Capítulo Sete
beijos, ping-pong, amarelo e a raposa
Minha perna não parava quieta, a cada minuto que passava desbloqueava o smartphone e checava a rota que o Uber estava traçando até minha casa. Conferindo quantos minutos separavam a minha boca da sua, Song, meu corpo do seu, suas mãos das minhas e Twyla Willow soando da sua vitrola – nossa trilha sonora em meio ao seu apartamento brilhante e tão natalino.
As flores em minhas mãos são artificiais, sei que as flores de verdade são muito melhores, mas preferi as de plástico. Não é um buquê qualquer, é um ramo de flores de diversas representações das mais belas flores existentes, salpicado de tons vívidos que faziam a festa. Cada uma com sua cor predominante. Colorido como você, Amin. Tão tropical, como jaz meu coração por ti nesse momento: imerso em cores.
E sabe por que flores artificiais? Porque você gosta de eternizar os detalhes e eu soube no momento que vi esse buquê – na loja de artesanato barato ao lado do ponto de ônibus que passei minutos imersos em pensamentos sobre minha vida – que havia sido feito para você.
As cores, os detalhes… Tudo me faz pensar na sua beleza singular. Também imaginei que você iria querer guardar para todo o nosso sempre. E não quero que manche seus livros guardando flores para secar entre as páginas, pois tenho certeza que o faria. Afinal, se tornaria mais um dos nossos souvenirs.
Por isso, quando o motorista estacionou em frente ao meu prédio, desci do carro – em vista que o pagamento da corrida é debitado automaticamente pelo aplicativo –, logo passei direto pelo meu prédio e fui na direção do seu. O porteiro nem sequer precisava ligar para você, já sabia ter toda autorização e as flores entregavam que essa seria uma surpresa. Convenhamos, nossos vizinhos já devem ter percebido que tem algo rolando entre a gente.
E agora, nesse exato momento, vou torná-la um pouco mais concreta. No elevador, sorri para o espelho, ajeitei meu cabelo, não vou mentir que precisei conferir se não estava com mau cheiro nas axilas também. Queria estar bem, para te ver.
Para te ter.
Os meus passos cautelosos até a porta do seu apartamento, pareciam em sintonia com os meus batimentos cardíacos. Posso ouvir meu coração nitidamente, principalmente quando bati suavemente na porta e em menos de cinco segundos ouvi seus passos correndo em minha direção.
Tremi quando a maçaneta girou e você abriu a porta, ainda usando pijama, com as luzes piscando no interior da sua sala, os gatinhos miando como se dissessem “oi” para mim, mas nada se compara a sua beleza.
Incomparável és o brilho de seus olhos quando suas órbitas se cruzam com as minhas.
— Oi. — Saudei primeiro.
— Oi. — Ele disse igualmente tímido e alternou seu olhar entre meu rosto e o buquê.
— É para você. — Falei engasgado, minha voz soa grossa e baixa. Amin pegou as flores e sorriu, mesmo sendo de plástico tinha um cheirinho de tutti-frutti.
— Jon, que gracinha. — Ele as cheirou e sua gentileza se faz presente, a forma meiga de falar, o jeito único de me encantar. — Eu amei. Muito obrigado.
— Amin, eu vou te beijar agora. — Avancei um passo ficando mais próximo do seu corpo.
Song vacilou um pouco e ergueu a cabeça me olhando poucos centímetros abaixo. Li suas reações, tão melhor do que uma revista científica é ver diante dos meus olhos o poder que tenho sobre seu corpo.
O contato visual foi o primeiro indício, seus olhinhos brilhantes… Já os feromônios, transmitidos pelo olfato, oh, fazia meu corpo inteiro reconhecer ser você e seu cheirinho leitoso tão doce. Assim como os seus feromônios lhe indicavam o mais rápido possível que era eu ali, atiçando discretamente e rapidamente, liberando nossa dopamina, e essa, céus… é perigosa.
Segurei seu rosto delicado com minhas duas mãos, meus polegares acariciaram suas bochechas gorduchas e levemente avermelhadas, amo a textura macia que elas têm. Com mais sangue correndo por seus vasos sanguíneos, seus lábios ficaram mais cheios e avermelhados, consequentemente ornando com a pele do seu rosto salpicando tons rosados.
Mas sua boca, oh Chamin, sua boca é um convite para a minha. Nossos lábios foram tímidos de início, se esbarrando com cautela. Você estava comendo chocolate a pouco e sinto isso perfeitamente enquanto seu hálito doce batia na minha boca. Molhei meus lábios com a língua e wow, o gosto viciante ali estava… Doce como meu Amin. A explosão de sabor me invade.
Minha língua não se aquietou mais, ele lambeu seus próprios lábios e os chupei quando os prendi entre os meus. A ponta da minha língua roçava a pele macia da sua boca adocicada pelo chocolate e me foi cedido permissão para entrar, bastaram nossas línguas se encontrarem para a dopamina ser liberta como uma avalanche. O choque, o suspiro, o calor subindo por nossos corpos e explosões… Invadi sua boca e você invadiu a minha de um jeito surreal.
Finalmente, a euforia era consequência da dopamina. E foi como um click… Agarrei seu corpo, você pulou para meu colo e entrelaçou as pernas ao redor da minha cintura. Empurrou a porta em um baque enquanto cambaleei para dentro do seu apartamento – torcendo para não pisar em nenhum gatinho que amava circular nossas pernas enquanto estávamos ali. O coloquei contra uma parede e senti meu pau fisgar quando nossas virilhas foram pressionadas com força. Nossos membros despertaram no mesmo instante. Gememos sôfregos em sintonia.
Com nossos corpos colados, era nítido a adrenalina que nos possuía. Nossos corações estavam a ponto de explodir, cento e cinquenta batimentos por minuto. Consequência disso, o organismo esquenta, sangue quente correndo por nossas veias, suor, apertos e desespero.
Minhas mãos debaixo da blusa de seu pijama, sua pele macia, sinônimo de paraíso. Meus dígitos percorrendo sua pele arrepiada, a recompensa vem… seus dedinhos puxando meus fios de cabelo, tão bom, tão malvado. Delicioso. Provocante.
Resultado: prazer.
— Jonah… — Sussurrou, sua voz sedutora e provocante foi convertida em corrente elétrica, uma sensação para lá de excitante.
Te vi revirar os olhos assim que minha boca largou a sua para encher seu pescoço quentinho e cheiroso com beijos e chupões. Mordi, ele gemeu alto o suficiente para deixar meu corpo mais trêmulo e cambaleamos até o sofá. O que resultou nele, no meu colo, onde não ficou quieto, sua bundinha durinha esfregou-se na minha ereção e pensei que faleceria de prazer.
Minhas mãos automaticamente agarraram ambas suas nádegas e apertei com demasiada força, soltando um gemido alto e alastrado. Bastante doloroso como de fato meu falo se encontrava: duro, gritando, pulsando, molhado – assim como o seu.
— Não! Não! Não podemos… A-aah… Jon!
Amin tentou se afastar, mas não podia permitir, agarrei-o novamente para mim.
— Amin…
— Jon, não. — Ele rebolou forte e soltou um longo arfar sôfrego. Seu corpo dizia o contrário da sua boca. — Inferno!
Mesmo com os sinais nítidos de desejo, percebi que ele realmente estava falando sério. Por alguma razão ou motivo, Song não queria continuar com isso… Segurei seu quadril e ele foi parando os movimentos lentamente.
Caos, nós dois estávamos uma completa bagunça, mas isso é tão lindo.
— O que tem de errado? Pensei que quisesse…
— Eu quero, caralho! Quero tanto, mas… Não podemos nesse momento, digo agora. Porra, Jonah, estou há dias querendo ser fodido por você e eu só… — Suspirou frustrado e apertou minha camisa. — Você tinha que aparecer todo fogoso na hora errada? E-eu… Não estava esperando. Não estou preparado agora. Sabe?
Tombei a cabeça de lado olhando para ele, tentando entender o que queria dizer com isso. Não está preparado agora. Porra, acho que entendi. Amin precisava fazer um enema[1]? Era isso ou, sabe-se lá o quê. O que de fato, não importava, pois, não é não.
— Além disso, você me disse que tínhamos que ir com calma e definitivamente isso não é calma. Não quero que se arrependa. Quero que seja consciente que vamos fazer, Jon. — Song explicou-se e sua expressão era de pura chateação. — Mas não entenda errado, por favor. Eu quero muito, muito e muito fazer sexo com você. Ok?
— Ok. Sem problemas. — Sorri um tanto tranquilo e concordei com suas palavras o tempo todo. Pelo menos pude ficar aliviado por ser apenas aquele exato momento, digo, ele ainda quer fazer isso comigo. Graças a todas as divindades celestiais. — Desculpa. Eu só…
— Shhhh… — Ele sibilou colocando seu dedo pequenino sobre meus lábios. — Foi perfeito. Eu amei. Amei sua atitude. Seus beijos. Sua pegada. Seu caralho. Tudo. Eu estou me segurando tanto, você não faz ideia…
Estremeci só de imaginar aquela coisa durinha dentro daquele pano fino, porra… Eu queria tanto que só deixei o momento vir à tona.
— Eu posso te ajudar com isso.
— Não.
— Por favor, deixa eu te tocar.
— Não é o momento. — Disse firme, de imediato concordo e soltei um suspiro fraco deixando ao menos um pouco de minha frustração aparente. Ótimo, dois paus duros e não faremos nada a respeito. — Somos adultos, não vamos morrer por uma ereção, está bom, Sr. Black? — Completou como se tivesse lido meus pensamentos.
Amo quando ele me chama pelo pseudônimo, sei lá, é tão sensual. Só o Amin para me enlouquecer com essas coisas.
Seu sorriso lindão estava ali e abracei o corpinho de Amin quando ele se inclinou na minha direção para me beijar mais, agora calmo e suave. Sua saliva quentinha banhando minha língua na medida certa, a boca macia, porra…
Quando nossos beijos acabam, temos até que recuperar o fôlego.
— Tudo bem, Sr. Pacotinho. E nós vamos mesmo almoçar fora? — Afinal esse era nosso plano.
— Vamos e depois o senhor vai me mostrar o que prometeu que mostraria. — Sorriu sapeca e ajeitou meu cabelo. — Se vira com esse pau duro enquanto vou me trocar.
O danado disse pulando para fora do meu colo diretamente para o chão e saiu correndo todo risonho, pegou o buquê que já era alvo de destruição de Davy e Gilbert. Enquanto isso, fiquei sentado ali, o vendo sumir do meu campo de visão com meu pênis gritando dentro da minha calça e sua bunda empinadinha chacoalhando para lá e para cá.
Em seguida, a futura mamãe – Anne – pulou em meu peitoral e rolou ali com sua barriga redondinha, toda manhosa pedindo carinho.
— Eu também te amo, Anne. E sim, posso te dar carinho. — Rio baixinho lhe mimando com carícias o que me fez distrair para ficar molengo de novo. E por mais incrível que pareça, realmente, já amava a felpuda Anne também.
Amin demorou um bocadinho para ficar pronto, o que me obrigou a iniciar uma brincadeira com a bruta da Diana, fazendo ela perseguir meus dedos que corriam como se fossem uma aranha pelo carpete e a gata tentava os capturar.
O papai da gatinha sorri quando volta e vê a cena, ele não é o único surpreso. Não, mesmo. Eu também estou, principalmente quando o olho dos pés à cabeça.
Song está tão bonito… Tão bonito que até dói olhar para ele. Hoje ele está usando blusa de moletom com listras horizontais, cor lilás e com detalhes roxos, calça jeans com um rasgo no joelho e um tênis branquinho. Surpreendente como consegue ficar bonito usando qualquer roupa.
Ah, e eu amo a cor do seu cabelo. Falando nisso, suas mechas coloridas já não estão mais azuis, agora estão em um tom roxo. Acho que ele realmente gosta de fazer combinações. Ficou tão gatinho.
— Vou encarar esse olhar como um elogio. — Ele diz risonho ao caminhar na minha direção, colocando sua carteira em sua bolsa de tricô toda coloridinha, Amin está sempre carregando uma dessas, parece uma criancinha fofa. — Está pronto, gostoso?
— Estou sim, delícia. — Abandono o chão onde rolava com Diana e fico de pé, frente a frente à Amin. Assim percebo sua sútil maquiagem, acentuando sua beleza de forma bem simples e natural, ele realmente é um homem vaidoso. Me é entregue seu típico sobretudo chamativo de cor amarela e o ajudo a vestir a última peça de roupa para encarar o frio lá fora. É quando eu vejo suas unhas pintadas uma de cada cor, os tons são pastéis, bem fofo e sútil. E acho isso uma gracinha.
— Você pintou as unhas. — Observo em voz alta, pegando sua mãozinha para ver mais de perto os detalhes.
— E você não gostou? — Ele quis saber, preocupado.
— Amin, eu amei, ficou uma gracinha. E mesmo que eu não gostasse, não deveria te impedir de pintar, uh? — Pisco para ele que fica ruborizado e concorda. Amin estala um selar na minha bochecha e diz:
— Obrigado, Jonah. — E assim finalmente deixamos seu apê.
Caminhamos até a saída, pegamos o elevador, mas quando estamos em frente ao seu prédio esperando o Uber chegar, parado ao meu lado, sinto seus dedinhos quentinhos de pontas macias procurarem os meus, roçando nossas peles. Faço o que ele pede implicitamente, encaixo meus dedos longos e frios entre os seus, nos deixando de mãos dadas. E assim permanecemos durante todo o trajeto até o restaurante que Amin sugeriu, nenhum de nós dois já foi, queríamos descobrir novos lugares juntos.
Por fim, descemos do carro e subimos os poucos degraus da entrada do restaurante simpático e caseiro. O cheiro que invadiu nossas narinas era tão delicioso que fez meu estômago roncar com força. Fomos muito bem recepcionados e encaminhados até uma mesa particular. Escolher o prato foi verdadeiramente fácil, optamos pelo tradicional Poutine[2], já que estávamos com saudades de desfrutar de uma refeição digna da nossa infância e modéstia parte cheia de calorias.
Esperávamos sentados lado a lado sobre os estofados confortáveis, secretamente por baixo da mesa, tiramos nossos sapatos e ficamos apenas de meias – as minhas eram básicas, cor preta, mas as do Amin são cor de rosa com morangos estampados. Caralho, estou apaixonado até pelas meias desse cara.
As pernas dobradas como de indiozinhos, a música calma soava no ambiente e por estarmos ao lado do chafariz o som da água caindo era bastante relaxante. Amin colocou a mão sobre minha coxa e apertou atraindo minha atenção para seu rosto, ele ficou com os lábios ainda mais chamativos com a camada de gloss labial tão brilhante.
— Vamos jogar um joguinho, tipo um ping-pong. Faço uma pergunta, nós dois respondemos e então é sua vez de perguntar.
Conheço isso, é uma tentativa divertida de conhecer o outro. Isso é um encontro, Jonah Ambrose, um encontro. Concordei de imediato já demonstrando entusiasmo, quero ver até onde essas perguntas vão.
— Manda a ver.
Amin sorriu animado, ajustando sua postura enquanto bolava a primeira pergunta.
— Qual sua cor favorita?
— Preto. Mas, atualmente, o amarelo está se tornando importante para mim. E a sua?
— Eu amo amarelo também, é uma das minhas cores favoritas. Gosto muito de rosa e azul. — Amin gostar tanto de amarelo não é nenhuma novidade para mim, na verdade, essa se tornou minha cor favorita desde aquele dia que nos falamos pela primeira vez. Não gosto de amarelo, gosto de amarelo-Amin. Ele é um jardim inteiro de cores. — Ei, — ele chama de repente, apertando minha coxa. — Sabe o que eu acho? É muito romântico nós dois gostarmos tanto de amarelo.
Olho para ele com um sorriso tímido se abrindo em meu rosto. Amarelo é uma cor tão alegre e é exatamente assim que me sinto com ele, uma felicidade tão pura da qual jamais experimentei antes. E enquanto nossos olhos se encaram por segundos e acabo não dizendo nada – já que estou perdido em pensamentos –, ele completa:
— Essa é a nossa cor, Jonah. Nosso amarelo feliz.
E foi aí, nesse momento – observando seu sorriso bonito, o rostinho gorducho, os olhinhos que se resumiam a risquinhos devido ao sorrisão – que soube que definitivamente, estava apaixonado pelo meu amarelo.
E não tinha volta. Era uma passagem só de ida.
E me entrego a viagem. Aceito viver no coração alheio, visto que ele já habitava no meu.
— Para de me olhar assim, não posso te beijar em público e está me dando uma puta vontade. — Ele diz sério, sem sorrir, só engolindo seco. E vejo seu pomo de Adão subir e descer com o gesto, mostrando sua sinceridade, vontade e frustração.
— Eu amo suas cores, Ami. — E solto, sem nem perceber.
Amin encara meus olhos com tanta surpresa, vejo suas bochechas ficarem salpicadas de tons rosados e ele desvia o olhar, totalmente envergonhado.
— É isso então, somos um grande amarelo. — E volta a olhar para mim quando digo, sorrindo em aprovação. — Minha vez. Qual lugar do mundo é seu sonho visitar?
— A Ilha do Príncipe Eduardo. — A resposta é tão rápida que me surpreende. — É meu sonho, Jon, sério! Lá é tão romântico, não é? Quero tanto por meus pés nas praias de areia vermelha, conhecer os faróis e campos férteis. Comer os típicos pratos de frutos-do-mar e ficar me sentindo em um filme antiquado ao caminhar por entre os prédios governamentais vitorianos. E não posso deixar de visitar o moderno teatro e a galeria de artes. E o tempo todo fingir que estou em um filme romântico dos anos sessenta. E você? Aposto que quer conhecer o mundo todinho e depois sair escrevendo um montão.
Dou risada concordado, ele é fofo demais. Quem aguenta? E pensar em Amin na Ilha do Príncipe Eduardo me dava uma vontade danada de escrever sobre isso. Era poético.
E sei muito bem que ele era influenciado fortemente pela personagem principal dos livros que ele gosta.
— Acertou. Mas quero muito ir até Amsterdam só para visitar a casa de Anne Frank[3].
— Woah, então você é tipo minha Hazel Grace. — Sua mãozinha sai da minha coxa para segurar seu queixo em uma posição angelical.
Ele me observa, todo apaixonado com o cotovelo apoiado na superfície da mesa e a mãozinha sustentando o rosto. Seus olhinhos de cor levemente dourada estão com o semblante inocente e me encaram com um toque sutil de desejo. É minha vez de querer beijar ele.
— Hm, aceito ser o seu Augustus Waters se você aceitar ir até à casa de Anne Frank comigo, um dia. — Proponho sem nem pensar duas vezes e apoiei meu cotovelo na mesa também, dando suporte ao meu queixo com a mão enquanto o observo mais de perto. — Sem a parte triste do final, por favor.
— Com toda certeza. — Amin ri, concordando. — Eu aceito sim, Jonah.
— Ok. — Sorrio.
— Ok. — Ele sorri de volta, devolvendo a referência do casal de “A Culpa é das Estrelas[4]”.
— Minha vez. — Anuncia e vejo uma mudança sutil em sua face, pela sua expressão, julgo que a próxima pergunta vai ser indiscreta. — Ativo ou passivo?
— Amin Song! — Dei risada e encostei minhas costas no encosto da cadeira, negando ao balançar a cabeça. Ele sempre dá um jeito de falar de sexo comigo.
— Responde, vai. Estou curioso para saber. — Ele insiste.
Olho para ele que espera a resposta de forma ansiosa ao mordiscar os lábios, volto a me aproximar de seu rosto para dizer próximo ao seu ouvido, me certificando de deixar meu hálito quente bater em sua pele:
— Gosto muito, muito mesmo de foder. Mas às vezes fico a fim de ser fodido. Então eu diria flex.
— Minha nossa senhora do brioco… — Amin resfólega baixo, quase inaudível. O desestruturei inteiro, sua bochecha agora está vermelha feito tomate e engole seco de novo. — Nunca fui ativo.
— Está falando sério? — Amin tinha um fogo que nossa, me espantava saber disso.
— Sim, só tive um relacionamento. Ele era o… Você entendeu, não tive oportunidade. Mas gostaria. Porém, não dá para te comer primeiro, Jon. Eu quero tanto que me foda, é a única coisa pela qual sou capaz de te implorar. — Ele fala com tanta naturalidade que minha pressão até sobe. Minha vez de ficar com cara de bocó e bochechas ruborizadas.
— É, não dá para não querer te foder todinho primeiro. — Concluo a fala que vai tirar ele definitivamente do sério. E Amin geme em desespero, não um gemido de excitação e sim de frustração. — Isso significa que você não vai precisar implorar muito, Ami.
Ele estremece e sinto os tremeliques do seu corpo daqui.
— Que jogo sujo, Jonah. Muito malvado. — O bico que se formou em seus lábios me fez dar risada. — Você vai pagar caro depois. Quem vai fazer alguém implorar aqui será eu.
E não duvido da capacidade dele de me deixar na palma da sua mão. Caralho, se eu for sincero, já estou de quatro por esse homem.
— Não estou fazendo nada ainda, bebê. — Mordo os lábios e dou risada novamente. — Foi você quem provocou.
Amin vira a cara bufando, resolve mexer na plantinha de enfeite sobre a mesa para fugir do assunto.
— Mas você teve quantos namoros? Sei que você é bissexual. A Sra. Sams disse que teve uma namorada a um tempo atrás. — Perguntou de repente.
— A Sra. Sams sabe mais da minha vida do que eu. — Reviro os olhos, pois odeio fofoca, mas de certa forma agradeço por encorajar Amin a investir em mim. — Tive três namorados e por último uma namorada.
— E depois fala que não é gay. — Amin diz bravo e me obriga a rir. — Sabia que era um mentiroso. Você adora um pau. Nossa senhora, Jonah.
— Só falei isso para me livrar de você.
— Ah, bom saber que não me quer.
— Não disse isso. Pelo contrário, falei que não sou gay porque te queria tanto, tanto, Amin, que me assustava para caralho. Meio que estava tentando fugir desses sentimentos quando menti sobre minha sexualidade. — E a resposta o convence.
— Quer dizer que… — Ele me olha e putz seus olhos brilhavam de esperança. Adorável, sexy e fofo. Amin é uma incógnita. — Você não está fugindo mais não?
— De você? — Completamento soando até perplexo. Ele assente em concordância e o olho nos olhos quando respondo. — É claro que não, Ami. — E seguro sua mãozinha com as pontas dos dedos coloridos como um arco-íris em tons claros, encaixando nossos dedos. — A única coisa que estou fugindo agora é de ficar longe de você.
E até fico surpreso com a puta resposta sincera que meu coração lhe dá. Amin fica tão ruborizado que os músculos de seu rosto o denunciam, puxando-se em um sorriso satisfeito. Nada mais é dito, pois, o garçom nos obriga a calar quando traz para nós o almoço.
Após servidos, Amin serve nosso chá gelado e começamos a comer. Entramos em um assunto sobre comida como se não tivéssemos falado a pouco sobre sexo e tudo mais. O almoço seguiu tranquilo e após comer ficamos por mais pelo menos uma hora conversando. É claro que Amin pediu uma taça de sorvete de sobremesa e acabamos dividindo o doce enquanto brincamos de ping-pong novamente, dessa vez sem perguntas sexuais.
Quando chegamos ao assunto ex-namorado novamente, percebi que alcancei uma área perigosa com Amin. Ele fica tenso.
— Meu único relacionamento durou sete anos. Na verdade, sou divorciado, Jonah. — E sinto Amin recuar, como se tivesse medo da minha reação.
Ok, Amin foi casado. E… está tudo bem.
É normal que ele tenha tido uma vida antes da gente se conhecer, assim como também tive. Mas algumas coisas me incomodam e não consigo ignorá-las.
Um, o fato de que Amin ainda possa amar seu ex-marido. Afinal, casamento é coisa séria, ele viveu sete anos com essa pessoa, não deve ser fácil seguir em frente, mas depende totalmente das circunstâncias. O que nos leva ao dois, o fato de que se esse foi o motivo para Amin voltar para Vancouver, ele realmente se machucou. E acrescento o três, esse cara só pode ter sido um babaca por ser casado com alguém tão incrível e o deixar partir.
— Quer falar sobre isso? — Passo por cima das minhas inseguranças e pergunto, pois, é a única coisa que importa, o fato do Amin estar bem com tudo que passou.
— Acho que não quero. Não vale a pena. — Ele só diz isso.
Não quero ser o cara que é dispensado porque o outro percebeu que ainda ama seu ex, por isso me deixo ser egoísta por um momento – se é que isso pode ser considerado egoísmo – e pergunto:
— Você ainda o ama?
— Não. — Ele me olha tão sério e tão firme que pronto, não tenho mais dúvidas. — Talvez nunca tenha amado. E a única coisa que sinto é alívio quando me lembro do que vivi com essa pessoa.
E de certa forma ele desabafa um pouco, não falo nada por respeito ao que Amin havia dito anteriormente que não queria falar sobre isso. Ainda não está pronto. E posso esperar o quanto ele precisar. Busco sua mão e como forma de apoio volto a entrelaçar nossos dedos, isso o faz soltar os ombros demonstrando tranquilidade.
— Tenho uma pergunta que já deveria ter sido feita assim que nos conhecemos. — Busco um assunto para nos distrair. — Qual a sua idade, Amin?
E ele dá risada, deixando toda a tensão do assunto anterior para trás.
— Meu deus, Jonah, isso é um caminho muito perigoso, sabia? Eu poderia ter sei lá, dezesseis anos ou talvez quarenta, uh? — Brincou e nós dois ainda estávamos risonhos.
— Ora, um garoto de dezesseis anos não estaria morando sozinho na cobertura de um prédio nitidamente caro e pagando todas as contas. E se você tem quarenta anos, está tudo bem, gracinha. Adoro um coroa cheio de grana. — Ele me dá um tapa no braço, gargalhando.
— Pessoas de quarenta anos não são coroas, ok? É uma ótima idade. — Ele defende o clube dos quarenta, o que não discordo. — Eu tenho vinte e seis anos.
— Aha! Viu como eu estava certo! Só queria saber o número exato. — Minha expressão é de um cara totalmente convencido. — E quando é o seu aniversário, anjinho?
Amin me olha suspeito por chamá-lo assim.
— Treze de outubro. — Ótimo, preciso adicionar isso ao meu calendário urgentemente. — E antes que se preocupe com sua idade, já sei até a data do seu aniversário, viu? É que você deixou sua identidade exposta lá no hotel-fazenda enquanto tomava banho e como não sou bobo fui logo descobrindo as informações que precisava. Não é invasivo, viu? Você deixou lá como se fosse um convite para se ver. — Foi logo se defendendo enquanto minha expressão mudava de chocado para risonho. — Jonah Vicente Ambrose tem vinte e nove anos. Seu aniversário é dia primeiro de dezembro. O que significa que foi só a alguns dias atrás e você ficou enfurnado naquele apartamento sozinho.
— Errou! Não fiquei não, nesse dia meus amigos fizeram uma pequena comemoração, bebemos e jogamos videogame a noite toda. — Me defendo na mesma hora, aliás a única coisa que fazia questão é de não passar meu aniversário sozinho, é deprimente demais.
— Fico aliviado em saber. — Ele solta os ombros, sinal de que isso realmente o alivia. — E sua mãe tem um nome diferente, por acaso ela não é canadense?
Amin é bem atento mesmo. O nome da minha mãe é Rosângela, mas todos a chamam de Rose. De qualquer forma, já estava habituado ao seu nome de nascimento e não sentia mais a diferença.
— Mamãe é brasileira, mas cresceu aqui. Quando era criança, nós costumávamos ir ao Brasil para ver nossa família que mora lá. — Contei, era de fato uma curiosidade interessante sobre mim, pena que não tenho mais contato com essas raízes.
— Isso é tão legal, Jon. E você sabe falar português? — Amin se interessa. — Quer dizer, tenho descendência coreana, também. Sei pouco sobre meu pai, mas minha mãe comentou certa vez que ele é sul-coreano. Eles ficaram quando ele veio fazer intercâmbio aqui, ela não sabia que estava grávida quando eles terminaram e ele foi embora. É tudo que sei sobre ele. Quem considerava como meu pai mesmo, era seu ex-marido, mas eles se separaram e nunca mais o vi.
— Meu deus, não imaginava que esses olhinhos puxados eram mesmo uma herança genética asiática. Que gracinha, Amin. E que pena que ele nem sequer soube sobre você, não pensa em o procurar? — Questiono, já que raramente Amin fala sobre sua família.
— Não mesmo, deixa as coisas como estão. Até porque nem a minha mãe sabe o nome dele. — Amin dá ri sem graça e dá de ombros.
— Eu entendo, mas respondendo à sua pergunta, não sei falar português. Sabia algumas frases e palavras, mas não me arriscaria. — Dou de ombros também.
— Tão pouco eu sei coreano. — Amin ri e de repente seu rosto se ilumina e ele vem com um novo assunto. — Sabe, Jonah, você é um sagitariano realmente reverso.
— Por que diz isso? — Sobre signos nada sei, sinceramente.
— Normalmente os sagitarianos são mais agitados.
— E quem foi que disse que não sou? Quando estou com meus amigos ou vou em festas e me divirto bastante. — Beleza que estou falando de uma época bem distante da faculdade.
— Sério? Agora me deixou curioso para conhecer esse seu lado. Sabia que nós combinamos super em termos de zodíaco? — Ele pergunta piscando seus olhinhos de forma fofa, começo a perceber que Amin realmente curte esse assunto.
— É mesmo? E o que você sabe sobre?
— Libra é o signo do elemento ar e Sagitário do fogo, eles combinam muito bem. Por isso, um relacionamento tanto amoroso quanto amigável é sucesso garantido. O que significa que seremos excelentes amigos e, certamente, viveremos grandes aventuras juntos. Viajando, divertindo-se bastante, além de tornar todas as festas mais animadas. — Amin conta todo empolgado. — Gosto muito de pesquisar sobre essas coisas. — E fica tímido em expor isso. Não aguento mais tanta fofura.
— Ah, é? E você acredita que nós vamos ser assim?
— Acho mesmo é que já somos. — Ele diz convencido e concordo. É engraçado como essas coisas conseguem deixar a gente sem palavras com as coincidências. — Na verdade, quando descobri sua data de nascimento foi a primeira coisa que procurei saber, se nossos signos combinam.
— E se não combinasse, você ia desistir de mim? — Questiono seriamente e encaro seu rosto para enxergar sua verdadeira resposta.
— É claro que não ia, faria dar certo! Não é como se eu fosse um maluco por signos, tudo tem seu limite. E se nós não combinássemos nisso, daríamos um jeito de fazer dar certo, do contrário aguentaria o desastre do nosso relacionamento. — E riu no final.
Balancei a cabeça, desacreditado com essa peça rara de ser humano.
— Você é tão adorável, Ami. — Saiu assim, naturalmente. E surpreende nós dois que firmamos uma troca de olhares intensos. Depois desviamos os olhares e ficamos calados por alguns minutos, nossos polegares brincavam um com o outro, como se estivessem em uma guerra.
— Ei? — Ele chama minha atenção. — Quando vai me levar naquele lugar que prometeu? Estou curioso, Jonah.
Sua cobrança me faz perceber que já está na hora de pagar a conta e finalmente liberar um lugar para os clientes que chegam a todo momento no restaurante. Assim aceno para o garçom que entende o gesto de imediato e vai buscar a conta.
— Vou te levar até o local que mais amo no mundo. É como um esconderijo secreto para mim, sinto muito amor e orgulho de ter conquistado esse espaço. — Sorrio quando percebo o quanto curioso Amin está ficando. — Acho que vai amar esse lugar.
— Para de brincar com minha ansiedade. — Ele empurra levemente meu ombro com o seu.
— Ok, ok, nós já vamos, docinho.
O garçom traz a conta e de imediato efetuamos o pagamento, em seguida saímos do estabelecimento para pegar um Uber novamente. Nos locomovemos até o local que desejo o levar e durante o trajeto acabo contando para Amin sobre a minha péssima relação com meu pai e consequentemente a minha família. É claro que ele fica triste e até tenta me dar algum tipo de consolo, mas vou logo explicando que está tudo bem. Ser odiado pelo homem que me colocou no mundo já não era mais um problema para mim, apenas deixei de lado essa situação, visto que não há nenhuma maneira de consertar o jeito dele.
Infelizmente não poderia obrigar alguém a me amar e isso incluía meu pai. As consequências do nosso relacionamento a base de rancor, resulta em me manter distante da minha família. Sinto tanta falta da minha mãe, que era a única que ainda tinha um tipo de consideração por mim. No entanto, com o tempo ela foi se afastando e sei que é porque sempre que ela vinha me ver, voltava para casa e tinha brigas horríveis com meu pai. É doloroso ver como ela fica dividida e não a culpo por acabar ficando ao lado dele.
Descemos do carro estrategicamente um ponto acima do local que o levaria, de mãos dadas caminhamos pela calçada enquanto lhe dizia:
— Acabei saindo de casa cedo por isso comecei a vida sozinho. Sempre gostei de cafeterias, livrarias, bibliotecas e esses locais de calmaria para se ler e estudar. E através desse mundo de livros, conheci o Eugene na faculdade. Ele cursava Filosofia na época e eu Letras. Conforme fomos ficando próximos acabei mostrando um projeto que ele amou e comprou a ideia. Como sócios, nós dois fundamos a… — Paro a caminhada e solto a mão de Amin para me colocar diante do arco dourado rodeado por um jardim denso e congelado, a placa de madeira informava o nome do local. Mesmo com a neve espalhada por aí, conseguimos perceber a beleza do jardim. — Fox Coffee. Cafeteria e livraria. Gostou? Era o negócio dos meus sonhos, juntar café e livros em um único ambiente confortável.
De início parecia mesmo um tipo de floricultura, mas atrás de nós, estendia-se um prédio vitoriano de três andares, detalhes o tornava modernizado como, por exemplo, a frente inteira de vidro. Somente na entrada o jardim é mais denso trazendo paz e natureza ao ambiente de leitura, mas o caminho de pedras até a porta de vidro expunha os poucos conjuntos de mesas e bancos espalhados pelo jardim onde os clientes podiam se acomodar.
Amin parecia fascinado, juro, seus olhinhos brilhavam tanto e a primeira coisa que ele fez foi se aproximar do arco da entrada é tocar a estrutura de ferro – removendo um pouco de neve ali alocada –, depois tocou a plantinha mais próxima, que sobrevivia a estação mais fria do ano, fazendo um carinho na folha verde de orquídea.
— É tão bonito. — A calmaria em sua voz me deixava muito em paz por saber que ele gostava. — Qual é a história por trás do nome?
Adoro quando me perguntam isso. Enquanto respondo empolgadamente, vamos seguindo o caminho da entrada.
— Muitas pessoas não gostam das raposas por julgarem que elas são trapaceiras. No entanto, para mim, esses animais têm outro significado. Ela tem tantos adjetivos positivos que fica difícil falar dela sem citar tudo. Mas resumidamente, a raposa é muito sábia, astuta, observadora, persistente, gentil, ágil e tem uma habilidade invejável de se disfarçar ou se camuflar. Por isso escolhi um local inicialmente disfarçado, quem vê sem observar, não percebe que aqui é uma cafeteria e tão pouco uma livraria. Com isso eu atraio pessoas realmente interessadas e observadoras. — Seguro a mão de Amin que ouve tudo com atenção e silenciosamente entramos no estabelecimento. — A raposa simboliza não apenas a astúcia dada pela inteligência, mas também a capacidade de encontrar soluções para novos problemas que surgem.
É isso que espero, entrar em um lugar mágico como esse com um nome tão significativo, pedir um latte quentinho me sentar próximo das janelas – só para ver o jardim –, ler com paz e organizar meus pensamentos em busca de soluções para detalhes e problemas da minha vida. Essa é a essência da Fox Coffee, encontrar calmaria no dia-a-dia.
— Você se identificou com ela, não foi? — Amin observa, como uma boa raposa. — Quando saiu de casa. Quando foi obrigado a começar sua vida, sozinho e do zero. Encontrou na raposa as características que precisava ter. — Ele toca meu antebraço, mostrando que ali – embaixo de toda a roupa – estava a tatuagem da raposa, a qual ele já sabia.
Olho para ele, apaixonado e absolutamente encantado. Amin me via, tão nitidamente como o vejo. Me lia tão facilmente. Perto dele é como se eu fosse simplesmente translúcido. O olho cheio de carinho e concordo:
— Sim, encontrei nesse animal a força que precisava, Ami. O lugar que queria estar para refletir e unir forças para seguir em frente. — E meu queixo treme, pois, doeu e às vezes ainda dói tanto quando penso no quanto quebrado estava.
Meu pai havia dito que eu não teria um futuro. E hoje sobrevivo do meu comércio, dos meus livros, dos meus sonhos e desejos mais simples do meu coração. Não passo fome, tenho minha própria casa e sou capaz de fazer tudo que desejo.
E não se trata sobre minha sexualidade, tão pouco de dinheiro ou sei lá o que. Tudo que tenho, conquistei com meu esforço e se consegui é porque sou competente e corajoso. Portanto, me permito sentir orgulho de mim e assumir que meu pai estava errado.
Meus pensamentos são cortados quando sinto o abraço apertado de Amin e gradualmente o envolvo em meus braços também.
— Você me orgulha muito, Jon. — Ele diz tão sincero. Penso que é tudo que gostaríamos de ouvir ao longo da vida, após batalhar tanto e conquistar tudo com meu próprio esforço.
— Obrigado. — Digo me recompondo gradualmente. — Esse é meu esconderijo, Ami. Aqui ninguém pode me machucar. Aqui sinto que meu coração está em sua Terra.
— Eu amei, Jonah. Amei muito, muito e muito. Nunca na vida conheci um lugar tão cheio de amor e luz como esse, um lugar que carrega um significado tão lindo. Repito, me orgulho muito de você, da forma como pensa e leva sua vida. — Ele me aperta mais e de repente, nós dois estamos quase chorando emocionados.
— Ei, não é permitido chorar aqui! Vem, quero te mostrar tudo. — Vou dizendo e o puxando para dentro, Amin funga e concorda animadamente, deixamos as emoções de lado.
Agora não havia muitos clientes, somente alguns, na cafeteria, outros espalhados por aí concentrados em suas leituras. Enquanto desbravamos o local, troco um comprimento mínimo com os clientes já conhecidos.
Como tínhamos funcionários o suficiente nem sempre é necessário que eu venha trabalhar, como fico com a parte mais administrativa consigo resolver as questões pendentes de casa mesmo. Mas é claro que pelo menos duas vezes na semana passo o dia todo aqui, pois é um lugar que amo estar.
Hoje Jessica não está aqui, Eugene provavelmente está no escritório, mas quero que todos meus amigos conheçam meu vizinho. Não vejo a hora disso acontecer, estou curioso a respeito.
O salão central é extremamente confortável, com estantes altas rodeando as paredes, os sofás se fazem presentes no meio, plantinhas ali e aqui – Jessica ama espalhar a natureza por aí – enquanto encontramos ao fundo a parte da cafeteira onde temos mais mesas e cadeiras para o conforto do cliente. Os balcões diante da operadora de caixa estão lotados de doces e salgados os quais Jessie é responsável por administrar, e sim ela também se tornou minha sócia, assumindo a responsabilidade de cuidar da parte da cafeteria.
O segundo andar é um andar mais exclusivo para leitura, então só possui sofás, puffs, almofadas gigantes e algumas mesas em pontos estratégicos. Em um canto mais isolado está a parte da literatura infantil, onde origamis de pássaros foram pendurados no teto e devido a um fio de nylon ficam flutuando entre as estantes coloridas. Cadeirinhas e puffs fofos compõem o cantinho dos baixinhos.
Enquanto isso, o terceiro andar ficou exclusivamente para a parte de estudos e lan house, com mesas e computadores. E acredite se quiser, deu muito certo. Temos clientes fiéis e graças às tecnologias atuais fazemos vendas online e delivery também. Além de atrair os clientes através da publicidade, com anúncios muito bem desenhados que atraem o público certo. Era um local feliz com uma ideia inovadora e que felizmente já tinha seus cinco anos de funcionamento.
Todo o estabelecimento era bem decorado, seguindo a ideia de esconderijo, floresta e raposa. Inclusive tínhamos várias raposas de cerâmica perfeitamente bem feitas e espalhadas pelos cantos para simbolizar o nosso negócio. Foram doadas por um artista muito influente em Vancouver, delicada e exclusivamente feitas para o café.
— E por que vocês têm um palco lá no primeiro andar? — Ele quis saber. Não era um palco grande, mas uma estrutura suficiente para permitir que alguns eventos aconteçam.
— Nós temos vários eventos e usamos o palco para tudo. Tanto para jogos e brincadeiras, quanto para uma noite de canções. — Contei tudo para Amin, incluindo o fato de que tínhamos nossos eventos especiais destinados à caridade.
Recebíamos visitas de idosos da casa de repouso e passávamos um dia com os mesmos para os alegrar com leituras e brincadeiras. Também recebíamos visitas das crianças do orfanato, onde passamos essa mesma alegria para eles.
Com esses projetos recebemos mais apoio do governo e com isso o negócio cresceu de vez. Song ficou muito espantado com tudo que já conquistamos, sinceramente se não fosse por meus amigos, não teriam chegado tão longe com um simples comércio de subúrbio.
Fox Coffee cresceu bem gradualmente, o que a tornou real foi as parcerias que conseguimos. Foi definitivamente ver um sonho criar forma.
— Jonah? — Ele me chamou de repente e encontrei seu olhar bastante intrigante.
— Sim?
— A gente pode cantar juntos um dia? Você toca violão e eu canto Twyla Willow. Quero vir em todos os eventos a partir de agora. — Ri da sua animação concordando de imediato, ter Amin aqui seria tudo para mim.
— O que é, que não faço por você, Amin? É impossível dizer não.
— Ah é? E se eu te pedir um beijo agora, você vai me beijar? — Ele diz sapeca, ficando na pontinha dos pés para colocar os braços ao redor do meu pescoço, mordiscava seu lábio inferior de forma afoita. Sentia seu desejo.
Só se eu fosse bobo de negar. E isso não sou, não quando se trata de Amin Song.
Por isso, envolvi minhas mãos em sua cintura, nós estávamos no segundo andar e só havia dois clientes presentes. Uma garota estudando do outro lado da sala, um senhor de idade lendo um livro em outro canto.
Sorrindo bandido, vou trazendo o corpo de Amin até o canto mais distante dessas pessoas, cujo é a sessão de livros infantis. Ali nós dois nos jogamos no conjunto de almofadas coloridas dispostas no chão, dessa vez sou eu a me sentar sobre suas coxas. Ele não me dá tempo nem para raciocinar, vai logo agarrando a gola da minha blusa e me puxando para um beijo. E é intenso, nossas bocas se devoram com uma vontade surreal e é tão gostoso que soltamos suspiros dentro da boca um do outro.
O que faz meu coração ficar desesperado é como nossos beijos refletem um pedido indireto por mais, do quanto nós dois nos declaramos em um casual colar de lábios o quanto estamos apaixonados.
E meus lábios chegam a ficar dormentes. Sei que temos que parar quando Amin morde meu pescoço com força – após ter com toda certeza me marcado com um chupão – e gemi audível demais em uma biblioteca silenciosa. Escuto o barulho do elevador se abrindo e bem, suponho que vamos acabar sendo pegos aqui e não seria legal já que sou o dono do estabelecimento e deveria dar o exemplo.
Mas é tão difícil quando a boca quente de Amin faz um trabalho profissional na parte tão sensível do meu pescoço, meus olhos se reviram a todo momento e me mexo inquieto em seu colo.
— Jonah, você é tão gostoso… — Amin geme baixinho em meu ouvido, nossa como está difícil de segurar…
— Precisamos sair daqui, não estou aguentando me segurar tanto. — Afasto sua boca da minha pele com cautela, Amin até tenta me puxar de novo, mas o engano com um selinho demorado. Por fim seguro suas mãozinhas e me afasto, ficando de pé. O que foi uma péssima ideia já que diante dos amassos deliciosos com meu vizinho, pela segunda vez no dia, meu pau resolveu demonstrar o quanto fica animado perto dele.
— Meu deus, Ambrose! — Amin ri quando encara o volume nítido e vergonhoso como se ele não tivesse do mesmo jeito. — Você vai traumatizar seus clientes se sair daqui assim.
— Para com isso, Amin. — Finjo estar bravo e viro de costas para ele, me apoiando em uma estante para conseguir pensar em coisas que façam meu sangue esfriar.
Ainda risonho ele se levanta e se junta a mim, escolhendo um livrinho infantil e o folheando para se distrair. Em alguns minutos, lendo a historinha nós nos sentimos apresentáveis de novo. Quando estamos prontos damos as mãos novamente e descemos até o primeiro andar e uma vez de volta ao salão principal, dou de cara com Eugene que olha para mim e depois para Amin e sua expressão fica hilária.
Disse que meus amigos ficariam espantados com o fato de finalmente estar saindo com alguém.
— Gene. — Trocamos um abraço quando me aproximo. — Trouxe o Amin para conhecer a Fox Coffee. Amin, este é Eugene, meu sócio e também amigo.
— Prazer em conhecer você. — Amin estende sua mãozinha para Eugene que troca um aperto de mãos com ele. — Fico muito feliz de conhecer a pessoa que ajudou o Jonah a construir um lugar tão incrível.
— É um prazer conhecer você também, Amin. — Meu amigo responde e continua a alternar o olhar entre nós dois. — Vocês estão…
Eugene não completa a frase e fica no ar, Amin olha para mim e timidamente seu olhar cai para o chão.
— Amin é meu vizinho. Nós estamos saindo. — Determino e sinto o polegar de Amin acariciar minha mão.
— Wow, Jonah finalmente arrumou alguém para o tirar daquele apartamento. Parabéns Amin, você tem todo meu respeito. — Ele brinca e Amin acaba rindo ainda sem graça. — Temos barras de Nanaimo[5] hoje, vocês querem?
— Eu aceito sim. — Meu vizinho não pensa duas vezes, quando se trata de doce ele realmente não se controla. Quando percebo acabo ficando para trás, pois Amin soltou minha mão e foi correndo acompanhar Eugene até a parte da cafeteria.
Os dois se engajaram numa conversa animada, Amin falando que era confeiteiro e estudou em Toronto. Nem precisa de mim para tornar as coisas mais confortáveis entre eles. E olha que Eugene não era tão sociável assim, mas pelo visto os dois encontraram algo em comum. Esse é Amin, afinal, alguém extrovertido que leva alegria por onde passa.
Nós comemos alguns Nanaimos e bebi um dos meus lattes favoritos. Amin não resistiu e pediu um pedaço de Flapper Pie[6], afinal não tem como resistir. Depois conversamos mais um pouco com Eugene, até que o movimento ficou alto, pois já anoitecendo várias pessoas passam aqui na cafeteria depois do trabalho. Acabamos ajudando os funcionários com o atendimento, Amin prontamente disposto a contribuir.
E nosso dia terminou assim, alegre. Voltamos para casa, infelizmente acabamos nos separando. Mas já deixamos combinado que iria dormir com Amin de novo.
Troquei o curativo dos pontos que levei no pequeno acidente que sofremos na viagem, seguidamente peguei minha mochila e fui para o apartamento do meu vizinho. Nós ficamos conversando sobre tudo enquanto brincávamos com os gatos, mas o sono veio rápido e Amin resolveu ser a concha de fora de novo.
— Preciso te contar uma coisa. — Quebro o silêncio após já termos desejado boa noite.
— O que é?
— Ontem de madrugada tive um pico de criatividade. Escrevi dezessete páginas de uma nova ideia que tive. — Me viro na cama para ficar cara a cara com Amin. — Está dando certo, Amin. E meu deus, só tenho a te agradecer por me fazer sentir tão bem.
— Jon… — Ele me abraça todo apaixonado e retribui a intensidade. — Não é só você que está sendo ajudado. Desde que me mudei de volta para Vancouver, nunca havia tido dias tão felizes quanto os que venho tendo com você. — Seus dedos deslizaram por minha bochecha e ele fica me encarando nos olhos. — Obrigado, Jonah. Acredito que hoje foi o meu dia favorito, pois você me mostrou tanto de você. Me senti muito especial.
— Você já é especial, Ami. — E sorrio, por sua felicidade, por conseguir retribuir tudo que ele faz por mim. — Te adoro.
Ele sorri risonho.
— Te adoro, Jon. — A pontinha do seu nariz esbarra-se contra o meu. — Estou muito feliz por você voltar a escrever. Sei o quanto isso é importante e nem acredito que consegui mesmo te ajudar.
— Com você, Amin, é uma onda de felicidade atrás da outra.
E ele até riu, todo sonolento. Não está fácil para o meu coração vulnerável.
E finalmente decidimos dormir, quer dizer, não antes de ter momentos fofinhos. Só o autorizo a fechar os olhos após esfregar a pontinha de nossos narizes de novo – pois eu adorei. Faço muito carinho nele até se entregar ao sono e com meu coração inflado pela sua magnífica criatura, me recuso a fechar os olhos sem antes voltar para sua sala, seus gatos e meu laptop e escrever tudo o que estava sentindo por aquele homem.
Meu coração brilhava enquanto meus dedos teclavam as palavras com fervor e ali nascia o conto do nosso amor. Era de fato encontrar meu destino no simples ato de escrever.
E escrevo, escrevo… e me apaixono de novo e de novo.
[1] O clister, enema ou chuca é um procedimento visando lavar o intestino. Nesse contexto, têm o objetivo de limpeza para fins sexuais.
[2] Poutine é um prato canadense originário da província de Québec, consistindo de batatas fritas com coalhada de queijo cheddar (ou somente queijo derretido) coberto com um molho de carne, também pode possuir uma diversidade de acompanhamentos.
[3] A Casa de Anne Frank é um museu biográfico localizado na cidade de Amsterdã. Fundado em 3 de maio de 1960 em memória de Anne Frank, encontra-se sediado no edifício onde ela e sua família e outras quatro pessoas judias permaneceram escondidas nos anos da ocupação nazista dos Países Baixos durante a Segunda Guerra Mundial.
[4] Hazel Grace e Augustus Waters são personagens do livro escrito por John Green de nome The Fault in Our Stars. Na narrativa é citado o casal de personagens e acontecimentos da trama, além de fazer menção a obra e seus marcantes acontecimentos.
[5] Nanaimo é uma sobremesa de origem canadense, não requer cozimento e leva o nome da cidade de Nanaimo, na Colúmbia Britânica. Ele consiste em três camadas: uma base de waffer, noz, coco ralado; creme amanteigado com sabor baunilha no meio; e uma camada de ganache de chocolate por cima.
[6] Flapper Pie é uma torta de creme de baunilha coberta com merengue.
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