Capítulo Três

sexo, viagem, a casa dos trinta e o muro

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A bunda de Amin balançando para lá e para cá, em meus sonhos, estava de volta ao apartamento do meu vizinho fissurado por gatos, Twyla Willow e enfeites de Natal. Sentado no sofá vendo-o mexendo aquela bundinha perfeita – e que bunda! Como não havia reparado antes? Quando ele anda com toda aquela carne farta chacoalhando para lá e para cá, um convite discreto para… você sabe.

Não sou de ferro, realmente estou imaginando meu pau entre suas nádegas e Amin gemendo meu nome enquanto ouvimos uma música da sua diva.

Em meu sonho pecaminoso, Amin sorri para mim – um sorriso bastante sugestivo e safado – e de repente, puft… Ele está usando uma fantasia de gato com detalhes natalinos. Está vindo na minha direção, caminhando ligeiramente de quatro no chão – como um bom gatinho faz para seu dono.

Puta que pariu.

Ele vem, manso, miando e coloca às duas mãos sobre minhas coxas. “Sr. Ambrose”, ele diz com a voz embargada por luxúria…

E acordo em um sobressalto ouvindo alguém esmurrar a porta do meu apartamento. Ao mesmo tempo, meu celular vibra sem parar na mesinha ao lado da minha cama. Era só um sonho… Um sonho deliciosamente erótico com meu vizinho gostoso!

O que deu em mim?

Não confunda as coisas, Jonah Ambrose, se envolver com seu vizinho – alguém que você vê diariamente, onde as probabilidades de se esbarrar são altas, quando vocês conhecem pessoas em comum – está fora de cogitação.

Tive relacionamentos o suficiente para saber que não sei fazer isso dar certo, não sei fazer funcionar… sendo sério ou casual, não posso me envolver com Amin Song.

Mais uma sequência de murros na porta do meu apartamento e me levanto imediatamente, irritado, puto, me esquecendo completamente que estou usando apenas uma cueca samba canção e nada mais.

A essa hora da manhã e com esse desespero, só pode ser urgente.

— São seis e meia da manhã, o que diabos está acontecendo? — Abri a porta coçando meus olhos e…

Amin.

Amin Song está parado na minha porta e ele fica paralisado quando me vê, sua boca se abre e seus olhos me devoram com uma fome inexplicável. Primeiro ele encara cada curva delineada pelos músculos do meu peitoral e abdômen. Seus olhos de lince devoram cada pedacinho de pele tatuada do meu braço esquerdo, fazendo uma leitura rápida de cada desenho traçado com tinta preta. E então, finalmente, no curto período de tempo que isso delonga, fixa os olhos em minhas coxas malhas e expostas.

E consequentemente ao que mais chama atenção naquele momento…

Escute o que estou dizendo, nasci para pagar mico.

Ele pisca seus olhos atordoados e eles se arregalaram quando sua mente finalmente compreende o que mais chama a atenção: a ereção detalhadamente delineada pelo pano liso e fino do samba canção.

Porra. Merda. Droga.

— Minha nossa, nossa, nossa. — Ele sussurra engolindo seco, é praticamente inaudível. O desconforto entre nós é nítido e estou tão sonolento que não consigo raciocinar. — J-jon, não sabia que estava TÃO interessado em mim, quer dizer, já havia percebido, m-mas i-isso… É uma grande situação, sabe uma grande, imensa situação…

Fecho meus olhos e imediatamente tentei tapar meu pênis saliente com as mãos, o que não adiantou muito. Uma coisa que já aprendi sobre Amin é que ele fica bastante tagarela quando está nervoso ou em situações constrangedoras.

— A-amin, n-não é isso… — Engoli seco piscando meus olhos lentamente, por que ele simplesmente não pode tirar seus olhos daqui? Imediatamente me viro de costas. — Desculpa, e-eu.. estava… Hmmmm. Droga. — Saio andando em direção ao banheiro do meu apartamento.

Definitivamente, péssimo momento para você aparecer, Amin.

— A visão traseira também é deliciosa, Sr. Black. Você tem sorte de querer mais sentar em você do que te comer… — Ouvi ele dizer quando queimando de vergonha bati a porta do banheiro após entrar. Ignorando totalmente sua última frase da sua fala.

Realmente não precisava saber disso… Quer dizer, Amin quer mesmo “sentar em mim”? Isso não me ajuda nenhum pouco, visto que acabei de sonhar perfeitamente com essa cena.

Por que isso está acontecendo comigo, deus?

Agarro-me a pia do banheiro, estava com as pernas bambas de tanta vergonha. Em pensamentos, me soco diversas vezes e ouço a voz abafada e risonha do Song do lado de fora.

— Posso te ajudar com isso, Jon, seria um prazer. — E provoca, sei bem que ele está tirando onda com a minha cara.

Ligo o chuveiro no modo mais frio possível, queimando de raiva pelo Song esmurrar minha porta tão cedo e coincidentemente após ter um sonho erótico com ele.

— Espero que não se importe que eu invada sua cozinha, não temos muito tempo…

Putz, mais que droga. O que ele está planejando?

Sou rápido em finalizar o banho que possuía o único propósito de abaixar minha ereção e me despertar do sono profundo. Escovo os dentes e após fazer xixi, lavei as mãos e saio do banheiro enrolado em uma toalha. Mas é claro que sou mais esperto dessa vez. Agora mais desperto e consequentemente mais atento, me certifico que Amin não vai me ver atravessando o corredor para chegar ao meu quarto.

Faço a travessia rapidamente e finalmente visto roupas apresentáveis, mas ando de um lado para o outro por alguns minutos enquanto respiro fundo e crio coragem para sair lá fora, encarar meu querido vizinho depois dele ter visto o tamanho e grossura do meu pau.

Assim que atravesso o batente do meu quarto, dou de cara com Amin Song, tomando um tremendo susto. Ele ri enquanto me olha tão de perto e dou uns passos para trás, apalpando o lado esquerdo do meu peito checando se meu coração não escapou dali depois do sobressalto.

— Mas que susto. — Rosno.

— Mas que pau. — Amin sorriu atrevido, esse lado safado dele ainda não havia conhecido.

Picante, diria. Bastante interessante. Contradiz toda aquela imagem de criança fofa que ele sempre passou enquanto caminhava saltitante pelo bairro com suas roupas coloridas e os cachorrinhos na coleira.

— Eu não sou… Gay. Não sou gay. — Por que eu disse isso? Só falo merda.

Amin explode em uma risada que ecoou pelo meu apartamento, me dá as costas e sai rebolando sua raba enorme. Caralho, eu sou muito gay.

— Conta piada para outro bobo, Jonah. — Disse puxando a cadeira da mesa da cozinha que estava pronta para um café da manhã há dois, um ato de convite para me sentar. — Não sei por que você está surpreso. Você é bonitotalentoso e gostoso. Transar ajuda na criatividade, sabia? E me tira do tédio também. Mas principalmente para você que, adora escrever as partes eróticas dos seus livros, seria de grande ajuda; julgando que minha criatividade para sexo é maior que minha engenhosidade para decorações de natal e cupcakes.

Quase tropeço enquanto vou em sua direção. Calma, vamos entender a situação já que estamos progredindo rápido demais.

Amin Song, meu vizinho, está sugerindo que a gente transe para me livrar do bloqueio criativo?

Isso não vai acontecer. É loucura demais.

— Sabe, achei muito baunilha[1] aquela parte erótica em Reinos de Elysian e-

— Espera, você está mesmo sugerindo que a gente transe? Bom, não sabia que estava tão interessado em mim, Sr. Song. — Eu que brinquei dessa vez, tentando cortar a seriedade usada na primeira frase da fala. — E só para você saber, meus fãs amaram a cena e principalmente, era uma cena de amor, entende? Então, ficou perfeito.

— Só por que estão fazendo amor, não significa que tem que ser tãoooo sem graça. Tem que ser intenso, Jonah! — Song que trazia a frigideira com ovos mexidos, logo ele parou e me olhou erguendo a sobrancelha em uma expressão duvidosa. — Você só deve ter feito sexo monótono, mais um motivo para transar comigo. Sou bom em muitas coisas, Jonah. Fazer lista, ser organizado, amar gatos, fazer decorações, dar suporte e amor para Twyla Willow, cozinhar, cuidar de idosos e animaizinhos… Etc… Etc… Mas sou muito melhor em fazer sexo. Eu gosto muito de transar!

Gelei. Enquanto ele pegava uma porção de ovos e colocava no meu prato me olhando de um jeito que me arrepiou inteiro. Talvez ele seja uma daquelas pessoas viciadas em sexo. Sinceramente, não duvidei. Não duvido que ele seja bom nisso.

— É uma pena que eu não vá descobrir esse seu lado. — Falo e ele revira os olhos rosnando com a minha relutância, pois havia seriedade e não lástima na minha voz.

Pelo menos ele tem autoestima.

— Sou gentil, adorável e amável, mas não cego ou insensível. Também tenho desejos sexuais, Sr. Ambrose, e você atende bem as minhas exigências físicas.

Bom, está claro que suas intenções com a minha pessoa nunca foram só ser amigos ou só me ajudar com o bloqueio. Amin queria muito, muito mais.

E como me sinto em relação a isso? Impressionado, certamente. Não era ruim ele ser extremamente claro, objetivo e atirado. O único porém é o fato de que não estou aberto a nenhum tipo de relacionamento no momento.

— Tudo isso por que você acha que viu o meu pênis? — Coloco meus cotovelos sobre a mesa e uni minhas mãos para sustentar meu queixo. — Antes disso você não estava falando sobre sexo comigo. Dois dias e evoluímos de forma assustadora.

Song riu sarcástico, que moleque debochado, acaso ele se esqueceu que sou o mais velho? Quer dizer, suponho que sou mais velho que ele.

— Você é meio cego, Sr. Ambrose. Não penso que vi seu pênis, não haja como um idiota, ele estava duro naquele shortinho que por sinal é um pecado. Se ele tivesse boca teria gritado por ajuda e eu teria o-

— Song! — Chamo sua atenção, arregalando meus olhos. Se você dar corda… céus. — Vamos mudar de assunto?

— Não! — Afrontoso! — Já tinha interesse sexual em você antes de ver a silhueta do seu caralho. Isso só me deu mais certeza do que quero.

Meu deus, é tão errado ouvir ele falar esse tipo de palavreado. Por que ninguém me avisou que Amin Song é tão… sexualmente desesperado? Deve ter tantos homens loucos para foder um menininho bonitinho e fofinho como ele.

E isso é mais uma coisa errada de se imaginar, um outro homem qualquer fodendo meu lindo vizinho. Amin é muito precioso… Tem que ser alguém que no mínimo consiga enxergar e valorizar a pessoa única que ele é…

E infelizmente, não estou disponível, é isso.

Não, não e não.

— Não olhe para mim assim! Sou humano, adulto e gosto de macho. — Ele pontuou, claramente e apontou o dedo indicador para mim, igualzinho a minha mãe faz. — E quem é o senhor para me julgar? Você acha que não percebo o jeito que olha para meu bumbum avantajado? Você quer me foder! — Ele se abaixou bem rente ao meu rosto para me servir. Naquele momento tive a certeza absoluta que meu vizinho estava louco para foder, e eu, parecia ser o seu alvo para tal. — Por que não começa me contando como conseguiu uma ereção matinal tão dura? Não semi ereta como é de usual. Também tenho um pau, Jonah, não se esqueça. Conheço uma ereção matinal e a sua não era.

Quase engasguei com minha própria saliva. De jeito nenhum vou contar sobre o sonho. Por isso sigo firme pelo caminho da mentira:

— Eu não sou gay e, nós não vamos foder. E não quero mais falar sobre isso. — Ele faz um biquinho em desaprovação imediatamente. — Isso estragaria tudo! Mudaria tudo! Gosto da sua amizade, mas só isso…

— Amigos também fodem… — Ele sussurrou o mais baixo possível, ainda bravo. Amin sentou-se na beirada da mesa bem – extremamente – perto de mim, então cruzou os braços e me encarou. — Não me faça provar que você é gay. — Soou como uma ameaça.

— Isso não importa. Já disse, não vai acontecer.

— Tenho certeza que vai. É só sexo, Jonah, poxa a gente é adulto. Se não der certo, não deu, nós continuamos sendo amigos e definitivamente vizinhos, lidemos com isso. — Defendeu seu ponto de vista.

Pego o garfo pronto para comer e deixar esse assunto de lado.

— Somos adultos o suficiente para saber que, na prática, as coisas não são bem assim. — Desvio meu olhar do dele. — Obrigado pelo café da manhã, não precisava. Aliás, posso saber por que me acordar desse jeito no sábado e a essa hora da manhã?

— Isso não vai ficar assim! — Song estava emburrado e eu poderia levar sua ameaça a sério, mas não levo. Provavelmente ele está há muito tempo sem sexo e então… está tendo essas atitudes irracionais.

Estou há muito tempo sem sexo e nem por isso estou implorando para foder ele. Logo, presumo que ele vai sobreviver ao acaso desafortunado de meia hora atrás.

Ele se levantou em passos duros e foi servir seu prato, depois voltou com as fatias de torradas com geleia de framboesa. Definitivamente, ele não sabe ouvir um “não”, mimadinho do caralho. Me serviu café e para ele roubou um dos meus potes de iogurte natural. Por fim, começou a comer desviando o olhar do meu.

Viu como não daria certo ter uma relação sexual com Amin? Não seria apenas uma vez, a gente iria transar, foder mais um pouco e transar só mais uma vez; depois não iria mais dar certo e teríamos de conviver com a presença detestável um do outro.

Não, obrigado.

Estou vivendo muito bem nesse apartamento, não quero ter que me mudar. Refazer a rotina, a vizinhança, encontrar outro apartamento é exaustivo e difícil demais. Gosto da palavra paz e levo-a muito a sério. E estou vendo você me achando um tiozão chato e não estou nem aí!

Não quero, principalmente, quebrar a linda imagem que tenho do meu vizinho na minha cabeça. Um menininho fofo, encantador… Amin Sexual Song é tão… fora de contexto. Não quero odiar ele. Não quero bancar o cara do coração partido e escrever um drama sobre nosso relacionamento sexual fracassado e consequentemente nosso término.

Não quero, embora sinceramente o desejasse.

— Bom, Sr. não-transo-com-o-meu-vizinho-extremamente-gostoso porque não-sou-adulto-e-não-sei-separar-as-coisas. — Oh, ele estava bravo, muito bravo e chateado. Porém, não discordo nenhum pouco da parte que ele é extremamente gostoso e também lindo. — Se tivesse conferido seu celular teria visto que, ainda ontem à noite, avisei que faríamos uma pequena viagem neste fim de semana. E te liguei, toquei a campainha, mesmo assim você não ouviu. Seu sono é realmente pesado, hein? Santa mãe do sono profundo.

Solto um bufinho e bebo um gole de café sem olhar para ele. Por que sentia que esse assunto do sexo iria retornar umas mil vezes? Mas o ponto é: quando ele passou tanto a querer transar comigo? Não é estranho?

É o segundo dia desde que conheci Amin Song e ele já deixou claro o quanto quer que a gente foda. Isso está na sua lista de anti bloqueio  criativo?

Ainda meio perdido com minha linha de pensamentos, tentando entender como as coisas tomaram esses passos tão longos; tento relembrar da sua fala atual e…

— Uma pequena viagem? — Repeti desacreditado. As coisas estão realmente tomando dimensões que sequer cogitei.

— Sim, uma pequena viagem, já organizei tudo ontem. Reservei aquele hotel-fazenda que todos vivem comentando, o L’amour Farm, já ouviu falar? — Apenas consegui assentir em concordância, pois ele já continuou: — Vamos dormir lá só de sábado para domingo. E com certeza tenho um roteiro ótimo de viagem para a gente aproveitar muito. O L’amour é tão incrível, sempre quis tanto ir, mas não tinha companhia. — De repente ele soltou seus talheres e tocou minha não por cima da mesa me olhando como uma criança que implora algo para o pai. — Agora tenho sua companhia. E sim, não é genial? Se encaixa perfeitamente com a lista que fiz para você.

Engoli seco sem saber exatamente o que achar de tudo isso e tentando ponderar sobre a proposta o mais rápido que meu raciocínio conseguir. Tomo mais um pouco de café para conseguir fazer descer tudo que havia mastigado de mau jeito por estar tentando digerir o que está acontecendo. Já disse que Amin é como um carro a cem quilômetros por hora?

Ok, Jonah, seja sincero… É uma ótima ideia! O conforto de um hotel-fazenda, a natureza, a viagem curta, é perfeito para te fazer respirar novos ares e ter um olhar aguçado de outra perspectiva criativa. Amin tem razão. Agradado com a ideia, abri um sorriso.

Também gostaria de adicionar secretamente um pensamento: uma oportunidade de ver Amin por outros ângulos. Sei bem que preguei todo um discurso contra me aproximar de outra maneira pelo meu vizinho, mas me entenda, não posso resistir. Quem resiste a Amin Song?

Afinal, se aproximar como amigo não fará mal a ninguém.

— Gostei muito da ideia. — Lhe disse com animação e sinceridade, não com tanta animação quanto a dele.

É óbvio que Amin dá seu típico gritinho de vencedor, aperta minha mão e retorna para refeição com um sorriso gigante no rosto que, porra, é isso que me inspira…

Seu sorriso. Seu jeito. Sua energia.

É isso que quero ver na viagem: Amin Song e seu jeito claro de ser.

Seu jeito tão seu.

— Sabia que você iria gostar, Jon. Come logo, temos que fazer sua mala e estou contando com o fato de que você vai dirigir até lá. — Ele agora conversava enquanto tentava mastigar com tanta pressa, sua mão é colocada diante da sua boca para que eu não tenha uma visão do conteúdo sendo mixado lá dentro. — Você tinha algum compromisso importante?

— Até tinha, mas pode ser adiado. Vou avisar meus amigos, eles cuidaram de tudo para mim. Um telefonema resolve isso. — Falei já terminando minha refeição deliciosa graças ao Song.

Só então percebo que desde que Amin apareceu, tenho sido um novo homem, aberto a novas experiências. Muito mais relaxado do que o Ambrose tenso de antes.

— Então, sim, estou fazendo uma coisa de última hora. Céus, as pessoas mudam. — Conclui em voz alta.

O desespero muda as pessoas.

Um pacotinho colorido muda ainda mais.

Amin sorriu diante da minha observação em voz alta, era uma boa mudança. Minha mãe costumava me dar um cascudo no meio da testa toda vez que ela passava o fim de semana aqui em casa e ficava frustrada comigo por criar uma rotina e seguir à risca. “Você precisa ficar calmo, filho. A vida está passando diante dos seus olhos, dois passos para chegar aos trinta. Eu quero netos.”

Sei muito bem que não se trata apenas de ter netos, mas mamãe quer me ver verdadeiramente viver e ser feliz. A casa dos trinta está próxima de mim, o que me faz questionar constantemente o que vai acontecer com a minha vida. Dizem que a hora do casamento e filhos chega para todos, talvez meu coração esteja começando a se abrir para novas possibilidades. Mas não se engane, não estou falando de casamento…

Olho para meu vizinho com os lábios sujos enquanto come. Amin sustentou meu olhar e sorriu para mim com a boca completamente cheia, as enormes bochechas infladas, ele não é uma criança adulta?

Estava abrindo mão dos meus ridículos princípios por causa do Song, e não posso evitar pensar se isso é devido a uma lista e um bloqueio criativo. Por enquanto, também não sinto nenhum vestígio de arrependimento. A não ser por aquele momento do meu pênis duro… Juro que estou tentando esquecer a vergonha que passei.

Assim que terminamos de comer, faço uma ligação rápida para os amigos que cuidariam de tudo para mim, enquanto Amin lavava as louças sujas do café da manhã. Quando nos reencontramos para ajeitar tudo, percebo que ele finalmente deixou o assunto do sexo de lado, graças a deus. Seguidamente, fiz uma mala de mão simples, peguei meu caderno de ideias para anotar tudo e qualquer coisa que surgir durante a viagem.

— Você é tão… Hmmm… Certinho. Olha suas roupas, são todas de tons escuros, básicos, frios… Sua casa também é minimalista, simples, mas sofisticada. — Seu olhar era extremamente analisador. — Você é muito desanimado, a sua vida parece a mesma todos os dias… Estou começando a entender por que não consegue escrever. É necessário mais do que uma mente criativa, Jon. E se não pode sair pelo mundo buscando inspiração, tem que descobrir válvulas de escape que alimentem sua mente criativa. Viajando, saindo com amigos, se apaixonando… Ou com coisas simples tipo séries, filmes e até mesmo ler.

Ele tinha razão. Fiquei totalmente paralisado o ouvindo. Song realmente estava certo e era meio que um soco na boca do meu estômago, embora essa não tenha sido a intenção dele.

— Ainda bem que apareci, não é mesmo? — Ele brincou dando uma piscadela para mim, o que me fez sorrir. E é estranho sorrir aqui no meu apartamento com uma visita parcialmente desconhecida quando normalmente estou sozinho e é provável que seja raro sorrir tão verdadeiramente. Acho que meus músculos faciais estão enferrujados…

— Ainda bem. — Solto meus ombros após libertar uma respiração pesada e o olho. — É confortável. O apartamento, sabe? Gosto dele. — E isso bastava, é o que preciso para sobreviver.

Sobreviver.

Era isso o que eu estava fazendo… Ao invés de viver.

Amin me olhou com tédio. Eu sei Song, nós dois somos como água e óleo. Opostos. Não se misturam.

— Seu mundo precisa de um pouco de cor… — Disse ele enquanto enfiava meu travesseiro em uma sacola sustentável, justificando anteriormente que é mais confortável levar seu fiel travesseiro e garantir uma boa noite de sono. Song preza pelo simples ato de dormir. Não julgo, é algo realmente importante. — Mas gosto de você e do seu estilo, é muito Jonah.

Ri baixinho negando sua linha de pensamentos confusos.

Se o meu mundo era sem cores, o do Amin tinha cores até demais. O espectro inteiro de cores era pouco para si.

— Estou feliz assim. — Justifico de forma simples, porque é assim que gosto de levar as coisas, o mais simples possível.

— Só estou pensando se você usaria uma blusa colorida, por mim. — Ergui as sobrancelhas e o encarei semicerrando meus olhos, tentando entender por que diabos ele quer que eu use algo colorido? Mas bem… Inclino a cabeça para o lado pensativo, não é como se eu estivesse mudando meu estilo por ele. Um dia não faz mal a ninguém.

E não é que estou começando a curtir bastante essas cores todas que vejo Amin usando diariamente? Pois é, estou topando sair por aí com ele como um par ambulante de arco-íris.

— Não vejo problemas. — Dei de ombros e ele bateu palminhas de felicidade. — Devo levar minha câmera? — Pergunto indo até à estante do meu quarto e pegando a minha melhor câmera profissional.

Amin deu um gritinho e correu na minha direção.

— Meu Deus! Jonah! Você fotógrafa? Eu sabia! Quanto mais criativo mais incrível! Puta a merda, estou impressionado… Ah, Jonah! Você se prepara para tirar umas trinta mil fotos de mim. Eu amo, amo e amo ser um modelo.

Minha musa, foi o que ele disse que seria se eu quisesse. Amin com todas essas cores e energia, renderia fotos lindas. Fiquei animado para ressuscitar um hobby que há muito tempo deixei de lado.

— Estamos combinados, vamos ter um álbum digno para se lembrar desse passeio. Amo fotografar, embora esteja enferrujado.

Costumava visitar parques ecológicos só para tirar fotos, mas conforme vamos chegando perto da casa dos trinta, você dá mais valor para sua cama do que esses momentos essenciais – que, por um tempo, não parecem mais tão primordiais. Mas, na verdade, são…

São tão excessiva e crucialmente indispensáveis que, na falta de ser feito, me prendi em um quarto escuro de preguiça e desmotivação. Chamado: “estou chegando aos trinta anos de idade e as coisas que planejei não aconteceram”. Me fechei para vida, para o mundo, para mim…

Estou matando Jonah Ambrose.

E me encontro amedrontado. Quando você se dá conta é extremamente assustador.

Foi naquele momento que entendi o porquê do bloqueio criativo… Estava preso atrás de muros que eu mesmo construí.

Amin era ramos flores que lutavam contra aqueles tijolos, um jardim que queria florir o meu jardim morto. Dei a primeira martelada para destruir o muro quando topei fazer tudo isso com ele.

Estou deixando Amin entrar e trazer toda sua cor…

— Que nada, Sr. Ambrose, é como andar de bicicleta, você não perde o jeito. — Ele disse tão otimista e confiante em mim. Acreditei nele que pegou a câmera da minha mão, pediu ajuda para ligar e de repente… flash na minha cara. — É que você deveria sorrir mais e essa foto é para te provar isso. — Song disse e então desligou a câmera, seguidamente a colocou na minha mala.

Poupei-me de coisas até mesmo naturais que me trazem uma dose mínima e indispensável de felicidade. E Amin, ele é tão bom em libertar tudo isso em mim. Mestre em resgatar Jonah Ambrose. Por que não deixar?

E fiquei estático, achando isso surreal. Tenho quase cem por cento de certeza que estou sonhando.

 


 

[1] A designação “Sexo Baunilha”, refere-se à relação sexual convencional. A expressão deriva do inglês “vanilla sex”, por analogia com o sabor de gelados: aqueles que têm medo de arriscar podem pedir baunilha, pois será sempre aquele sabor familiar, sem surpresas nem riscos.

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