Capítulo Dois

Invisíveis

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Quando abriu os olhos Sebastian se encontrou envolvido por escuridão… tudo ao seu redor resultava apenas em preto, um blecaute sombrio e silencioso.

Confuso, o garoto levou alguns minutos para recobrar a consciência do que havia acontecido. Sentiu uma dor aguda na cabeça, tocou o ponto dolorido perto da sua nuca, mas não sentiu um ferimento, apenas dor. Tateando o local dava para sentir a protuberância de um calombo, onde foi provavelmente atingido.

Conforme sua pupila se adaptava ao ambiente escuro, ele conseguiu enxergar certos pontos. Estava dentro de um quarto, deitado em uma cama empoeirada, cheirando a mofo e coberto por cobertores frios. Do outro lado do quarto ouviu uma respiração pesada, semicerrou os olhos para tentar enxergar no escuro. Debaixo da janela há uma cama onde pouca luz do luar entra, ele vê uma silhueta humana deitada sobre o leito. Seria Helena?

Respirou fundo e encheu-se de coragem, levantou-se da cama em que estava e caminhou cautelosamente até a outra do outro lado do quarto. Ao se aproximar, Sebastian pode respirar aliviado ao reparar que se tratava da garota. Rapidamente ele a toca, checando se ela estava viva. Não parecia morta, sua pele negra ainda é macia e quente, portanto, virou seu corpo que estava de lado para vê-la melhor. A garota murmurou de dor, havia um fio de sangue seco que escorreu pelo lado esquerdo de seu rosto através de um corte feio em sua testa.

Ela estava respirando, ele tinha certeza disso. E enquanto estiverem respirando não estará tudo perdido.

— Helena, por favor, diga-me que está viva… — O rapaz suplicou, segurando a cabeça da garota com as duas mãos, afastou os fios de cabelo crespos que estavam grudados no ferimento para poder analisar melhor. Não parecia tão grave, mas de qualquer forma não era bom.

Sentiu as lágrimas invadirem seus olhos. E quando não houve resposta, o garoto chorou baixinho, segurando a garota em seus braços.

O que estava acontecendo? Como vieram parar nesse quarto sombrio? O que ele deveria fazer diante dessa situação?

— Sebastian… — Ouviu a voz fraca da garota que recobrava a consciência. — O-o q-que aconteceu? O-onde e-estamos?

O coração do garoto bateu aliviado. Seus olhos se encontraram na escuridão e ele secou as lágrimas em seu rosto rapidamente.

— Você está bem? Consegue andar? Nós temos que sair daqui… — Sebastian parecia desesperado, ele não queria assustá-la, mas não podia evitar sentir medo.

De repente, a porta do quarto bateu contra a parede bruscamente, pode-se ouvir o farfalhar da areia caindo sobre o chão, onde a maçaneta bateu agora deverá ter um buraco na parede de concreto. Com o susto, Helena sentou-se na cama rapidamente e se agarrou a Sebastian. O garoto a envolveu em seus braços na tentativa inútil de protegê-la.

Levou alguns minutos para a criatura em questão aparecer. A figura caminhou lentamente para dentro do quarto, seus olhos amarelos encaravam Sebastian como se ele tivesse feito algo ruim. A figura era masculina, usava sapatos sociais, porém opacos, como se nunca tivessem sido engraxados em toda a vida. O homem também está usando um conjunto de terno preto, porém velho e um pouco rasgado. Alto e de pele cor acinzentada, a coisa não parecia um simples ser humano, se assemelhava com um morto-vivo. Os olhos cróceo que brilhavam na escuridão, não era o ponto mais assustador da criatura, e sim, os seus lábios que eram literalmente costurados.

Grossas linhas pretas envolviam seus lábios inferiores e superiores em um zigue-zague, milhares de voltas que iam até suas bochechas. Era simplesmente assustador. O homem horripilante caminhou em passos lentos na direção dos adolescentes, sem tirar o olhar de Sebastian, Helena fechou os olhos com força enquanto tremia nos braços do garoto.

— DEIXE-NOS EM PAZ! — Em um súbito ato de coragem, o rapaz gritou para a criatura, deixando ainda mais furioso.

O homem o calou com um soco no rosto e com o impacto, ele desabou sobre Helena, que desatou a gritar desesperada. Antes que reagisse, foi puxado pelos pés, a garota caiu para fora da cama com ele.

— Sebastian! — Ela chorava e gritava com todas as suas forças.

O garoto no chão tentou se levantar, mas a criatura tinha movimentos rápidos. O monstro tirou o cinto de couro de sua cintura, ergueu a mão ao alto de sua cabeça e golpeou contra na sua direção. Sebastian gritou alto quando a fivela atingiu seu rosto e sentiu o sangue quente escorrer imediatamente.

O homem parecia sorrir com os olhos, já que sua boca estava selada. Ele apontou para cama, enquanto Sebastian o encarava chorando silencioso, colocou a palma de sua mão sobre o corte em sua bochecha. Sentia-se tonto devido à pancada. E não tinha ideia do que estava acontecendo, não tinha condições de revidar agora.

O que seria aquele ser? Um humano ou um monstro? Eles haviam sido sequestrados?

— Sebastian! — Helena gritou. —  Sebastian, você está bem?

A criatura virou-se furiosa para a menina.

—  Por favor, por favor, não machuque ela! — O garoto gritou, se levantando em um impulso, temendo que a raiva do monstro se voltasse à garota.

A coisa voltou a atenção a Sebastian novamente, seus olhos de cobra fuzilavam o garoto e então ele apontou novamente para a cama de onde estava deitado. Não podia entender o que aquilo tudo significava, sendo assim, o homem o pegou pelo braço, seus dedos frios sobre a sua pele quente lhe causavam arrepios horríveis, seguidamente o atirou contra o colchão.

Sebastian apenas permaneceu ali, deitado na cama sem saber o que fazer, enquanto Helena tremia e chorava. O homem saiu do quarto, mas no segundo seguinte já estava de volta com uma maleta de primeiros socorros, ele se locomovia tão rápido que Sebastian não podia acompanhar com os olhos. Aquela coisa poderia ser tudo menos um humano.

A criatura se abaixou ao lado de Helena, enquanto ela grunhia de terror, pegou a garota pelos braços, ela chorou ainda mais, colocou-a sentada sobre a cama com tamanha delicadeza que o rapaz que assistia tudo não pode compreender.

— Sebastian… — Helena tremia sem conseguir abrir os olhos.

E ele não sabia o que fazer para ajudá-la. A criatura abriu a maleta de primeiros socorros e começou a tratar dos ferimentos de Helena. Limpou o corte na testa, os arranhões no braço e finalizou com um band-aid. Empurrou a menina contra a cama que tensa apenas obedeceu, estava com tanto medo que não ousaria lutar contra a entidade. O homem a cobriu e acariciou seus cabelos, enquanto ela permanecia de olhos fechados. Ele pegou a maleta, lançou um olhar repreendedor para Sebastian e saiu do quarto, fechando a porta atrás de si.

O que diabos havia acabado de acontecer?

Sebastian saltou da cama e correu até Helena.

— Você está bem? — A garota ainda chorava desesperada, ele a tomou em seus braços. — Meu Deus, Helena, me desculpe, por favor, me desculpe…

— Quem é ele, Sebastian? — Ela choramingou.

Ele engoliu seco, não sabia a resposta.

— E-eu não sei…

— Sebastian, eu quero sair daqui…

— Nós vamos dar um jeito, prometo. — O rapaz beijou o topo da cabeça da menina. — Mas creio que de nada adiantaria se tentarmos fugir agora à noite. Teremos que esperar pela manhã.

— Não! Eu não quero ficar nem mais um minuto aqui! — Helena o encarou com desespero.

— Helena, confia em mim… — Sebastian não podia evitar as lágrimas, ele estava tão perdido. Queria tanto salvar Helena, realmente queria que nada disso estivesse lhe acontecendo. — Eu vou ficar aqui com você.

Só então ela se deu conta de que ele estava machucado.

— Aquela coisa te machucou feio. — Tocou ao redor da ferida. — Sinto muito.

— Vou ficar bem, agora, venha, deite-se. Vamos ficar quietos para que ele não volte. — Seus ferimentos pouco importavam naquele momento.

Os dois dividiram a cama, ela entrelaçou seus braços ao redor dele. Não se parecia nada com a primeira vez que dormiram juntos, agora era definitivamente assustador.

— Tente dormir. — Pediu o rapaz.

— Impossível!

— Prometo que vou ficar aqui, não vou pregar os olhos esta noite, prometo. — Sebastian apertou a garota contra si. —  Sei que está cansada.

— Não, vou ficar com você, estamos juntos nessa. — Disse a ele, agarrando-se um ao outro com ainda mais força.

E ele não protestou, estava assustado demais até mesmo para ficar acordado sozinho.


Durante toda a noite a criatura não voltou e os adolescentes não ousaram trocar palavras, com medo de qualquer barulho fosse o atrair. Helena e Sebastian assistiram à luz do dia invadir o quarto escuro. Não era uma luz forte, mas já dava para reparar o ambiente ao seu redor.

O quarto sujo e sombrio parecia não ser habitado há anos, da janela podia-se ver a árvore morta no jardim de frente a casa abandonada, estavam no primeiro andar da casa.

No quarto havia poucos móveis, duas camas, um guarda-roupa e uma cômoda com retratos sob. Helena se aproximou para ver o rosto, eram crianças em parque de diversões, porém seus rostos estavam manchados propositalmente para que não fossem reconhecidas. Em prateleiras e nelas havia coleções de carrinhos infantis, bonecos, super-heróis, figuras infantis… Pelos cantos dos quartos havia brinquedos, cavalinhos, bolas, robôs… as paredes amareladas revelavam gradualmente o tom de azul-céu, era o quarto de uma criança, ou seria dos irmãos na foto?

— Onde será que ele está? — Sebastian perguntou com receio, colocando o ouvido sobre a porta para ouvir o outro lado da casa.

Não havia um barulho sequer. Não há nada mais assustador do que o silêncio… bem, talvez aquele demônio fosse mais assustador do que o silêncio aterrorizante que os cercava.

As janelas estavam todas bloqueadas, para que ninguém pudesse entrar ou sair. Não seria muito difícil tentar escapar, mas poderia ser um processo longo e consequentemente barulhento. Helena se juntou a Sebastian e tentou ouvir algo, mas foi sem sucesso.

— Nós vamos ter que sair! — Helena o olhou sério. Chorar não iria adiantar, não iria salvá-los. E eles precisavam fugir a qualquer custo.

Sebastian assentiu, concordando com a menina. Girou a maçaneta da porta e abriu-a devagar, não pode evitar que a porta velha rangesse. Havia um longo corredor até a sala, e tudo parecia vazio. De mãos dadas, os adolescentes caminharam cautelosamente até o recinto principal, tudo permaneceu imóvel e quieto. Foram até a porta por onde entraram no dia passado, Sebastian alcançou a maçaneta e a girou, a porta se abriu e ele deu um passo adiante, trazendo Helena consigo, e de repente, deu de cara com a parede. Ele simplesmente não podia sair, era como se um magnético o impedisse de deixar a casa, uma força sobrenatural.

Sebastian piscou os olhos, atordoado, abriu e fechou a porta inúmeras vezes, mas o campo ainda estava lá, os impedindo de sair. Ele parou, fechou a porta e percebeu que era ridículo. A criatura apareceu ao seu lado, o homem lançou um tapa contra a mão de Sebastian que estava segurando a maçaneta. O tapa queimou sobre sua pele, Helena se agarrou ao rapaz e fechou os olhos, não conseguia encarar o rosto aterrorizante da criatura.

— Qual é seu problema, seu maníaco filho da puta!? — Sebastian gritou para a coisa com tanta raiva que sentia sua pele ficar quente.

De repente, ouviu um cão latir, o homem levou o dedo indicador aos lábios sinalizando para permanecerem em silêncio. Através da janela ao lado da porta, Sebastian viu dois policiais subir a colina e vir em direção a casa, eles olhavam tudo ao seu redor, analisando e buscando por pistas. Provavelmente estava à procura dos adolescentes, considerando que estavam a mais de 12 horas desaparecidos. Seus pais devem estar aos prantos.

— Eles vieram nos procurar… — Sebastian sussurrou para Helena.

A criatura apenas deu a volta pelos garotos e se sentou em uma poltrona da sala.

— Essa casa está abandonada. — Ouviu o policial dizer ao outro. — Se eles estiverem aqui, você sabe que foi uma perda de tempo, eles só devem ter invadido para passar a noite trepando, você sabe como são os adolescentes…

O outro policial riu.

— É, nós sabemos, porque éramos assim. — O policial número dois riu.

Sebastian não sabia o que fazer. Puxou Helena junto a si e correu para a janela.

E eles gritaram, bateram no vidro, suplicaram, mas os policiais simplesmente não ouviam.

— Melhor certificar que não estão mesmo aqui. — Disse o policial número um, sucessivamente forçou a porta e a abriu com facilidade.

— Ei! — Sebastian gritou para os policiais, mas era como se eles não estivessem ali. — Estamos aqui! Ei!

— Sebastian? Helena? — O policial dois os chamou.

— Eu estou aqui! — Sebastian berrou.

— Pessoal, não brinquem! Seus pais estão preocupados. — O outro completou. — Espero mesmo que eles tenham fugido. Nunca enfrentamos um caso de desaparecimento antes. Não é comum em cidades pequenas. Deveríamos chamar reforços para a investigação, se for o caso.

— E se eles estão desaparecidos de fato, você sabe que a probabilidade de estarem vivos é nula. — O policial encarou o outro com semblante preocupado.

— Gente, eu estou aqui! — Helena chorou. Já Sebastian estava paralisado, sem acreditar que eles não podiam vê-los.

— Eles fugiram, é isso. Estão bem por aí, eu sei que estão… — É o que o parceiro preferiu acreditar. — Esse lugar fede, que nojo!

Quando Helena percebeu que não podiam ser vistos e que a criatura permanecia intacta no sofá assistindo tudo com o semblante vitorioso, ela soube que estava morta. Era a única justificativa para não ser vista, agora ela já não era mais uma humana e sim um espírito preso por um demônio. Caiu ao chão e desatou a chorar ainda mais.

Perder as esperanças é matar a sua alma. É dizer a si mesmo que não vai sobreviver. Sem querer você entrega os pontos e desiste de lutar.

Sebastian desesperado, foi até os policiais, acenou em frente a eles, gritou em suas caras enquanto inspecionavam a casa. E nada… ele simplesmente não existia. Tentou até mesmo socar os policiais, mas eles não o viam. Correu em direção à porta aberta, mas bateu a cabeça contra o campo magnético que ali estava, impedindo-o de fugir… era como se uma maldição o prendesse na casa. Um feitiço? Um submundo?

Num momento de fúria, o rapaz pegou um vaso de porcelana sobre a mesa de centro da sala e atirou ao chão. Os policiais encararam a cena assustados.

— Você viu isso? — O policial número dois encarou a porcelana quebrada no chão. — Jesus Cristo! Vamos sair daqui!

— Tem medo de fantasma, xerife? — O policial número um riu.

— Caralho, só vamos embora! — E saíram amedrontados da casa. — Esses garotos não estão aqui, provavelmente nem chegaram até aqui, alguma coisa aconteceu no caminho… quem passaria a noite em uma casa como essa? Por Deus…

As vozes foram ficando distantes. E desceram a colina, indo embora… deixando Helena e Sebastian presos ali para sempre…

A criatura se levantou, tomou Helena em seus braços à força.

— O que está fazendo? — Sebastian gritou, mas a criatura o empurrou para longe.

A coisa caminhou até um quarto nos fundos da casa, era um escritório, a garota chorava baixinho enquanto era carregada pelo homem. O rapaz seguiu a criatura amedrontado.

O homem pegou um livro na prateleira e entregou a ele, em seguida sentou-se em uma cadeira de balanço e começou a ninar Helena como se ela fosse um bebê.

“Leia!”, ouviu um sussurro em sua mente. “Machucar!”, outra palavra foi jogada em sua mente.

“Leia, ou, machucar!”

Sebastian entendeu o recado, se ele não lesse, a criatura iria machucá-los.

Em pé, diante daquele ser apavorante, Sebastian não teve escolha. Passou a mão por cima do pó sobre o livro e leu mentalmente o título em relevo: Alice no país das maravilhas. Sem escolha, começou a ler com sua voz trêmula de medo… não queria que a criatura machucasse a garota que amava, o que estivesse ao seu alcance para mantê-la a salvo, faria; portanto, apenas leu.

“Aonde fica a saída?”, perguntou Alice ao gato que ria.

“Depende”, respondeu o gato.

“De quê?”, replicou Alice.

“Depende de para onde você quer ir…”

Sebastian riu sarcástico da narrativa, daria tudo para estar no País das Maravilhas, onde as saídas só dependiam de onde quer que quisessem ir. Ao contrário, ele e Helena não tinham saída, por mais que desejassem…

 

 

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