Spin-off

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Um presente para você

Nota da Autora:

Quando meus leitores leram NÃO BATA, NÃO ENTRE, óbvio que não gostaram do fim. Por isso, bolei um spin-off, para ao menos satisfazer um pouco à vontade deles. Espero que lhe conforte ao menos um pouco, caso não também tenha ficado triste com o final do livro. Por favor, caso não queira ler o spin-off, deixe sua avaliação a respeito da leitura de NBNE no final desse capítulo.

OBS.: E quem já leu meu livro ECOS: Duas Almas, vai reconhecer uma figura incrível que faz participação nesse extra.

Boa leitura, um abraço da raposa.


De Volta ao Fim

CONTINUAÇÃO DO EPÍLOGO

[…]

Sebastian deitou-se na sua cama novamente, abraçando a carta.

— Eu aceito o nosso destino, Helena Cabral, só me resta, aceitar.

Fechou os olhos, e por um instante, imaginou o que faria se pudesse voltar no tempo. Valeria a pena? Algumas lágrimas escorreram dos olhos de Sebastian sem a permissão dele.

— Valeria a pena, Helena? — Murmurou baixinho para si mesmo, como se ela pudesse ouvi-lo. — Valeria a pena voltar no tempo para te amar?

O homem se levantou e caminhou até a escrivaninha de seu quarto, encarou a foto de sua amada esposa, Thalia era maravilhosa. A esposa de Sebastian era uma médica do hospital de câncer infantil, ela lutava para salvar aquelas crianças. Sebastian teve que aprender a viver sem a esposa, porque ela passava mais tempo no trabalho cuidando de crianças doentes do que dos próprios filhos. Não que salvar crianças doentes fosse ruim, na verdade, Lobo admirava a força de sua mulher. Mas talvez ela tenha ultrapassado vários limites, quando seus 4 filhos cresceram sem uma mãe, e principalmente, quando o uso abusivo de seu corpo a levou à morte.

Sebastian Lobo se encontrou aos 47 anos, viúvo, sozinho novamente.

Agora, aos 57 anos, aposentado e curtindo a vida com os netos, não conseguia parar de pensar como seria se tivessem saído vivos da casa da colina. Abriu a segunda gaveta da escrivaninha e encontrou seu velho diário com as reportagens de quando foi resgatado. Os jornais enlouqueceram, as pessoas piraram sem conseguir compreender o que havia acontecido naquela casa. Sebastian foi a julgamento, acusado de ter sequestrado e assassinado Helena Cabral. Aquilo era tão absurdo aos ouvidos do garoto, principalmente quando ele amava Helena Cabral mais que sua própria vida. Mas as pessoas preferiam acreditar que o pobre garoto havia feito do que uma criatura sobrenatural.

A família Cabral culpava Sebastian, sobretudo, por ele ter deixado Helena sozinha. A mãe de Helena não suportava nem mesmo ouvir o nome dele, quem para ela foi de fato o responsável por tirar a vida de sua filha, mesmo quando várias testemunhas viram o momento que a vida deixou o corpo da garota. Com o tempo, a família de Helena se mudou para outro estado e Lobo nunca mais ouviu falar deles.

Era triste assistir à mãe de Helena chorando no julgamento, pedindo aos céus que sua filha fosse traga de volta. Até mesmo o professor Ventura foi demitido, devido ao que aconteceu. Não há quem não tenha sofrido com a fatalidade.

O tempo passou, algumas pessoas esqueceram-se, outras apenas seguiram em frente e o caso Helena Cabral, deixou de ocupar as manchetes. A vida continuou e Sebastian não teve outra opção senão seguir também.

Sebastian escapou da prisão por muito pouco, graças às testemunhas ele se livrou de se tornar o assassino de Helena, mas o juiz não conseguia acreditar que eles estavam sendo presos por uma entidade maligna.

Com o tempo sua vida voltou ao normal e ele aprendeu a lidar com o vazio em seu peito, que jamais sumiu ou foi preenchido. Na verdade, nem mesmo Thalia – a mulher que Lobo amou por toda a vida –, foi capaz de preencher o vazio que Helena Cabral havia deixado.

Lobo encarou a foto da garota que amou e com quem viveu momentos aterrorizantes e horríveis, era a única foto que tinha dela e que guardou por anos. A Helena meiga e com vida, essa era forma que ele sempre iria se lembrar dela.

Sebastian fechou os olhos e inspirou profundamente, seu coração estava batendo de uma forma diferente, uma forma ansiosa. Sim, mil vezes, sim! O que eles tinham para viver se tivessem saído da casa da colina, definitivamente valeria a pena. Porque eles se amavam…

O velho homem tocou seus lábios diante da lembrança do último beijo que tinha dado na sua amada. Seus lábios formigaram, como uma lembrança viva. Ao se concentrar, Lobo podia sentir os lábios de Helena sobre os seus novamente.

“Eu te amo, Sebastian, eu te amo muito.”

E se…

De repente, um pensamento inusitado invadiu a cabeça de Sebastian.

E se ele voltasse no tempo?

Invadido por uma emoção incontrolável. Sebastian Lobo pegou seu celular e discou o número de seu velho amigo, Nathan. A chamada foi atendida no terceiro toque.

— Lobo, estava pensando em você nesse exato momento. — Nathan falou alegre do outro lado. — Quando nosso netinho nascer nós podemos levá-lo para…

— Nathan! — Lobo o interrompeu em tom sério, precisou se sentar, porque estava muito trêmulo.

— Está tudo bem? — Seu amigo se sobressaltou diante da seriedade do amigo. — Cara, você não está passando mal?

— Nathan, você lembra quando nos contou que conheceu uma terapeuta de regressões? — Sebastian começou a andar de um lado do outro, os pontos estavam sendo ligados dentro de sua mente. — Ah, sim, como eu nunca pensei nisso antes… — Resmungou para si mesmo.

— Sim, me lembro. — Confirmou Nathan. — Você não acreditou nisso, não é?

Sebastian abriu um sorriso.

— Eu preciso que me leve até ela, agora, hoje, nesse exato momento! — Sebastian mal podia respirar. — Por favor, cara, por favor!

Houve um silêncio do outro lado da linha telefônica.

— O que está acontecendo, Tião? — Nathan quis saber, sua voz soava preocupante.

— Preciso voltar no tempo! É isso! Eu vou voltar no tempo e vou salvar a Helena. — Falava ofegante, tamanha sua euforia.

— Beleza, ficou maluco de vez! — Seu amigo concluiu.

— Nathan, eu preciso fazer isso! — Sebastian gritou com a voz trêmula.

E o seu amigo reparou na seriedade das palavras do outro lado da linha telefônica e se pensar no que aconteceu, se pensar na forma como viu a vida abandonar o corpo de Helena, Sebastian tinha razão em querer corrigir o que aconteceu. Nathan não poderia dizer não para seu amigo. Mesmo que a ideia de regressão seja completamente maluca.

— Se você vai fazer isso, então nós vamos todos juntos até a casa dessa tal senhora. — Nathan apresentou sua condição.

— Combinado, pego vocês em uma hora… — Disse Sebastian, já desligando o telefone, para que ninguém o ligasse dizendo que voltou atrás.

O coração dele batia tão forte que ele parecia que iria desmaiar a qualquer momento.

Mas não podia estar mais feliz em toda sua vida.


— Fazer uma regressão pode ser muito perigoso, meu jovem. — A mulher tomou um gole da xícara de chá, não era uma idosa, na verdade, era jovem e muito bonita, como se o tempo jamais tivesse passado para ela. Madame Moira – como preferia ser chamada – usava belas joias de ouro espalhadas por seu corpo, e um vestido verde-escuro justo, que a deixava ainda mais bela. — Muitas pessoas podem ser afetadas com suas escolhas, as pessoas que você mais ama. Se mexer com o tempo, o tempo se volta contra você, é simples. O destino nunca gostou de pessoas inconformadas.

Sebastian jamais se conformaria com a morte de Helena, essa é a verdade, então ele estava pouco se lixando para a ira do destino.

— Senhorita, eu estou mais que disposto a arriscar. — Confirmou Sebastian, o homem olhou para o rosto dos seus velhos que estavam ali reunidos a seu redor, dando todo apoio a ele. — Podemos fazer isso agora?

A mulher sorriu sarcástica para Sebastian.

— Eu vou preparar o chá. — A mulher levantou-se e sumiu casa adentro.

Lobo encarou os rostos a seu redor, seus amigos estavam inquietos e nervosos.

— Lobo, você tem certeza disso? — Carlos insistiu.

— Sim, cara.

— Você não está com medo? — Quis saber Guilherme. — Você vai voltar no tempo… aquela coisa vai voltar a ganhar vida…

— Eu não estou com medo! Não tenho mais medo de Damiano e se for preciso, novamente nós iremos derrotá-lo. Dessa vez não vou falhar. — Sebastian respondeu firme.

Pedro respirou fundo.

— Tudo bem, se é o que você quer… — Pedro apoiou o amigo.

A mulher voltou para a sala com uma xícara de chá fulminante de tão quente.

— Você tem um objeto da pessoa que almeja encontrar?

Sebastian tirou do bolso um colar que pertencia à Helena. Sérgio tinha dado a ele, muitos anos atrás, havia roubado da casa dos pais de Helena Cabral, apenas para que seu amigo tivesse algo para se lembrar.

— Preste bem atenção, Sebastian. — A mulher estendeu a xícara de chá para o homem e ele a pegou com firmeza. — A regressão vai funcionar da seguinte maneira: você vai voltar no tempo, minutos antes da grande decisão que levou a morte de Helena acontecer. Seguidamente você vai viver dali em diante como se nada tivesse acontecido, ninguém irá se lembrar, mas você vai saber de tudo. Portanto, conforme suas novas escolhas, você viverá até os 57 anos do dia de hoje. No entanto, quando chegar essa hora e esse dia, você retornará para a realidade.

— Ele vai reviver dos 17 até os 57 anos? — Rafael abriu a boca, chocado.

— Poderei viver até os 57 anos com a Helena? — Os olhos de Lobo brilharam.

— Sim. — Confirmou a mulher. — Mas, depois irá voltar para essa vida. Como se trata de uma regressão, muitas alterações podem ocorrer quando você voltar. E terá que lidar com todas elas.

Sebastian engoliu seco.

— Você tem certeza de que vai fazer isso? — Sérgio olhou no fundo dos olhos de Sebastian.

— Absoluta. — O homem concordou. — Mas, isso tudo quer dizer que será como um sonho? — Sebastian olhou no fundo dos olhos da mulher.

A mulher sorriu bonito.

— Será exatamente um sonho, então, aproveite os melhores momentos. — A mulher sinalizou para Sebastian beber o chá, ele começou a tomar os goles da água amarga e quente. — Boa sorte, Sebastian e, por favor, faça as escolhas certas…

Ele assentiu e deitou-se no sofá, já mais relaxado.

A cigana pegou um relógio de bolso muito antigo e bonito e começou a balançar diante dos olhos de Sebastian. Não demorou muito para sentir uma paz interior tão grande que parecia estar flutuando. Sentiu sua alma se aprofundar no passado, e viu diversas partes de sua vida se tornar um borrão.

Até que tudo ficou escuro, tão escuro que lhe era familiar…

Sebastian Lobo

— Sebastian!

Ela me sacudia com tamanha força que parecia que eu iria me desfazer em seus braços. Naquele momento eu sentia uma dor tão forte que não podia abrir os olhos, por mais que eu quisesse, não conseguia.

— Sebastian! — Continuou me sacudindo, enquanto chorava descontroladamente.

Não era familiar, a sensação de estar sendo sacudido? Essa voz não soa tão conhecida? Esse momento… É como se estivéssemos voltando no tempo, como se eu estivesse preso naquela casa com o demônio assassino chamado Damiano.

Não só era familiar, como estava acontecendo.

Contudo, agora, eu podia fazer tudo diferente…

Eu voltei e foi por você, Helena Cabral.

A garota por quem me apaixonei, a garota que salvou a minha vida milhões de vezes.

E eu não voltei para apenas salvá-la, e sim para nos salvar…

O ciclo estava se abrindo agora, novamente.

Não para sempre… mas, por 40 anos…

A coisa batia com força na porta, e logo estaria do lado de dentro, Helena me mandará embora e morrerá para me salvar, esses eram os acontecimentos seguintes, os acontecimentos que eu mudaria em meu sonho de regressão. A ouvi correr até a escrivaninha e a empurrar contra a porta, assim dando-nos mais tempo.

— Helena? — Finalmente consegui abrir os olhos e murmurei ao recobrar a consciência.

Ela correu desesperada até mim.

— Sebastian! — Me puxou pelas mãos, para que eu ficasse de pé.

A garota segurou meu rosto com suas mãos pequenas e macias, olhou no fundo dos meus olhos. E eu pude sentir ser o fim, naquele dia senti que era o nosso fim, mas hoje… hoje será o nosso começo.

— Você tem que sair daqui, por favor, você precisa ir.

“Helena, do que está falando”, foi o que lhe disse naquele dia.

Entretanto, agora… eu só quero beijá-la, só quero abraçá-la e senti-la viva. O sangue quente correndo por suas veias, seu coração batendo forte, sua alma cheia de vida. VIVA. Foi preciso controlar as emoções naquele momento…

Agarrei a cintura de Helena com força e a puxei para mim, vi seus olhos sobressaltados me encararem de forma assustada. Eu sei, ela não pode compreender esse momento, quando é ela quem deveria estar fazendo isso.

Beijei seus lábios, seu coração batia tão forte que podia ouvi-lo nitidamente e ele entrou em sincronia com o meu, que batia na mesma frequência. Mesmo machucado, mesmo dolorosamente ferido, aprofundei o beijo. Mesmo quando a criatura esmurrava a porta, estou te beijando como se esse fosse o nosso primeiro e último beijo.

E bom… este era o primeiro de uma vida inteira.

Era ela quem deveria se declarar agora, mas quando afastássemos após o beijo, eu quem estava dizendo:

— Eu te amo tanto, Helena.

Nesse momento, me lembro de sentir o mundo despedaçar ao meu redor. Quando ela disse que me amava como se soasse uma despedida, aquilo doeu tanto que eu quase não consegui respirar. Mas agora, tudo mudou, seu coração estava quente e estava gritando para me ter ao seu lado.

— Sebastian… — Lágrimas apareceram em seus olhos.

Precisava pensar em um plano rápido e lutar contra Damiano estava fora de cogitação, já que eu estava muito ferido e cansado, ele era 10 vezes mais forte do que eu. A possibilidade de o encarar face a face era totalmente nula e esse foi um dos motivos certeiros para que Helena me mandasse fugir naquele dia. Porque Damiano viria para cima de mim e eu iria morrer, sem forças para lutar por minha própria vida. Consequentemente, Helena seria a próxima e nenhum de nós sairíamos com vida da casa da colina.

— Clélia está a caminho! — Puxei Helena pela mão, considerando o tempo que nós tivemos na primeira vez que vivemos isso, eu tinha alguns minutos em vantagem antes da criatura destruir a porta. — Vem, Helena, nós vamos sair daqui juntos.

— Sebastian… mas, Aiana…

Foda-se, Aiana!

— Apenas faça o que estou mandando! — Olhei sério para ela, Helena assentiu e atravessou a janela, fui logo atrás dela. Uma vez em cima do telhado, um buraco apareceu na porta, a criatura estava destruindo a madeira. Entretanto, dessa vez, eu desceria o telhado de forma estratégica e, ao mesmo tempo, rápida, auxiliei Helena e nós nos penduramos no beiral de madeira. Eu pulei primeiro, em seguida ela pulou, eu agarrei seu corpo e quando estávamos com os pés firmes no chão, um grito assustador ecoou pela casa.

Agarrei a mão de Helena e a puxei.

— Corra, Helena, corra! — Gritei. — Não olhe para trás!

Eu estava tão confuso e entorpecido de dor, que apenas corri como se não existisse amanhã, exatamente como havia corrido da primeira vez em que deixei a casa com Helena ainda lá dentro. Nós descemos o morro de cascalho da colina sem olhar para trás. Gritos e mais gritos eram ouvidos à distância.

Mas nós dois não podíamos parar de correr e eu não podia acreditar que isso estava mesmo acontecendo. Helena estava segurando minha mão e nós estávamos correndo para longe da casa da colina, juntos.


Os adolescentes atravessaram o portão de barras de ferro, estavam diante da estrada que passa abaixo da colina, Sebastian estava respirando ofegante, Helena precisou sustentar seu corpo.

— Continue correndo, por favor, continue correndo, Sebastian! — A garota insistiu, mas a cabeça do rapaz estava pulsando de dor, seu corpo planejava falhar.

De repente, ele perdeu as forças e caiu no chão.

— Sebastian! — Ela gritou, enquanto tentava segurá-lo em seus braços. — Sebastian, por favor, não morra!

Inesperadamente, ouviram um carro cantar pneu e no segundo seguinte, as portas do veículo abriram e os garotos correram em sua direção.

— Sebastian! — Gritou Rafael.

— Helena! — Pedro correu na direção da garota.

A maldição ainda estava viva e somente Pedro podia vê-la.

— Eu não os vejo! — Disse Clélia, se juntando ao grupo em passos lentos.

— A casa… a maldição… — Helena soluçava enquanto tentava falar.

— Nós precisamos acabar com isso. — Pedro constatou, informando aos demais a realidade que ainda os cercava.

— Vamos levar Clélia até a casa. — Disse Carlos.

Os garotos concordaram, Sérgio e Pedro ficaram com Sebastian e Helena. Enquanto os outros subiram a colina levando Clélia.

Helena manteve Sebastian em seus braços o tempo todo.

— Estamos salvos, Sebastian… — Chorava enquanto o apertava contra si.

Helena, Sérgio e Pedro viram quando uma nuvem negra rodeou a colina, um grito horripilante ecoou pelo bosque assim como o barulho de vidros e porcelanas sendo quebradas. E a poeira negra se dissipou pelos ares, desaparecendo para sempre.

Como em um passe de mágica, Sérgio assistiu Helena tomar forma em sua frente, revelando-se conforme a neblina escura dissipava-se para fora de seu corpo.

— Helena? — Sussurrou desacreditado ao ver a garota aparecer onde antes estava vazio.

A maldição havia chegado ao fim.

A garota chorou quando sentiu um alívio possuir sua alma. Abraçou Sebastian com força e chorou.

— Acabou… e eu estou aqui.

Não podia explicar a paz que estava sentindo por estar finalmente livre e viva.

A polícia chegou logo em seguida, os pais de Sebastian, os pais de Helena…

Lágrimas, alívio, paz…

A maldição estava quebrada, a paz, esperança e alegria voltou ao coração das famílias dos adolescentes desaparecidos.


Sebastian se sentia leve, como se sua alma estivesse flutuando sobre o céu.

Abriu os olhos e sentiu uma mão macia acariciar seu rosto. Estava em um quarto tão branco que seus olhos doíam. Era um hospital, o bip irritante ao seu lado só confirmava isso.

— Está tudo bem agora, meu filho. Estou aqui, o pesadelo acabou. — Era a voz de sua mãe. — Você foi resgatado e não está mais naquela casa. Está seguro.

— Mãe? — Sebastian chorou baixinho, estava tão aliviado por ouvir a voz de sua amada mãe.

— Estou aqui, querido, eu te amo e agora estou contigo. — Garantiu a mulher.

— Mamãe, onde está a Helena? — Era a única coisa que assombrava sua mente. — Vocês a encontraram na casa? Eu disse para aquele senhor… E-eu a deixei para pedir ajuda. Vocês a encontraram?

Sua mãe sorriu fraco, apertou sua mão e em seguida acariciou seus cabelos, como desejou ver seu filho vivo e bem novamente.

— Ela está bem, querido. — Contou sua mãe, o que fez mais lágrimas de alívio caírem dos olhos de Sebastian. — Ela está se recuperando no quarto ao lado.

Ele havia conseguido. Ele mudou o futuro. Sebastian havia salvado Helena, ele cumpriu a promessa de que sairiam vivos dali.

A garota que amava estava viva.


12 anos depois do resgate

Helena ergueu a câmera para o jardim, ela enquadrou a vista a sua frente na tela da câmera e então apertou o clique registrando a foto. Encarou o resultado satisfeita, essa será uma matéria muito bonita. De repente, sentiu mãos agarrarem sua cintura e o corpo quente preencher o dela, Sebastian pousou a cabeça sobre o ombro de sua esposa para ver a fotografia em suas mãos.

— Oh, uau, ficou linda… olha todas essas cores… — Sebastian apontou para as flores da foto.

— Eu sei, vai dar uma bela matéria, bem chamativa, não acha? — Helena virou-se para abraçar seu marido.

Sebastian apertou a mulher que amava, não se cansava de tê-la em seus braços.

— Você fez um belo trabalho, meu amor. — Sebastian deu um selinho nos lábios macios de Helena. — Veja em que transformou isso!

O rapaz virou o corpo da mulher, fazendo-a encarar tudo ao seu redor. Após serem resgatados, Clélia Barros deu a casa da colina para o casal de sobreviventes. Os dois, pouco interessados na casa com história de maldição e lembranças horríveis da prisão que viveram, mandaram a destruir e construir um jardim comunitário em memória da família de Clélia e as crianças que morreram nas mãos de Damiano. O jardim é um ponto turístico muito famoso de Perolino agora.

— Você transformou o pesadelo de várias pessoas em lindas memórias de rosas-vermelhas, recordações boas que merecem, na verdade, serem lembranças. Essas pessoas não devem ser esquecidas. Estou orgulhoso de você, minha Helena.

A moça não pode evitar ficar ruborizada, mesmo casada com Sebastian, mesmo acordando diariamente ao seu lado, seus elogios ainda a deixavam ruborizada.

Com isso, olhando os belos olhos do homem que amava, reparando em seu sorriso com dentes grandes, Helena desistiu da surpresa… aquele era o momento perfeito…  o céu estava azul, sem nuvens e uma brisa fresca abraçava seus corpos.

— Sebastian, eu preciso te contar uma coisa… — A mulher apertou a mão do seu marido, e ele ficou sério com medo das próximas palavras. — Vai chegar em dezembro.

Sebastian uniu as sobrancelhas, sem compreender.

— Do quê…

Helena pegou a mão de seu marido e a colocou sobre seu ventre. De início, Sebastian continuou confuso. E então gradualmente sua boca se abriu e Helena viu as lágrimas surgirem em seus olhos.

— Não pode ser… meu deus, Helena! — Ele abraçou sua mulher, erguendo-a do chão e a rodopiando no meio do jardim, beijou seus lábios fortemente, beijou seus olhos, bochechas e nariz.

Beijou Helena Cabral porque a amava tanto, porque era tão feliz com ela, porque queria que tudo isso fosse mais que um sonho… Sebastian chorou, sempre chorava diante de momentos como esse. Porque sabia que era um sonho, que quanto mais o tempo passasse, mais perto estava de voltar a sua antiga vida e ele não tinha coragem de contar isso para Helena.

— Helena, eu te amo muito.

“Aproveite os melhores momentos.”

— Eu também te amo, Sebastian, e eu tenho certeza que essa pequena vida também irá te amar. — Helena não pode evitar as lágrimas de felicidade, era o primeiro filho deles. — Nós estaremos com você para sempre.


40 anos depois do resgate

— NÃO! — Helena gritou.

Não existiu um dia em que Helena não tenha acordado sobressaltada após um pesadelo com Damiano, desde que fugiu da casa desse demônio ela vem tendo pesadelos horríveis. A mulher sentou-se na cama e chorou, pôs a mão no coração e tentou respirar, Sebastian que não havia dormido naquela noite, pegou a mulher em seus braços para protegê-la, Helena chorou e chorou. E Sebastian a consolou.

E ele era o único que sabia o porquê de ela ter pesadelos, quando ele não tinha. E Sebastian tinha que confessar ser um verdadeiro egoísta, era tudo sua culpa. Se Helena tivesse pedido perdão… talvez… talvez… céus.

— Está tudo bem, meu amor, eu estou aqui. — Sebastian a manteve firme sobre seus braços. — Foi só um pesadelo.

Dói tanto vê-la naquele estado.

Quando Helena se acalmou, ela se manteve deitada na cama com a cabeça sobre o peito do marido, ouvindo o coração do homem que amava bater.

— Bas… — Helena acariciou o rosto de Sebastian.

— Sim.

— Eu te amo tanto.

Sebastian abriu um sorriso.

— Eu também te amo. — Sebastian sentiu as lágrimas virem, era hoje, o último dia com Helena. Mas ele não podia deixar de desejar que o sonho não acabasse. Queria ficar aqui, nessa vida, onde Helena era uma mulher presente que cuidou de seus 3 filhos, que o amava com toda sua alma. Ele sempre soube que só seria completamente feliz com ela.

Não que não amasse seus filhos com Thalia em sua outra vida, é que… era ela, sempre foi ela, e jamais deixará de ser Helena.

— Por favor, me ame. — Helena pediu.

E como Sebastian podia negar isso? Quando tudo que queria era amá-la como se isso nunca fosse acabar…

Sebastian a amou, a beijou, a tocou…


Algumas horas mais tarde, ele entregou um pequeno bilhete a sua amada esposa.

— O que é isso?

— Por favor, apenas leia e segure minha mão.

Sem entender, Helena o fez.

“Eu soube que era você do segundo em que te vi e você era apenas uma menininha usando um vestido vermelho. Quando éramos crianças, eu era o garoto que te ajudava a subir na casa da árvore. Pedro não quebrou o seu coração em vão, se ele não tivesse tirado você de mim, se suas notas não tivessem caído, se não tivéssemos que fazer o trabalho juntos, nós jamais teríamos chegado à casa da colina.

Foi como se estivéssemos chamando um ao outro, uma providência do universo, a evidência que o destino nos deu. Tudo isso não foi uma coincidência e jamais será. Era o meu destino, o nosso destino, com caminhos diferentes, mas era nosso.

Em outra vida, Damiano te matou e eu fiquei sozinho sem nunca poder te amar. Seus pais me culparam por sua morte, eles sofreram tanto que não sei explicar. Me vi sozinho aos 47 anos, minha esposa morreu, sim, eu segui em frente, mas ninguém me amou ou vai me amar como você, meu amor.

Por isso, nesse mesmo dia e mesma hora de outra vida, eu fiz uma regressão para viver 40 anos ao seu lado. O destino não tinha mais palavras para escrever para nós ou para você, mas eu tinha muitas, tantas palavras para escrever para Helena Cabral, que não podia aceitar a sua morte, por isso, voltei no tempo e te dei isso…

40 anos de vida que estão acabando agora.

Fiz isso porque te amo, fiz isso, porque precisava viver uma vida na qual pudesse te amar, Helena. Era algo que eu precisava mudar, algo que precisava desesperadamente viver. 40 anos não se comparam ao amor que sinto por você, por isso, me desculpe se foi errado, me desculpe se chegou ao fim.

Não se culpe, não se arrependa, Helena Cabral, por ter se sacrificado por mim naquele dia… Não olhe para trás. Nós tomamos caminhos completamente diferentes. Porque encontramos nosso destino. Não se arrependa disso, Helena, estamos juntos para sempre, nos nossos sonhos. 

Te amo, Helena, obrigado por ter me dado a melhor vida que eu poderia viver, obrigado por me amar e obrigado por permitir que eu te amasse.

Amo você, para sempre seu Sebastian Lobo.”

Ele viu quando os olhos de Helena se encheram de lágrimas e quando ela abriu a boca, o ponteiro do relógio se ajustou e seu marido viu Helena começar a desaparecer.

— Eu te amo tanto, Sebastian…

Como pó branco, pó de estrela, ela se desfez.

Sebastian viu a sua vida passar pela sua cabeça como um filme. Agarrou-se ao diário que manteve em suas mãos por todo o tempo, queria mantê-lo consigo para sempre.

— Helena? — O homem abriu os olhos e as lágrimas caíram.

Estava de volta à sua casa, aquela manhã onde sua filha Amanda entregou o bilhete de Helena. E agora, ele estava em suas mãos, juntamente do diário que ele trouxe de sua vida ao lado da mulher que tanto amou. Aliviado, fechou os olhos com força e por um instante, pôde ver toda a sua vida ao lado dela.

Se valeu a pena?

Foi muito mais que isso…

Ele faria tudo de novo mil vezes se pudesse.

— Valeu a pena, Helena! — Sebastian murmurou baixinho para si mesmo, como se ela pudesse ouvi-lo. — Valeu tanto a pena te amar, que dói.

Sebastian abriu o diário em suas mãos e começou a reviver toda a sua vida ao lado de Helena através das fotos e textos que escreveu para si mesmo.

Seu coração pulsava quente, não o destino, mas ele havia escrito palavras para o amor deles. Se morresse neste exato momento, morreria sendo o homem mais feliz do mundo.

Chorou como um bebê enquanto relia o diário.

— Eu aceito o nosso destino, Helena Cabral, desta vez eu aceito, total e completamente.


 

“Não há nada mais assustador do que uma porta fechada”
— Alfred Hitchcock

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