Capítulo Cinco

fotos, buraco negro, ansiedade e um imprevisto

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Três. Dois. Um e…

Flash.

— Me diz, por que estamos vestidos como um casal e tirando fotos como se fossemos um? — Perguntei em determinado momento após o flash automático disparar e a gente tirar a foto mais linda do universo: eu e ele abraçados no meio da ponte do lago congelado. A câmera estava posicionada na margem de forma que enquadramos todo o cenário gélido e tão natural. — Sinto como se estivesse comemorando um aniversário de namoro.

— Por que nós somos um tipo de casal, bobão. — Ele disse, como se isso fosse extremamente óbvio. — Estou te namorando, mas você ainda não sabe. Então prove sua lealdade e guarde segredo para mim.

Ri baixo para não chamar atenção das outras pessoas e neguei de forma perplexa encarando o baixinho. Sei que é bobo pensar em como é possível de acontecer comigo, quer dizer, meu deus, tem um cara incrível querendo me namorar. A vida é mesmo surpreendente. São verdades difíceis de se acreditar. Me deixa surtar, ok? Pois, Amin Song, meu incrível vizinho, quer ser meu namorado.

Tudo bem – suspiro interno –, lidemos com os fatos, voltamos a ser dois adolescentes ingênuos descobrindo o primeiro amor. Desvendando aos poucos o que é flertes, beijos, carícias, sexo… Ok, não tão avançado, mas encaminhando para tal.

— Ok, namorado. Minha boca é um túmulo. — Garanti a ele.

Já estava mordendo meu lábio inferior, tamanha é minha ansiedade, talvez esteja o olhando um tanto apaixonado agora. Estar apaixonado significa ficar com cara de bobo toda vez que olha para ele.

Apertei mais meus braços em volta da cintura dele. Estamos tão coladinhos, enchendo meu tolo coração de expectativas. Toda vez que olho para ele, lembro daquela frase dita lá no quarto do hotel. Talvez eu ainda esteja flutuando pela gravidade enquanto tento entender completamente o real significado daquela frase.

E quem sabe um dia olhe para ele e possa escrever o significado do fato de ser o Marte de Amin. Todo seu olhar um tanto quanto singular sobre minha pessoa me fascina de um jeito indescritível. Ele é um novo planeta a ser descoberto, mas julgo que seja excessivamente mais que isso. Imenso, como um buraco negro[1] – no sentido positivo –, tão extraordinário que é preciso de muito mais contato e envolvimento para conhecê-lo por completo.

E talvez seja, tão, tão, mas tão único que ninguém possa jamais compreendê-lo ao todo. Mas isso não quer dizer que não possa tentar, na verdade, levarei minha vida inteira atravessando seu horizonte de eventos[2] – a região a partir da qual, se algo a atravessar, não poderá regressar. Com isso, concluo, se eu atravessar, se eu ficar com Amin, se eu penetrar em seu coração, não existe nenhuma mísera oportunidade de voltar. E definitivamente não quero regressar. Amin é tão fascinante, que a cada segundo tenho mais certeza que quero permanecer dentro dele, assim como desejo que ele permaneça dentro de mim.

A Física chama de singularidade, o coração de um buraco negro, onde espaço-tempo deixa de existir. Talvez seja para lá que Marte esteja indo, após ser engolido pelo corpo celeste infinitamente denso.

E… nossa. Realmente estou caindo em paixão muito rápido e ficando sem fôlego. Enquanto olho em seus olhos, me vem a confirmação e sei que estou definitivamente apaixonado.

Aquele tipo de paixão inicial, primeiro é só um encanto, mas com claros propósitos de se tornar muito mais forte que isso, mesmo em pouquíssimo tempo. Acredito que esse seja jeitinho avassalador do amor, num segundo você conhece essa pessoa e em outro está completamente necessitado dela. Quebrando barreiras de espaço e tempo. Excessivamente único em cada história.

— Você vai me agradecer um dia. — Ele me olhou sapequinha e desfez o contato ao se afastar, mas ainda segurando uma de minhas mãos e guiando-me ao voltar a caminhar. — Um dia, você vai ser meu namorado e muito provavelmente o meu marido, aí vamos olhar essas fotos com meus gatos a nosso redor, Twy cantando de fundo, comendo cupcakes e tomando chá. Então, você vai me olhar e dizer: “Amor, que bom que você me convenceu a tirar essas fotos. Olha como somos perfeitos juntos e eu ainda nem te namorava”. E vou olhar para você e responder… — Amin se virou de repente me fazendo quase trombar em seu corpo, por estarmos caminhando. Realmente estou desacreditado, em sua imaginação ele está até mesmo nos casando. Juro que estou tentando não pirar com isso… — “Eu sei. Por que no segundo que te vi, soube que universo havia trago para mim”.

E mais uma vez naquele dia, estava completamente paralisado com suas palavras. Amin acredita em amor verdadeiro, almas gêmeas, etc. Sinceramente, embora só acredite nisso nos livros, não duvido. Ele me faz sentir assim, em um conto de fadas. Como se a possibilidade de a minha alma ser destinada a amar a sua, fosse completamente possível.

Duas estrelas se colidindo, dizem que isso resulta em caos, mas talvez nosso caos não fosse exatamente uma tragédia. Talvez seja derivado do bom sentido. Um caos de pura felicidade.

— Você me deixa constrangido. — Falei sem graça, enquanto sentia meu rosto quente.

— Deve ser um sintoma de paixão, bebê. Está funcionando. — Ele riu bobinho. — Agora vamos para casa, não gosto de pegar estrada pela noite, é perigoso demais.

— Você tem razão. E nós aproveitamos tanto, suponho que podemos voltar em breve. — Realmente me apaixonei por essa fazenda carismática. — Imagina isso aqui na primavera.

Song segurou minha mão e voltamos a caminhar lado a lado, fazendo o caminho para retornar para o hotel após tanto desbravar tanto desse lugar mágico, cheio de neve e natureza esbelta.

— O outono também deve ser fantástico. Acho que vou querer conhecer cada estação neste lugar.

— E eu venho junto. — Garanto e Amin amou a resposta, se seu sorriso tímido foi uma indicação. Amo ver esses olhinhos brilhando para mim.

Nós tiramos tantas fotos, como se fôssemos de fato um casal. E amo o jeito que Amin me abraçou, tocou e olhou em cada uma delas. Já por um milímetro de finalmente o beijar.

Definitivamente, estou cogitando a possibilidade de me envolver com o Amin. Mas para isso teria que ter cuidado comigo mesmo. Sou o homem dos sonhos dele, igualmente sou uma ameaça. Posso quebrar qualquer coisa, menos o meu vizinho. Ele não merece.

O que vou fazer para não estragar tudo? Talvez eu devesse escrever sobre…

Sobre nós.

Enquanto trilhamos o caminho de mãos dadas para o hotel, Amin se despedia de tudo. “Tchau pinheiro”, “tchau, ovelhinhas”, “tchau, boneco de neve” e mais uma sequência de tchau(s). Fiquei só olhando o quanto aquele garoto é um tanto inexplicável. Realmente, precioso. As despedidas continuaram. “Tchau, cama que dormi com o Jon”, segurei a risada, não é certo rir do quanto especial ele é. Tudo aquilo, todo aquele lugar e momentos marcou no coração do pacotinho. E eu fazia parte dessa marca.

O quanto egoísta você é, Ambrose? Você sabe que vai cometer os mesmos erros, de novo e de novo. Mas como faço para não os cometer?

E de repente a pessoa certa chega e vira seu mundo de cabeça para baixo. Faz-te libertar a melhor versão de você. E a todo custo, você não quer machucá-lo, não quer se machucar, mas também quer arriscar de se aproximar o suficiente para ver se vai dar certo.

Alguns vão me achar egoísta, mas outros, verão as coisas como elas realmente são: uma pessoa fodidamente machucada tentando dar uma chance para outra pessoa provar para si que eles podem ser felizes juntos.

Não importa o que aconteceu, quem te machucou, ou como o fez. Tão pouco importa seus medos e inseguranças, eles devem ser superados. Lembre-se, as próximas pessoas que chegarem são novas. Por isso, não a compare com quem já se foi, pois, elas não terão as mesmas atitudes. Elas merecem uma chance de tentar conquistar seu coração. Uma chance de pertencer a sua vida. Liberem a passagem…

Enquanto não arriscar e não escolher continuar, não haverá um caminho para seguir em frente. Estará dando passos para trás, andando de costas e vendo tudo que está perdendo bem diante de seus olhos. Pessoas vão embora, sem levar bagagem. Estará preso no seu passado. E o pior de tudo é ver todo mundo te ultrapassando e seguindo sua vida.

No final das contas, você estará sozinho com todo esse ódio e rancor. Toda a sua hipocrisia e covardia. E esse seu ego e orgulho indestrutível. Apenas você e suas cicatrizes. Você e seu passado. E a culpa é exclusivamente sua e de mais ninguém.

No fim sou eu e a minha profunda escuridão, alojada no meu apartamento me impedindo de nem sequer escrever.

Essas foram as minhas escolhas.

Mas agora, escolho seguir em frente. Com o Amin.

E a melhor versão de mim, nós dois vamos descobrir juntos.

— Jon, vou só fazer xixi. Não tem como ir fazer isso no meio da neve da estrada. — Ele avisa já caminhando até o banheiro. Provavelmente deve ter percebido o meu nervosismo, considerando que parou de andar, encontrou meu olhar que seguia seus passos e perguntou: — Está tudo bem?

Meu sangue estava tão quente, meu coração batia forte, havia tomado a minha decisão e parecia que o mundo iria despedaçar a qualquer instante. Minhas mãos estão suando e isso me faz esfregar as palmas no jeans freneticamente.

Devagar, Jonah. Você precisa ir devagar.

Como as pessoas se apaixonam? Primeiro passo, encontro.

Isso, Ambrose! Pense como adolescentes… Elogios, aproximação, então o pedido para sair. Certo, Amin já contribuiu muito, estamos no meio do caminho. Olhei para ele, mas a voz não saia. Ok, posso pedir depois. Ainda nem pensei para onde vamos sair.

— Tudo bem. — Confirmo baixo com um bolo sufocando minha garganta tamanha era minha ansiedade.

Enquanto espero recebo uma mensagem da Jessica – uma amiga –, me avisando do nosso compromisso na manhã do dia seguinte. E com essa história de lista e Amin, acabei me esquecendo totalmente das minhas obrigações. Contudo, era uma ótima oportunidade de colocar a cabeça no lugar conversando com alguém de fora desse mundinho meu e do meu vizinho apaixonado. Não sou do tipo que desabafa, mas estava considerando a possibilidade de falar com minha amiga, pois sei que ela vai me ouvir e me dar um bom conselho.

Não seria ruim e não é falta de confiança nos meus amigos, é só meu jeito de levar a vida. Meus problemas eram só meus.

Só sei que tudo isso é por você, Amin. Por mim também. Por que quero fazer diferente, quero muito que a gente dê certo.

— Pronto! — Amin saltou de repente do banheiro para o quarto e levei um leve susto, ainda com o coração batendo forte por tomar esse passo tão grande. — Vamos?

— É claro. Eu, hã, esqueci de dizer que amanhã tenho compromisso. De manhã. Então, não vamos poder nos ver pela manhã. — Já aviso imaginando a quantidade de planos que ele fez para nós dois.

— Sem problemas. A gente se vê quando você voltar para casa, já sei qual o próximo item que vamos cumprir. — Sorriu e pegou suas bolsas, em seguida finalmente vamos até a recepção fazer o checkout.

De volta para a estrada – ainda tendo meus tremeliques internos pela decisão de ter um encontro com o Amin –, finalmente o convenci a ouvir algo que gosto: música clássica. Meu estilo musical é um tanto eclético, a única playlist que achei baixada era justamente a de clássico, portanto foi o que dei play e deixei rolar. Ouço clássico para escrever e quando contei para Amin ele teve interesse de ouvir. O que resultou no pacotinho olhando pelo vidro do carro completamente entediado enquanto me encontrava imerso na paz de espírito.

— Coincidentemente, tem um show da Twyla em Toronto daqui a uma semana. Queria te arrastar para lá de surpresa, mas é meio impossível. Quer dizer, que desculpa teria que inventar? É melhor que você saiba. Já tenho dois ingressos. Aceita ir comigo? — Amin soltou de repente, o que me fez desviar o olhar rapidamente para ele e erguer as sobrancelhas surpreso.

— É sério? Você vai ao show da sua diva e está de boas? — Cara, eu estaria surtando. Se bem que ele já deve o ter feito, ou, só está poupando energia para usá-la no tempo certo.

— É claro que estou tendo meus surtos internos, você não sabe o grito que eu dei quando consegui os ingressos. Mas estou tentando me controlar, do que adianta se eu infartar e acabar não indo no show. — A lógica dele era ótima.

Sorrio, acompanhando de uma risadinha baixa. Eu, no show da Twyla com o Amin. Perfeito. Sério, é perfeito. Imagina o quanto vai ser divertido. É óbvio, não vou ir pela Twyla, e sim pelo pacotinho.

Será que esse poderia ser nosso encontro? Mas… É só daqui a uma semana, está muito longe, quero ter o date antes.

— Eu topo. — Disse e ele arregalou os olhos me olhando chocado. — E você não deveria pagar nada para mim, eu disse que topo fazer o que quiser, por isso pago a minha parte e até a sua se você quiser.

Tenho guardado tanto dinheiro por tanto tempo. Não sou consumista e como minha vida é mais pacata do que essa rodovia após uma tempestade de neve, o dinheiro fica estocado na minha conta bancária. Seria um prazer pagar tudo para Amin realizar seu grande sonho.

— Puta que pariu, nós vamos ao show da Twy! — Amin berrou e se chacoalhou no carro. — Não estou acreditando que não precisei nem insistir e nem mesmo cometer uma loucura para te arrastar para lá! — Ele me olhou e seus olhinhos brilharam tanto. — Jon, você está mesmo diferente! Estou gostando!

Você não faz ideia do tamanho do sorriso no meu rosto, estava tão grande que os músculos faciais doíam.

— Sério? Por que também estou. De verdade, está sendo legal me divertir com você. Sabe? — Minha mão esquerda abandonou o volante e a coloquei sobre sua mãozinha, bem em cima da sua coxa. — Quero que conheça um lugar muito especial… Você aceita?

Senti seu corpo estremecer com o meu toque e o tom da minha voz – que exalava uma nitidez da minha real intenção.

Soltei calmamente o ar preso nos meus pulmões, eu realmente estava o chamando para sair. Ok, Jonah, está indo bem. Não infarta agora.

— Ambrose! Minha nossa senhora dos encontros! — Amin não conseguia conter o sorriso. — Está me chamando para sair com você? Digo, um encontro? Um encontro de verdade, com direito a beijo de língua no final?

Ri alto e olhei a estrada apertando sua mãozinha, logo meus dedos deslizaram para entre seus dedos e ele deixou-os se encaixar ali.

— Uhum. Um encontro de verdade. Com direito a beijo de língua no final, se você quiser, é claro. — Certo, não vou ser mais um homem de quase trinta anos que não tem uma atitude. Eu quero beijar o Amin, portanto vou fazer isso.

— Não seja tolo, é óbvio que quero! — Ele quase deu um pulinho de alegria. — Digo, quero tudo, o encontro, o beijo e sexo também!

— Sexo? Eu não disse isso ainda, Amin! Você é tão atrevido! — Gargalhei enquanto falava.

— Ah eu sei, tiozão, “vamos devagar, muito devagar, Amin”, e, estamos indo. Só estou brincando. — Ele disse risonho também. — Mas não custa nada tentar, uh? Eu estou doidinho para- — Ele parou de repente e gritou: — Jonah, meu deus, cuidado!

Não havia reparado que estava dando atenção demais para a fala provocativa de Amin, os segundos que o olhei, não pude perceber o que acontecia lá na frente.

E foi aí que tudo aconteceu, tão subitamente, o carro perdeu o controle na outra via, sentido contrário ao nosso. A buzina constante e alta, tentava me alertar do perigo – mesmo assim foi inevitável.

“Jonah!”, Amin gritou novamente e giro o volante para o outro lado na tentativa de desviar do veículo descontrolado que rodopia na pista. Mesmo assim a lataria do outro veículo esbarrou na minha, mesmo que de leve é o suficiente para girarmos e girarmos na pista escorregadia – por causa da fina camada de gelo – e por fim se chocar contra um banco de neve que se acumulou de frente as árvores que ladeavam a estrada.

Foi um impacto e tanto, a colisão foi maior do meu lado – que foi justo o que se chocou contra parede densa de neve. Minha cabeça foi com tudo contra o vidro da lateral do meu assento. Bach[3] tocava suavemente diante daquela catástrofe, e por alguns segundos, não pude me mexer, pois, estava raciocinando. The Well Tempered Clavier: Book 1, essa é a melodia que me preenchia.

— Jonah, você está bem? — Pisquei meus olhos com força e levei minha mão naquele lado dolorido, meus dedos voltaram ao meu campo de visão com as pontas sujas de sangue. Uma leve fincada de dor, foi tudo o que senti. — Jonah! Jonah, por favor… — Sua voz soava lá no fundo e então a realidade veio à tona numa velocidade surreal. Imediatamente virei para Amin segurando seu rosto com cuidado conferindo seus braços, sua cabeça, suas pernas para ver se ele não havia se machucado. — Ah meu Deus, v-você… está s-sangrando. Você s-se machucou.

Havia tantas lágrimas naquele rosto lindo que deveria ser proibido chorar. Meu coração se apertou sem igual, Amin tremia tanto e ficou pálido, acho que principalmente quando viu meu corte – o qual ainda não estava sequer sentindo, mas estava ciente que aquela coisa escorrendo tão quente era sangue em abundância.

A vida é tão surpreendente, não acha? Em um minuto você está saltitante de felicidade e em questão de segundos seu mundo está desabando.

— Estou bem, Amin, mas e você, se machucou? — Ele era a minha única e exclusiva preocupação.

— N-não. E-eu… Me desculpa. Não imaginei. N-não sabia que isso iria acontecer… Não deveria ter sugerido viajar depois de uma nevasca, mas queria tanto f-fazer isso que, que, que ignorei todas as possibilidades de dar errado. E t-também t-te distrai falando de sexo! Eu me odeio! O-odeio!

Culpa. Era isso que exalava da sua voz. Uma enorme culpa o devorava impiedosamente. E Amin se odiar pensando que foi seu erro, como se ele tivesse feito essas coisas acontecerem, aquilo me cortou como uma faca extremamente afiada.

Não podia simplesmente, lidar com o fato de Amin se responsabilizar e se odiar.

— Não, não. Meu anjo, não tem como ninguém prever um acidente, é por isso que se chama acidente. Nada disso é sua culpa. Quem estava conduzindo o veículo e desviou a atenção da direção fui eu, mas por segundos, não tinha como prever que o outro carro havia perdido o controle. Acontece. Mas estamos vivos e é isso que realmente importa. Estamos bem. — Amin tremia mais e mais, estava ficando preocupado. Será um tipo de choque pós traumático? — Olha para mim, estou bem, é só um pouco de sangue. Foi só um pequeno acidente. Respira fundo. Comigo. Um, dois, inspira. Três, expira.

Ele começou a imitar a minha respiração, mas não estava funcionando. Consequentemente, começou a chorar mais a cada segundo, suas mãos apertavam meu braço com força. Ele está completamente assustado.

— Isso não estava na minha lista, definitivamente. — Lastimou-se e deixou todas aquelas lágrimas quentes escorrerem por suas bochechas gorduchas e rosadas. — É minha culpa. S-sinto muito.

— Ei, baby, não… Não é sua culpa. — Passei o dorso da minha mão em suas bochechas secando todas as suas lágrimas. Seu rosto era um mar aberto e isso está tão errado, meu pequeno pacotinho. — Shh. Está tudo bem.

— Não! Não! Não está! Jonah, p-precisamos de uma lista. Vamos fazer uma lista agora! Uma lista! Jonah! — Amin estava exaltado gritando, suas mãos seguraram seus fios de cabelo puxando-os e ele se encolheu no banco enquanto tentava se encolher o suficiente entre suas pernas.

O que estava acontecendo? Ele perdeu o controle?

— Meu bem, nós não precisamos de lista alguma, está tudo bem. — Me esforço para afastar suas mãos e tento o trazer para mim novamente com toda calma do universo. — Olha para mim, Amin.

— Por favor, uma lista! T-te imploro, Jon! Por favor! Apenas vamos fazer uma lista em como nós resolvemos isso! — Soluçou alto enquanto chorava tanto como uma criança que acaba de se machucar feio. — Por favor… — Seus olhos cheios d’água me suplicaram.

Amin, te ver assim, doeu tanto. Preciso te proteger, preciso cuidar de você.

Desesperado, me aproximei de seu rosto o segurando ainda mais carinhosamente. Me encontrei aflito, com medo, totalmente apavorado.

Uma vez li que diante de um ataque de pânico, recomenda-se segurar a respiração por trinta segundos. Não sei se isso é um ataque de pânico, mas se os exercícios de respiração não estavam funcionando, precisava tentar essa opção.

— Sim, nós vamos fazer uma lista. E tudo vai ficar bem. — Encosto minha testa a sua, ele fecha os olhos e eu também.

— Você promete? — Perguntou aos sussurros e sinto sua mão quentinha sobre as minhas, me segurando fortemente.

Amin precisava de alguém que lhe dissesse que tudo iria ficar bem. E eu era esse alguém. Seu porto seguro.

— Eu prometo. — Sussurrei de volta, ainda mais baixo quando minha boca se aproximou da dele. Seu hálito quente bateu sobre meus lábios, consequentemente, me aproximei mais. Meu coração disparou, minhas mãos começaram a suar e fiquei arrepiado. Sabe quando você está tão a fim de uma pessoa que não consegue se controlar? Você precisa dos lábios dela nos seus como se fosse um tipo de oxigênio puro essencial para continuar sobrevivendo.

Eu me sentia assim. Como se Amin Song fosse uma necessidade fisiológica.

Dei um leve selar em seus lábios macios e gordinhos, ele respirou fundo em deleite e prendeu a respiração em seus pulmões, talvez pela surpresa. Tocar nossos lábios mesmo que em um simples ato, diante de um acidente como tal, ainda assim foi simplesmente a coisa mais certa a se fazer no mundo.

Foi como beijar pela primeira vez, sentia até os tremeliques e borboletas no estômago. Os calafrios gostosos de finalmente beijar alguém é certamente a emoção mais marcante que podemos vivenciar.

Ficamos paralisados e provavelmente ficamos mais de trinta segundos assim. Mas nossos lábios permanecem atados por todo esse tempo. E não importava.

É como se um impulso inimaginável nos puxasse um para o outro com força. Seus braços circularam pelo meu pescoço, me trouxe mais para si. E outro selar suave, e mais outro… Devagar, calmo e cheio de sentimentos.

— Jon… — Ele sussurrou contra a minha boca e alguém bateu no vidro do carro… O que nos fez afastar rapidamente, um pouco assustados.

— Senhores, vocês estão bem? — Um senhor de idade batia no meu carro totalmente desesperado e preocupado conosco.

Me inclino sobre Amin e abaixo o vidro da janela ao seu lado, o senhor viu que eu estava sangrando e ficou ainda mais nervoso.

— Está tudo bem, fique calmo. — Tento o tranquilizar.

— Por favor, me perdoem! A pista estava escorregadia demais. Eu já chamei por ajuda. — Ele até perdia o fôlego ao falar, tamanho é o seu nervosismo.

Mas ficou tudo bem.

Saímos do carro e o abracei fortemente enquanto esperávamos pelo socorro. Tirei meu bloco de anotações do bolso e juntos fizemos a lista que ele tanto queria.

  1. Chamar por socorro (foi riscada assim que escrita).
  2. Ir para o hospital (só porque você insistiu que deveria).
  3. Rebocar o carro.
  4. Não sair um do lado do outro.
  5. Ir para casa em segurança.

Observação: Jonah beijou o Amin para evitar uma terrível crise. Mas acho que ele se aproveitou do ocorrido para finalmente me beijar.

A observação foi ele que escreveu.

Não surtei, como normalmente faria. Por ele, respirei fundo. Fui para o hospital, Amin segurou minha mão o tempo inteiro. Tirei o raio-X para excluir qualquer possibilidade de algo pior. Quando foi comprovado que tudo estava em ordem dentro de mim, fui liberado com apenas cinco pontos na cabeça. O senhor fez questão de nos deixar em casa e ainda nos passou seu número para manter contato. Ele ficou tão preocupado que tive medo de deixá-lo dirigir. Graças a Deus que nada pior aconteceu.

É claro, Amin não me deixou dormir sozinho, passamos no meu apartamento apenas para tomar banho e me trocar, em seguida fomos mesmo para o seu apartamento – pois não queria que seus gatos ficassem mais um dia sozinhos.

Tinha um pacotinho todo preocupado comigo, me observando e cuidando de mim o tempo todo e ele insistiu em cozinhar uma sopa para mim – e como senti saudades de comer uma refeição digna como as que minha mãe fazia, estava delicioso. Às vezes, morar sozinho é uma tristeza que só.

Fui obrigado a usar um pijama quentinho de algodão com estampa de cenouras e coelhinhos – óbvio que não me serviu direito, mas usei mesmo assim, até porque tem o cheirinho dele. Nós assistimos a um episódio de Anne with an E[4] juntos – descobrimos ter isso em comum, nossa série favorita.

E sabe como esse dia terminou?

Eu, na cama do Amin e ele insistiu em ser a concha de fora.

Fui abraçado robustamente, seus gatos se aninharam ao nosso redor. Davy aquecendo nossos pés – pois o Amin ama encostar seu pezinho no meu para dormir – e Anne próxima a meu travesseiro, fiel ao amor que ela nutre por mim.

E sentia que ele me apertava forte, como se demonstrasse estar tudo bem. E iria ficar bem, nós vamos ficar bem. Já passou.

Adormecemos juntos.

Eu já sentia que você fazia parte de mim.

 


 

[1] Conforme a Teoria da Relatividade Geral, um buraco negro é uma região do espaço da qual nada, nem mesmo partículas que se movem à velocidade da luz, podem escapar, pois, a sua velocidade é inferior à velocidade de escape desses corpos celestes infinitamente densos. Um fato interessante é sua formação, um buraco negro forma-se quando uma estrela explode e o que resta desse fenômeno é o buraco negro.

[2] Horizonte de Eventos popularmente conhecido como ponto de não-retorno, é a fronteira teórica ao redor de um buraco negro a partir da qual a força da gravidade é tão forte que, nada, nem mesmo a luz, pode escapar, pois, a sua velocidade é inferior à velocidade de escape do buraco negro.

[3] Johann Sebastian Bach foi um compositor e músico alemão do período barroco. Ele é conhecido por suas composições instrumentais.

[4] Anne with an E é uma série de televisão canadense baseada no livro de 1908 Anne of Green Gables, de Lucy Maud Montgomery e adaptada pela escritora e produtora vencedora do Emmy, Moira Walley-Beckett.

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