Prólogo
Para todos aqueles que já acordaram no meio da noite, suando e com o coração saindo pela boca, pensando se a escuridão é mesmo real ou se ainda está preso em um pesadelo.
Meus pesadelos normalmente têm a ver com perder você.
— Suzanne Collins
Quando uma pessoa morre sentindo extremo ódio, uma maldição nasce e toma a forma das vítimas, habitando o local onde elas viviam e se conectando com qualquer pessoa que passe por ali.
“Quando alguém morre cheio de ódio, nasce uma maldição. A maldição se concentra no local da morte. Quem se deparar com ela, será consumido por sua fúria.”
— O GRITO (Juon)
O Chamado
Estava presa.
Paredes a rodeavam e até a tonalidade escura da pintura mofada a sufocava.
Não havia saída.
Sua respiração descompassada ecoava pelo local igualmente ao seu coração acelerado, em sua alma percorre um calafrio, assombrando-a e deixando-a ainda mais apavorada. Até tenta controlar todas essas sensações, mas é impossível. Isso é um sonho, repetia para si mesma, em vão. Era sempre assim, o mesmo pesadelo e as mesmas três vozes. Sendo apenas uma de alguém que conhecia.
Ser assombrada por pesadelos nunca foi novidade para Helena, é como se todo o horror instalado em seu subconsciente fizesse parte de si. A mulher gritando seu nome, implorando por ajuda, insistiam em surgir em seus pesadelos. Em termos médicos ela possuía o temido Terror Noturno, o que significa que não bastava apenas ter os pesadelos, também tinha o fato que ela nunca despertava em sua cama, local de onde jamais deveria sair enquanto dormia.
Acordava sempre no jardim de sua casa, sozinha, no frio da noite, com a grama tocando seus pés e os espinhos das roseiras fazendo pequenos cortes em suas canelas nuas. E ele – o garoto –, é outro personagem que insiste em fazer parte do seu terror. Seus olhos tristes beirando lágrimas e estas escorriam gentilmente por suas bochechas rubras, aquele sorriso de dentes grandes – pelo qual é apaixonada – já não aparece. Somente a dor e o desespero podem ser lidos no rosto bonito. Até isso a sufocava.
Ele é a última visão em seu pesadelo e quando gritava por seu nome, acordava com o coração acelerado e calafrios arrepiando-lhe o corpo. Seus olhos simplesmente se abriam, arregalados para a realidade, a noite gélida, a neblina suave e os olhos amarelados que a observam por entre os feixes de piche.
E essa é mais uma noite mal dormida.
Um doloroso loop que arrebenta sua alma por inteiro. Quebrando-a em mil caquinhos como vidro atirado contra o chão.
De dentro para fora, em meio às batidas do seu coração, às vezes quando ela abre os olhos, jura poder vê-lo ali, observando-a. Escondido em meio a escuridão, sob uma fina camada de um mistério incompreensível. Ela fecha os olhos fortemente e se belisca com ainda mais força, fica imóvel de medo, mas quando abre as pálpebras, ainda encontra a presença intimidadora ali. E num único piscar, a coisa simplesmente desaparece.
Mas um dia que Helena ouve o chamado e não pode atendê-lo.
Apenas mais uma noite em que o demônio que persegue sua alma vem visitá-la.
E mais uma vez, ela não pode alcançar Sebastian.
— Helena?
Ele a chamava e seu subconsciente a trazia para a realidade gradualmente.
— Helena, acorde. — Essa voz, é esse som que faz seu coração acelerar e consequentemente trazê-la de volta.
A moça grunhiu atordoada, desgrudando sua bochecha da mesa abaixo de si. Havia dormido em aula novamente, pela terceira vez na semana. Os pesadelos consecutivos a esgotam e consequentemente sente sono, principalmente pela escola ser no turno da manhã, é necessário acordar cedo e fazer uma longa caminhada até aqui.
— Helena? Você me ouviu? A aula acabou. Dormiu de novo. — E novamente é Sebastian quem a acordou. — Você está bem?
A jovem piscou os olhos atordoada e começou a juntar seus materiais apressadamente. O garoto se dispõe a ajudá-la.
— Não precisa. Está tudo bem. E muito obrigada por me acordar. — Agradeceu sem jeito, mantendo os olhares conectados quando se levanta e fica cara a cara com ele.
— Posso te passar a matéria que perdeu…
— Não precisa, juro que me viro. — Negou de imediato, o interrompendo e balançando freneticamente a cabeça.
Ele ergueu uma sobrancelha e empurrou a língua contra a bochecha, analisando-a e bloqueando a passagem da moça, uma vez que estava ao lado de sua mesa que é colada à parede.
Helena é linda, a garota mais linda que ele já viu. E ele concluiu isso quando ainda era criança. Jamais poderia se esquecer da pele preta em contraste ao vestidinho vermelho que a avó de Helena costurou especialmente para ela. O brilho do sol contra sua pele, os olhos desenhados tão delicados, escuros como os seus e o cabelo denso sempre bem perfumado. Ele amava cada mísero detalhe naquela garota. Até a sua respiração prova o quanto é apaixonado por ela.
— Até quando você vai fugir de mim, Helena? — Soltou, questionando-a agora em palavras, visto que sua presença e seus olhares estão sempre passando essa mensagem para a mesma.
E ela piscou os olhos lentamente, confusa, talvez desacreditada pela coragem do rapaz de fios castanhos.
— Do que está falando? — Balbuciou completamente envergonhada.
— Eu gosto de você! — Confessou, surpreendendo a si mesmo.
Dizem que quando se está perdidamente apaixonado, é simplesmente impossível segurar as palavras que tanto gostaria de dizer. E pior ainda, era sufocar esse sentimento. O rapaz não tinha o que temer. Seria ‘sim’ ou ‘não’, a considerar estar mais pronto pela resposta negativa, não havia mais motivos para manter-se em silêncio.
— Sebastian, por favor… — Ela fechou os olhos com força, com medo. Por Deus, como ele a atrai. Parecia uma armadilha e ela era o coelho estabanado.
— Deixa! Não vou mais insistir. Esquece o que eu disse. — Ele lamentou, como dito, estava preparado para o não que veio de fato.
Tinha esperanças de que ao menos ela pudesse confessar para si mesma que o ama. É muito óbvio para Sebastian, mas talvez isso tudo só existisse no universo particular da sua mente.
Outrora, Helena só conseguia pensar que era ele. O garoto que pertence aos seus pesadelos. Alguém que ela vê morrer todos os dias e por mais que queira não consegue salvá-lo. Como poderia beijá-lo e ignorar as imagens do seu corpo sangrando em sua mente?
Era isso que a afastava do tão almejado ‘sim’, cujo gostaria de verdadeiramente responder.
Helena o ama, mais do que deveria. E não merecia nada em troca, principalmente por ficar com Sebastian logo após ter seu coração massacrado pelo melhor amigo dele. Quer dizer, quem faz isso? Termina com um cara e em seguida pega o melhor amigo dele? Isso é sujo. Se sentia péssima por isso, mas não conseguia se arrepender de uma vez na vida ter se entregado aos seus desejos, quando por todo esse tempo esteve se submetendo às vontades de todos ao seu redor, menos as suas.
Para ser sincera, ninguém nunca havia feito-a tão feliz como Sebastian a fez naquele dia.
Os dois se encaravam mudos, mas podiam sentir a dor de não estar nos braços um do outro. O rapaz deu um passo mais à frente e tocou o punho da garota, convidando suas orbes a encararem o fundo das suas.
— Você não consegue dormir? — A pergunta dele a surpreendeu, foi como um choque de realidade.
Ela o encarou com a expressão interrogativa no rosto. Por um segundo pensou que talvez ele soubesse muito bem o que estava acontecendo com ela. Mas era ridículo imaginar isso, não? Não tem como ele saber.
— Você tem pesadelos, não é? Pode falar pra mim, Helena…
Ele a viu.
Naquele dia que dormiram juntos. Ele viu quando Helena acordou gritando, a acolheu…
Desde aquele dia, Sebastian nunca mais dormiu em paz.
— Preciso ir. — Foi tudo o que ela conseguiu dizer antes de puxar seu punho para si com agressividade e correr para fora da sala de aula.
“Também não consigo dormir, tenho pesadelos com você”, era o que Sebastian gostaria de dizer, mas se contentou em encarar a sala vazia e a porta deixada aberta, após a saída da moça.
Dentro da menina, o coração estava disparado e sua cabeça dividida entre lembrar de Sebastian em seus pesadelos, ou, a lembrança doce do dia que fizeram amor.
Sua mente teima em escolher seus pesadelos.
Naquela noite, no final do seu sonho, Helena viu o rapaz novamente e dessa vez ele foi ao chão, machucado, sangrando e morto aos seus pés.
Ela gritou tão alto e com todas as suas forças, sem se dar conta que havia despertado, acordou seus pais e os vizinhos. Agarrou-se aos ramos das roseiras e os espinhos perfuraram suas mãos.
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