoria se confirmou quando ele virou a primeira página amarelada e manchada.

Havia a foto de uma linda família sorridente. O homem de terno segurava um bebê ao lado de uma bela mulher e seus dois filhos de aparentemente 6 e 9 anos. Era uma típica fotografia bem antiga. O homem usava o mesmo terno que a criatura, e possuía um belo sorriso no rosto.

Atrás da foto estava escrito: “Família Barros, 1930”.

A foto possuía exatos 88 anos.

O mais intrigante era o nome escrito no final da primeira página:

Damiano Santos Barros.

É ele, o monstro. E os garotos são os mesmos da fotografia no quarto onde os jovens têm passado as noites. Com o coração gritando em seus ouvidos, Sebastian colocou o diário debaixo de sua blusa, sendo segurado pela barra de sua calça. Pegou uma cadeira no canto do quarto e quebrou-a no meio usando a sua própria força. Com um pedaço de madeira em mãos, estraçalhou o vidro da janela.

Respirou fundo e colocou a sua mão para fora, tocou o ar puro e fresco. Não havia campo magnético no segundo andar da casa.

— Helena! — Ele puxou a garota para que ela ficasse de pé. — Venha! Você precisa passar primeiro.

— Sebastian…

— Apenas vá! — Gritou para a garota que tremeu assustada.

Helena passou pela janela e procurou firmeza sob as telhas frágeis. Uma vez no telhado, Sebastian segurava sua mão.

— Tenho medo de altura, Sebastian. — Ela choramingou.

— Helena, seja corajosa, apenas corra! Por favor, não olhe para trás! — O rapaz pediu com todo o coração, mesmo com medo. Restou a jovem assentir em concordância. — Se eu não estiver atrás de você, continue correndo! Promete?

— Eu prometo. — Deixou algumas lágrimas caírem. — Amo você, Sebastian.

— Amo você, Helena. — Sorriu gentil para a garota. — Lembre-se desse nome: Damiano Santos Barros.

E soltou a mão da garota, no instante em que suas mãos se afastaram e Helena se colocou de pé. Um grito aterrorizante os fizeram pular de susto. O homem agarrou Sebastian pelas costas.

— CORRA HELENA! — O rapaz gritou até sua garganta arder.

A garota rolou pelo telhado, a queda foi assustadora, caiu de costas no chão e não pôde sentir seus pulmões. Arfou para respirar, lutou para manter a consciência. Havia feito uma promessa a Sebastian. E enquanto ouvia os gritos do garoto, uniu forças e com muita dificuldade se pôs de pé. A moça cambaleou pelo jardim frontal, as árvores mortas ainda estavam ali, ela se lembrava que ficara impressionada com elas quando chegou aqui.

— CORRA! — Ainda podia ouvir os gritos do rapaz, quando chegou ao chão pedregoso, pode ver o portão de barras de ferro da residência. Tentou correr, mas ainda sentia o impacto da queda alta, o que a impossibilitava de ser rápida.

De repente, Helena foi empurrada, a garota caiu e rolou, sentiu as pedras lhe cortarem em diversos pontos. Seus cabelos foram agarrados e ela ficou cara a cara com a coisa. Ela o encarou nos olhos pela primeira vez sem sentir medo e disposta a lutar por sua vida.

— Damiano Barros! ME LIBERTE! — Gritou com todas as forças.

“Nunca!”, o demônio gritou em sua mente. Segurou o queixo da garota e a encarou com raiva. “Você… é… minha!”, grunhiu. “Obedeça! Obedeça!”, apertou o queixo da garota.

Helena empurrou a criatura, que apenas deu um pequeno passo para trás.

— EU NÃO SOU SUA! — Gritou e foi calada com um tapa forte no rosto.

Helena pode ouvir a coisa rir dela de forma debochada e medonha. O monstro agarrou da garota e a jogou em seus ombros, carregou-a para dentro da casa, novamente. Ela lutou com todas as suas forças, mas foi em vão, a criatura era muito mais forte.

A garota foi jogada no chão da sala, assistiu Sebastian descer as escadas apressadamente, um lado de sua cabeça estava encharcado de sangue.

— Helena! — Ele correu em sua direção.

Porém, o monstro, furioso, deu um soco no rapaz que quase perde o equilíbrio, mas se agarra ao corrimão da escada.

— NÃO! — Helena gritou.

O homem ergueu Sebastian, deu um soco em seu estômago, seguido por outro soco em seu rosto, foi o socando até deixá-lo contra a parede. Seus dedos envolveram o pescoço do rapaz, o demônio apertou, e ele foi perdendo o ar de seus pulmões.

Helena levantou-se em um ato de bravura e segurou o braço do homem. O monstro, surpreso, olhou para a garota em prantos.

— Por favor, não o mate! Papai, não o machuque! — Implorou. — Solte, ele pai! Me perdoe, não vou fugir novamente. E-eu… E-eu a-amo você.

Helena abraçou a coisa pelas costas com todas as forças que lhe restavam e foi assim que o monstro soltou Sebastian. O garoto caiu no chão, sem forças, tentando recuperar a respiração. O demônio abraçou Helena e surpreendentemente chorou baixinho. Ninguém podia entender o que estava acontecendo.

“Não… decepcione… vão pagar…”, ouviu o monstro sussurrar em suas mentes. “Não… perdão… na próxima…”.

E foi assim que o demônio perdoou a tentativa de fuga e desobediência dos adolescentes. É como dizem, só se cura o mal com o bem, só se expulsa as trevas com a luz e só se quebra o ódio com amor. A criatura subiu as escadas e permaneceu no andar de cima. Sebastian e Helena ainda estavam vivos, porém muito machucados.

A menina cuidou do rapaz que mal podia falar, sentia muita dor no pescoço e na pancada em sua cabeça. Um de seus pulsos havia se deslocado enquanto lutava contra a criatura e Helena precisou colocar o osso no lugar. Precisou ser corajosa, quando Sebastian gritava e chorava de dor. Foi horrível.

Mais tarde da noite, o rapaz ardia em febre e Helena colocava um pano frio em sua testa para tentar abaixar sua temperatura.

— Me perdoe, Sebastian. — Chorou silenciosamente. — Eu falhei.

O garoto segurou sua mão, estava sem forças, mas não suportava vê-la se culpando daquela maneira.

— Shhh, fique quietinho… — Pediu.

Sebastian afastou sua blusa e Helena viu o diário que ele escondeu o tempo todo.

— Nós… vamos… conseguir… — Ele murmurou com dor.

Helena pegou o diário, desacreditada.

Tomada por esperança, começou a ler as páginas desesperadamente…

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