Capítulo Dez
frotter, alma gêmea, feridas e libertação
10:45 P.M.
Toronto, Rogers Center[1]
— Baby, we’re as gay as a rainbow. Let us shine! Yey, yey, yey!
Baby, nós somos tão gays, quanto um arco-íris. Deixe-nos brilhar! Yey, yey, yey!
Certamente, Twyla Willow é uma deusa! O show é do atual álbum Rainbow e mesmo que eu não fosse um fã número um da cantora, a batida, a canção, a dança sexy, o backing vocal, as letras e até a própria rainha dos corações gays me fascinavam. Sem falar da temática que acho ser o pivô de tudo, toda a alegria que leva o público LGBT+ a loucura.
Arco-íris, fadas e unicórnios são usados fortemente na apresentação, encontrando-se imensos no centro do palco. Achei sensacional como ela aplicou seu branding. Os detalhes dourados, mesclado ao rosa predominante, os objetos coloridos e confetes para todos os lados; Twyla é a rainha do seu próprio reino das fadinhas do glitter. É que tanto conceito reunido e a história por trás do álbum me fascina.
A cantora usa sua própria história de vida para escrever suas músicas, como o fato de lutar contra a homofobia por tantos anos, visto que ela já está quase na casa dos sessenta e contrário dos mais jovens, enfrentou épocas realmente complicadas em relação a ser gay. Hoje Twy é casada com a mulher transexual que ama e é muito feliz, principalmente sendo tão amada por seus fãs. É uma troca mútua, ela os ajuda através das músicas e eles lhe dão muita alegria e carinho.
Eu amo o espírito jovem dela, nada a abala. Mesmo sendo mais velha, ela pula no palco como se tivesse dezessete e pinta o cabelo de cores coloridas como um adolescente enfrentado sua fase rebelde. É incrível como sua energia nos faz sentir mais vivos.
E o público a venera como uma deusa. Todo mundo estampado com as cores da bandeira arco-íris, gritando cada uma das canções como se as letras fossem seu lema de vida. Enquanto isso, Ami chorava horrores ao meu lado e cantava como se fosse o último dia da sua vida. Só me restou entrar na sintonia, aproveitando a energia que a Twy estava passando.
Afinal, eu não ia ser o tiozão chato que vai ao show de alguém como Twyla Willow e não curte.
Nós estávamos na arquibancada, dava até para ver ela aqui de longe, mas tínhamos que nos contentar sobretudo com o telão. Não era de todo ruim, pois não estávamos no meio da multidão e percebo que o Amin tem claustrofobia. Por fim, agradeci mentalmente por ouvir tanto o álbum antes de chegar aqui, agora eu consigo cantar várias canções com meu vizinho. Sim, viemos a viagem inteira ouvindo Twyla no iPod dele – ninguém está surpreso.
Entretanto, nada no universo me preparou para a minha música favorita da Twyla, Love Me My King. Quando ela cantou, fiquei emocionado. Mas não apenas pela canção em si e sim por que durante a estonteante música – no ritmo envolvente dos tambores gigantes e toda uma apresentação fantástica da cantora –, Amin virou-se para mim, me olhou nos olhos e recitou a canção para o meu coração:
— You have my soul. I worship you at his feet. You own my body, love me the way you want, but love me. — E aquelas palavras me fez irradiar, meu coração estava desesperado dentro do meu peito e enquanto nossos olhos brilhantes se encaravam, só conseguia pensar que precisava fazer esse homem ser meu para sempre.
Você possui a minha alma. Aos seus pés venero-te. Você é dono do meu corpo, me ame do jeito que desejar, mas me ame.
É como se a minha alma me alertasse: é ele, Jonah, é ele quem você vai amar enquanto viver.
Em resposta, segurei seu rostinho pelas bochechas gorduchas e ele ficou na ponta dos pés para realizar o desejo que também sentia: selar esse momento com um beijo. Seus braços circulam meu corpo me trazendo para mais perto e juro que quando nossos peitorais se encostam sinto seu coração tão disparado quanto o meu, fazendo seu tórax tremer.
Existem mil coisas para se sentir na vida, mas certamente sentir o coração da pessoa que você ama disparado para si, é definitivamente a melhor sensação do mundo.
Não trocaria sentir o coração dele pulsando em razão da minha existência, nem pela minha própria vida.
Ele cantarola para mim:
— You’re the one I want, make me yours, just for tonight. When you leave in the morning take something from me. Take my soul and my body, my king.
Você é o único que eu quero, me faça seu, só mais essa noite. Quando partir pela manhã leve algo de mim. Leve a minha alma e meu corpo, meu rei.
E respondo-lhe:
— And when I found myself alone, my heart only knew how to cry out for yours. I knew I had found my king.
E quando me peguei sozinho meu coração só sabia clamar pelo seu. Eu soube, havia encontrado meu rei.
Ele sorri, com aquele eye smile[2] lindo de tirar o fôlego, as bochechas ficando ressaltadas, as maçãs do rosto coradas, uma leve camada de suor na testa, os olhinhos que se resumem a risquinhos. E assim nos beijamos.
É intenso e verdadeiro, é tão nós.
Se antes ainda tínhamos dúvidas, agora não mais. Só me restava não ser tão precoce e esperar pelo momento certo para pedi-lo para ser meu enquanto vivermos. O faria agora, mas só tem duas semanas que estamos juntos. Opto por fazer as coisas do jeito certo e posso esperar o quanto for preciso para finalmente me casar com Amin. E, no fundo do meu coração, eu e minha alma sabemos que isso vai acontecer…
Pois, tão amarelo quanto o sol, é o fato de que nós somos destinados. E como bem sabemos fugir do destino é certamente paradoxo.
Nada é por acaso, nem mesmo as músicas de Twyla Willow. Nesse momento acredito que ela escreveu só para que um dia fosse a trilha sonora do amor que vivo com o meu vizinho.
Quando o beijo terminou cheio de mordidinhas nos lábios e selinhos gostosos, abracei ele por trás e voltamos a atenção ao palco. Essa foi a promessa não dita entre nós. Twyla é a nossa testemunha.
Eu nunca o deixaria ir. Seríamos reis do coração um do outro, enquanto vivermos.
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3:32 A.M.
Voo para Toronto
– antes do show –
Queria começar esse capítulo com o melhor momento do show, por isso, vamos voltar algumas horas antes. Não pense que foi fácil chegar aqui, pois não foi. Depois do que rolou entre nós – vulgo nossa primeira vez e o desabafo do Ami –, ficamos de chamego na cama e até cochilamos um pouco.
O importante é que ele está se sentindo bem, depois do desabafo e tudo mais. Foi como se não tivesse acontecido e acredito que seja melhor assim. Afinal, ele finalmente está seguindo com sua vida e desde que o conheci, Amin só me transmite felicidade. Quero ajudar ele a construir essa felicidade e estar com ele quando seus sonhos se tornarem realidade. Anseio profundamente que ele também esteja comigo diante da realização dos meus.
Mesmo que o que tenha me sido revelado seja um tanto doloroso, me sentia mais próximo dele no sentido de que agora sei um pouco mais sobre ele e como se sente. Amin está se esforçando muito para não trazer as lembranças à tona, ontem foi a prova disso, sua vulnerabilidade quando se lembra do que sofreu. Preciso me dedicar tanto quanto ele para tornar cada momento único.
O que me surpreende é o fato de quanto mais a gente se aproxima e descobre um do outro, mas queremos mais. A vontade insana dentro de mim de conhecer cada pedacinho dele.
Qual seu sabor favorito de sorvete? Qual seu momento mais constrangedor? Qual seu momento mais feliz? E até mesmo qual o momento mais triste da sua vida…
Queria saber tudo sobre Amin Song, até as coisas negativas. Pois, para mim, amar é isso, aceitar e compreender todas as partes de um ser, afinal ninguém é perfeito. Você só tem que escolher quais defeitos e imperfeições consegue aceitar em alguém.
Após tomar banho juntos cheio de carinhos, risadinhas e beijinhos – e nada além disso –, nós fizemos minha mala e posteriormente buscamos a do Amin. Claro que tivemos uma longa despedida com os gatinhos, Amin apertou cada um deles por horas…
“Papai já está voltando, neném, prometo”, “Por favor, se comportem”, “Papai vai e volta rapidinho!”, “Se alimente direitinho e façam cocô no lugar certo”.
Foi uma gracinha, no entanto, também me cortou o coração. Dava para ver quanta importância seus animais têm, principalmente a Anne gravidinha. Mas como é bem recente, poderíamos ir viajar tranquilos, pois demoraria no mínimo mais algumas semanas para ela parir. E em relação a eles ficarem sozinhos, não era necessário sequer contratar alguém visto que os gatos são disciplinados e Amin deixou tudo apostos para eles. Tinha água em abundância, ração à vontade e várias caixas de areia dispostas pela casa. Era o suficiente para apenas três dias.
Quando meu vizinho se sentiu pronto, pegamos um táxi até o aeroporto de Vancouver. Amin tem dificuldade em viajar de avião, então eu estava morrendo de medo dele passar mal. Ele deve estar cem por cento bem para o show da sua diva. No entanto, não tinha como fugir.
E não pense que nosso atraso merecido não tenha sido motivo para Amin ter ansiedade, pois ele quase surtou pensando que não ia dar tempo. Até quis fazer uma lista, mas isso iria gastar mais tempo, por isso o convenci a não fazer. Sei o quanto as listas o ajudam com a ansiedade, porém mais um minuto e perderíamos a viagem. Chegamos em cima da hora e os portões já haviam sido abertos, nosso voo estava prestes a sair, mal deu tempo de entrar na fila e correr para nossos assentos.
— Acredita que quando voltei para Vancouver, depois do julgamento e tudo mais, vim de trem? Levou quase cinco dias e foi incrível, embora seja necessário aguentar o tédio e a dor na bunda de tanto ficar sentado. Mas valeu a pena. É uma oportunidade única de conhecer o Canadá em grande amplitude. — Ele contou, enquanto procurávamos nossas poltronas. — Li todos os livros do Harry Potter[3] durante a viagem que nunca acaba, foi literalmente mágico.
Sinceramente até eu tinha o sonho de fazer essa viagem no The Canadian – o trem que cruza o país de Toronto a Vancouver.
— Podemos cruzar o país um dia em um motorhome, quando formos velhinhos aposentados. O que acha? — Sugeri, fazendo ele rir.
— É um ótimo plano.
E o grande momento chegou, o piloto avisou que o avião iria decolar e Amin agarrou minha mão com força. Certamente decolar e pousar eram as sensações de maior pânico, até eu me sentia afetado e não tinha problemas com isso. Mas meu vizinho, ficou ainda mais afetado apertando fechando as pálpebras com força e segurando a respiração, os ossos da minha mão pareciam estar sendo triturados por uma máquina.
Felizmente, deu tudo certo no final, quando o avião ficou estável, Amin foi relaxando. Não o suficiente para seguir o restante da viagem tranquilo, mas o necessário para não passar mal.
Pensando em ocupar nossas mentes para pensar menos na situação ao nosso redor, resolvemos assistir um filme aleatório.
— Jonah? — Ele me chamou de repente, enquanto uma cena desinteressante passava. O filme estava bem chato, na verdade. — Eu acho que quero voltar para a terapia. Me consultava durante todo o processo lá em Toronto até o julgamento e um pouco depois, quando tomei a decisão de voltar para meu estado natal. Me fazia muito bem. O que você acha?
Pedir minha opinião para algo tão importante para ele e que envolve sua saúde mental, me fez perceber que realmente importo para o Amin. Tudo isso que estamos construindo – não importa o tempo – é extremamente forte. E eu sei o quanto ele precisa desse apoio, por isso, não penso nem uma vez, vou logo dizendo:
— Vai ser ótimo para você, meu bem. Te ajudo a encontrar um profissional cujo se sentirá à vontade. O que acha? Provavelmente em Janeiro as clínicas estarão mais aptas. — No fim de ano tudo para, mas não demoraria a voltar ao normal, assim que o ano novo passasse.
E ele sorriu para mim, todo fofo e surpreso.
— Vai mesmo me ajudar? — E pergunta, só para ter certeza.
— É claro que vou, quero o seu bem. Se quiser que vá com você nas sessões, eu vou. — E Amin simplesmente me abraçou com força, mas muita força mesmo, escondendo seu rosto no meu peitoral.
— Obrigado, Jonah. Obrigado por existir. E por me dar uma chance.
E não consegui dizer nada. Não consegui porque, puta que pariu, tudo que fazia por ele é de coração e… Isso, céus… Era demais para meu emocional, não sei explicar.
Você percebe que ama muito uma pessoa, quando faria qualquer coisa para que ela se sinta melhor. E não é diferente comigo e o Ami. E sei que se tivéssemos os papéis trocados, ele faria o mesmo por mim. Porque ele também me ama.
E a cada dia nos amaremos mais.
Bem, voltando a viagem…
Era cerca de quatro horas de viagem, por isso levamos nossos próprios lanches, desistimos do filme e resolvemos ouvir as músicas da Twy no iPod dele. Conversando animadamente, falamos sobre nossa infância, os micos da adolescência, os gostos bizarros que já tivemos, todos os detalhes de quem somos ou já fomos era bem-vindo.
Diferente das outras pessoas, Song não se surpreendeu quando descobriu que já escrevi fanfics com lemon[4] yaoi[5] e que elas se tornaram manhwas[6] boy’s love[7] uma vez que um amigo virtual – cujo é fera em desenhos – fez uma parceria comigo.
— Está falando sério? — Amin dá risada olhando para mim ali de baixo, com a cabeça apoiada em meu ombro e mexendo no fio do fone. — Tipo, não me surpreende, Jonah, você tem muita cara de fanfiqueiro. Se fosse escrever uma fanfic, faria de Harry Potter.
Sim, temos um Potterhead[8] aqui.
“Não me surpreende, Jonah”, pelo visto já não sou uma caixinha de surpresas para ele. Amin é um ótimo observador, talvez ele saiba de coisas sobre mim que nem mesmo sei. Mas como assim tenho cara de fanfiqueiro? Não sei de onde ele tirou isso.
Olho para Amin meio sem graça, é que tenho um pouco de vergonha de assumir meus micos do passado.
— Promete que não vai rir? — Peço e Amin já ri só disso.
— Não posso prometer, Jon. Desculpa. Mas estou sendo sincero. Só não me diz que era do Goku[9] com o Naruto[10]. — Olha que é uma ótima ideia em. Mas…
— Não, julgo que chega a ser pior. — Faço beiço, mas minha cara pedindo por misericórdia é ignorada.
— Fala logo! Só diz de uma vez! — Ele cutuca meu abdômen, furioso.
Ok, aqui vamos nós.
— Era com o Edward e o Jacob da Saga Crepúsculo[11] como um casal de aparência bishounens[12]. — Confessei fechando os olhos com força e evitando olhar o Amin enquanto ele cai na risada, abro um só olho para o observar balançar daquele jeito que ele faz quando ri muito, quase deslizando do banco para o chão. E como estamos rodeados de pessoas, ele tenta tapar a boca para impedir o som de sair, o que significa que barulhos de alguém sendo sufocado soava no avião adormecido.
Ouço um homem resmungar atrás de nós e a qualquer momento a aeromoça pode aparecer aqui para chamar nossa atenção. Felizmente ele consegue parar de rir.
— Não consigo acreditar! Jonah! Você não existe. — Desde que conheci Amin me sinto o cara mais engraçado do mundo.
— Pois é, como eu sempre fui gay demais, ao invés de shippar a Bella com um dos dois, acabei invertendo a situação e tornando-a impossível, shippei JackEd. — Me defendi, não vai me dizer que você nunca falou o quanto a Bella é sem graça? Pois é, está me julgando aí mais gostou do meu shipp.
E podem rir também, deixo, pois o Amin riu muito de mim e por fim acabei rindo também, a risada dele é contagiante.
— Acho lindo e tudo mais, porém não gosto de Crepúsculo. Juro que não é nada contra, só não faz meu estilo, Jon. — Engraçado ele dizer isso quando vive chorando por filmes de romance e até eu chorei vendo a saga. — Mas leria seus manhwas, pois foi você quem escreveu e sou seu maior fã. — E isso me conforta. — Mas eu amava Diários de um Vampiro[13], não me julgue. Quem é que não tem uma queda pelos irmãos Salvatore[14]?
Faço uma careta, os irmãos são lindos sim, mas nunca consegui assistir à série. Sei lá, não me conquistou. Vejamos que Amin e eu não combinamos em tudo, e não é um problema. Na verdade, é bom, aprender um com o outro faz parte do processo.
E ele pode não ter gostado da Saga Crepúsculo, mas amei os filmes e livros com todas as minhas forças. Não me julgue se tive uma queda por vampiros que brilham no sol e lobos que uma vez transformados possuem a altura de um T-Rex. Quando vi o Edward brilhando meu coração parou. Tipo, literalmente. Se a Bella não se apaixonou ali, ela nunca o amou de verdade.
Mesmo que todos nós leitores possamos achar a Bella sem graça, a amamos com todas as forças, torcemos para que ela se tornasse vampira e ficasse para sempre com o vampirão gostoso dela. E sua transformação progressiva como personagem foi simplesmente muito presente, um fato que eu amo no livro. Ela vai de enfadonho para simplesmente poderosa.
Confesso que me identificava muito com ela quando lia os livros. Acho que na leitura podemos entendê-la melhor.
Resumidamente, lancei alguns quadrinhos quando tinha entre catorze a dezessete anos, hoje em dia nem sei por onde eles andam, mas já vi pins no Pinterest com cenas do casal principal. Infelizmente não havia nenhuma maneira de lucrar naquela época. De qualquer forma, foi uma ótima experiência. Lembro que meu amigo virtual até me mandou uma edição impressa que ele fez para colocar em seu portfólio físico, mas não tenho ideia de onde está.
Amin quer muito ver o meu romance gay entre Edward Cullen e Jacob Black, você pode não acreditar, mas eu juro que as cenas de sexo foram ótima. E o romance então, de inimigos naturais a românticos destinados.
Por fim, convidei Amin para assistir aos Jogos Vorazes[15] comigo – minha trilogia favorita –, aí ele disse só se eu assistir Divergente também e é claro que aceitei, quem sabe até rola um Maze Runner[16]. Acho que a gente adora distopias. Nós dois topamos. Vamos maratonar todos esses filmes na primeira oportunidade.
— Gostei muito de saber desse seu lado, Jonah. — Ele diz, todo manhoso se agarrando ao meu braço e roçando a bochecha no meu ombro. Amin sabe como me amansar.
— Talvez você seja o Edward do meu Jacob. — Digo, como se confessasse meus sentimentos.
E ele responde.
— E você é o Demon da minha Elena. — E trocamos um selar suave.
Definitivamente, apaixonados.
Você percebe que está caidinho de paixão quando qualquer assunto aleatório termina com confissões amorosas e beijinhos. Acho que Song e eu, em matéria de amor, somos mais rápidos do que os Velozes e Furiosos[17].
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11:02 A.M.
Hotel X Toronto[18]
– depois do show –
— Jonie Ambrose! Jonie Ambrose! — Ele cantarolou, senti um peso sobre mim e soube que ele havia se sentado em meu colo. E mesmo dormido horas seguidas feito uma pedra, ainda estava com os olhos pesados de cansaço, foi uma luta para os abrir. Entretanto, valeu a pena, pois a visão que me aguardava é totalmente encantadora.
Amin está devorando um pedaço perfeitamente cortado de melancia, usando um robe branco do hotel, sentado todo fofinho com a boquinha molhada de fruta – que pinga no tecido claro –, me olhando como sua gatinha Anne me olha: com muito amor.
Eu amo sua carinha inchada e os fios de cabelo desgrenhados pela manhã, é tão gracinha que sinto um calorzinho no peito e as borboletas no meu estômago quase acordam para fazer uma coreografia nova.
Por instinto de um homem apaixonado, levo minha mão até seu rosto, tocando sua bochecha e limpando um pouco da melancia, Amin captura meu polegar e o chupa raspando os dentes na almofadinha da digital. Puta que pariu. Depois o solta e sorri imenso, como se isso não fosse uma provocação do caralho – e o pior é que não é mesmo, se aquieta aí, Jonah.
O jeitinho dele só me fode.
— Já são onze da manhã, vamos acordar, dorminhoco?
Amin ri feito criança, só então percebo que ele está ansioso, já que não fica quieto em cima de mim – e também não é uma provocação sexual.
— Temos que aproveitar nosso último dia em Toronto ao máximo. Precisamos ir à loja de enfeites para comprar os seus e decorar seu apê, então comer algo bem canadense no almoço, comprar presentes de Natal e sem dúvida alguma patinar no gelo.
É claro que Amin tem uma lista para nosso dia extra em Toronto, e sem sombra de dúvidas iríamos a seguir à risca. Mesmo que patinar no gelo, para mim, seja praticamente suicídio.
— Hmmm, se continuar pulando assim, vai acordar a anaconda. — Brinquei e ele deu risada, balançando a cabeça em negação. — Bom dia, meu bem, vem cá. Vem sentir meu bafinho, vem.
— Aí credo, Jonah, deus me livre! Sai! — O agarro e começo a dar beijos no ar, fingindo que seriam nele e termina com Amin socando o pedaço de melancia na minha boca.
— Awnf, feun fainfa fum esfofei fos fenfes! — Resmungo com a boca abafada pela fruta doce. Amin dá risada e faço uma cara emburrada, tirando a melancia da minha boca e por fim roubando um selinho mínimo. — Vou me arrumar. Você pediu o café?
— Pedi sim, bem simples, para gente conseguir comer coisinhas na rua. — Amin adora experimentar novidades, no show da Twyla mesmo ele comeu várias besteirinhas que estavam vendendo. Além de comprar duas blusas iguais para nós e uma pelúcia da gatinha da sua musa. Esse garoto não tem limite. — Vai logo, pois temos muito a viver hoje em Toronto.
Assim ele sai do meu colo e me empurra para fora da cama, meu corpo ainda está cansado e dolorido, ontem foi realmente um dia pesado. Quando chegamos do aeroporto, tiramos um cochilo para poucas horas depois, pegar a fila para entrar no ginásio onde ocorreria o show. Chegamos no hotel já de madrugada, exaustos e apenas dormimos até agora.
Assim, vou ao banheiro e faço o que tenho de fazer, seguidamente tomo um café matinal simples e rápido com meu vizinho. Finalmente começamos nosso tour por Toronto, Amin já viveu aqui, mas eu não. É basicamente a minha primeira vez aqui. Então tudo, tudinho mesmo é novidade.
— Qual é a nossa primeira parada? — É claro que ele tem toda uma lista e é um excelente guia.
— Fazer compras de natal para decorar seu apê. — E exibe um sorrisão para mim, não tenho interesse nenhum em decorar minha casa, mas obviamente meu vizinho quer fazer isso e pode ter certeza que tem mais a ver com ele do que comigo de fato. Song ama isso de ir às lojas para comprar enfeites, ele não perderia a oportunidade. — Também preciso comprar alguns presentes e aproveitar muito cada novidade que encontrarmos.
— Sendo assim, acho que o melhor lugar para irmos é o St. Lawrence Market[19].
Ah, o St. Lawrence Market quem é que nunca ouviu falar? É sem dúvida um dos melhores lugares para se fazer compras em Toronto. É o mercado mais tradicional da cidade.
Vende de absolutamente tudo. É um ótimo para passear e conhecer um pouco da cultura e culinária canadense. É possível encontrar quase todo tipo de produtos e comidas de diferentes e vários países. Além disso, há uma galeria de lojas de souvenires – as quais desejamos tanto visitar. Também dá para comprar frutos-do-mar frescos, carnes de todos os tipos, queijos de todos os lugares do mundo, frutas e verduras exóticas, todos os tipos de grãos e mostardas, além de ter as melhores padarias.
Chegamos à conclusão de que é o local perfeito para o nosso último dia aqui. Basicamente tudo que precisamos está ali.
— Acertou em cheio, gatinho. — Ele revela animadamente, enquanto de mãos dadas finalmente chegamos na parada de ônibus para tomar o que precisávamos.
Sim, nós dois estávamos andando por aí naturalmente de mãos dadas. É que quando estou com ele, o mundo some. Mas, sobretudo, Toronto é a cidade mais global e multicultural do país. O que significa que as pessoas são super abertas à comunidade LGBT+ e que mais celebra sua diversidade, tendo em Toronto seu “hub colorido”.
Os canadenses estão acostumados com a diversidade e são muito respeitosos em relação a isso. Na verdade, a questão é: ninguém liga para o que você é ou deixa de ser. E isso é ótimo! É o que me faz amar ainda mais o país onde moro.
Cidades como Toronto, Ottawa, Vancouver e Montreal possuem bairros gays, onde o preconceito quase não existe e a diversidade reina. Nem sempre o Canadá foi um país perfeito, mas esses anos dolorosos passaram, hoje existem leis a nosso favor, nos permitindo viver uma vida normal como os demais cidadãos. Podemos nos casar, adotar uma criança, etc.
O que significa que Amin e eu podemos ser muito felizes, sem medo. O que me faz desejar profundamente que os outros cantos do mundo também alcance esse tipo de amor e respeito pelo próximo.
O verdadeiro amor sempre estará acima do preconceito. Só temos que ser corajosos o suficiente para lutar pelo que amamos e quem somos.
Então não desista da sua felicidade, bro.
— Ah, ei, meu bem? — Ele me chama de repente, dando puxões na mão que está segurando, todo animado. — E se fossemos patinar no Dufferin Grove Rink[20] antes de ir ao mercado? Já que estamos próximos, talvez seja mais conveniente, até porque é a pista menos movimentada, as outras estão super lotadas nessa época do ano. Em seguida vamos às compras.
O legal é que todos os lugares que desejamos ir estão bem próximos e podemos até usar o transporte público para nos locomover. Porém…
— Amin, isso é uma péssima ideia, nunca patinei direito nem na rua quem dirá no gelo. — Digo sinceramente e ele ri de mim.
— Eu te ajudo, neném. — Usar a voz angelical é golpe baixo.
— Ah, não sei viu.
— Não confia em mim? Todos os anos que vivi em Toronto, patinei durante o inverno. É gostoso. Basta se segurar forte em mim, pode confiar. — Até que confio, mas não para me segurar. Mas tudo bem, concordei em patinar rumo ao meu suicídio.
Assim, após uma pesquisa rápida no Google encontramos a linha de ônibus que precisávamos pegar, sentamos lado a lado no veículo, aproveitando a deixa para apreciar as ruas de Toronto. Amo tanto a estação de inverno, o branco cobrindo o nosso redor, as luzes de natal, as pessoas agasalhadas. Fica tudo tão mágico.
E como você deve imaginar a patinação no gelo foi um fracasso, é preciso muitos anos para aprender a praticar com firmeza. Fiquei escorregando e dando trabalho para Amin, o que resultou comigo com as mãos em seus ombros enquanto ele patinava perfeitamente me puxando atrás de si. Depois de dois tombos que deixaram minha calça molhada, consegui patinar minimamente e devagarinho com Amin segurando minha mão e pronto para me acudir caso fosse ao chão. Até que foi divertido, mas esse negócio é muito perigoso.
Uma hora depois estávamos famintos e pegando um ônibus até chegar ao mercado público.
A primeira coisa que fizemos foi ir direto para a Carousel Bakery[21] para comermos o típico Peameal Bacon Sandwich[22], que nossa, era tipo uau, é tão delicioso e tem um sabor único. Prometi a mim mesmo que aprenderia a fazer esse lanche em casa.
Ainda famintos, andamos um pouco até encontrar o Buster’s Sea Company[23] só para devorar um Lobster Roll[24] dava até vontade de levar uns cinco para casa de tão delicioso que é. E para finalizar não deu para evitar parar na Churrasco’s[25] para finalmente comer o tão desejado Portuguese Custard Tarts[26]. A crosta estava escamada, o creme era macio e não muito doce. Definitivamente quero voltar a Toronto mil vezes só para comer mais nesse mercado.
Finalmente estávamos empanzinados o suficiente, o que nos fez andar mais devagar, no entanto, cada mordida valeu a pena. A comida canadense nunca decepciona.
Entretanto, não pense que enquanto caminhávamos tentando escolher qual loja compraríamos souvenirs ou os enfeites de natal, Amin não quis um doce, pois ele quis. E quando avistamos uma mulher vendendo Butter Tarts[27], não teve outra, compramos várias. Cada uma de um sabor – nozes, noz-pecã, passas, blueberries, maçã e abóbora –, então tivemos que ficar dividindo as mordidas. Estava uma delícia sem igual, é como se nunca tivesse comido uma dessas na vida.
Quando finalmente entramos em uma das lojas transbordando enfeites de Natal, você já deve ter imaginado que ele ficou maluco com tanta variedade. A árvore compraríamos em Vancouver, mas de resto: as luzes, bolinhas, viscos, pisca-pisca e bichinhos para pendurar na casa, foram devidamente embrulhados nas milhares de sacolas que saímos carregando. Minha nossa senhora das compras, é hoje que fico pobre.
Por fim, paramos nas lojinhas de souvenirs e Amin comprou presentinhos para seus gatinhos, um monte de acessórios culinários, mais doces, um Ice Wine[28] e um cachecol. Já eu comprei uma agenda anual, presentes para meu afilhado e meus amigos, três garrafas de cerveja artesanal – adoro os sabores inusitados e a variedade que esse lugar oferece – e uma camisa nova que Amin jurou ser a minha cara.
A camisa é metade vertical listrada em preto e branco e a outra metade é toda preta, é bonita e diferente do que usualmente compro para mim. Aliás, é muito raro comprar roupa nova.
Ah, também escolhemos um presente para a Sra. Sams, sei lá, achamos que ela merece um mimo por ser tão legal conosco. Pensamos se ela não iria gostar de um kit novo de tricô e um Shiro versão cerâmica. É tão raro encontrar pessoas de idade que não são preconceituosas, dá vontade de abraçar ela e não soltar mais – exceto quando está fofocando, nesse caso quero distância.
Já estava pesado aquele monte de sacolas e nossas pernas doíam de tanto andar. Queria ter mais tempo para explorar Toronto, ir em galerias e museus de arte, esquiar na neve e dentre milhares de coisas para se poder fazer.
Pelo menos consegui ver a CN Tower[29] e tirar algumas fotos, mesmo que de longe. Fui logo avisando ao Amin que gostaria de voltar para ser realmente um turista, visitando todos os pontos turísticos de Toronto.
E a melhor parte foi assistir à noite cair na cidade, as árvores e os prédios se acendiam não só com suas luzes usuais, estão atualmente decorados com luzes especiais. É uma época linda para caminhar no fim da tarde e ver como a cidade se enche de alegria. O Natal é definitivamente mágico.
Quando chegamos ao Hotel já era noite, largamos as sacolas no chão e me encontrei preocupado em como e quanto seria complicado levar tudo para Vancouver.
— Vou encher a banheira para nós, não demora viu? — Amin enrosca os braços ao redor do meu pescoço, dando-me um beijinho.
— Sério? Banho de banheira juntinhos? — Sorrio todo animado com a ideia. — Que perigoso, Ami. — Agora meu sorriso alterna-se para o de um grande cafajeste.
— Seu pervertido. Adoro esse seu lado safadinho, combina com o meu. — É o que o danadinho responde. — Pede alogo para gente comer depois e taças para beber o vinho.
Sim, já estávamos com fome de novo. Concordo com o mesmo que logo me deixa sozinho para ir até o banheiro. Assim que me aproximo do telefone para fazer o pedido, coincidentemente ele toca.
— Sim?
— Boa noite, Sr. Song. Tem um senhor à sua procura aqui em baixo. Devo autorizar sua entrada? — A recepcionista diz, uma expressão duvidosa surge na minha cara.
— Um senhor? De quem se trata?
Um minuto de silêncio e ela logo responde:
— Sr. Lennon Bennett.
Juro que sinto gelar dos pés à cabeça. A primeira coisa que sinto é raiva, chegava a ser uma fúria dolorosa. Como esse filho da puta tem coragem de aparecer aqui e ainda por cima pedir para subir até o quarto do Amin?
— Sr. Song? — A recepcionista me chama, devido à demora.
Provavelmente é maluquice, porventura um erro cujo poderia fazer Amin ficar magoado comigo no final. Mas sem pensar duas vezes, digo:
— Na verdade, aqui é o Sr. Ambrose e estamos descendo para falar com o “Lennon”. Muito obrigado.
— De acordo, não há de quê, Sr. Ambrose. — E assim a chamada é encerrada.
Na verdade, o Amin não iria descer.
Não, Lennon, hoje não.
Não vou deixar você machucar o Amin de novo. Não quando ele está melhorando a cada dia e seguindo em frente com a vida de liberdade que sempre sonhou. Não quando ele está se apaixonando por mim e eu por ele. Não quando estamos tão felizes a ponto de explodir.
Talvez soe egoísta e tudo bem se de fato for, mas não permitirei que Amin seja submetido a isso. Ele me deu espaço para entrar na sua vida, me pediu para ajudá-lo, para amá-lo. É isso que vou fazer.
Fico paralisado por um longo minuto, sentindo meu sangue ferver, ouvindo o ‘pi, pi, pi’ constante da ligação encerrada.
— Tchuco, está tudo bem? — Quando Amin me chama, desperto do transe de ódio. Minhas mãos tremem como nunca e juro que quando mexo minhas pernas elas parecem pesar toneladas.
Respirando fundo caminho até o banheiro, a porta está aberta e esboço meu sorriso mais sincero quando encontro a imagem fofa do Amin relaxando na banheira de hidromassagem, sorrindo e brincando com a espuma a seu redor.
— Não vai vir? — Ele pergunta, mostrando-me seu sorriso fofinho e fazendo uma barbinha de Papai Noel no rosto. — Está tão quentinho.
— Me chamaram na recepção, prometo que não demoro, meu bem. — De imediato, sua boca forma um biquinho de chateação.
— Tem algo errado?
Odeio mentir e sendo o Amin é ainda mais difícil. Por isso, não minto, mas também não digo a verdade.
— Não, só querem conferir meus dados. Juro, é rápido. Aproveita e relaxa um pouco. — Sugeri o mais natural possível, encostado ao batente da porta.
— Ok, amor. Estou esperando.
Assim saio dali em passos rápidos, com as mãos enfiadas nos bolsos frontais do meu jeans, meu coração disparado, consciência pesada e sobretudo ódio queimando nas veias. Acompanho os andares exibidos pelo elevador, ansioso, pois quando a porta se abrisse no hall de entrada, o veria.
Lennon Bennett.
Sim, sei qual é a cara dele. Está pensando que não tive tempo de dar um Google? Não foi difícil já que ele é uma celebridade. Em seu próprio website – do restaurante que ele tem em Toronto onde serve os pratos autorais de Amin – mostra a foto do desgraçado. No Google Imagens tem fotos dele recebendo diversos prêmios que deveriam ser do Amin.
É um rosto fodido que não me esqueceria por motivos óbvios de segurança. Se um dia o visse sequer próximo ao meu Amin, faria picadinho dele.
Mas agora, ah…
Ficaria cara a cara com o desgraçado que quebrou o Amin inteiro e teria que aguentar até o último fio de controle para não quebrar ele no soco. E faria até pior, mas sou humano e não tenho direito de tirar a vida de ninguém, nem de um desgraçado como este.
Mesmo a justiça sendo um lixo, confio cegamente na justiça da vida. Mais cedo ou mais tarde, ele pagaria pelo mal que fez.
Um sinal é emitido pelo elevador, anunciando que meu andar chegou e as pessoas que entraram no meio do caminho ou já estavam ali, passam despercebidas por mim.
Apenas o vejo, sentado na recepção em um dos sofás charmosos, balançando a perna, usando um terno luxuoso, um chapéu formal ridículo e checando o relógio a cada segundo.
Seu olhar encontra o meu.
Filho da puta.
Nojento.
Abusador.
Lixo.
Psicopata.
Demônio.
Meus passos são duros e ele me repara, oh sim, seu olhar foi direto para o elevador que se abriu, talvez procurando o Amin. E ele sabe quem sou, surpreendentemente ele sabe.
Ele se levanta, um sorriso desgraçado se abre em seu rosto. O odeio. Talvez seja a única pessoa no mundo que mais odeie. Se sinto ódio dos abusadores que vejo em documentários criminais, não faz ideia do que sinto por ele, que machucou uma pessoa importante para mim. E eu entendo, passo a entender muito mais todas as vítimas e as pessoas próximas a elas, tudo o que eles sofrem.
Eu deveria ter me formado em alguma profissão onde poderia defender as pessoas e fazer o impossível para ajudá-las.
— Jonah Ambrose. Escritor de merda. Empresário de merda. Um merda de Vancouver. E, é claro, o mais interessante… — Ele ergue o dedo indicador para ressaltar. — Está fodendo meu Amin.
Juro, estou contando até mil.
Aguenta, Jonah. Não fode para o teu lado. Não entre no joguinho sujo dele. Não ferre tudo e dê o gosto da vitória para ele.
É isso que ele quer, me fazer perder a cabeça para então talvez chegar até o Amin. Talvez o convencer que sou perigoso, que sou errado. Entretanto, não vou permitir.
Se tem uma coisa que não sou nessa vida é um merda.
— Perdeu a noção, Lennon? Amin tem uma ordem judicial de afastamento contra você. — O encaro erguendo uma sobrancelha e tornando meu olhar o mais severo possível. — Acha que essa droga de me investigar me intimida? Você é tão ridículo. — Dou risada. — Prefiro ser um merda, do que um abusador do caralho. Você não tem asco do seu próprio reflexo? — Sopro uma risada sem graça. — Tem sorte de não chamar a polícia.
— Pelo visto Amin andou contando a versão dele da história. Me diz, Jonah, ele também te disse o quanto gemia meu nome? Era como uma boneca nas minhas mãos, fazia o que-
— Filho da puta! — Dou dois passos avançando ameaçadoramente e quase, quase mesmo, soco a cara dele. Alguma intervenção divina deve ter me impedido, é minha única justificativa. Meu punho chegou a se fechar e erguer, mas consegui encontrar no fundo do meu ser o controle para não fazer isso. Foi tão nítido que alguns seguranças já dão alarde, me observando.
— Vá em frente, me bata! Me soque, Jonah. Eu mereço. — Ele provoca, cara a cara comigo. — Vingue-se pelo Amin.
Ele é definitivamente um demônio.
Entre mim e ele, quem você acha que vai perder? Ele é uma celebridade, a porra de um queridinho soterrado de grana e de seguidores. Ele tem contatos, lida com gente da alta sociedade, recebe políticos em seu restaurante, paparica gente que influencia diretamente o país. Lennon pode sujar minha imagem em um estalar de dedos. Perto dele, realmente, posso me parecer com merda para alguém como a polícia ou um juiz.
Não caia no jogo dele.
Não se entregue.
Seja mais que isso.
São só provocações, ele quer me afetar.
— Amin só faz merda, é comum que ele se entregue ao primeiro zé-ninguém que encontre. — Me olhou de cima a baixo com nojo. — Quero falar com ele, Ambrose. Amin me ama, sei que ainda temos chances juntos.
Dou risada de novo, tenho pena desse otário. Aperto meus punhos fechados, em seguida pisco os olhos tentando manter meu olhar sobre ele. É difícil olhar sem querer matá-lo. Enquanto isso, tentava escolher bem minhas próximas palavras.
— Bennett, vou ser bem direito com você, pois o Amin está me esperando lá em cima, para gente se amar, para ele ser amado e tocado como merece. E ele não é minha propriedade, ele é dono de si mesmo e quando ele gemer para mim, vai ser de amor, prazer e não de dor ou desespero. Ele vai me pedir para parar da boca para fora, pois não aguenta tanto prazer, não por que está sendo forçado a algo que ele claramente não quer. — E me dói dizer tudo isso, não me sinto orgulhoso. Mas ele precisa sentir, precisa ver o que fez. — Acho bom você ficar bem longe do Amin. Finalmente ele está livre do inferno que você transformou a vida dele. Ele está bem. Ele é amado. Eu o amo e ele me ama também. Não há nada para você aqui, senão nojo, desprezo e pena… Cara, se poupe disso e vá embora e vamos fingir que isso nunca aconteceu… Como lhe disse, tem sorte de não chamar a polícia até agora, mas posso mudar de ideia.
E ele só ouve tudo.
— Não estou quebrando nenhuma regra. — Ousa dizer, se fazendo de burro, coisa que ele certamente não é.
E coisa que também não sou.
— Só o fato de perseguir o Amin e tentar falar com ele é sim uma violação da ordem de afastamento. E sem falar que, também posso te denunciar, por estar violando minha privacidade. — Sei que essas ameaças não significam nada para ele. Como já provado, a “justiça” defende quem tem dinheiro.
Ele ri sarcástico quando diz:
— E acha que tem alguma chance contra mim?
O encaro mais seriamente, de homem para “projeto de homem”.
— Você se acha mesmo, não é? Por favor, só esquece o Amin. Ele nunca te amou, se te quisesse de volta já teria te procurado. Anos se passaram, Lennon. Você é o único que está vivendo no passado. Ele está bem agora e se você algum dia sentiu um pingo de sentimento por ele, use isso para ter o mínimo de senso e o deixar de paz de vez.
E ele vira o rosto, claramente afetado por minhas palavras.
Parece que finalmente toquei no ponto certo, pois tudo muda. Sua expressão, sua pose, seus ombros caem e seus olhos vacilam. Lennon desarmou-se. Nesse momento, chego a orar pedindo a qualquer divindade existente para fazer esse homem finalmente deixar o Ami em paz.
— Pode soar doentio, reconheço meus erros, mas o amei sim, Jonah. Talvez não de uma maneira saudável. Saber que ele está bem, está se erguendo, está feliz, me conforta de certa maneira. Por muito tempo ele confiou em mim, fui tudo que ele teve por anos. E de certa forma, sempre soube que jamais seria capaz de o fazer feliz, que estava o matando aos poucos. Ninguém pode compreender, era mais forte do que eu. Anos se passaram, é fato. E muita coisa mudou. Acordei para o que havia feito e era tarde demais. Contudo, estou aliviado por ele encontrar alguém que possa verdadeiramente fazer isso por ele. — Ele se abaixa e pega uma maleta preta em mãos, pronto para ir embora. — Quando soube que ele estava em Toronto, vim até aqui, precisava falar com ele. Mas te vi. Então, tive uma recaída, pesquisei sobre vocês. Não o fazia há muito tempo. Não tive notícias dele por todos esses anos. Vi que você é bom. E te invejo por ser o homem que não fui capaz de ser, por o ter, por o amar da forma mais sincera existente… Mas agora… tenho câncer em estado terminal. E enquanto diariamente sou submetido a um tratamento inútil doloroso e espero pelo fim, penso se não poderia morrer em paz. O Amin merece tudo de mais belo, me arrependo do que fiz. Diga a ele, que se existir uma possibilidade de me perdoar… Uma ligação, uma carta, uma mensagem para minha secretária, qualquer coisa que possa chegar até meus ouvidos antes da minha morte. Por favor… Diga que sinto muito. Sinto de verdade.
Agora saquei qual é a do chapéu. Lennon perdeu os fios de cabelo por causa do tratamento e, analisando de perto, consigo ver os sinais em seu corpo fraco.
Fecho meus olhos com força, contando até mil e um pouco mais. Tentando não pensar o quanto quero que ele morra logo. Pois, não tenho dó. O câncer é de fato uma doença muito triste e em qualquer outro quadro diferente, ficaria profundamente entristecido em saber que uma boa pessoa está lutando contra essa enfermidade. Mas não ele, e creio que qualquer um, no meu lugar, se sentirá do mesmo modo.
— Se acha no direito de pedir algo para ele? — Minha voz sai tão perplexa. — Não sou Deus, mas na minha opinião, câncer é pouco para você. Merecia coisa pior.
E sei que não é certo desejar isso, mas caralho, odeio abusadores. Todos eles deveriam ser extintos.
— Não, não me acho no direito. — Esse cara tem demência. — Só, por favor-
— Sinceramente… — Nego balançando a cabeça quando o interrompi, já é o suficiente. — Vá embora, seu desgraçado filho da puta. Dá próxima, não te darei nenhuma chance, chamarei a polícia.
E lhe dou as costas, volto para meu Amin.
E não, não estava dando chance alguma para aquele nojento, só estava poupando Amin de tudo que ruim que poderia sentir se tivesse que lidar com Lennon novamente, a polícia e toda essa confusão dolorosa. De fato, não me dizia respeito, mas é aquilo, você faria qualquer coisa para ver a que pessoa ama bem. E uma vez na vida, Amin merece ser protegido por alguém que o ama.
Todos ao seu redor foram cegos por todo esse tempo e o deixou sofrer as consequências, ele era só uma criança assustada, sem conhecimento da maldade do mundo. Sua família lhe deu as costas e o abandonou para se virar e aprender sozinho com as surras que a vida nos dá. Ele foi obrigado a amadurecer por si só, aprendendo com todos os seus erros e vulnerabilidade. E isso é um erro imenso de alguém que faz um filho e o coloca no mundo para o deixar desamparado.
Agora sendo um adulto, sei que ele é capaz de resolver seus problemas, mas queria de alguma forma mostrar o quanto me preocupo e do que sou capaz por ele.
Numa coisa Lennon está certo, Amin merece tudo de mais belo que possa ser oferecido. E o fato de Lennon se arrepender agora, de ver o que fez a um ser humano, é bom. Porém, não desfaz o que aconteceu, mas de alguma forma impedirá que ele faça o mesmo com outras pessoas. Ou ao menos é o que desejo do fundo do meu coração.
Quando chego no nosso quarto de hotel, Amin estava no telefone, falando com a recepção vestido com o robe do hotel e ainda com gotinhas de água nas partes nuas de sua pele.
— Você demorou, então resolvi pedir o jantar. — Ele diz, mas mesmo com poucos dias de convivência, notei algo estranho na sua voz que denuncia que não estava tudo bem.
Porém, já estava mais que óbvio que ia contar tudo para o Amin. Não era nem um tipo de decisão a se tomar, não esconderia o que aconteceu. Queria muito esconder a parte do pedido por perdão, mas não vale a pena mentir para o homem que amo por causa daquele merda.
— Lennon esteve aqui. — Digo de uma vez, Amin fica paralisado, os olhinhos arregalados, a mão apoia-se na mesinha do telefone. Suponho que ele já sabe e esperava que eu não fosse contar. — Veio falar contigo e desde já, te peço desculpas, Amin. Mas não consegui deixar você lidar com isso. Se estiver errado, espero que me perdoe, só estava tentando te proteger.
Silêncio.
— O que ele queria? — Ele pergunta baixinho, neutro.
Por favor, não me odeie.
— Primeiro, tentar me tirar do sério. Segundo, tentar te convencer a ficar com ele. E terceiro, como plano c, ele quer o seu perdão. — E ele me encara sem entender a última frase. — Lennon está morrendo, Amin. Câncer em estado terminal.
E Amin prende a respiração, fica assim por alguns segundos, paralisado. De repente, solta um gemido de dor e cai de joelhos no chão, apertando os braços em volta do tronco. Tentando respirar.
— Ami? Meu Deus! Meu bem? — Imediatamente vou até ele, agarrando seu corpo e ele me abraça no mesmo instante, com tanta força. Seu corpo treme. Suas lágrimas molham minha blusa.
Não tenho ideia do que isso significa.
— Jonah? Jonah? — Ele me chama, desesperado. — E-ele n-não vai mais m-machucar ninguém. Tive t-tanto medo… — E chora. — N-não ganhei a causa e meu m-maior medo por não provar que e-ele era uma ameaça para a sociedade, era o f-fato de que ele podia machucar outras p-pessoas…
Seguro seu rosto, vendo todas aquelas lágrimas rolando por sua face angelical. Amin é lindo. Seu pensamento, seus medos eram totalmente compreensíveis e ele estava certo. Para as vítimas desse tipo de violência, conseguir provar para sociedade que esse cara é um perigo, é a forma mais sensata de proteger as outras pessoas e conseguir justiça para si mesmo.
Nesse momento, sinto raiva pelo caso do Amin não ter solução benéfica para a vítima. Sinto ódio da merda de juiz que não percebeu estar inocentando um monstro.
— Não vai mesmo, meu bem. Ele não conseguirá machucar ninguém novamente. — Garanto-lhe, tentando o tranquilizar.
— E-eu… N-não s-sei o que estou sentindo… É-é horrível desejar a morte de u-uma p-pessoa, m-mas… Oh deus! Obrigado. — Ele chora, Amin sorri e chora. — Eu amo você.
— Ami. — Não sei o que dizer.
Talvez ele esteja feliz em saber que Lennon vai morrer e depois de tudo o que esse homem fez Amin sofrer, ele esteja em seu direito de se sentir feliz.
— Obrigado, obrigado por fazer isso por mim.
— Você não me odeia? Me desculpa mesmo, Ami. — E lágrimas escorrem do meu rosto.
— Não me peça desculpas, você fez isso por mim e estava certo em o fazer. Não faria bem ao meu psicológico lidar com ele, não conseguiria. — Ele me olha comovido, toca meu rosto com carinho, suas unhas curtas raspando minha barba rala, um ato que está virando costume. — Obrigado, Jon. Obrigado. — Ele está me abraçando com tanta força.
— Você vai ficar bem?
E ele balança a cabeça em concordância, dando-me toda sua certeza enquanto sorri imenso.
— Sim, definitivamente, Jonah. — E reforça com palavras. — Não quero pensar sobre nada disso agora, estou muito feliz com a nossa viagem. Então… vamos fazer amor na hidro? A água está sendo mantida aquecida.
Dou risada, feliz.
— Por favor, precisamos disso. E esse hotel foi tão caro, vamos gastar bastante água e energia. — O pego no colo repentinamente fazendo Amin soltar um gritinho de surpresa.
— Você é o homem mais incrível do mundo.
— Você que é.
— Cala boca, só eu tenho razão.
— Controladorzinho do caralho.
Amin ri.
Ele ri o resto da noite toda em meus braços, sorri até enquanto fazemos nosso amorzinho perigoso na banheira escorregadia. O que me faz ficar em paz com a minha escolha. Se eu não tivesse ido lá, talvez não fossemos capazes de esquecer a visita de Lennon e não estaríamos felizes agora.
No final das contas, Toronto reservara muito para nós. E a justiça, ah, a justiça da vida nunca falha. É como aquele famoso ditado: “a gente colhe, o que planta”.
[1] O Rogers Centre é um estádio de esportes localizado no centro da cidade de Toronto, província canadense de Ontário.
[2] Eye Smile na tradução literal seria: “Sorriso do Olho”. É quando a pessoa sorri e seus olhos fecham ou então ficam meio entreabertos, formando uma curva.
[3] Harry Potter é uma série de sete romances de fantasia escrita pela autora britânica J. K. Rowling. A série narra as aventuras de um jovem de mesmo nome, que descobre que é um bruxo ao ser convidado para estudar na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts.
[4] Lemon são mangás com cenas mais quentes e sem censura.
[5] Yaoi é um gênero de publicações que tem o foco em relações homoafetivas entre dois homens.
[6] Manhwa é um termo geral coreano para designar histórias em quadrinhos. Fora da Coreia, o termo se refere especificamente a histórias em quadrinhos da Coreia do Sul.
[7] Boy’s Love (BL) é um termo usado para trabalhos focados em relacionamentos de homens x homens que são voltados para o público feminino, quase sempre contendo romances idealizados e sexo explícito entre bishounens.
[8] Potterhead é como se denominam os fãs e fandom da série Harry Potter.
[9] Son Goku, cujo nome verdadeiro é Kakarotto é o protagonista da franquia Dragon Ball, criada por Akira Toriyama.
[10] Naruto é uma série de mangá escrita e ilustrada por Masashi Kishimoto.
[11] Twilight é uma série de histórias de fantasia e romance sobre vampiros escrita por Stephenie Meyer.
[12] Bishounen é um termo japonês que significa, literalmente, “belo jovem”. O termo descreve uma estética que pode ser encontrada em áreas desiguais da Ásia: um jovem homem cuja beleza transcende os seus limites de gênero e orientação sexual.
[13] The Vampire Diaries é uma série de televisão americana de drama sobrenatural e fantasia. É baseada na série literária de mesmo nome, da autora L.J. Smith.
[14] Os irmãos Salvatore (Demon e Stefan) são personagens da série The Vampire Diaries. A personagem principal (Elena) também é citada no decorrer da narrativa.
[15] The Hunger Games é uma série de filmes americana baseada nos livros homônimos da autora americana Suzanne Collins. A série é distribuída pela Lionsgate e consiste em quatro filmes.
[16] Maze Runner é uma trilogia cinematográfica norte-americana, que consiste em filmes de aventura e ação distópicos de ficção científica baseados nos romances The Maze Runner do autor norte-americano James Dashner.
[17] The Fast and the Furious é uma saga americana, criada em 2001, que se integra na categoria de filmes de ação. Esta saga concentra-se em torno de corridas de rua ilegais, assaltos e vários outros meios.
[18] Hotel X Toronto é um hotel chique em um arranha-céu com vista para o Lago Ontário.
[19] O edifício St. Lawrence Market South é um importante edifício do mercado público em Toronto, Ontário, Canadá.
[20] Dufferin Grove Rink é uma área de recreação ao ar livre com dois ringues para partidas informais de hóquei e patinação no gelo.
[21] Carousel Bakery é uma padaria localizada dentro do mercado St. Lawrence e serve sanduíches chamados de peameal bacon, que levam o bacon canadense.
[22] Peameal Bacon Sandwich é um sanduíche simples, feito de pão português e o famoso peameal bacon – que é um bacon canadense de um tipo de mais leve, menos gorduroso cujo é retirado das costas do porco.
[23] Buster’s Sea Company é o fast food de frutos do mar localizado dentro do mercado St. Lawrence.
[24] Lobster Roll é um sanduíche de rolo de lagosta. É feito de carne de lagosta servida em um pão grelhado ao estilo de cachorro-quente, com a abertura na parte superior e não na lateral.
[25] Churrasco’s é uma pequena banca famosa por vender o tradicional churrasco portugueses.
[26] Portuguese Custard Tarts: os pastéis de nata ou pastéis de pudim são uma massa assada que consiste em uma crosta de massa externa recheada com creme de ovo.
[27] Butter Tarts são sobremesas com uma massa doce, tendo na receita farinha, manteiga e açúcar, parecidas com as massas de tortas brasileiras, porém um pouco mais açucaradas. O recheio leva manteiga, açúcar, ovos e mais um ingrediente ao gosto do cliente.
[28] Ice Wine é um vinho gelado e doce, com a consistência parecida com a de um licor. Considerado uma bebida de sobremesa, a curiosidade é que ele é produzido a partir de uvas que congelam ainda quando estão nas videiras.
[29] CN Tower é uma torre turística e de comunicações considerada a terceira maior torre do mundo.
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