Capítulo Seis

inspiração, panquecas, conselhos e uma atitude

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Acordei no meio da noite, Diana sobre a cômoda do outro lado do quarto – me encarando com seus olhos brilhantes de gato no meio do quarto escuro. A única iluminação é uma luz fraca cor de rosa que vinha do abajur de flamingo do Amin que dormia bem agarradinho a mim, sendo a concha de fora – por que segundo ele, eu precisava de carinho e proteção depois do acidente – imerso em um sono extremamente profundo.

Entretanto, não foi por nada disso que acordei, embora estivesse amando assistir o menor dormindo tão suavemente (meu vizinho parece um anjinho e isso me faz ficar olhando-o todo apaixonado). Na verdade, tenho quase cem por cento de certeza que foi meu subconsciente me despertando para atender a um chamado.

É um chamado dos grandes.

A inspiração, a criatividade e aquela imensa vontade de escrever domavam meu espírito. E agradeço ao céu por finalmente sentir esse calor dentro de mim. Como senti saudades dessa sensação mágica.

Com todo o cuidado do mundo, sai da cama de Amin e fui até a sala onde deixei minha mochila com as coisas que havia trago. Fiz uma prece internamente por não ter ignorado aquele aviso no meu subconsciente de levar meus instrumentos de trabalho para a casa do Song. Havia trago meu laptop apenas por instinto e agora seria extremamente útil.

Quando você sente no seu coração que chegou a hora de colocar tudo para fora em formato de palavras, esse é o chamado que não pode ser ignorado. É o seu momento. Conte uma história, aproveite essa sensação. ESCREVA! Nunca se sabe quando a criatividade vai bater na sua porta, normalmente a danada resolve chegar em momentos inesperados e até mesmo inusitados. E quando ela surge, não espere mais nenhum segundo para libertá-la. Essa com certeza é de ouro, obra primas poderão nascer dela.

Não deu outra, me sentei na sala na companhia de Roy e Diana que mais pareciam cães de guarda me vigiando – eles estão desconfiados de mim, deve ser porque estava dormindo com o pai deles. Abri a tampa do computador portátil e assim que digitei a senha e tive acesso à área de trabalho, abri o Word e seguidamente o Spotify, após me equipar com o fone de ouvido dei play na playlist Writing.

E finalmente aconteceu, o momento mágico que tanto aguardei. As palavras fluíram para fora de mim tão suavemente que podia sentir meu corpo flutuando. Um calorzinho delicioso aquecia meu coração de escritor, a história que saia de meu coração e se materializa na tela à minha frente, me deixava fantasiado. O som constante de teclas sendo apertadas, até mesmo o pisca-pisca da decoração natalina de Amin me inspirava. Meus dedos eram rápidos, apertando uma tecla atrás da outra, preenchendo folhas brancas com palavras que dariam vida a um romance.

O nosso romance, Amin Song.

A nossa história de amor.

E foi assim que aconteceu, simplesmente abri os olhos e minha inspiração estava ali, esperando para ser colocada em páginas brancas de um programa de documentos. E assim foi feito.

Minha alma se libertou. E eu me reencontrei.

Amin, pacotinho, escrever sobre você é fácil. Mesmo que não estivesse apaixonado por completo, sua pessoa é tão cativante que… Não tem como explicar. Você é tão transparente. É um ser tão criativo que não me assustaria se outro homem já tivesse escrito um livro para você. Uma obra de arte merece ser lembrada e eternizada.

Cruzo os dedos, aqui vou eu. Quer dizer, aqui vamos nós com esse romance um tanto amável.

Jonah Ambrose despertava dentro de mim, quebrando aquele denso muro onde havia se aprisionado. Talvez me lembre agora de como vim parar no quarto escuro do bloqueio criativo. Foi quando recebi a notícia de que minha ex-namorada havia tido um bebê. Não tenho nenhum problema com a Cassidy, o término do relacionamento de quatro anos foi ok. Sei que quebrei totalmente seu coração, mas ela já esperava quando deixei tão claro minhas intenções.

O gatilho foi realmente perceber que a minha vida estava estagnada, pois, sou um covarde.

Durante meu último relacionamento, gradualmente nossos desejos mudaram e os meus apenas ficaram mais fortes. Não queria nada além de um namoro casual, já ela queria um noivo, um marido e uma família. Fiquei feliz por ela seguir em frente e finalmente realizar seu sonho de casar e ter um filho.

Tenho mesmo um problema e é comigo. Nesse caso era o fato de não seguir em frente, de não permitir que as pessoas se aproximem o suficiente para não machucar e tão pouco ser machucado. Sendo assim, quando terminava esses relacionamentos, minha vida voltava a ser pacata.

Às vezes, sinto como se tudo que me aconteceu me prendesse como um jet lag. Quando viajamos para um fuso-horário diferente e isso reflete na alteração do ritmo biológico do nosso corpo. Ser obrigado a se virar e se tornar um adulto mais rápido do que o ritmo do seu corpo permite.

Quando eu estava na faculdade, minha vida parecia um filme. Era correria demais, trabalhar, estudar e me manter financeiramente. Perdi muita coisa da minha adolescência, tanto devido ao conservadorismo dos meus pais, tanto da obrigação de sair de casa cedo. Parece que por muito tempo estive sozinho em um tempo e espaço diferentes. Será que um dia eu vou encontrar meu próprio tempo?

É como uma paralaxe, dependendo de onde é observado, se vê aparências diferentes de um ângulo do objeto em questão. Tudo depende do ponto de vista de quem olha, porque o objeto continua sendo o mesmo.

Parece que eu estava no passado, porque todo mundo anda muito rápido. Quando me dei conta, havia me tornado adulto e levando minha vida sozinho. Não é triste chegar aos trinta e perceber que não tem ninguém? Digo, não se trata dos amigos, se trata de estar afastado da minha família e não ter ninguém para acordar ao meu lado. Me faz não saber o que fazer, como se eu estivesse vivendo de uma forma errada. E tenho andando em círculos, sempre tropeçando nessa mesma tecla. Esse sentimento permanece me atormentando.

Às vezes quando me sinto perdido, me forço a continuar correndo, mantendo a minha cabeça ocupada. Eu não sei para onde eu vou, mas me encontro cada vez mais sozinho. Viajando entre presente e passado, pensando se me arrependo ou não de algumas decisões. Como, por exemplo, se eu tivesse ficado com o Howie, estaríamos felizes agora e eu me sentiria menos vazio? Foi um erro não me casar cedo, visto que agora isso se tornou uma pendência dentro de mim? Ou eu estou apenas correndo no meu tempo? Não sei. Parece que estou a caminho do lado oposto do sol.

Com o tempo, passei a sentir o vazio, a falta constante de uma coisa dentro de mim. Cor, amor, viver. É por isso que estava indo ao encontro do buraco negro. Vou me jogar de cabeça.

Não confessei antes, mas o meu sonho era casar e ter filhos. Contudo, tinha tanto medo da prática que jamais senti a firmeza em alguém para fazer isso. Estava com medo do meu futuro amoroso, já que o profissional estava bem.

Eu assistia os relacionamentos ao meu redor e era tudo tão doloroso e caótico. Todos os relacionamentos estavam dando errado e o erro é sobretudo das pessoas. A falta de amor verdadeiro, a indispensável amizade, traições atrás de traições, desrespeito, diálogo… Como eu faria isso? Não dependia só de mim, mas da pessoa ao meu lado também. Talvez seja precoce dizer que sinto essa confiança que preciso no Amin, sem nem mesmo o conhecer a fundo.

É perigoso, preciso ter cuidado.

Respira fundo, Ambrose. E vá devagar.

Podia sentir dentro da minha alma, agora, tudo mudou… Como se lentamente meu quebra-cabeça interno fosse encaixando as peças que antes estavam soltas e embaralhadas.

Escrevi por três horas e o sono retornou quando o sol estava quase nascendo. Voltei para cama e fiquei olhando Amin.

Tudo mudou, Song.

Eu me sinto mais seguro quando estou com você.

Tomei a liberdade de fazer carinho em sua bochecha, nós dois aqui na cama, é como se sua pele soltasse aromas, partículas de sonífero para eu adormecer. Sonhos deliciosos, calmaria, paz, segurança… Amor. E não demorou muito para cair de fato no sono. Pela primeira vez em três meses, finalmente pude dormir em paz, uma vez que tenha me libertado do bloqueio criativo.

Acordamos juntos e foi tão fofo, pois ficamos agarradinhos por um bom tempo, Amin não queria dizer uma palavra ainda na saga de me poupar do seu bafinho. Não me importei, deitei em seu peitoral e ele ficou acariciando meus fios por uns dez minutos até meu celular despertar de novo me avisando que já estou quase atrasado.

Me levantei primeiro e nunca imaginei que isso pudesse ser tão difícil, já que o Amin me olhava com aqueles olhinhos fofos e brilhantes implorando para eu ficar. Escovei os dentes e fiz xixi, quando retornei ao quarto ele havia voltado a dormir. Tão fofo. Ajeitei ele na cama e fui até a cozinha determinado a cozinhar algo para ele.

Não sou tão incrível na cozinha como o Amin, mas sei me virar. O bom é que encontrei tudo facilmente na cozinha alheia, já que o Song colocava a tag com o nome do produto em cada potinho. Me empolguei na companhia da minha fiel escudeira Anne e fiz panquecas docinhas para o Amin. As decorei com carinhas divertidas, deixei o Maple Syrup[1] do lado para que ele colocar o quanto quisesse, piquei morango e manga para tornar o prato mais colorido. Para beber optei por um leite quentinho com chocolate. Deixei tudo bem protegido da ameaçadora presença de seus filhos com um pote de vidro por cima e escrevi um bilhete.

Mas aí ele apareceu de repente e me pegou no pulo.

— Minha nossa senhora dos namorados! Eu desejo acordar todos os dias da minha vida com um macho lindo assim na minha cozinha cozinhando só para mim! — O pacotinho fofo pulou em meu colo e me deu um abração. Segurando suas pernas ao meu redor, o coloquei sentado sobre a bancada já ciente que poderia estar atrasado, estou sem carro e vou depender do Uber para me locomover. — Bom dia, Jon.

— Bom dia, pitiquinho. Dormiu bem?

— Oh, sim! Como se fosse um anjinho. E você? — Ele acariciava os fios na minha nuca enquanto suas pernas me traziam para mais próximo do seu corpo, me apertando e abraçando. — Você fica tão gracinha enquanto dorme. Estou muito apaixonadinho!

Ri e ele me apertou em um abraço de urso.

— E você de fato é um anjo enquanto dorme. Eu dormi imensamente bem. Foi perfeito. Você é perfeito. — Passei a pontinha do meu nariz contra a dele de leve e ri baixinho enquanto ele me dava beijinhos por toda a face então pegou o bilhete numa alegria indescritível.

E sinceramente minha letra ficou um garrancho, isso por usar a caligrafia de forma, imagina só se fosse a cursiva? O importante é que ele ficou todo encantado, o que vale é a intenção, não é?

— Você é tão romântico! Que lindo, Jon! Eu sou seu docinho, sou? — Amin estava me beijando todinho, digo na região do pescoço e rosto. Céus, que delícia ter seus lábios na minha pele. Cada estalado era um arrepio intenso.

— Você é sim, meu pacotinho de docinhos… — E esfrego as pontas do nosso nariz. Putz, quando me tornei tão carinhoso? — Mas preciso ir. Estou atrasado, bebê. — Disse com uma expressão chateada e ele também fez um beicinho, mas concordou e me soltou para me deixar partir.

Você percebe que essa pessoa é importante para você quando deixá-la, mesmo que por algumas horas, torna-se doloroso. A saudade definitivamente é sinônimo de amor. Foi difícil sair do apartamento do Song, queria ficar ali com ele e seus gatinhos para sempre. Mas não é assim que a vida funciona. Portanto, não demorei a pegar minhas coisas e ir. Nos despedimos com selinhos e olhares apaixonados, por último reforçamos o combinado de que iríamos almoçar juntos. Sim, o levaria para comer fora mais tarde. Tem noção do que é isso? Um encontro. Nosso primeiro date oficial e hoje sou eu quem vou surpreendê-lo.

Como fiquei amigo de Jessica? Bem, na verdade, ela era amiga da minha irmã e frequentava nossa casa quando éramos adolescentes. Depois, curiosamente descobri que ela estava saindo com meu melhor amigo, o Yohan, daí ficamos mais próximos ainda.

Nos afastamos um pouco quando descobri que ela vivia falando sobre mim com minha irmã, o que resultou numa Johanna super preocupada comigo me obrigando a ir ao psicólogo. Não fiquei com raiva dela, só estava irritado com tantas pessoas se metendo na minha vida, o excesso de preocupação desnecessária.

Minha irmã julgava que eu estivesse com algum tipo de depressão ou simplesmente tivesse medo de assumir responsabilidades. Ela deduziu isso sete meses depois que terminei mais um namoro de anos por não querer casar e tão pouco ter filhos. Era apenas uma escolha de vida, mas agora se tornou um medo a se superar.

Em relação aos términos, não me arrependo. Muitas das vezes quando terminamos, percebemos que essa pessoa realmente não era a ideal. Nunca senti que terminar com meus relacionamentos anteriores fossem um erro e sempre encarei términos como algo que casualmente acontece na nossa vida. Sou bom em seguir em frente com facilidade.

E aqui estou encarando a Jessie enquanto os caminhões do supermercado parceiro descarregam todos os produtos para repor o estoque do estabelecimento. Bom, ainda não falei para vocês e para o Amin sobre isso, mas vai chegar a hora. É surpresa, saca?

Enquanto a descarga é feita, confiro as cargas e ela risca na prancheta tudo que está certinho, não consigo evitar encarar seu rosto e sua barriguinha saliente.

É, Jessie e Yoo vão ter um bebê e eu sou o padrinho desse serzinho aí dentro, não é fofo? Sinceramente, fiquei muito surpreso quando me chamaram para ser padrinho do neném, não me considero tão bom com crianças, na verdade, não tenho experiência.

Jessica me encara de volta e quando o descarregamento acaba, ela vem até mim com as mãos na cintura e os olhos semicerrados. Só quero conversar com ela e acredito que isso está assustadoramente nítido.

— Qual foi, Ambrose? Você está muito estranho. — Ela diz, deixando a prancheta de lado e se sentando em um dos banquinhos da dispensa para me ouvir.

Senta mesmo, pois lá vem história. Inicialmente fico com cara de bocó, pois não sei como dar início ao assunto. Parece que minha vida atualmente é uma grande incógnita.

Como sair desse quarto escuro? E, principalmente, como permanecer no jardim colorido e florido com o Amin?

Puxo um caixote de melancias para perto dela e respiro fundo me sentando sobre o mesmo. Inicialmente encaro o chão, vasculhando minha mente e tentando me organizar para contar o que preciso. Me sinto o mais dramático do século, mas é complicado simplesmente falar. Admiro quem consegue expor seus sentimentos sem dificuldades. Sinal nítido da minha ansiedade e desconforto é a minha perna que não queria parar quieta, juro que tentei fazer ela ficar paradinha, mas ela não me obedeceu.

Ter ansiedade é um saco.

— Ok. Vou ser bem direto. Acho que está rolando algo coisa entre mim e o meu vizinho e estou surtando para caralho, é isso. — E as palavras fluem para fora mais rápido que um Velociraptor, solto um suspiro de alívio e meus ombros finalmente relaxam após finalmente falar sobre isso com alguém.

Jessie me olha simplesmente espantada e um sorriso imenso surge no seu rosto conforme ela processa a informação, por fim ela praticamente gritou tapando a boca e arregalando os olhos de surpresa.

—  Espera, ouvi direito ou… Jonah Ambrose está apaixonado? Não acredito que isso finalmente está acontecendo! — Jessie surta e sendo minha amiga tão próxima está coberta de razão. Estou a tanto tempo sozinho, que é estranho aparecer assim do nada super apaixonado. — Quem é esse vizinho? Preciso conhecer ele e me curvar a esse deus dos milagres.

Rio sem graça e nego balançando a cabeça.

— Para, não exagera.

— Exagero, Ambrose? Caramba, exagero é esse seu drama de ter medo de namorar. Vai, anda, anda, me conta TUDO!

Jessie puxa seu banco para mais próximo de mim, toda feliz e animada para ouvir sobre o Amin. E assim começo a contar toda a história desde o início. Começando pela invasão de privacidade – que no caso era eu olhando o Amin pela janela – até os momentos que já riscamos na lista do Amin.

É claro que ela ficou toda apaixonada pelo nosso romance digno de novela. O tempo todo ela sorri e até mesmo cai na gargalhada em algumas situações que vivi com meu vizinho, mas seu sorriso murcha mesmo quando começo a falar dos meus sentimentos e melhor do que ninguém ela entende exatamente o que estou sentindo.

Não é à toa que quis conversar com a Jessica, escolhi ela principalmente porque antes dela se casar com o Yoo, foi realmente difícil superar o término doloroso do seu primeiro namorado. Ao me lembrar disso, me identifiquei com ela, pois foi alguém que também se encontrou fechada para o amor e o Yoo foi quem ajudou a perceber que ela merecia ser feliz com alguém que a amasse de verdade.

— Não sei o que acontece comigo. — Solto meus ombros e fecho meus olhos numa tentativa totalmente falha de colocar meus sentimentos para fora. — Tenho medo de machucar o Amin. Tenho medo disso ser passageiro, não quero que seja passageiro.

Ele é alguém para se ter ao lado sempre. Mas, tenho medo de me casar, de ter filhos e pior ainda, fazer tudo isso com uma pessoa errada. De acordar e descobrir que não nos amamos e vamos nos divorciar. Então alguém tem que sair de casa, alguém vai ficar com o cachorro e o outro com o filho. Por isso, estaremos ligados para sempre e odiaremos ver a cara um do outro, mas teremos que suportar, pelas crianças. Entende? E depois vou ser um idoso que olha para ele e percebe que a separação foi um erro, ele era o homem certo para mim.

— Uma semana atrás eu não queria um namorado, não queria me envolver com meu vizinho, não pensava em casamento ou em filhos e vivia uma vida extremamente remota que me resultava em bloqueios criativos maçantes. Mas agora… Tudo mudou. Estou me apaixonando pelo Amin e só quero saber como faço para não estragar tudo. — Olhei em seus olhos quando ela segurou minha mão para me dar algum tipo de apoio e respirei fundo, havia ficado ofegante de tanto falar. — Precisava desabafar com alguém, pois não quero o machucar, não quero me machucar.

Quando termino de falar percebo o quanto sou precipitado. Estou sofrendo antes de hora. Mas essa também é a questão. Não quero sofrer, não quero fazer o Amin sofrer, quero que sejamos felizes. Sei que essas coisas acontecem, mas poxa, eu quero tanto evitar. Quero que sejamos diferentes dos outros casais, que sejamos verdadeiros.

Só de pensar que a minha vida pode se tornar como tantos outros relacionamentos têm resumido atualmente, me dá um arrepio de pavor.

Talvez isso só dependa de nós dois. Preciso me abrir com ele, nos aproximar, deixar as coisas acontecerem e juntos fazer isso dar certo. Bem dizem que a amizade é um dos laços mais importantes que um casal precisa ter.

Mas ainda me sinto sufocado, não tem mais a ver com escrever ou não. Estou sufocado pelo Jonah.

— Amigo, respira pelo amor de deus. — Jessie tocou meu rosto com cuidado para me fazer olhar o seu, estava tão frustrado com tudo isso que nem sequer a olhava diretamente no rosto. — Você está sendo muito precipitado. Te conheço, Jonah e sei que você gosta das coisas no seu controle e ter o futuro planejado. Mas acredito que tudo isso, tudo que já aconteceu e está acontecendo, é o universo te mostrando que você não tem controle de nada além do presente. E está tudo bem, se a gente pudesse saber do futuro, mas não sabemos. Hoje você não quer namorar, mas amanhã poderá acordar apaixonado pelo seu vizinho.

— Você sabe o quanto é difícil para mim, não sabe? Passei a vida inteira tentando controlar tudo para evitar o máximo de problemas possíveis.

Eu sou um homem desencorajado com medo de sair do meu conforto. Caralho, Ambrose, que vergonha de ser eu. Até o Amin quase desistiu lá no hotel, quando percebeu que claramente não percebia suas investidas.

— É sei sim. Mas também sei que você consegue, Joney. Relaxa e deixa as coisas acontecerem. É claro que entrar em um relacionamento com o propósito de evoluí-lo com o tempo, é lindo. Principalmente se também for da vontade do Amin. Não tem como saber se você e o Amin vão se casar e tudo mais, essas coisas não vêm escritas, elas acontecem com o tempo. E está tudo bem, sério, tudo bem mesmo se não for para ser. Só não deixa ele ir sem antes ter certeza de que vocês tentaram, sabe? Poxa, você finalmente conheceu alguém que vale a pena passar por cima de todos os seus princípios ridículos. E se te conforta, te conheço muito bem para ter certeza que você não vai machucar o Amin assim como pensa, afinal seu objetivo é fazê-lo feliz. Não fica pensando se é passageiro ou não, só deixa acontecer.

Respiro fundo concordando brevemente com suas palavras, mas ainda assim me sinto nervoso e aperto nossos dedos entrelaçados, tentando me acalmar lentamente.

É como sempre aconteceu com meus outros relacionamentos. Quando chegamos no vamos casar, ter filhos, morar juntos, ter uma família… Eu travo. Consequentemente, termino, pois, não me sinto preparado para ter essas coisas, tão pouco para fazê-las funcionar. E isso machucou meus antigos parceiros. Eles esperavam e viam o contrário em mim.

Não tive uma lista enorme de relacionamentos, mas no ensino médio beijei meninos e meninas. Tive minha primeira paixão por um vizinho, o Alan. Foi quando finalmente namorei um garoto às escondidas, nós terminamos por que ele se mudou.

Seguidamente comecei a namorar um garoto de forma assumida, o Peter. Minha família desaprovou totalmente, por isso também não demos continuidade. Depois disso, minha mãe queria muito que eu namorasse a filha da sua amiga, até ficamos algumas vezes, foi a primeira vez que transei com uma menina, mas não deu certo. Não sentíamos nada um pelo outro e aquilo definitivamente não foi um namoro.

Quando saí de casa namorei o Howie por cinco anos, ele era perfeito, mas queria se casar cedo demais. Foi o relacionamento mais doloroso de terminar e onde tive os sentimentos mais fortes por uma pessoa, mas não era o suficiente para me casar. Por fim, depois que terminamos, levou um tempo para voltar a me interessar por relacionamentos.

E foi quando conheci a Cassidy que foi minha última namorada, nós começamos a namorar pelo mesmo motivo: não queríamos nada além de um namoro. Durou quatro anos e logo ela começou a falar de casamentos e filhos… E você já sabe, terminei. Esse não doeu tanto em mim, mas em compensação ela ficou arrasada e isso me matou um pouco. Não sou do tipo que gosta de ser a dor de alguém, mas precisava ser sincero conosco. Ela entendeu meu lado, me agradeceu por ser verdadeiro, mesmo que o término a entristecesse.

Só quero mudar. Definitivamente, quero ser alguém melhor e levar a minha vida de uma maneira mais leve, menos preocupado e desesperado. Quero sair do meu apartamento e do meu computador para viver novas aventuras que me inspirem e me façam sentir que estou vivo. E sobretudo, ser um homem de quase trinta anos que não tem medo de amar alguém.

Quero sentir que tenho uma vida… E quero começar a exercer isso com o Amin.

É exatamente isso que desejo, percebo por fim, esse é o chamado do meu coração: uma vida com o Amin.

— Você tem razão, prometo que vou tentar.

E um sorriso se abre em seu rosto, isso me deixa mais feliz também.

— Estou tão feliz por você, Joney, de verdade mesmo, sua felicidade é muito importante para mim. E tive que me segurar tanto para não sair te arrumando umas paqueras e te dar uns puxões de orelha. Fiquei muito feliz de ter me escolhido para conversar sobre isso, é muito importante para mim. — Se tem uma coisa que Jessica e eu resolvemos na nossa amizade, é o fato dela não precisar se preocupar tanto mais e ficar se matando para me ajudar. Aprecio isso nela, mas não queria meus amigos se metendo na minha vida amorosa, por isso costumo guardar ela só para mim.

— Sei que está feliz por mim, Jessie. Soube que deveria falar com você quando me vi nessa situação, sabia que terias as palavras certas para mim. — Levo sua mão até meus lábios e deixo um selar carinhoso. Nossos sentimentos são como os de dois irmãos e firmamos isso com um abraço apertado. Sinto meu coração mais leve, como se realmente precisasse desse apoio.

E mais uma vez a vida me mostrou o quanto estou enganado. Compartilhar essas coisas com as pessoas que amo, me faz bem.

— Agora me fala mais do Amin, já sinto que vou me dar super bem com ele. — Quando o abraço termina, ela já vai perguntando e, putz, meu coração já dá um pulo no peito.

Nem consigo acreditar que ela está me perguntando isso, é tão fácil, é tão transparente falar do Amin. Ele é a coisa mais nítida na minha mente.

— O Amin, nossa, ele é tanta coisa. Além dele ser a pessoa mais incrível que já conheci. Ele é tão lindo. Gosto da maneira que ele vê o mundo, do jeito que ele leva sua vida. Ele me faz querer sair do meu apartamento e também me faz querer escrever coisas sobre o amor. Não só isso, viver o amor. Com ele, não fico estressado, nem preocupado, parece que posso respirar e tudo vai ficar bem, não importa qual problema seja. Ele é carinhoso, extrovertido, animado, prestativo, criativo e extremamente organizado. Confesso que ele também tem pontos negativos, mas não me importo. Na verdade, é como ele disse, quero ajudar ele a ser uma pessoa melhor da mesma forma que ele me ajuda. Amin é uma nuvem imensa de adjetivos maravilhosos. Ele é fantástico. Único. Ele é cores.

Meu pobre coração estava super acelerado dentro da minha caixa torácica, tudo devido ao simples fato de falar do homem que tem dominado meus pensamentos recentemente. As palavras saíram com tanta naturalidade e sinceridade que me deixou ainda mais apaixonado pelo meu vizinho.

Era só falar o nome mágico Amin que minha pele começa a queimar, bem aonde ele esteve me beijando hoje de manhã, todos os locais que ele tocou.

— Meu deus, amigo, você está tão apaixonado. — Jessie ri toda encantada e minhas bochechas queimam de timidez. — E percebeu que de tudo isso que você falou, em nenhum momento o chamou de frágil? Confia nele, amigo, confia que ele é um adulto maduro, que sabe lidar com essa situação e com todas que vocês vão enfrentar juntos. Me senti da mesma maneira com o Yoo e resolvi confiar nele e seguir meu coração. Bom, o resultado está bem aqui. — Jessica toca seu ventre onde há o volume nítido de uma gestação e abro um sorriso alegre, esses dois eram uma inspiração para mim.

De fato, não vejo Amin como alguém frágil, não vejo ele morrendo de medo de entrar em um relacionamento que pode o machucar. Não conheço sua história de vida e mesmo assim até agora ele não me passou a imagem de alguém fraco.

Não, não havia percebido antes que o único frágil aqui, sou eu.

Tudo que penso sobre Amin, demonstra o quanto o amo e quero estar com ele. Meus relacionamentos podem não ter dado certo, mas não significava que os próximos teriam o mesmo rumo. O destino, a propósito, está nas minhas mãos.

O Amin é tão incrível, tão bonito, tão gostoso que quando estou perto dele e penso em o beijar fico tremendo de medo de o fazer. Ele me quer tanto e descobri que quero tanto de volta que isso também me assusta.

Estou tão confuso, só o conheço a uma semana e já estou apaixonado. Não é assustador? Me parece tão precipitado já dizer o quanto provavelmente já gosto dele. Não quero colocar um fim em algo que ainda nem começou devido ao medo da intensidade em que estamos nos envolvendo. Talvez a solução da incógnita é deixar acontecer.

Acho que o que pode estragar tudo são esses meus medos e inseguranças. Estou com receio de… sei lá, transar com ele, ficar com ele e então o Amin descobrir que não é isso que ele quer. Acho que, essa é a pessoa que tem o poder de me destruir. E mais uma vez, está aí o motivo de se privar de amar, quando finalmente acontece tudo vem com tanta intensidade que você transborda.

Os outros relacionamentos não foram assim, o que me levou a ver que talvez não os amasse tanto quanto imaginava. Mas o Amin, se ele desistir de mim… Não sei como vou superar.

Você sabe o quanto dói gostar tanto de uma pessoa a ponto de depositar toda a sua existência nela e ela simplesmente quebra tudo. Juntar os pedaços é mortal, cada caco que tenta encaixar em seu coração parece lhe causar um ferimento, um corte, mais uma cicatriz para a coleção. Definitivamente, não precisava disso.

— Foi bom falar disso com você. A resposta é essa bem na minha cara, preciso deixar acontecer.

— É isso aí, relaxa, curte e vai beijar essa boca, pois sinto a tensão sexual de vocês dois só com essa conversa. — Caímos na gargalhada e concordo com ela.

Porra, tudo que mais quero é beijar aquele cara até nossos lábios não aguentarem mais.

Após a conversa, nós dois aproveitamos mais a companhia um do outro e finalmente resolvo voltar para casa, quer dizer, voltar para o Amin, já que iremos almoçar juntos.

E me pego pensativo no meio da rua, sentado em um banco de ponto de ônibus. Não sei como vim parar aqui, sério. E também não me pergunte como de repente minha vida inteira começou a se passar diante dos meus pensamentos.

Sou um cara sozinho, que escreve bons livros, fez seu negócio dar certo e vive uma vida tranquila. Mas nem tudo era perfeito na minha vida…

Meu pai me odeia. Minha mãe não me odeia, mas também não se envolve. Minha irmã está ocupada demais, porém não me importo. Não é como se precisasse de atenção. O que quero dizer é que meu relacionamento com meus pais é complicado.

Não nasci em uma família rica, meu pai era mecânico, minha mãe professora do jardim de infância e nós tínhamos uma vida normal. O que importa é que eles conseguiram cuidar de mim e minha irmã. No entanto, eles eram super conservadores. Mesmo com dezessete anos, minha mãe não gostava de me deixar sair sozinho e tinha hora para voltar para casa. Ainda que tenha começado a trabalhar cedo, ainda assim meus passos eram super controlados. Lembro que o meu primeiro emprego foi em uma livraria e não pense que foi aí que me apaixonei por livros.

Sempre amei livros desde moleque, sempre fui inteligente e tirei boas notas. Na época da escola eu era o típico nerd super estranho. Sobrevivi ao bullying também, mas não guardo cicatrizes de nada. É passado, superei. Contudo, faz parte da minha história e da minha evolução.

Mas ser gay foi o fim para meu pai. Nós começamos a nutrir uma relação de ódio, rancor e brigas. Tudo que eu fazia era detestável para ele. Nada, nem mesmo as coisas incrivelmente boas o surpreendiam.

Meu orientador me ajudou a conseguir uma bolsa de estudos para me formar em literatura, e meu pai me acusou de me envolver sexualmente com o Sr. Scott. Quando passei, saí de casa e graças às boas conexões com meus professores consegui bons estágios. E assim que a faculdade acabou, estava pronto para começar minha vida, sozinho e tem sido assim desde então.

Já a Johanna, minha irmã, sempre foi a mais querida deles. Ela é uma advogada excelente e nunca se pronunciou sobre minha sexualidade. Nos falamos às vezes, mas não é nada muito forte. Agora que ela é casada e tem filhos, tão pouco liga para minha existência – o que infelizmente não me faz falta, já que somos um tipo de irmãos afastados.

Sinceramente, me acostumei com isso. Tenho uma enorme diferença de idade com a minha irmã o que significa que quando nasci, ela já tinha catorze anos, ou seja, sempre fui um garotinho solitário. É por isso que estar ou não com a minha família não faz diferença alguma.

Por muito tempo não aceitei minha sexualidade, mas isso passou. No início, acabei dizendo para Amin que não sou gay, mas foi só para afastar ele. Isso não o convenceu. E nem a mim. Esbocei um sorriso mínimo ao me lembrar disso. Ele estava disposto até mesmo a provar para mim mesmo que sou gay. Caralho, definitivamente acho esse homem completamente adorável.

Estou bem como estou, exceto pelo bloqueio criativo. Neutro em relação a mim, mas me apaixonando por alguém. E adoro a sensação de estar amando, gosto muito. Quando perguntei para o Amin: “por que eu”, queria me ver como ele me vê e acabei me surpreendendo. Ele disse: “Porque você entre todas as estrelas era Marte”. Ainda estou tentando entender isso, mas o sentimento que veio junto é que me tira do chão.

Amin era um livro ilustrado, cheio de cores. Anseio por descobrir e provar cada uma delas. Desejo ler ele inteirinho.

Por fim, encaro meu reflexo na janela do ônibus que parou na minha frente e chego a conclusões inesperadas… Amin é tudo que quero e estou a um passo de tê-lo, não vou o deixar escapar. Se não der certo ao menos tentei, a vida vai seguir da mesma maneira, com ou sem ele. Não preciso ter medo de sair da minha zona de conforto.

Pego meu bloco de anotações – que é pequeno o suficiente para carregar no bolso da calça jeans – e então me obrigo a escrever uma nota motivacional para mim mesmo:

Vai, Jonah. Escreva sobre as coisas que você quer escrever, não se limite. Não tenha medo de viver, a vida está passando e você está se segurando para trás. Não segure. Vá. Deixa acontecer, seja o que for. Confie em você. Tenha atitudes de um homem crescido. Supere isso e mude.

E já sei como.

Preciso ligar para a editora e dizer que não concordo mais com aquele tema e não quero mais escrever sobre isso. Vou confiar no meu potencial de publicar uma história diferente de tudo que já escrevi. Tenho que ir até à casa do Amin agora e beijar ele e recompensar todo tempo perdido. Quero transar com o Amin!

Talvez eu ligue para meu pai e mande ele se foder. Meu Deus, preciso fazer um monte de coisa que não tenho feito. Sempre quis ter um cachorro e sabe porque não tenho? Para não arranjar problemas e nem trabalho. Dá muito trabalho cuidar de um animal e tenho fugido disso.

Caralho, Jonah, você realmente esteve dormindo por muito tempo!

Mas tudo isso ficou para trás agora e quando me levanto e volto a caminhar, mudo totalmente a rota do meu futuro e aceito o presente que o destino me deu, escolho o caminho até o meu vizinho.

Amin, aqui vou eu, em direção a você.

É hora de tomar uma atitude.

 


 

[1] Maple Syrup é um xarope parecido com um melado, extraído da seiva bruta de árvores do Bordo, tradicional no Canadá. É retirado durante a primavera e após isso é apenas cozido. Tem uma textura parecida com o mel de abelha líquido e um sabor único e natural. A calda é extremamente utilizada com panquecas, crepes, waffles, bagel, bannock, sorvetes e gostosuras. Chega até mesmo a ser despejado sobre carnes, saladas e ovos mexidos.

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