Capítulo Um
A Casa na Colina
— Eu odeio quando não consigo combinar o esmalte com minhas roupas. — Uma de suas colegas dizia enquanto Helena tentava ler um livro. É intervalo e se sentaram em uma das mesas charmosas do pátio da escola, tomavam a vitamina D diária.
— Se é difícil para você combinar esmalte e roupa, não queria estar na minha pele. Tenho pesadelos com o garoto que gosto. — Soltou sem querer.
— Você tem pesadelos com o Pedro? Que horror! — Alice fez uma expressão tão pavorosa. — Imagina o quanto horrível é ter pesadelos com seu ex. Meu deus, Helena.
Sua colega ri e Helena também, pois é o que lhe resta. Do outro lado do pátio, um par de olhos cor de jabuticaba a encara, rodeado pelo típico grupinho de garotos. Sebastian está sempre com os olhos em si. É como se ele a chamasse, como se quisesse dizer algo, mas lhe falta coragem. Não será ela que irá tirar a prova.
Podia-se entender, aquela noite também não saia dos seus pensamentos, mesmo que já tivesse se passado 4 meses. Balançou a cabeça e dissipou as lembranças, a última coisa que precisava e queria era se lembrar do quanto especial aquele momento foi. Às 9h e 45min, as garotas seguem para a sala de aula e assim os últimos horários de aula se vão.
Durante toda a aula há dois pares de olhos devorando Helena, ela consegue sentir o frio na sua nuca. Sebastian e Pedro. Não precisava olhar para trás para saber de onde os olhares vinham.
Quando o sinal tocou alto e ensurdecedor como todos os santos dias, avisando ser o fim da aula, o Prof. Ventura se despediu dos alunos, consertou os óculos em seu rosto antes de raspar a garganta e falar alto:
— Helena Cabral e Sebastian Lobo, podemos conversar? — Pediu olhando diretamente para os alunos em questão.
Ela engoliu seco, já sabia o que estava por vir. Timidamente caminhou até a mesa de seu professor, atrás de si o rapaz solicitado também se aproximava.
— Queridos, acredito que ambos vêm passando por uma fase conturbada de suas vidas, acredite, sei como é estar no último ano escolar e estar prestes a ir para a universidade. — Ventura sorriu para seus alunos. — Conversei com o nosso diretor a respeito de vocês e trago boas notícias, serão eternamente gratos a mim por isso. — O homem abriu um sorriso gigante e alisou o bigode em seu rosto. — Vocês serão duplas no trabalho de recuperação de redação jornalística. Essa é a última chance que lhes dou, entendido?
Ambos balançaram a cabeça em concordância. O rapaz pensando como o destino agia e a moça refletindo em como pode ter tanta falta de sorte.
— Quero o trabalho perfeitamente bem feito, digitado, encadernado e dentro das normas ABNT semana que vem. Sem atraso, sem falta e sem nenhum minúsculo erro. — O homem analisou com o olhar sério os adolescentes à sua frente. — Agora vão e me surpreendam.
— Sim, senhor. — Responderam simultaneamente e deixaram a sala juntos.
Para Helena estar de recuperação na redação jornalística era o fim do mundo, logo ela que estava apostando na vaga para estudar jornalismo na Universidade Federal de Ouro Preto. Seu sonho estava escorrendo como água pelo ralo e ela precisava desesperadamente nadar contra a correnteza e salvar seu futuro.
Já Sebastian era de esperar que fosse péssimo em redação, sendo que o garoto sempre gostou de desenhos e músicas. Sempre foi criativo e por isso era uma tortura fazer textos gigantes e técnicos.
Os dois foram da mesma sala desde o jardim de infância, houve uma época que se encontravam no parquinho de seu bairro para brincar, mas isso foi há muito tempo. Eles praticamente nunca se falam… bem, exceto pelos acontecimentos recentes. E com isso me refiro aos beijos atrás da escola no dia da festa junina ou em como Sebastian apareceu na sua casa quando seus pais não estavam e os dois fizeram sexo. Ou até mesmo todas as vezes que ele a acordou quando dormia durante as aulas. O rapaz sempre estava ali, mas não se pode dizer o mesmo dela.
— Você tem algo em mente? — Perguntou Helena, enquanto eles rumavam pelos corredores lotados de adolescentes em direção à saída da escola.
O rapaz de orbes escuras arregalou os olhos e coçou a cabeça.
— Não? — Olhou amedrontado para a garota e posteriormente soltou os ombros, frustrado. — Ah, Helena, me desculpe, sou péssimo em redações. Creio que sou a pessoa errada para ajudá-la com a recuperação. Sinto muito que tenha que fazer isso logo comigo.
Eles pararam no corredor que parecia vazio agora. A garota se encostou ao metal gélido da porta fechada da biblioteca e apertou os cadernos contra o peito, se sentia tímida perto das pessoas, principalmente de alguém cujo tocou e viu cada detalhe do seu corpo nu. E mesmo com sua insegurança, conseguia olhar para o garoto diante de si e concluir que Sebastian Lobo continuava sendo lindo, charmoso e tão criativo. Ela amava cada detalhe dele e tinha o pensamento bobinho em como cada singularidade dele completava ela.
— Não se preocupe… — Ela deu de ombros. — Nós vamos dar um jeito. E você é bom com desenhos, não é? Então que tal algo, hmmm, deixa eu pensar…. — Refletiu, a mente de Helena sempre foi muito criativa para redações. — Talvez possamos encontrar algo misterioso, como um crime. Você poderá desenhar o retrato falado e algumas ilustrações criminais. É outubro, meio que tem essa vibe.
Em resposta, o rapaz abriu um sorriso grande, isso era fantástico. Admirava que a mocinha sempre tivesse ideias excelentes, já havia reparado quão criativa ela era nas aulas de redação. E quando era selecionada para ler para a turma, era como se Sebastian estivesse no paraíso ouvindo um anjo lhe contar histórias incríveis.
— Ótima ideia! — Ele começou a se afastar. — Na minha casa ou na sua?
Na sua casa sem chance. Não após ter lembranças com ele lá. Ele estava gravado nas paredes do seu quarto, na sua cama, qual fora palco para todos os sentimentos que nutriam um pelo outro.
— Pode ser na sua? — Helena gritou enquanto ele se afastava andando de costas. — Minha mãe tem clube do livro hoje.
— Na minha casa, às 14h. — Sebastian virou o corredor e sumiu na multidão de alunos.
Helena estava sorrindo. E, por que ela estava sorrindo? Droga! Obrigou-se a voltar seus pensamentos para a realidade. Ela precisava recuperar sua nota em Redação Jornalística.
Desde que Pedro rompeu o namoro de anos com ela e passou a desfilar com lindas garotas pelos corredores da escola, suas notas despencaram. E ela odiava o fato de estar caindo em direção ao fundo do poço por um garoto.
Seu pai havia dito meses atrás quando percebeu a tristeza da garota: “A vida é mais que um namorado, a vida é extremamente mais do que apenas um fútil coração partido!”
Talvez essas palavras sejam um pouco rudes, mas eram verdadeiras, seu pai lhe queria o bem e ele estava coberto de razão. Todavia, Helena fechou os olhos e jurou esquecer o que Pedro lhe causou, mas Sebastian apareceu, sua antiga paixão de menina. Num estalar de dedos, ela estava em seus braços. Agora, o passado precisa ficar no passado. Iria recuperar suas boas notas a todo custo e ignorar o quanto seu coração clama por Sebastian Lobo, era sua principal meta.
Helena nunca tinha entrado em um quarto tão legal quanto o do seu parceiro de redação. Repleto de desenhos incríveis colados nas paredes de cor azul-marinho – tão escuro quanto preto –, além de diversos itens eletrônicos que formavam uma tremenda bagunça em seu quarto. Entretanto, os desenhos eram o que mais deixava a garota fascinada, o próprio Sebastian havia desenhado. Além de extremamente bonito, ele era incrivelmente criativo!
A garota se esforçava para manter a atenção nas anotações e pesquisas que estava fazendo, mas toda vez que ele sorria, ela ficava boba em como seu sorriso grande era bonito. Não deveria se sentir assim perto dele.
— Essa casa parece realmente interessante. — Disse o rapaz apontando para a foto da residência em questão, ao lado havia a foto do menino desaparecido a mais de 50 anos atrás.

— Várias pessoas já moraram nessa casa, ela é bem antiga, aposto que os atuais moradores têm algo a contar sobre aquele garoto que desapareceu pelas redondezas. — Concluiu.
Haviam encontrado um caso de desaparecimento interessante e estavam ansiosos para escrever sobre. Se tratava de um bosque em uma colina um pouco afastada do centro de Perolino – onde moram –, eles precisam viajar de trem para chegar lá. Só carecia fazer algumas perguntas aos moradores locais e desenhar qualquer paisagem relacionada ao desaparecimento do menino.
— Parece ótimo. — Helena concordou.
— Ok! — O garoto levantou-se animado e caminhou pensativo pelo quarto enquanto concluía: — São 15h, se pegarmos o trem agora chegaríamos lá às 16:30h, e então estaríamos de volta a nossa casa em torno de 20h.
— Vamos logo! Quanto antes melhor. — A garota se levantou animada, abrindo um sorriso imenso e se sentindo uma verdadeira repórter.
Os adolescentes anotaram o endereço, pegaram seus pertences, Sebastian se despediu de sua mãe e ela o entregou uma pequena bolsa com comida para a viagem. Saíram de casa ansiosos para as descobertas misteriosas que estavam prestes a fazer.
Os jovens pegaram o trem e atravessaram Perolino conversando sobre o trabalho. Sebastian já estava a todo vapor desenhando em seu caderno, enquanto Helena anotava vários tópicos importantes para o desenvolvimento do trabalho. E o clima de tensão entre os dois no início era palpável, mas agora estavam mais acostumados um com o outro sendo bons colegas como eram. Como se fossem velhos amigos. Assim parecia bem mais confortável.
Após saírem da estação, eles caminharam pelo bairro deserto, pararam em um posto de gasolina beira estrada e foram até a lanchonete para comprar um pacote de Mentos. Caminharam uns bons quilômetros até avistar a casa na colina.
Portões de barras de ferro protegiam a entrada de cascalho para a subida até a casa. Quando o rapaz abriu o portão ele rangeu, mostrando o desgaste que o tempo o havia causado, suas mãos ficaram sujas de ferrugem, ele as limpou no jeans que usava.
Os adolescentes subiram o caminho de cascalho, a casa grande era feita de madeira, pintada de branca e devastada pelo tempo, indicando estar provavelmente abandonada.
Ao chegar no topo da colina, Helena pegou seu celular para fotografar a coleção de árvores mortas ao redor da casa, seus galhos nus apontavam para todos os lados, mostrando o quanto era imensa antes de se tornar madeira podre.
Parecia mais uma antiga casa de fazenda, considerando o quão longe era da civilização, não havia mais casas por perto. Além de que, um pequeno casebre no jardim indicava que ali possivelmente era um galinheiro. É triste ver uma propriedade tão grande abandonada.
— Macabro! — Disse ele analisando a foto das árvores nuas. — Gostei!
A garota sorriu satisfeita. Sebastian era fascinado por fotografia, ele se deu conta que deveria ter trago a sua câmera fotográfica.
— Será que tem alguém em casa? Tem muita gente que abandona tudo, mas deixa um responsável cuidando do terreno. — Helena perguntou ao encarar a casa silenciosa, alguma tábua em algum lugar rangia com o passar do vento. É nítido que parecia abandonada, mas nunca se sabe.
— Não acho que alguém ainda venha aqui…, mas, vamos descobrir! — Disse o rapaz subindo os poucos degraus até a porta da casa, mas algo o fez parar no meio do caminho, ele olhou para trás e notou uma presença por entre as árvores mortas com galhos despidos. Abaixo de uma delas – ao lado das raízes grossas esfolando para fora do chão –, havia um cachorro grande o observando.
O animal de cor caramelo estava inquieto, mas de longe pode ouvir que o mesmo choramingou e se agitou, mexendo as patinhas frontais inquietamente. No entanto, permaneceu sentado, parecia estar ponderando se levantava ou não. Era como se quisesse impedir algo horrível de acontecer. O rapaz piscou os olhos fortemente e o cachorro desapareceu…
Pensou estar maluco. Deve ser o sol quente causando-lhe delírios.
Helena bateu na porta, o que fez Sebastian voltar a realidade pouco assustado.
— Olá? — Helena perguntou alto, sua voz ecoou dentro da casa. — Tem alguém aí?
O vento passou forte do lado de fora, causando ainda mais arrepios em suas peles.
— Tá parecendo A Casa Monstro. — O rapaz comparou, citando a animação da casa que devorava crianças que ousavam pisar no seu quintal.
— Para com isso! Eu já estou com medo. — Disse a menina, totalmente arrepiada. — Acho que não têm nin… — De repente a porta se abre, interrompendo a fala de Helena. O rangido causou um arrepio gélido na coluna vertebral da garota.
Ela e seu colega de classe estremecem amedrontados e sem entender o que significava isso.
— Sebastian, acho melhor a gente ir embora. — Disse Helena dando um passo para trás, se os pelos de seus braços eriçados forem qualquer indicação isso significa que a casa era uma tremenda encrenca. Era melhor correr enquanto ainda havia tempo.
Mas o menino se sentia intrigado com o que estava acontecendo, esticou o pescoço para analisar o interior da residência, a visão era pouco iluminada e tudo parecia muito vazio.
“Filmes de terror, não são reais”, pensou consigo mesmo.
— Que estranho… — Ele deu um passo para dentro. — A casa está abandonada…
— Sebastian, vamos embora! — Helena estava realmente com medo, sentia no fundo do seu coração uma sensação horripilante. — Por favor, vamos embora agora!
Contraditório ao que a menina lhe pedia, o rapaz a olhou e sorriu gentilmente.
— Não precisa ter medo, Lena, vou te proteger. — Estendeu a mão para a garota.
Ela pensou duas vezes antes de entrelaçar seus dedos aos dele, ignorou a sensação ruim em seu peito e deu um passo avante. E ele avançou mais, trazendo-a para dentro.
Os acontecimentos seguintes foram rápidos e confusos.
A porta se fechou atrás dos dois em um baque absurdamente alto que os fizeram pular de susto.
E posteriormente Helena fora puxada fortemente e sua mão se soltou da de Sebastian.
— SEBASTIAN!
— HELENA!
Seus gritos de desespero ecoavam pelos cômodos.
O rapaz não podia entender o que estava acontecendo, tudo que ele viu foi a moça ser arrancada para longe e ser levada para algum lugar da casa. Seus gritos queimavam em seus ouvidos. Tudo ficou escuro enquanto seu coração batia desesperado no peito e um silêncio absurdo se instalou a seu redor. Os gritos de Helena haviam cessado… e com o cessar veio o medo, domando a alma do garoto.
A única coisa que podia ouvir era seu coração:
Tum-tum, tum-tum…
De repente, sentiu uma presença incomum, algo o agarrou pelas costas. Mãos frias selaram seu grito de desespero que romperá por sua boca. Sentiu uma pancada forte na cabeça…
E tudo ficou turvo…
Antes de ter sua consciência desligada, Sebastian se deu conta de algo:
Era uma entrada sem volta.
“Não bata, não entre!”, ouviu uma voz suave sussurrar em sua mente.
E tudo ficou escuro…
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