Capítulo Onze
cookies, oceano, o Pequeno Príncipe e corações amarelos
— Amin, isso está certo mesmo? — Pergunto pela milésima vez, fazendo meu vizinho sair do seu trabalho árduo de enfeitar todo meu apartamento o máximo possível e vir conferir a massa na tigela inox. Song olha para mim, olha para a massa, rindo às minhas custas, enfia o dedo o sujando e o leva à boca para provar.
E a tensão que estou sentindo nesse momento, brother? Minha nossa. Se isso não estiver bom, me mato. É a terceira massa que faço só hoje nessa manhã, vamos ter cookies até para distribuir na pracinha na véspera de Natal.
Bom, isso se ficar gostoso.
— A massa está no ponto certo, tchuco, pode fazer as bolinhas e colocar para assar. — Ele sorri ainda chupando seu dedinho indicador com os últimos requisitos de massa. — Está docinho. Ah! — De repente ele lembra de algo e ergue o dedo indicador para cima como um sinal. — Coloca uma pitadinha de bicarbonato, vai deixar mais crocante.
E assim vou correndo até o armário onde tem os potinhos de temperos, especiarias e pego o tal bicarbonato de sódio – pois é, o furacão de organização chamado Amin Song passou pela minha casa e agora tenho potinhos com tags especificando o que é o conteúdo em seu interior. Não preciso nem falar que quase derramei um tanto na massa.
Puta que pariu, Jonah, você não consegue nem cozinhar.
— Bem pouquinho, Jonah. — Amin quase grita do outro lado da sala, contatando o quão atrapalhado sou. Enquanto isso, ele finalmente finaliza os enfeites da minha mais nova árvore de Natal.
Let it snow! Let it snow! Let it snow! Cantou Frank Sinatra como trilha sonora do meu desastre, a música soava pelo meu apartamento enquanto meu vizinho se balançava com o gingado da canção.
É, Jonah, as coisas estão realmente mudadas. Você, Jonah Ambrose, tem uma árvore de Natal no meio da sala. Meu pai odiava o Natal com tanta força que mamãe não podia nem sequer fazer um jantar especial nessa época, sinto vergonha em assumir que acabei crescendo com esse costume e como vocês bem sabem, Amin já resolveu isso. Agora eu amo o Natal.
A melhor parte foi poder ir pessoalmente numa fazenda para cortar que pinheiro que nós quiséssemos. As árvores cortadas são cultivadas especialmente para isso e depois do Natal são recicladas. O pinheiro requer mais cuidados do que uma árvore artificial, claro, mas deixa um cheiro super gostoso na casa e a árvore fica lindíssima. Além da experiência gostosa que vivemos.
Voltando a focar nos cookies que estou cozinhando, dou play no vídeo do YouTube que estou assistindo, meu celular está escorado em um pote de biscoitos perto de mim. Vou amassando a massa enquanto a moça continua falando e mostrando tudo. Logo seguindo os passos dela.
— Unte uma forma e com uma colher faça bolinhas com a massa na forma. Tente deixar uma boa distância entre eles e não os faça muito finos, tente sempre fazer um pouco altinho, pois no momento em que assa, ele se estica para os lados. Leve para assar em fogo médio, por uns 5 minutos e espete com um garfo umas três vezes para ver se está bom, ele provavelmente sairá sujo, pois o chocolate derreterá, fique atento à massa, ela tem que estar fofinha e não mole.
— Fofinha e não mole. Ok. — Repito para mim mesmo quando levo a fornada ao forno já pré-aquecido por dez minutos a cento e oitenta graus.
Cozinhar requer muita paciência, meu deus.
Pronto. Agora é só esperar quinze minutos. Caminho até Amin e me disponho a ajudar com os enfeites, mas antes coloco despertador no meu celular para não me esquecer dos cookies.
A canção que soava agora é A Holly Jolly Christmas na voz de Burl Ives, e não é que é gostoso ouvir essas músicas? Enchia meu apartamento com a energia aconchegante da época, todos os cinco gatos de Amin estão aqui. Ele os trouxe para cá, já que estão carentes demais pelos dias que ficaram sozinhos devido à viagem que fizemos. Anne – imensamente grande pela gestação – está quietinha no meu sofá enquanto Davy lhe faz companhia muito atarefado em lamber suas patinhas.
Luzes amarelas do pisca-pisca fazem minha visão ficar afetada, Amin está em uma escada, lá no alto, pendurando ramos enfeitados na vidraça do meu apê, enquanto tenho a visão fofa aqui debaixo segurando a escada para ele não cair. É que ele está muito fofinho hoje, usando jardineira jeans, uma blusa listrada de cor preto e branca, bolsinha vermelha do lado onde se encontra os enfeites para pendurar por aí, tênis branco e o gorrinho vermelho de natal. Esse é o look decorador de Natal e tenho certeza que você não vai se surpreender nenhum pouco quando te contar que estou usando roupas iguais. Pois sim, Amin é apaixonado por sermos um casal usando roupas idênticas.
Ao contrário dele, minha jardineira é um jeans listrado e por baixo uso uma blusa mais grossa de cor bege amarelado. E, é claro, não poderia faltar o gorro.
Nós tiramos várias fotinhas agora pouco em sua Polaroid para pendurar na árvore, somos um casal tão gracinha, nem parece que transamos o tempo todo. Ontem mesmo demos uma pimbada no banheiro do Fox Coffee, parece que transar em banheiros públicos virou um vício. Foi bem depois da apresentação que rendeu vários elogios a nós dois, mas principalmente ao Amin que tem a voz de um anjo.
E para minha felicidade, Amin conheceu toda minha roda de amigos e a boa notícia é que todo mundo está apaixonado por ele. Não julgo, afinal fui o primeiro a me apaixonar. Esse homem no corpinho de um garotinho tem um jeito de encantar as pessoas que é certeiro.
Enquanto ele decora e os cookies assam no forno não consigo acreditar que realmente estou cozinhando. Não que eu não cozinhe, pois, faço minha própria comida. Mas nunca, nunca mesmo sem sair do básico. O que significa que nunca faço doces, bolos e tão pouco cookies. E sim, por Amin vou para cozinha bancar o MasterChef. Hoje ele acordou me pedindo para fazer cookies para ele, e o que não faço pelo meu menino? Não garanto que está bom, mas fiz de coração.
— Está gostando, neném? — Ele pergunta todo sorridente ao descer a escada e parar no último degrau para me dar um beijinho.
Meus dias são tão melhores desde que nos conhecemos. Olha só, meu coração ficando quente só de pensar.
Poxa, caralho de homem fofo, ele parece um bebezinho com essa roupinha, esse gorrinho e os olhos brilhantes inocentes – mas de inocente só parece mesmo.
Olho toda a decoração ao meu redor, tudo que compramos na viagem até Toronto, definitivamente meu apartamento está muito próximo de ficar idêntico ao do Amin. Pronto, tenho minha própria fábrica do polo norte agora. Tem até gatos na minha casa…
— Estou amando, meu bem. — Garanti-lhe, sim, estou gostando, não está exagerado.
Escolhemos as cores branco, amarelo e dourado para ficar diferente, além de amarelo ser nossa cor, é a cor principal da virada de ano também. O problema é o trabalho que vai dar para desfazer todos esses arranjos quando a época dos enfeites passar. Esse pestinha aqui prometeu que vai me ajudar com tudo.
— Jon, vamos dar uma voltinha? Preciso tomar um ar fresco… — Amin comenta, me levando a perceber que havia algo o aborrecendo e, até então, além dos suspiros profundos, não havia qualquer outro sinal para poder perceber.
— Tem algo te incomodando, meu bem? — Na verdade, parando para analisar agora desde Toronto, quando pego Amin sozinho ele está sempre com a expressão pensativa, talvez triste com alguma coisa que se passa na sua mente. — Você sabe que pode me dizer tudo e qualquer coisa, Ami.
— Eu sei sim, Jon. É que… — Ele suspira frustrado novamente e solta os ombros. — Não vou mentir, tem mesmo algo incomodando. — Ele olha para mim e então me encara numa expressão tão séria que realmente me deixa com medo. Ele vai terminar comigo? — Nós precisamos conversar.
É como um baque. Cair da cadeira, ser atropelado, levar um soco de um lutador premiado, etc. Quando seu parceiro fala exatamente essas palavras, só quer dizer uma coisa. Término. Ou a porra só está muito séria mesmo. Sinto como se o ar me faltasse na mesma hora.
— Você vai terminar comigo? — Fazer essa pergunta realmente me custou muito, sério. Nunca senti tanta dor antes.
— Não! — Ele arregala os olhos assustado respondendo imediatamente, então balança as mãos em negação enquanto balança a cabeça negando todo atrapalhado. Ok, entendi, sem términos. — Não vou terminar com você. Quer dizer… É mais fácil você terminar comigo.
Ok… Ele não vai terminar comigo, no entanto, ainda estou morrendo de insegurança.
— Olha, para terminar contigo, tem que ser bem sério mesmo, tipo impossível de se perdoar. — O engraçado é que não há nada para terminar exatamente, já que não determinamos nenhum tipo de relacionamento, nós só estamos saindo. Ou, ficando, como condiz o linguajar jovial da nossa era atual. — Só fica tranquilo, ok, pacotinho? Se precisamos conversar, então vamos. Se entendi, você quer fazer isso fora de casa, certo?
Ele apenas assentiu ainda inseguro.
— Só me diz um lugar que queira ir e nós vamos.
— Kitsilano Beach[1]. — Ele responde de imediato.
A praia que ele deseja não fica longe dos arredores do centro de Vancouver – que é onde moramos. Fica no máximo vinte minutos daqui e agora que meu carro já voltou do conserto – se vocês não lembram minha primeira viagem com o Amin ocorreu um infeliz pequeno acidente – certamente vai ser rapidinho.
— Vou só tirar os cookies do forno, meu bem e então partiremos. — Aviso e Amin estica os lábios, aliviado eu aceitar e já concordando.
Assim vou até o forno enquanto Amin resgata Diana de cima da geladeira. Ela estava miando sem parar lá de cima. Até parece que essa bandida não consegue pular dali numa boa. Se subiu consegue descer, ué.
Afinal, gato sempre cai em pé, não é?
Mas também não quero que a fedelha se machuque. Deus livre.
Como a temperatura está baixando consideravelmente esses dias, resolvemos fazer um programinha a dois – o que basicamente se resume em passar o dia todinho grudados –, porém o mais especial é de noite, já que Amin dormiria aqui. Vamos acender a lareira, abrir um vinho e ler uns livros.
Também convidamos nossos amigos para a véspera de Natal amanhã, aqui na minha casa. Não preciso nem falar que o Amin que inventou isso. Não achei ruim, pelo contrário, vai ser ótimo ficar próximo às pessoas que amo nessa data tão família. Afinal, somos uma família e Amin faz parte dela agora. Até mesmo deixei ele convidar seu amigo de Toronto – cujo o ajudou na época que ele levou seu ex-marido ao julgamento e tudo mais.
Após comermos alguns cookies com leite – que para minha decepção ficaram um pouco duros e secos – nós nos agasalhamos adequadamente para sair. Não ficou tão ruim, com mais prática ficarão perfeitos, estou começando a achar que consigo cozinhar qualquer coisa, vendo os vídeos do YouTube. Enfim, voltando… Amin fez marmitas para nós dois, assim não precisávamos parar para comer na rua, visto que já era a hora do almoço quando saímos de casa. Guardamos tudo em uma bolsa térmica para manter quentinho.
Assim que entramos em meu carro, ligo o som já conectando ao bluetooth do meu celular para ouvir a playlist da Twyla Willow que meu vizinho fez exclusivamente para mim na minha conta do Spotify. E isso parece fazer ele relaxar, pois, os vinte minutos seguintes nós cantamos as canções dela em um verdadeiro espírito de viagem.
Engraçado como fui obrigado a me tornar fã dela. E deu certo. Já ouvi todos os álbuns! E amei todos!!!
Mas certamente o melhor é ver ele assim, feliz. Cantando com todo seu coração, usando a garrafinha de água como seu usual microfone, me fazendo sair de casa, decorar minha casa, amar gatinhos, fazer sexo em banheiros públicos, me obrigando a ouvir músicas da cantora que ele gosta…
Vivendo a vida com ele. Do nosso jeitinho!
Mesmo que deixar as janelas do carro aberto significa aceitar o vento gélido do inverno sobre nós e tremer de frio. Mas é gostoso, pois sei que Amin faz isso para se sentir vivo e funciona.
O simples beijar da natureza nas minhas bochechas nuas me faz não me arrepender nenhum segundo de ter aceitado a maluquice de seguir sua lista para me tirar do bloqueio criativo. Pelo contrário, só consigo agradecer mentalmente por não ter sido burro o suficiente para negar.
Com Amin, estava vivendo os melhores dias da minha existência. Amá-lo é amarelo, mas às vezes fica azul, vermelho, laranja, roxo, rosa… E quando olho para ele e seu olhar encontra o meu, tenho a certeza absoluta de que isso aqui não é nem metade do que ainda viveremos juntos. E seu sorriso confirma tudo. E o melhor é que não é só sua boca que sorri mostrando-me seu lindo dentinho tortinho, não. Seus olhos também sorriem para mim, graças ao fato de suas bochechas serem tão gorduchas que transformam seus olhos em míseros risquinhos quando sorri. E eu o amo, adoro sentir que ele também me ama.
Assim nossa curta viagem é super tranquila, chegamos até antes do esperado graças ao trânsito livre. Após estacionar o carro rente ao calçadão avisto uma cafeteria charmosa, não tem como vir até a Kitsilano Beach e não tomar um cafezinho, esse tipo de bebida é bem atraente por aqui, principalmente durante o inverno.
Por isso quando proponho e ele aceita, vamos juntos até a loja. Amin pede chocolate quente e escolho café puro. A atendente de cabelo curtinho tingido de roxo nos acha fofo por causa do gorrinho de natal e tudo mais. E nós ficamos risonhos por causa disso. Isso porque ela não viu a roupa de baixo – as jardineiras e tudo mais, como estamos extremamente agasalhados, não dá para ver.
E o Ami está usando seu casaco grande amarelo, aquele por qual me apaixonei por ele à primeira vista. Insira o emoji de carinha apaixonada aqui, por favor.
Ah, e aqui um coraçãozinho amarelo, só para me deixar feliz.
Próximo do mar é ainda mais frio, então estamos usando luvas e cachecóis também. O café foi uma ótima ideia para nos manter aquecidos com a bebida quente.
Segurando nossos copos de papel, damos as mãos para caminhar até a praia. Felizmente haviam pouquíssimas pessoas ali, então podíamos transitar mais livremente.
Apreciando nossas bebidas, caminhamos silenciosamente até um ponto que achamos ideal. Amin havia trago uma manta, que foi estendida sobre a areia para então nos sentar. Ele se encaixa entre as minhas pernas e fica ali, envolvido feito um bebê quando tudo que conseguimos olhar é o mar e sua imensidão. A beleza tão azul, o vento tão frio e gelado. A pureza de respirar um ar tão puro e sentir-se vivo. Até ouço meu coração pulsando. Amin fecha os olhos e finalmente sua expressão facial relaxa como se ele realmente precisasse disso.
O oceano certamente foi uma das melhores criações de Deus ou sei lá quem que criou de fato o universo – se é que foi alguém. Eu realmente não sei, só consigo me sentir grato de ser privilegiado de estar aqui, o contemplando.
Alguns minutos se passaram, terminamos nosso café e então deixamos os copos vazios ao nosso lado para posteriormente jogar no lixo. Amin muda de lugar, sentando-se ao meu lado e passa um braço por baixo do meu, unindo nossas mãos. E com uma respiração funda, começa a falar:
— Jonah, talvez isso te chateie bastante. Mas tomei uma decisão e queria deixar claro a minha intenção. Sei que você não pode decidir ou ir contra isso, a questão é que sou uma pessoa sincera com quem é importante para mim, por isso quero sua opinião, embora provavelmente, não vá mudar a minha decisão. — E não nos olhamos enquanto ele fala, apenas encaramos o mar. — Não sei o que acontece, mas eu sempre sonho com o Lennon. Não se preocupe, não é nenhum sonho que envolva sentimentos senão os que realmente ficaram após tudo o que aconteceu. A pendência, o fato de que é nítido que meu coração não o perdoou, sim, eu sinto muito ódio por ele. Um rancor que me atormenta aonde quer que eu vá. E é estranho ter esses sentimentos dentro de mim, não é algo que me faça feliz, entende? É algo que importuna a minha alma e fico carregando isso como uma culpa. Saber que o Lennon vai morrer, fez essa culpa ficar mais pesada. A culpa só diz respeito a mim, aquela história de ter me permitido e submetido a sofrer o que ele me fazia. A culpa de não ter conseguido provar que ele é um monstro. O fardo de que ele poderia machucar mais pessoas. Portanto, veja bem, não serei capaz de o perdoar tão cedo, entretanto iria contra meu ser não falar com Lennon antes dele morrer. Não por que desejo paz para ele, também prefiro não desejar nada de ruim, e sim por que desejo paz para mim. Desejo me libertar. Anseio imensamente me perdoar de forma definitiva e me sentir menos culpado pelo que me causei.
E ali estão as lágrimas que ele tanto luta para esconder, quando Amin treme, aperto sua mão com mais firmeza. Ele funga e sua respiração oscila e fica inquieto tentando enxugar as lágrimas com a mão livre, como se não quisesse estar chorando.
— Deixe-as caírem. — Peço baixinho, segurando a mão que tentava secá-las. E não digo mais nada ainda, pois é o momento dele.
Amin me olha e concorda brevemente, logo volta sua atenção às ondas que quebram a nossa frente.
— Quando eu estou contigo, quando me sinto em paz e feliz pelos nossos momentos tão sinceros, só consigo pensar o quanto não quero mais lembrar do que me aconteceu e seguir em frente.
Ele para de falar só para respirar fundo já que sua respiração ficou descompassada pelo choro, nós entrelaçamos nossos dedos mais fortemente nesse meio tempo e não consigo desviar meus olhos do seu rosto. Sinto lágrimas penduradas ali, tornando minha visão turva.
Continuo em silêncio.
— Percebi que a minha liberdade é uma luta diária, é acordar após um sonho estranho com o Lennon, cujo é apenas meu subconsciente me lembrando das pendências que tento ignorar, e perceber que eu ainda não estou livre completamente. Mas um dia serei, sei que sim. Sei que minhas lutas diárias são importantes. E você está sempre comigo, me dando esperança e me mostrando o quanto posso ser amado verdadeira e intensamente. Sobre o Lennon, não se trata mais dele, e sim exclusivamente de mim. — Ele fecha os olhos e lágrimas escorrem e seguidamente os abre novamente devagarinho, encarando o oceano que simbolicamente parece ter um propósito para ele: subir mais um degrau da superação. Ele estava deixando o oceano levar a sua dor. — Não posso deixá-lo morrer sem antes falar uma última vez tudo o que preciso. Não posso perdoá-lo. Sobretudo, também não sou um ser humano horrível como ele. — E ele olha para mim. — Pode ser difícil, mas você entende, Jonah, como me sinto? É realmente confuso, eu sei…
E ele julgou que eu terminaria com ele por causa disso? Oh, Amin! Você realmente não me conhece totalmente ainda. Ainda. Como resposta, só o envolvo em meus braços e o aperto com todo meu amor.
Quem eu seria se não fosse capaz de entender a sua dor?
E até poderia não entender e nesse caso o respeitaria e apoiaria em qualquer decisão, mas realmente entendia cada lágrima que ele derramou agora. Compreendo cada palavrinha dita. E sinto a sua dor, como se a própria fosse minha. Realmente, não sei o que faria em seu lugar, mas admiro Amin pelas suas atitudes diante dessa situação.
Mesmo após Lennon lhe causar tanta dor, Amin ainda assim, se mantém sendo no mínimo humano com ele, mesmo que ele definitivamente não mereça. E sei lá, sinto muito ódio desses cara e se realmente pudesse, mandava matar, no entanto, admiro a pureza de Amin. Ele não precisa se matar de ódio por esse homem, não precisa ficar preocupado que ele seja punido pelo que fez ou não. Tudo que Amin precisa é seguir em frente e confiar que tudo que colhemos, pagamos.
São dias escuros que passaram, são dias mais claros que surgem no horizonte. O que passou ficou para trás e só nos restam as cicatrizes – sendo que algumas são eternas.
E ele chora um pouquinho no meu abraço, principalmente quando percebe o significado positivo dele. Amin está diariamente seguindo em frente e me orgulho muito dele estar conseguindo. Isso agora é uma prova nítida disso e me sinto muito aliviado por estar ao seu lado para o apoiar e ajudar a seguir em frente.
Ele realmente estava pensando que o julgaria mal, que terminaria nosso lance só por que ele decidiu ligar para o Lennon.
Por isso, quando afasto o abraço é para pegar meu celular, desbloquear e abrir o aplicativo de ligação.
— Por favor, ligue para ele. E se quiser privacidade, te dou. Se quiser que eu fique, então vou ficar, Ami. Nunca mais pense que te julgarei mal, que tipo de ser humano seria se terminasse com você por causa disso? Quando falo que quero você, aceito suas dores e tristezas. Ficar contigo, significa estar com você nos piores momentos também. Não quero só as coisas boas que você pode me oferecer, quero as ruins também, pois isso é ser verdadeiro. E sobretudo, quero te ajudar a superar isso, juntos. — Toco seu rosto com carinho segurando-o cuidadosamente pelo maxilar, fazendo ele olhar em meus olhos. — Uma vez que tenha me convidado a fazer parte da sua vida, Amin, significa que eu quero viver ela com você. E isso inclui tomar as suas dores para mim e as converter em amor, para que assim só lhe reste felicidade. Por que eu… Eu quero que você seja muito feliz. Quero que todos os dias acorde e perceba que finalmente uma pessoa te ama exatamente como você é, sem tirar nem pôr. Quero que a minha ajuda e existência seja para você um lembrete diário de que o que restou é apenas uma cicatriz, mas que você foi capaz de superar e é um guerreiro incrível para caramba. É forte para um caralho!
E embora estivesse frio, ainda assim, o dia possuía feixes de cores amarelas. Enquanto nós dois chorávamos um para o outro diante do oceano.
Eu chorei.
Ele chorou.
E o mar levou.
— Obrigado, Jonah. Meu deus, você é tudo o que sempre desejei. Eu estou realmente apaixonado por você. — Ele diz quando vem para mim e me beija suavemente, somente selares fofos, demorados e molhados. — Por favor, não desista de mim. Não me deixe sozinho. Se você realmente sentir que me ama, pois, acaso venha a não sentir, você precisa ir e eu vou entender. Só seja sempre sincero como você já é. Continue sendo o meu TUDO.
— Shhh, eu entendi seu ponto. E não fala essas coisas. O que sinto é verdadeiro. Lembra do que eu disse à primeira vez que fizemos amor? Eu te amarei cada dia mais. — O lembro, sentindo um calorzinho dentro de mim assim que a memória me vem à mente.
— Então, converter a dor em amor. Esse é o nosso lema? — Ele pergunta com seus olhinhos que se resumem a risquinhos por causa do seu sorrisão lindo.
Lindo. Lindo. Lindo.
E sorrio, rindo baixinho.
— Esse é o nosso lema de cor amarelo, de preferência. — Sorrio dando-lhe selares. — Ser feliz acima de tudo, juntos. Enfrentar tudinho nessa vida, juntos. Nada pode nos destruir, pois estamos juntos.
— Juntos. — Ele diz, como se fosse a nossa palavra.
— Juntos. — Eu repito.
Acho que encontramos o nosso ok.
Amin sorri e ri, dando-me mais selares, é isso que eu quero, ele se sentindo bem. Mesmo quando, nitidamente ele ainda trava uma luta dentro de si. Pois, é só assim que conseguiremos seguir em frente, enfrentando nossas batalhas com sorrisos.
— Sua opinião é muito importante para mim, seu apoio então, tudo que preciso. Você me ensina a ser mais forte, Jonah. E tudo isso me faz perceber que estou com o homem certo.
Tem noção o que é ouvir isso saindo da boca dele? Que tem certeza que está com o cara certo e esse carinha sou euzinho aqui.
Jonah Ambrose, estou realmente surpreso contigo, moleque. Que evolução!
Semanas atrás eu era o tiozão solitário que não queria me envolver com ninguém por medo e agora estou aqui pensando quando finalmente vou estar casado com Amin, com três filhos, dez gatos, um cachorro, nossas músicas, livros e uma casa beira-praia.
— Eu sei, está na cara que eu sou o amor da sua existência. — Brinco só para ele rir, mas é sério, sou amor da existência dele assim como ele é da minha. — Não é nem amor da sua vida, pois acredito que até além da morte nós somos destinados. Está vendo, sou bem romântico sim.
E ele ri, caramba e esse barulho faz meu coração disparar. Ele jogando a cabeça para trás de tanto rir. E eu amo tanto, meu deus. Menino lindo.
— Seu bobo. Mas está coberto de razão. — Amin concorda, então respira fundo, encara meu celular na sua mão e logo digita os números para realizar a ligação. Ele deixa no viva-voz e segura minha mão com a sua livre, claramente mostrando-me que quer que eu participe desse momento.
Quatro chamadas depois, ele finalmente atende.
— Alô? — A voz de Lennon surge, rouca, fraca…
Amin respira e segura o ar em seus pulmões, inicialmente ele trava e suponho que o cara do outro lado da linha percebe. Sim, Lennon percebe quem é. Não sei nem como. Vejo o contador de minutos e segundos da ligação correndo, ninguém diz nada. Até que Amin respira fundo e toma coragem.
— É o Amin. — Ele finalmente consegue dizer depois de dois minutos. Mais silêncio, aperto de mão, unção de coragem.
— Oi, Amin. — Lennon diz com a voz arrasada, cheia de pesar. — É tão bom ouvir sua voz. Faz tanto tempo. Que bom que você ligou. Como você está?
Sério que ele vai bancar o preocupado agora? Por que ele tem que ser tão ridículo?
Que ódio desse pau no cú.
Para minha surpresa e alívio, Amin o ignora totalmente. Acho que eu vomitaria se o visse retribuindo de forma calorosa.
— Jonah me falou sobre sua visita e o seu pedido. Só quero que fique claro que infelizmente ainda não sou capaz de te perdoar, Lennon. Sequer consegui me perdoar, quem dirá te dar esse luxo. Não seria nada justo comigo, então nem por fingimento e tão pouco pelo seu estado atual conseguia fazer isso… me trair e me apunhalar dessa forma, acho que já me machuquei o suficiente por você e isso já acabou há muito tempo. Tudo que aconteceu me machucou, quebrou, destruiu e me queimou intensamente. Portanto, sei que sendo inteligente como é, conseguirá entender como me sinto e levará muito tempo para me reconstruir. No entanto, do momento em que te deixei até agora, tenho conhecido o verdadeiro Amin e ele é incapaz de te deixar morrer sem antes te ligar só para dizer que você pode morrer em paz… Não quero que morra sentindo que tem uma pendência comigo, não quero nada seu ligado a mim. Não sei o que te dizer exatamente, mas suponho que essa ligação será o suficiente.
Ele não precisava desejar nada a Lennon, nem que ele morra, sofra ou vá para o inferno – se é que isso existe. A gente sabia que uma força maior iria o punir conforme merecia.
Lennon respira fundo, funga e sua voz falha:
— Me perdoe, Amin. Se você pudesse ver o quanto me arrependo e perceber o quanto te machuquei, me assombra e me consome. Sou merecedor do que estou sofrendo agora, e sinto muito que tudo tenha chegado a esse nível para reconhecer o quanto te machuquei.
Amin chora silenciosamente e o cara também está fungando. Só consigo me sentir grato por ele ter encontrado a sua libertação. Entretanto, realmente não consigo acreditar em Lennon, por mais que me esforce, não acredito que abusadores possam se arrepender. Não acredito que se estivesse em boas condições, ele resistiria a machucar alguém. Porém, não dizia respeito ao que acho.
Tudo que ele fez com Amin foi extremamente consciente, não dá para ignorar ou fingir que nunca aconteceu. Mesmo se ele de fato mudar algum dia.
— Lennon, preciso desligar. Boa sorte com tudo.
Meu futuro namorado e marido é realmente um ser humano incrível.
— Obrigado por me ligar, Amin. Isso é de grande valor. Você é um ser humano lindo. Espero que um dia seja capaz de me perdoar. — E Amin paira o dedo diante do botão vermelho para finalizar a chamada, mas não aperta até ouvir as últimas frases: — Seja feliz. E Jonah, obrigado.
E finalmente Amin aperta o botão, respirando aliviado e encostando-se em mim.
Vá se foder seu filho da puta desgraçado do caralho!!!!!!!!
Só o xingo mentalmente, para não assustar Amin. Como ele sabia que eu estava aqui? Desgraçado. E ainda julga que fiz algum tipo de favor para ele. Não o fiz, o único favor que conseguiria fazer para ele e pelo mundo é o enfiar dentro de uma prisão horrorosa, para ficar preso pelo resto da vida ao lado dos piores detentos do mundo, de preferência. Pois, você sabe o que fazem com os abusadores e estupradores na prisão, não é? Por mim se ele apodrecesse na cadeia seria bem pouco.
Deixando a minha raiva de lado, volto a focar em Amin.
— Você se sente melhor? — Viro o rosto para ver o dele, tocando suas maçãs com cuidado e muito carinho. Seco as suas lágrimas que deslizam por suas lindas bochechas rubras.
E Amin concorda balançando a cabeça.
— Muito. — A resposta verbal vem um bom tempo depois. — Só me deixe apreciar o oceano por mais um momento.
E nada digo, só encosto minha cabeça no topo da sua sobre meu ombro, com meus braços ao seu redor, o aperto e assim aconchegados na nossa bolha de amor, aprecio o oceano com ele. O vento levou uma parte da dor de Amin para longe de nós.
Na volta, nós ouvimos Yellow do Coldplay. Amin deixou sua mãozinha para fora da janela, fazendo ondinhas ao sentir a força do vento entre nós enquanto o mar quebrava-se ao nosso lado da estrada. Nunca ouvi uma música que tanto combinasse com meus sentimentos.
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Nós estamos usando pijamas iguais, Amin é uma caixinha de surpresa e as lojas online uma ameaça constante na sua mão, visto que ele gasta muito dinheiro comprando coisas na internet e sempre conta tudo com um fascínio de como chega rápido, de quantos cupons de descontos conseguiu, minha nossa senhora do gastador de dinheiro.
Mas bem, se isso faz ele feliz e se tem dinheiro sobrando para gastar, que assim seja. Não ouso dizer uma palavra contra isso.
O pijama é bem bonitinho, a blusa de mangas longas é cor de rosa com a carinha de um gatinho impresso e ‘meow’ escrito embaixo. A calça é toda estampada com patinhas de vários tons rosados. E assim nós dois sentamos em um puff gigante de frente a minha lareira acesa, a árvore de Natal está piscando alegremente e os gatinhos estão ao nosso redor. Gilbert brincando com Diana, Anne deitadinha no colo de Amin, Davy e Roy deitados próximos à lareira dão banho de língua um no outro.
E nós, bem… Eu estou lendo o meu livro favorito para meu vizinho – Le Petit Prince – enquanto bebemos vinho e comemos cookies. Uma combinação bem nada a ver, mas muito a nossa cara. E vai gostar de um vinho igual esse homem, minha nossa. Parece até alguém que conheço, vulgo Yohan Willis, ele é todo apaixonado por vinho, tanto que sabe falar do assunto com propriedade.
— Que quer dizer “cativar”? — Perguntou o principezinho, cujo Amin lia sentado entre minhas pernas, deixei o livro à sua frente ao alcance de nossos olhos, assim nós dois podíamos ler.
— É algo quase sempre esquecido. — Disse a raposa, que é claramente feita por mim. — Significa “criar laços”…
— Criar laços?
— Exatamente! — Confirmou a raposa. — Tu não és nada para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos. E não tenho necessidade de ti. E tu também não tens necessidade de mim. Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim único no mundo. Eu serei para ti única no mundo…
— Jonah? — Amin me chamou de repente, todo empolgado, virando-se para ver meu rosto e fazendo Anne acordar em seu colo. — Não é lindo?
E sorrio grande.
— É sim, meu amor.
— Jonah? — Amin me chama novamente, empolgado. Isso me faz colocar o livro de lado, em cima da mesinha de centro onde se encontra o vinho, as taças e um prato cheio de cookies. A pobre Anne é despachada para ele poder se ajoelhar entre minhas pernas e passar os braços ao redor do meu pescoço. Com o sorriso mais lindo do mundo, ele diz: — Você me cativou assim, oh… — E estalou os dedos.
E agora o sorrisão é meu.
— É mesmo, meu bem? Pois, você também me cativou bem rapidinho viu. — Garanto a ele.
Amin da sua risadinha quase infantil, felizinho.
— Portanto, você já sabe, né? “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”. — Meu coração vai explodir, meu deus.
Cativar, algo ou alguém, pode-se dizer ser basicamente um fenômeno. Formar um relacionamento – seja ele amoroso ou de amizade – é por si só uma dádiva. E ao cativar ou ser cativado, é como receber a importante responsabilidade por essa pessoa. Isso significa que amor e amizade não são coisas simples tão pouco banais como muitos encaram, elas requerem responsabilidade.
— Eu assumo a minha responsabilidade, amor. Eternamente, se você quiser.
Mais sorrisos grandes.
— Ficou doidinho, é? É claro que quero sim! Isso foi um pedido de casamento indireto, Ambrose? — Ele diz todo meigo me fazendo rir.
— Hmmm… Ainda não. Quando eu te pedir, quero que seja mais especial que isso. — Informo a ele.
— Mais do que isso? — E estica os braços, indicando nosso atual momento que de fato é deveras especial. — É impossível. Mas posso esperar até mil anos se você quiser.
Jogo minha cabeça para trás, gargalhando.
— É você quem está maluquinho agora, Song. Mil anos? Na, na, não. É muita coisa. — E pego sua mãozinha direita para segurar seu dedinho anelar, sinalizando onde colocaria uma aliança dourada. — Te quero para ontem.
— Jonah! — Ele diz empolgado e apaixonado, lascando-me milhões de beijos e quando a sessão acaba, ele me olha animado. — Já parou para pensar que meia-noite já é véspera de Natal e que nos conhecemos por apenas cerca de três semanas? — Era tão pouco tempo para sentimentos tão intensos. Mas tão real e verdadeiro que nos arranca o fôlego.
— “Foi o tempo que dedicaste à tua rosa que a fez tão importante” — Disse-lhe apaixonado. É a única explicação para o que aconteceu entre nós tão rapidamente.
E pode acreditar, você aí, lendo essa história sabe o quanto nós dois passamos esse tempo juntos. Cada momento foi tão inesquecível que me deixa sensível só de lembrar. Quero reler a nossa história como um livro. Quero contá-la a nossos filhos e netos como a mais linda história de amor que é.
O laço afetivo existente entre o Pequeno Príncipe e a Rosa, e esse laço nos faz concluir com esta frase que o que torna as coisas ou pessoas importantes é o tempo que nós investimos nelas. Quanto mais tempo, mais importante se torna nas nossas vidas.
— “Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde às três eu começarei a ser feliz” — Amin me devolve, quase me levando à loucura com essas declarações.
E a Raposa expressa o carinho que sente pelo Pequeno Príncipe. E novamente a nossa teoria da Lua de Marte vem à minha cabeça, justificando a nossa história.
Eventualmente, é o que acontece entre pessoas que gostam uma da outra, existe esse sentimento de antecipação quando se sabe que vai haver um encontro. Essa ansiedade para o ter em meus braços, essa expectativa de o fazer rir só para ver seu corpo chacoalhar e tombar a cabeça feito uma criança.
“As pessoas são solitárias porque constroem muros ao invés de pontes”, e esse era eu antes de Amin chegar.
Os muros servem para criar uma separação entre dois lugares, enquanto as pontes têm a função oposta, ou seja, são construídas para conectar dois lugares. Assim, quem é solitário se afasta das outras pessoas, construindo muros e não pontes.
E estou tão feliz por não ter mais muros, só pontes que unem o jardim de Amin ao meu.
Só o coração consegue ver corretamente e isso nós aprendemos com a Raposa do Pequeno Príncipe.
“O essencial é invisível aos olhos, e só se pode ver com o coração”, é incrível como nos ensina a ver e dar valor às coisas. Através desta afirmação da Raposa, podemos concluir que o verdadeiro valor de algo ou de alguém não pode ser visto com uma visão superficial.
Ele também nos ensina através da Rosa que o amor deve ser cultivado e cuidado. E que as pessoas têm características humanas, tanto boas como más. E a gente acaba cedendo aos seus caprichos e com isso em nossa memória faz com que queiramos sempre regressar ao nosso lar. E Amin é o meu lar, o que significa que finalmente estou em casa.
— Amorzinho, vamos dormir? Me deu um sono agora, acho que andamos muito hoje. — Amin coçando os olhinhos de sono, ah… Você já sabe que é a coisa mais fofinha do universo.
E de fato, caminhamos muito hoje na praia, aproveitamos bastante já que dirigimos até ali. Depois de volta ao bairro, ainda passamos no supermercado, na volta encontramos um garoto estranho saindo do apartamento da Sra. Sams, ele nos cumprimentou e perguntou se éramos Amin e Jonah, pois sua avó falou de nós – obviamente, visto que ela é nossa maior fã. Conversamos um pouco com o garoto que contou pretender mudar-se para a vizinhança em breve, enquanto sua avó estava de viagem no Natal estava cuidando de Shiro e seu cãozinho fofo, chamado Bear. Acabamos convidando-o para o nosso jantar de véspera de Natal, com dó do menino largado ali sozinho. Ele ficou todo feliz, curvando-se em agradecimento.
— Vamos sim, pacotinho docinho. Vai na frente, já estou a caminho. — Digo o ajudando a se levantar e dando um tapinha fraquinho na sua bundinha.
Amin calçou suas pantufas de gatinho e vai em direção ao banheiro. Me levanto e levo as taças e pratos sujos para a pia, lavando tudo para que os gatos não aprontem de noite – com isso eu quero dizer com o risco óbvio deles ficarem lambendo isso aqui a noite todinha se deixasse boiando na pia. Só estou falando a verdade, gatos aprontam essas coisas.
Após lavar a pouca louça, apago a ladeira e resolvi desligar o pisca-pisca para a conta de luz não vir tão cara. Não que eu seja pão-duro, é só que essas luzinhas gastam uma baita energia.
Diana cruza minhas pernas, o que me surpreende já que ela é brava e antissocial, então eu faço um carinho em sua cabeça, depois ela agarra meu braço com as patinhas e mete as presas em mim. Dou um gritinho e ela sai correndo, Amin diz que as mordidas são um sinal de amor e não sei pelo que estou mais chocado, a mordida de Diana ou o fato de que ela pode claramente me amar. Meu deus. Eu conquistei até a gata mais difícil.
Quando observo a árvore de Natal uma última vez, finalmente reparo nos corações de papel amarelo próximos às fotos polaroides que penduramos na árvore…
Meu coração para, sinto algo quente dentro de mim, como se pudesse brilhar…
Em diversos corações amarelos, Amin escreveu à mão as nossas iniciais.

Em diversos coraçõezinhos de cartolina colorida, tão bonitinho que me faz querer chorar.
Ele é arte.
Ele é amor.
Sigo até o banheiro e escovo os dentes pensativo e ainda com aquela sensação gostosa dentro de mim, quando chego no quarto, vejo Amin passando creme nos pés e depois calçando suas meias que combinam com a cor do pijama. Ele sorri sonolento para mim, apaga a luz do seu abajur ao lado da cama e imediatamente ocupo meu lugar ao seu lado.
Depois que também apago meu abajur nós dois nos encontramos ao encarar o rosto um do outro, deitados de lado. E ele ainda está sorrindo. Ele realmente está indo dormir sorrindo. E de repente, toca meu rosto fazendo carinho em minha bochecha, as unhas curtinhas raspando minha barba rala, a ponta de seus dedos gordinhos deslizam tão suavemente pelas maçãs do meu rosto que dormiria facilmente com seus toques.
— Amin? — Sou eu que o chamo.
— Oi, tchuco. — Há manha na sua voz.
— Eu amei os corações amarelos.
E ele sorriu e escondeu o rosto no meu peito.
Aquelas três palavrinhas… Oh, como eu poderia dizer, tão verdadeiramente e tão facilmente…
Queria ter dito o quanto já o amo.
[1] A praia de Kitsilano é uma das praias mais populares de Vancouver, especialmente nos meses quentes de verão.
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