Capítulo Três

Fome

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Os dias se passaram e com eles a tortura de viver em condições precárias. Sebastian e Helena sempre tiveram tudo, agora eles se davam conta do tanto que tinham em suas casas com sua família. Tanto amor, comida, abrigo e segurança. Talvez não tivessem sido gratos o suficiente e estivessem pagando seus pecados, mas era apenas um pensamento irônico, eles sabiam e confiavam que o Deus qual lhe foi apresentado por seus pais era bom, portanto, não o submeteriam a tal crueldade.

— Sebastian, Deus não faria isso conosco, não é? Deus nos ama, ele é bom… — Questionou Helena, em busca de um pouco de fé.

— Eu não acho que Deus faz esse tipo de coisa, Lena. — Confessou, suspirando. Essas situações tendem a colocar sua fé em provação. — Não podemos deixar de confiar nele, não agora…

— Você tem razão…

Os seres humanos tendem a culpar Deus pelas coisas ruins, mas Ele jamais faria tal atrocidade com a alma de dois jovens. Isso era obra de algo ruim, maligno. Algo pelo qual teriam que lutar para sobreviver. Helena era mais religiosa, tal qual a população de cidades do interior costuma criar seus filhos. Já Sebastian, não era tão católico assim, mas ele não podia deixar de acreditar na existência do Deus tão bondoso que seus pais tanto pregam.

Deus não castiga as pessoas, não as machuca, não as condena… isso é uma imagem que os seres humanos colocaram nele, alguém para culpar, para ser responsável pelos seus próprios erros. E é isso que afasta tantas pessoas do verdadeiro Deus. Mas bem, essa era a opinião deles, assim como cada ser humano tem a sua.

Sentados no chão do banheiro escuro e fedido, eles estavam de castigo há 3 dias por tentarem subir a escada para o segundo andar. Aparentemente o segundo andar da casa era proibido para eles.

Já faz uma semana que estão presos, os adolescentes se encontravam com fome, sujos e desesperados por libertação. Tudo resultava em conviver com a criatura. Helena insistia em dizer:

“Estamos mortos… estamos presos a ele para sempre!”

Contudo, Sebastian Lobo se recusava acreditar nisso, para ele existia sim uma saída. Quanto mais buscasse, consequentemente eles acabariam descobrindo, mesmo que levasse anos. Entretanto, considerando as circunstâncias atuais, os jovens logo morreriam de fome e desidratação.

A pneumonia ameaçava alcançar o corpo de Helena, o lugar frio e com cheiro de mofo estava fazendo-a tossir forte o tempo todo. Os ferimentos do rapaz estavam inflamados, devido as pancadas que leva diariamente e o não tratar das erupções em sua pele estava se tornando ferimentos extremamente horríveis.

A existência na casa era óbvia, a criatura os tratava como filhos. Mas ele não era de longe um bom pai, na verdade, ele tinha um amor por Helena, encantado com a garota, consequentemente ela não apanhava um dia sequer. Ao contrário de Sebastian que estava sempre levando golpes de cinto, tapas e socos – principalmente quando desafiava a criatura.

E o rapaz não ligava de apanhar, ele só não podia aceitar ser domado pelo demônio. Entretanto, estava cruzando um limite, se continuar apanhando com essa frequência e violência, logo teria complicações mais agravantes e poderia até mesmo morrer. Diante desse quadro, Helena ficaria sozinha…

Controvérsia, Lobo não estava preparado para deixar de ser o “rebelde”, sentia o ódio correr por suas veias, o desejo horripilante de socar a cara do monstro.

Como poderia obedecê-lo? Sentar em seu colo e ouvir histórias estúpidas como se tudo estivesse bem? Como se aquela criatura maldosa fosse seu pai? Isso é insano!

— Não pode ser real… não pode… não pode! — Sebastian murmurou com raiva e socou a parede do banheiro repetidamente, deixando toda sua frustração esvair-se em atos de fúria. Helena arregalou os olhos e observou enquanto o garoto se contorcia no chão. A mão dele havia esfolando, a pele em erupção expelia sangue.

— Sebastian! — A garota que estava do outro lado do banheiro se arrastou para perto dele, baratas que estavam nos cantos do recinto saíram correndo com a aproximação.

Helena tinha pavor de baratas, mas já havia se acostumado. Além de Sebastian, os insetos imundos eram suas únicas companhias, pode até mesmo se considerar serem seus melhores amigos. É melhor lidar com eles do que com o monstro que os torturava.

Helena pegou a mão machucada e avaliou, nem os dedos conseguia mexer. De seus olhos saíram lamúrias. Ela sabia o que eram lágrimas silenciosas, tanto ela quanto ele não estava aguentando mais.

— Sebastian, por favor, não faça isso. — Ela pediu, enquanto se juntava ao rapaz e chorava em silêncio. — Não me deixe sozinha.

Ele acariciou as maçãs do rosto da menina com sua mão intacta, no meio do escuro os olhos dela era sua única esperança, a única luz que o iluminava.

— Me desculpe, Lena. — Pediu, encostando sua testa a dela. — Me desculpe por segurar a sua mão e prometer protegê-la. Eu falhei miseravelmente.

— Sebastian, não se culpe, por favor. — Helena abraçou o menino, apertando-o contra ela. — Por favor, não faça isso com você. Nós entramos juntos nisso. Nós estamos juntos… e nós… — Ela parou, não podia terminar a frase.

— Nós saímos juntos… — Sebastian completou o que a garota não tinha coragem. — Helena, preciso que acredite, preciso que tenha esperança. Eu vou ficar louco…

— E-eu não acho que tenha uma saída… estamos mortos, não viu quando os policiais não nos enxergaram? É a única explicação lógica. — Tornou a ressaltar sua teoria. — Talvez Deus nem exista… — Sussurrou, baixo.

Diante daquela pavorosa situação, os pesadelos de Helena cessaram, quando ela conseguia o luxo de dormir, mesmo que por alguns minutos, tinha paz. Até porque, vivia um pesadelo concretizado, não precisava de mais terror em sua vida. E os sentimentos por Sebastian, estavam ali, mas já não precisava lidar com eles. Sobreviver era tudo que conseguiam pensar. Não tinham espaço para o amor, naquele momento, e lentamente sua fé morria com a esperança que deixava de habitar seu ser.

— Helena, só estou pedindo para tentarmos… me ajude a procurar uma saída. Se a gente não achar, então… — Sebastian suspirou, não era fácil aceitar a morte. Não quanto ainda tinha forças para lutar. — E se Deus não existe, está tudo bem, sei que a gente consegue!

A porta do banheiro se abriu e a iluminação invadiu o ambiente, os dois taparam os olhos diante da agressão luminosa que os atacava. Depois de três dias sem ver a luz, ela estava os cegando. O homem de olhos amarelados e boca selada encarou os adolescentes agarrados no chão imundo e então deu-lhes as costas.

Entenderam o recado, o castigo acabou. Caminharam para fora do banheiro, a criatura subiu as escadas para o segundo andar os deixando sozinhos. Ele passava o dia todo lá, quando não queria passar o tempo com seus “filhos”. Os adolescentes foram para seu suposto quarto, a única coisa que podia se ouvir na casa eram seus estômagos roncando de fome.

Helena encarou a foto das crianças sobre a cômoda, teriam eles sofrido da mesma maneira nas mãos desse maníaco?

— Meu Deus, não quero nem imaginar o quanto minha mãe deve estar sofrendo. — Disse Helena. — Sinto tanta falta do meu irmão, da minha gatinha…

— É por isso que temos que sair daqui, Helena. — Sebastian insistiu, o garoto abria as portas do guarda-roupa, procurando algo que pudesse ajudá-los. — Tenho vários planos…

Se virou para encarar a garota mais deu de cara com a criatura, os dois se afrontaram com ódio. O demônio odiava o rapaz. A criatura segurava uma maleta, ele entregou um papel para o rapaz, deu um beijo na testa da menina e saiu.

Os adolescentes não conseguiram entender o que estava acontecendo.

Sebastian abriu o papel, era um bilhete com uma letra horrorosa.

“Fui para o trabalho, nos vemos à noite, cuide da nossa casa. Não viole as regras. Papai.”

— Papai? Ele realmente acha que é nosso pai? Que tipo de pai trata os filhos dessa maneira? — O garoto riu. — Para ser mais hilário, essa coisa trabalha? E ainda sabe escrever! Que caralho é esse!?

Helena analisou o bilhete.

— Que bizarro, o que será que ele faz? — Helena perguntou.

— Não sei, talvez ele seja advogado de Satanás, vai saber. — Sebastian riu, principalmente da sua capacidade de ser irônico e fazer piadinhas em sua atual situação. — Helena, é a nossa chance!

Ela revirou os olhos.

— Droga, Sebastian, você sabe que isso é um teste, não é? Você acha mesmo que ele iria deixar a gente sozinho o dia todo? — Ela bufou. — Ele deve estar escondido na casa nos observando.

Eles checaram todo lugar e não havia sinal da criatura. Receosos pelo pior, não subiram para o segundo andar da casa e a porta para o porão permanecia trancada.

— Ok, vamos cuidar de nós mesmos… estou com tanta fome que não consigo nem mesmo pensar… vamos procurar algo para comer e nos vestir. — Sugeriu o menino.

— Preciso de um banho. — Helena se jogou contra o sofá da sala, estava exausta, as noites no chão frio e duro do banheiro acabou com suas costas.

— Espero que goste de água fria. — Seu parceiro sorriu cínico.

Sorrir era doloroso quando seu corte no rosto ainda não estava cicatrizado e estava aparentemente inflamado.

— Ei, vem, vou cuidar de você. — Disse a garota, puxando-o pela mão. — Tome banho e certifique-se de lavar bem os ferimentos, vou procurar algo que possa vestir, em seguida cuidaremos das suas feridas antes que fique pior.

Felizmente, ela encontrou algumas roupas que pudessem vestir, era roupas das crianças, ficou grata pelos meninos não serem bebês. Sebastian saiu tremendo do banheiro, enrolado em um edredom velho usado como toalha. Helena fechou os olhos para que ele pudesse se vestir com privacidade. Seguidamente ele informou quando estava apresentável e ela correu para o cobrir com um edredom seco, abraçando-o para que recebesse calor e não morresse de frio. Obviamente as roupas não serviram bem nele.

— Nunca pensei que tomar banho fosse uma tortura! — Sebastian disse batendo os dentes.

Assim que se sentiu aquecido, encarou as roupas que vestia. A velha calça de moletom ficava no meio de suas canelas e era apertada demais. A blusa parecia que iria romper sobre seus músculos. Sem falar que por passarem tantos anos abandonadas, pareciam que iriam esfarelar a qualquer momento, além de estarem cheia de furos, por anos foram comidas de traças.

Helena riu da situação, mas não pode deixar de admirar a bunda de Sebastian apertada pelo moletom. Ora, ele é um homem lindo! E quando tinham momentos mais tranquilos na casa, seu coração teimava em lembrá-la de seus reais sentimentos.

— Não quero nem imaginar como vou ficar vestida assim! — Os dois deram risada. — Vem deixa eu cuidar disso, está muito feio.

Helena cuidou dos ferimentos de Sebastian, alguns estavam bem inflamados, ele deverá estar sofrendo muito com isso.

— Sua vez de tomar banho frio! — Sebastian apontou o dedo para ela, depois que ela colocou o último curativo improvisado no seu corpo.

— Mas não estou fedorenta, estou? — Ela fez uma carinha piedosa.

— Vai logo!

E Helena foi. Mal conseguiu lavar seu corpo, a água era muito gelada e sinceramente não parecia ser limpa, deverá estar parada na caixa d’água há anos; entretanto, embora fosse duvidosa, era o que tinham. Sebastian a ajudou da mesma maneira quando saiu do banho e vestiu-se, enrolou seu corpo com edredom e a abraçou. As roupas não ficaram tão ruins em Helena, só largas demais para ela que era tão miúda e magrinha.

— Obrigada, Sebastian. — Tremeu de frio. — Eu amo você. Obrigada por não desistir de mim, por não me deixar sozinha… por sofrer tudo isso no meu lugar…

— Não chore. — O rapaz capturou as lágrimas dela com o polegar, impedindo-as de continuarem trilhando o caminho por sua face. — Eu também te amo. Nós vamos sair dessa Helena, acredite em mim.

— Eu acredito.

Subitamente, um latido soou alto vindo da sala, Sebastian e Helena se entreolharam sem compreender, caminharam para fora do quarto e se depararam com o cachorro selvagem os encarando. O mesmo animal que o rapaz avistou no jardim, pouco antes de entrar na casa. Havia algo em sua boca e ele olhava no fundo dos seus olhos. Como o cachorro podia entrar e sair? Provavelmente ele não era um cachorro comum…

Intrigado, o rapaz deu um passo na direção do animal.

— Sebastian, não! — Helena o segurou. — Ele pode te atacar. Tudo o que menos precisavam era de lutar mais e pior ainda, lidar com mais ferimentos.

— Confia em mim, ele não vai me machucar. — A assegurou. — Esse rapazinho aqui tentou me avisar. Eu o vi no dia que chegamos aqui, antes de entrar na casa, ele apareceu no jardim e pareceu inquieto, como se quisesse impedir que algo ruim acontecesse. —  Contou enquanto se aproximava do animal, tocou o topo da cabeça dele e o acariciou.

— Será que ele é mesmo real? — A garota encontrou-se muito surpresa com o que lhe foi revelado, ela claramente podia vê-lo e o rapaz de fato consegue tocá-lo, o que significa que para eles, ao menos, o cachorro é mesmo físico.

— Sinceramente, não faço ideia. — Respondeu, ainda acariciando o bicho.

O animal em gratidão soltou no chão a coisa que tinha em sua boca. Era um pato, uma espécie até grande. Posteriormente, o cachorro saiu correndo em direção a cozinha e desapareceu.

Ele pegou a ave que estava morta, mas ainda se encontrava quente. Deve ter morrido a poucos minutos.

— Ele está cuidando de nós. — Contou para a menina. — Ei, garotão, valeu mesmo. Que tal o chamarmos de Fantasminha?

Lena riu.

— É um nome digno da situação que nos encontramos. — Concordou de imediato. Mas logo se deu conta do verdadeiro significado daquele pato. — Espera, está me dizendo que vamos comer esse pobre patinho morto? — Ela arregalou os olhos.

Sebastian sorriu, isso parecia ser um banquete diante de sua fome. Helena conseguiu achar fósforos velhos que foram quase impossíveis de se acender, em seguida, o rapaz fez fogo dentro de uma lata velha no meio da cozinha, eles cozinharam a ave e comeram com tanta vontade que em menos de um minuto só havia os pequenos ossinhos.

— Meu Deus, isso é muito bom! — Helena fechou os olhos e acariciou sua barriga um pouco cheia. — Como sinto falta da comida da minha mãe!

— Eu também… — O jovem concordou.

Desfrutaram da sensação de estarem menos famintos, foi Sebastian quem quebrou o silêncio:

— Helena, preciso te dizer uma coisa.

— O que é? — Ela o encarou desconfiada.

— Amanhã, quando a coisa sair para trabalhar, vou subir ao segundo andar, você queira ou não… — Sebastian a olhou firme, era sua escolha e ele não estava pedindo permissão e sim anunciando.

Helena engoliu seco. Seu amigo estava coberto de razão em não aceitar o fim deles. Depois de tudo que fez por ela, o mínimo que podia fazer era ao menos tentar. Afinal, como eles poderiam morrer, se já estavam mortos?

— Eu vou com você. — Anunciou Helena, olhando-o nos olhos.

Sebastian sorriu e assentiu, aliviado por ainda existir esperança dentro dela.

 

 

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