Capítulo Um
o bloqueio, o vizinho, o cachorro e a lista
Qual é o seu pior pesadelo?
Ansiedade.
Você suspira, levanta e senta. Coça a cabeça e puxa os cabelos. Fecha os olhos e mentaliza qualquer ideia, frase ou parágrafo. Absolutamente qualquer coisa e… Nada.
Estresse.
De alguma forma – talvez vinda diretamente do além – consegue escrever algumas ideias. Com o peito inflado, cheio de energia, um vulcão em erupção para escrever ao menos um capítulo. E touché[1]! Ao abrir o Word[2] as ideias simplesmente evaporam.
Essa tela em branco começa a drenar a sua energia e consequentemente passa a se sentir sufocado. Novamente perde o foco, a ideia, a vontade, tudo… Seus dedos param de se mover.
Desespero.
Essas são tipicamente às três etapas que te levam ao seu pior pesadelo. Estou certo que isso já aconteceu com você. O mais temido e conhecido: bloqueio criativo.
E se te contar que venci mais um bloqueio criativo? Se te disser que o pior bloqueio criativo da minha vida – de todos os séculos e tempos –, me trouxe, na verdade, o meu grande amor. Você iria acreditar?
Que com o inverno e as luzes de Natal o meu coração achou a metade que lhe faltava! E com ele veio todos os meus dias de pura criatividade. Pois, não tem como ser devorado pelo monstro do bloqueio criativo tendo ao seu lado Amin Song.
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Claramente, como toda e qualquer história, se começa a contar pelo começo.
Aqui vamos nós…
Tudo começou em um dia qualquer de dezembro, mais especificamente dia sete, uma sexta-feira onde se previa uma possível nevasca. E é claro que novamente estava encarando aquela tela em branco do meu computador, riscando mais um dia concluído de bloqueio criativo no meu calendário de mesa. A editora me deu o prazo do dia primeiro de dezembro, entretanto esse prazo já venceu, os e-mails e ligações de cobrança começaram a chegar.
Sem falar nos meus fãs que estão sempre pedindo por mais, sorte a minha assinar minhas obras com meu pseudônimo. Agora, vejo que o anonimato foi essencial para proteger minha vida pessoal.
Você vai me encontrar nas livrarias como Hanoj Black. Já publiquei diversos livros, sendo eles infantis e juvenis, mas a minha série favorita sempre foi Reinos de Elysian. É uma história de romance e fantasia em um reino fantástico.
Ah! Essa trama me rendeu três livros. Lembro-me de passar noites em claro teclando sem parar, desmaiava de sono e já acordava escrevendo novamente. É que quando se alcança os picos de criatividade tudo flui tão naturalmente, posso jurar sentir o meu coração disparar enquanto digitava. Bons tempos!
No entanto, já se faziam três meses… Você tem noção o que é três meses sem conseguir escrever? Para um escritor isso é a mais crua definição de decadência. Entrando em desespero, prestes a pular do beiral do penhasco. Estou a um passo de declarar a minha morte e talvez me chamem de dramático, mas se você for um escritor, irá me entender perfeitamente.
Escrever é como uma terapia intensiva para mim. Você sente demais, possui a famosa “mente fértil”, cria até mesmo quando está dormindo. Seus sonhos são histórias a serem contadas, um caleidoscópio de ideias. Seus sentimentos e pensamentos são o poço mais profundo de palavras em concordância. Você narra sua vida em seus pensamentos, escreve sobre o amor, mas não acredita nele.
É, eu sofro.
Você pode pensar que uau, ser escritor é lindo, tão incrível e principalmente tão fácil. Sinto lhe informar que está grandemente enganado, é lindo e incrível sim, mas nem tudo são flores. Também existe o estresse, o prazo, a paciência e mais mil e uma coisas que só quem é escritor poderia entender. Sem falar do retorno financeiro que é mínimo.
Contudo, escrever é o que preciso. É assim que sobrevivo. Não financeiramente, para ser sincero, e sim emocionalmente e psicologicamente. Portanto, se me perguntassem se desistiria de escrever – devido à situação frustrante que me encontro agora –, sem pensar duas vezes diria não.
Primeiro, porque não escrevo só por dinheiro. Segundo e sobretudo o mais importante, escrevo porque meus sentimentos precisam fluir para fora de mim. Muitas das vezes os gestos não são o suficiente, preciso de uma forma mais física. Sendo assim, os transformo em conjuntos de palavras, páginas preenchidas e por fim se tornam livros.
Livros os quais levam uma história para alguém no mundo, capaz de fazer essa pessoa viajar por universos mágicos, viver e sentir o amor, além de inúmeras aventuras e aprendizados. Escrever é tão mágico, me faz sentir que sou o deus do meu próprio mundo. Onde todas as regras são minhas, o respeito é uma troca mútua e todos são livres para amar.
Suspiro profundamente quando abandono a cadeira de presidente da minha escrivaninha e me afundo na minha cama, encarando o teto também branco que me sufoca igualmente ao papel esperando para ser escrito.
Preciso respirar ou isso realmente vai conseguir me matar.
Como todo bom escritor, sei que essa dor é passageira. A paciência lhe é necessária, o tempo pode ser seu inimigo, mas, na verdade, é seu melhor amigo.
Inquieto, novamente me levanto e paro diante da vidraça da sala. Ao lado do meu prédio, vejo o vizinho que se mudou recentemente, já faz uns seis meses, mas ele ainda é novidade para mim. Ele está rindo de um jeito fofo e engraçado, pois seu corpo inclina para trás; conversando com o gatinho gordo e cinza sentado no beiral da sua varanda usando um laço de natal no pescoço, super exagerado.
O vizinho – suponho que seu nome é Chamin Song – como sempre está alegre, arrumando a desordem que o vento causou na sua varanda, bagunçando seus enfeites. Todo santo dia ele faz isso, nunca se cansa de ajeitar tudinho e deixar perfeito. Mesmo que o vento bagunce, lá está o garoto arrumando tudo em seu devido lugar.
Distraí-me tanto assistindo à vida alheia que quando me dei conta o garoto estava olhando-me e acenando todo sorridente como uma criancinha quando vê o Papai Noel. Porra, sério que ele me pegou no pulo? Senti o sangue quente nas minhas bochechas e acenei fraco de volta dando um sorriso inevitavelmente sem graça.
Por fim, me afastei pensando se não tinha como pagar mais mico. Que constrangedor, o que ele vai pensar de mim? Sou o vizinho bisbilhoteiro que fica o observando pela janela. Bastante estranho, não? Não consigo nem imaginar quanta vergonha irei sentir quando me esbarrar com ele na rua.
A TV esquecida ligada na sala informa que a neve está prestes a cair – e eu com ela se isso não passar. Sigo para o banheiro onde lavo o rosto, seguidamente vesti um dos meus casacos pesados de inverno. Passei o bálsamo labial – daqueles com gosto de morango e que os deixa avermelhados. Do meu cabelo já até desisti, deixo ele com sua vida própria, ou seja, bagunçado e emaranhado já que os fios enrolados se enroscam um no outro. Está grande demais – batendo na altura dos meus ombros –, porém gosto dele assim, no desespero é só prender num coque ou rabo e fim de papo. Por fim, peguei a carteira, o celular e fui.
Definitivamente é o visual de um solteiro largado que não quer que ninguém chegue perto. Perfeito!
Sai do meu prédio dando de cara com o ar fresco e frio, as pessoas estão alegres na rua, as crianças estão eufóricas com a chegada do Natal, presentes em sacolas, luzes piscantes e neve – que chegaria hoje mesmo – já anunciada no noticiário matinal.
Isso é tão inspirador.
Vejo tudo como um livro, um conto perfeito com a energia do Natal. As ideias vêm e vão, mas morrem ali… Em projetos anotados em notas mentais. Escrevê-los é de fato uma realidade distante e isso me entristece de um jeito indescritível. É como meu chefe sempre diz: “Quero ver ideias concretizadas, não me faça promessas, me dê a prática”.
Contudo, como um profissional criativo, temos que aprender que forçar a fazer uma coisa que não está fluindo, é uma péssima escolha. Você se prende ainda mais, se machuca e se magoa com uma coisa que não é sua culpa. Não adianta ficar se crucificando, o ponto-chave é viver a fase, cuidar de si mesmo e esperar que a tempestade passe.
Pressão não combina com perfeição. Caramba, Jonah, isso aqui está muito motivacional!
Portanto, esse é o nosso conforto: “Tempestades sempre passam”. Assim como as piores fases de nossa vida. Paciência, de fato, é uma virtude. Às vezes acredito que Deus me presenteou com pouco.
Compro um copo de cappuccino e caminho pelo meu bairro, pessoas sorriem gentil e me cumprimentam, crianças de mãos dadas com seus pais falam em sua voz mais fofa: Feliz Natal, Sr. Ambrose. Deus me livre, mas quem me dera ter uma coisinha fofa dessa com meu sobrenome e correndo pela casa… Ok, agora divaguei legal.
Chego até a praça guiado pelo som do violino, cujo é tocado por um senhor de idade – às vezes, também venho tocar aqui, no entanto, já faz um tempo. É tão gostoso ver as pessoas apreciando sua voz em uma melodia. O velhinho está usando um terno um pouco gasto, sua barba é grande e grisalha, uma mulher de aparentemente mesma idade está do seu lado. E ela olha para ele sorrindo apaixonada. Céus… Isso é tão lindo, meu coração se acende inteiro pelos dois.
Pego um punhado de moedas no bolso frontal do meu jeans preto e então deixo sobre a capa do violino aberto, o senhor me devolve um sorriso genuíno e me afasto bebericando a bebida quente. Acabo me sentando no banco próximo ao músico.
Foi quando vi distraidamente Chamin Song caminhando pela praça todo sorridente, usando suas roupas extravagantes e coloridas. Ele está caminhando com o buldogue da Sra. Sams – que é mais gordo que um porco, por causa disso o cachorrinho cinza mexe a bunda para lá e para cá quando anda fazendo um barulho ofegante custando a respirar.
Já o vi fazer isso antes, levar os bichinhos para passear. Acredito que ele faz isso mais por diversão do que pelo dinheiro. Ele caminha mais alegre e sorridente do que as crianças desse bairro. As velhinhas da vizinhança são fãs dele, já vi Chamin indo na roda de tricô no apartamento do meu lado onde também mora uma senhora. Todas elas o abraçam com tanto carinho e ele tem tanto papo com elas, é impressionante. Acho que ele é o netinho querido de todas elas.
Oh, droga… essa não.
Ele me viu.
E já estou sentindo minha cara queimar.
Chamin Song está definitivamente vindo em minha direção, todo sorridente, pomposo usando suas típicas roupas enormes de inverno. O casaco amarelo-alaranjado não é o número ideal para seu tamanho.
Conforme ele se aproxima reparo na primeira coisa: quando ele sorri, seus olhos desaparecem. Ficam pequeninos, devido às bochechas gorduchas.
— Jonah Ambrose! Eu vi você! — Ele disse alto demais quando estava perto o suficiente.
Olhei para o chão e pensei: “Céus… não posso ser um sem educação”. Principalmente após ficar observando-o pela janela. Por isso, sorri minimamente vendo seu rosto mais próximo.
Song pegou o cachorro gordo no colo – porque o bichano já não estava aguentando acompanhar seus passos – e contive uma risada, minhas bochechas inflaram e meio que cuspi ao tentar não rir do bicho gordo em seus braços. Felizmente coloquei a mão na frente da minha boca a tempo de não esguichar mais do que o suficiente para pagar o maior mico do ano em público.
Sacudi a mão totalmente envergonhado, deixando o pouco líquido ali ser abanado para longe.
Era por causa dos dentinhos para fora, é como se o cachorro estivesse rindo o tempo todo com as presas amostra e os dentes tortinhos. Uma gracinha, porém, a Sra. Sams que me perdoe, mas esse é o cachorro mais feio do mundo.
Chamin fechou a cara assim que me viu tentando não rir do animalzinho e puxou-o mais para si, tentando protegê-lo.
— Que feio, Jonah! Você está mesmo rindo do Shiro? Cruz credo, que bullying.
— Eu? — Arregalo os olhos, mas a tonalidade das minhas bochechas me entregam. Estou definitivamente envergonhado por isso, não queria zombar do pobre bichano, juro! — Não estava… E-eu… — Chamin faz um bico enorme, unindo as sobrancelhas numa expressão brava que dizia: “Não se faça de tonto, Jonah”, balanço a cabeça negando meus pensamentos e por fim concordo. — Está bem, me desculpa, mas ele é tão engraçado.
— Isso não tem graça! Ele é uma fofura! — Chamin apertou o bicho que ressonou baixo, agradado com o afeto. — Além de bullying com os animais, também fica espiando os outros pela janela, não é mesmo, Sr. Ambrose?
Se eu estava vermelho? De imediato, assim que meu cérebro processou a frase. Vocês não têm noção da cor da minha pele agora.
Engoli seco baixando a cabeça morrendo de vergonha.
— N-não estava te espionando, céus… — Falo baixo olhando de um lado para o outro, tentando perceber se alguém estava ouvindo essa conversa constrangedora.
— Estava sim! Fala a verdade! — Chamin bateu o pé no chão, contraponto e principalmente me olhando com um olhar desafiador.
Contrariar Song não parecia ser um bom caminho para percorrer, mas isso estava sendo engraçado, confesso, ele é tão fofo que dói.
— Já disse que não estava. — Minha expressão era neutra. Não faço isso, ele está louco.
— Você faz isso sempre. — Ele ergueu uma sobrancelha se aproximando gradualmente.
— Realmente não o faço. — A essa altura já estava de pé.
— Faz sim, senhor! — Outra batida de pé no chão e algumas pessoas olharam para nós dois.
— Ok! Tudo bem, você venceu! — Sorrio de lado ainda extremamente envergonhado. — Não tenho culpa se a minha vidraça está praticamente de frente para sua varanda. Você estava ali e apenas te reparei… Eu sei, é um defeito meu. Como escritor, às vezes me perco reparado os detalhes do mundo para depois transformar em palavras. — Chamin gostou da resposta, ele abriu um sorrisinho sugestivo que realmente não sei o que significa, sua mente parecia divagar a mil por hora. — Me desculpa, sério, me desculpa por invadir sua privacidade. Isso não vai se repetir.
— Você não me pediu permissão para escrever sobre mim. — Ele acariciou a cabeça do cãozinho erguendo apenas uma sobrancelha para mim. Pelo menos não está mais com cara de bravo. — Se queria uma musa para te inspirar era só falar, Sr. Ambrose.
Abri a boca umas duas vezes sem saber o que falar, droga de bochechas coradas. Por que ele está fazendo isso comigo? Ele realmente está falando sério?
— Eu não… Sr. Song você entendeu errado, eu… — Fui interrompido pela risada alta de Chamin que explodiu no meio da praça pública e fiquei com a maior cara de bocó vendo o pacotinho de inverno se inclinar para trás no seu jeitinho único de rir. — O que foi? Por que está rindo? Chamin, as pessoas estão olhando. — Sussurro a última frase olhando tudo com cautela, estávamos chamando atenção.
— Só estava brincando! Você deveria ter visto a sua cara. — Chamin ainda ria, mas de repente ele parou e me olhou sério. — Espera, você me chamou como?
Tremi.
— Ué, Chamin, não é o seu nome? Chamin Song? — Droga. Por que sinto que não é o seu nome?
— Não creio. É meu vizinho há seis meses e não sabe nem mesmo o meu nome correto? É Amin Song! A-MIN!
Ele parecia realmente magoado, novamente aqui estou queimando de tanta vergonha.
— Desculpa, é que… não saio de casa e nunca nos falamos antes. — Tento me desculpar novamente com ele, mas Amin ainda parece magoado, isso é tão errado. Sua expressão me sensibiliza de um jeito, é como a de uma criança que não ganhou o presente que pediu. Solto meus ombros em um suspiro profundo. — Vamos recomeçar e fazer do jeito certo.
Aproximo-me estendendo a minha mão, Amin pensa um pouco antes de finalmente tirar sua mãozinha de dentro da luva de lã e, agora com ela nua, a levou até a minha palma grande.
Trocamos um aperto olhando nos olhos um do outro. É engraçado como sua mão é tão menor do que a minha, os dedos são curtinhos e gordinhos. Sua palma estava tão quentinha, a minha também. Todos esses detalhes me senti em um daqueles livros de romance e isso me assustou.
Quando o cumprimento terminou, timidamente afastamos as mãos. E foi quando ele encarou a palma dele rapidamente com os olhinhos dourados arregalados. E juro que tentei não pensar que era porque seu coração disparou como o meu.
— É um prazer conhecê-lo, sou Jonah Ambrose.
— Amin Song, acabo de me mudar de volta para Vancouver, após passar uma temporada em Toronto. — Seu sorrisinho tímido completamente encantador se abriu e me senti um bobão. — Bom, já que estamos aqui, você poderia me acompanhar no caminho de volta para casa?
— É claro que sim, seria uma honra. — Cruzo o braço enquanto ele devolvia Shiro para o chão e o segurava pela coleira. Amin olha para a posição do meu braço e ri alto enquanto cruza o seu ao meu. — O que foi agora? Não sabia que eu era tão engraçado.
— Não precisava ser tão antiquado. Não estamos nos livros da Jane Austen. Mas eu gostei. É romântico. — Ao falar isso, imediatamente suas bochechas assumiram o tom rosado e ele baixou os olhos envergonhado. Ora, ora, o jogo virou. — Desculpe, não estou confundindo as coisas, juro.
— Eu não falei isso. — Olhei para frente enquanto caminhávamos e Amin ficou calado por alguns míseros segundos. — Você-
— Você- — Interrompemos um ao outro e nos olhamos rindo baixo, gesticulo para ele continuar. — Você é engraçado, Jonah. Ah, desculpa, só estava respondendo. — Assenti brevemente, ignorando o desconforto não tão desconfortante entre nós.
— E você é o primeiro a falar isso de mim. — Rio baixo, sou tudo menos engraçado, Amin está enganado. — Bom, ia te perguntar se você está gostando do bairro, de Vancouver e tudo mais.
Moonbow[3] é um bairro cheio de parques e muita natureza, além de ser acessível em quesito de mercado e escola. É perfeito para viver em família. Quem não gostaria de morar perto de tantas árvores, afinal?
— Sim, sim, é tão acolhedor. Sinto-me em casa, exatamente como me sentia quando fui embora. Gosto daqui. Gosto do bairro calmo e do meu apartamento. — Amin sorriu grandemente, o que só provava estar sendo sincero. Ele se agarrou mais ao meu braço quando subiu no meio-fio para andar sobre ele assim como as crianças fazem e o ajudei a manter o equilíbrio. — Não vai perguntar por que fui embora?
Ergui uma sobrancelha, não me ocorreu em nenhum momento fazer essa pergunta. Todavia, percebi ser um caminho perigoso.
— Você quer que eu pergunte?
Amin suspirou e então deu mais alguns passos e parou diante do seu prédio, sobre o meio-fio, com Shiro ofegante, me olhou e fez um beicinho.
— Sinceramente, não. — Riu para quebrar qualquer tipo de clima ruim.
Enfiei a mão livre dentro do meu sobretudo e dei de ombros.
— Tudo bem. — Soei compreensível, não sou curioso e isso não é da minha conta. Se Song não quer falar só me prova que não tenho que tentar xeretar isso. — Acho que vou-
— Você parecia aborrecido. — Ele me interrompeu justamente na hora que estava pronto para voltar para casa, ou melhor dizendo: o martírio do tédio derivado do bloqueio criativo que se alocava em meu apartamento.
— O quê?
— Aborrecido. Você não parecia feliz. — E aponta para o meu prédio. — Hoje. De manhã. Na janela. — Song alternava o peso de seu corpo de uma perna para outra, meio inquieto. E ele encarava meu rosto de uma forma intensa, provavelmente estava analisando minha linguagem corporal.
— Oh, sim. Você percebeu. — Minha expressão era de surpresa, pois realmente é inesperado que se repare isso. — Sou escritor, você sabe e… estou passando por um bloqueio criativo horrível. — Suspiro, nunca havia falado sobre isso com alguém e finalmente desabafar parecia um pouco libertador. Como se vinte por cento de desespero soltasse das minhas costas. — Tinha um prazo com minha editora e falhei. Não consigo escrever uma única palavra. É um tanto frustrante.
— Imagino que seja. Te entendo e- — Ele se interrompeu e um sorriso enorme se abriu em seu rosto. Repentinamente ele deu um gritinho em conjunto a um pulinho e uni as sobrancelhas sem compreender, parecia que uma lâmpada havia se acendido no topo da sua cabeça. — Sr. Ambrose, posso te ajudar com isso! Tive uma ideia simplesmente genial para te ajudar a se livrar do bloqueio! — Exalou pura animação.
— Teve? — Soei duvidoso, estava mesmo era receoso sobre que ideia seria essa a qual ele pensou. — Estou aberto a sugestões, diga.
Pensativo, o rapaz voltou a andar sobre o meio-fio à minha frente, mas dessa vez era limitado. Três passos para a direita e volta três na direção da esquerda. Seus neurônios estavam a mil.
— Uma lista. — Ele disse.
— Certo. — Assenti lentamente e repeti: — Uma lista.
— Isso! Um escritor precisa viver novas aventuras o tempo todo! Um escritor precisa de inspiração! Precisa de amor e emoção! — Ele falava aquilo com tanta paixão, unindo as mãos e olhando para o céu, como se pregasse uma verdade absoluta – e de fato, ele está certo. — E estamos na época do ano mais extraordinária. É natal, Jonah! Tudo exala inspiração! Não se preocupe mais, vou te ajudar. Com essa lista nós vamos acabar com esse seu bloqueio e logo mais você terá um livro novinho para seus fãs. — Ele sorria para mim como se tivesse achado o mapa do tesouro e suponho que isso estava me fazendo cogitar um sim, o fato dele estar tão animado para me ajudar. — Você não sabe, mas adoro organização, amo fazer listas. Quando estou entediado, faço uma lista. Qualquer tipo. Lista de compras. Playlist de músicas, da Twy é claro. Meu hobby é fazer listas e pode confiar que vou caprichar na sua e…
Ele não me perguntou hora alguma se eu topava e enquanto tagarelava alegremente, encarei o seu rosto detalhando-o na minha mente, talvez não tenha ouvido tudo o que ele disse.
Não quando seus olhinhos miúdos de cor dourada brilhavam feito raios de sol tocando uma gotinha de chuva. Ou o quanto suas bochechas gorduchas são charmosas e constantemente rubras. E os lábios? São perfeitamente cheinhos e naturalmente avermelhados. Quando ele fala um biquinho meigo se forma entre as palavras, tão fofinho.
Seu cabelo possui um tom loiro-escuro, mas ele pinta uma mecha ou outra de azul e não tem uma definição, não é nem extremamente liso e nem ondulado. É bagunçado, por isso o resultado é uma gracinha que só. E a altura dele? É ridiculamente fofa perto de mim. Ele precisa olhar um pouco para cima e eu para baixo. Se tenho um metro e setenta e nove, Amin tem um e sessenta no máximo.
E o melhor é que seu tamanhinho sustentava um corpinho cheinho. Diferente de mim ele não é magrelo. Amin tem um corpo mais curvilíneo e vantajoso, não posso garantir com certeza já que existem camadas de roupas nos mantendo aquecidos agora.
Resumidamente, ele é uma criança fofa em um corpo de um homem adulto.
Meus devaneios são dispersados quando ele abana as mãos diante do meu rosto percebendo que eu estava meio desconectado.
— Hello? Ainda está aí, Jonah?
— Ah, sim, sim, estou. Para mim, parece perfeito.
Ele fica rindo, exibindo seu dentinho torto frontal para mim. Mais uma vez me pego envergonhado com seus detalhes apaixonantes.
— Já que estamos de acordo, mais tarde passo na sua casa, pode ser? E aí, a gente começa a seguir a lista. — E morde os lábios cheinhos de forma ansiosa e o tempo todo olhando para mim. — Combinado, Jonie?
— Aham, sim, claro! Estamos combinados. E sinceramente, muito obrigado por estar me ajudando. Espero que dê certo. — Falo sinceramente.
— Claro que vai dar, seu bobo. Vai ser muito divertido. Espero que não esteja ocupado nesse Natal, pois eu não estou. — Ele disse pegando o cachorro da Sra. Sams no colo.
— É… eu não estarei. — Garanti.
Meus Natais se resumiam a teclado, dedos trabalhando e ideias fluindo para meu computador. Geralmente, devido aos feriados de fim de ano, pequenos livros de contos nasciam por minhas mãos, nem todos eram publicados fisicamente, os colocava por conta própria para serem vendidos como e-book na Amazon. Sendo assim, não faria mal fazer companhia ao meu vizinho.
Afinal, é ótimo fazer novos amigos, não é? Amin parece ser tão legal, não deve ser ruim o ter por perto.
— Ótimo! Perfeito! Nós vemos ainda hoje, Sr. Jonah. — E ele simplesmente saiu correndo todo animado em direção ao seu prédio.
Fiquei ali parado ainda segurando meu copo de capuccino pela metade, agora frio.
O que aconteceu? Definitivamente, não faço ideia. Mas posso tirar a conclusão que meu vizinho Chamin Song – quer dizer, Amin – é simplesmente adorável.
Mesmo assim, não pude deixar de temer. Que diabos ele iria escrever naquela lista? Bom, como ele mesmo me disse, descobriria ainda hoje.
Caminho de volta para meu prédio e assim que chego no meu apartamento, olho pela vidraça e nem sinal dele lá na varanda. Deve estar ocupado demais fazendo a minha lista de anti bloqueio criativo. Só então me dei conta de que ele tinha toda a razão, realmente ficava olhando demais para a varanda de seu apartamento, implicitamente na tentativa de vê-lo.
Droga, Jonah. O maníaco da janela. Deveria escrever um suspense com esse nome. Baseado em fatos reais. Com a visão do falso protagonista que para piorar, sou eu. Ah, francamente… Como pude?
Pedi o almoço, coloquei a roupa suja para lavar, aumentei os graus do aquecedor e depois voltei para meu computador para anotar umas ideias em um bloco de notas. Pois, funciono assim, quando passo por um bloqueio tenho um monte de ideias novas as quais não consigo escrever nem com reza.
Era de tarde quando a campainha raramente tocável do meu apartamento soou pelo ambiente vazio.
Ele realmente veio.
Meu coração disparou e caminhei ansioso até a porta. Pelo olho mágico vi Amin Song, com um sorriso enorme no rosto e uma lista de papel em mãos.
[1] Touché na esgrima é usado como um reconhecimento de um golpe, dito pelo esgrimista golpeado.
[2] O Microsoft Word é um processador de texto produzido pela Microsoft Office.
[3] Moonbow: bairro fictício, criado apenas para ser cenário da trama.
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