Capítulo Dois
gatos, neve, cupcakes e Twyla Willow
— Foi a lista mais fácil que já fiz em toda a minha vida. — Disse o Song assim que abri a porta do meu apartamento, o baixinho foi logo entrando sem nem esperar minha autorização.
Retirou suas galochas coloridas colocando-a no espaço reservado para sapatos, em seguida removeu seu enorme casaco, exageradamente amarelo, pendurando-o no porta-casacos.
Seguidamente, inalou ar profundamente quando caminhou para minha sala de estar e colocou às duas mãos na cintura analisando tudo.
— Eu amei! Você é tão cuidadoso, Jonah. É difícil encontrar homens que cuidam tão bem da casa. — Foi o que ele disse.
Isso quer dizer que ele procura muitos homens?
Ainda estava com a porta aberta e segurando a maçaneta, a fechei com cuidado caminhando ao encontro do invasivo.
— Obrigado. E aí, posso ver a lista? — Já ia pegando de sua mão, mas ele puxou bruscamente o papel para si, o protegendo em um abraço e me olhando como se eu fosse um tipo de ladrão.
— É claro que não! — Ele revirou os olhos e colocou o papel cuidadosamente no bolso do seu moletom listrado e adivinha só? Cor amarelo também! — E não ouse tentar pegar escondido.
Cruzo os braços o encarando.
— Como assim? Posso saber o porquê? — Estou um pouco decepcionado, queria tanto ver.
— Porquê, Jonah, que graça teria? Serão momentos… E momentos surpreendentes é ainda melhor. Portanto, não! Até acabar você não vai tocar nessa lista, é pelo seu bem. — Ele dizia como se tratasse de algo que pudesse comprometer a minha vida. — Além disso, você concordou com minhas regras ou já se esqueceu?
REGRAS? Eu concordei com regras. Ok, devo ter concordado e nem percebi.
Aonde foi que errei? Vou mostrar a vocês. Vamos rebobinar a fita e… Capítulo um.
“(…) Ele não me perguntou hora alguma se eu topava e enquanto tagarelava alegremente, encarei o seu rosto detalhando-o na minha mente, talvez não tenha ouvido tudo o que ele disse.”
Viram onde errei? “TALVEZ NÃO TENHA OUVIDO TUDO O QUE ELE DISSE”. Talvez. E esqueci de acrescentar que fiquei concordando com “uhum”, “ok” e “certo” enquanto o observava e concluía o quanto bonito e fofo esse homem é.
Sabia que não poderia convencer ele a me mostrar, rendido bufei e concordei com a cabeça.
Onde é que fui me meter?
— Confia em mim, Hanoj Black, sei o que estou fazendo. Você não vai se arrepender e no final vai me agradecer pelo livro que espero estar na página de dedicatória. — Arregalei meus olhos olhando-o simplesmente sem acreditar. Como ele sabe meu pseudônimo? Nunca o contei!
— Como você…? Como você sabe sobre Hanoj Black? — Tinha pânico na minha voz!
Amin riu.
— Não é óbvio? Jonah, você precisa ser melhor que isso se quiser se esconder. — Ergueu uma sobrancelha e me olhou contendo mais uma risada. — Escrever seu nome ao contrário e adicionar sua cor favorita, é muito fácil, não acha?
Estou me segurando para não soltar um palavrão enquanto ele pisca seus olhos para mim tão lentamente e da maneira mais fofa do universo.
— Ok, mas como você descobriu? Amin, estou tentando proteger a minha privacidade. — Sussurro a última frase ainda desacreditado.
— Jonah, eu sei bem, não sou fofoqueiro. Descobri sozinho, relaxa. Foi só uma análise extremamente cuidadosa e detalhista. Não sei porque o FBI ainda não me contratou. Aliás, seus livros são ótimos! Eu estou lendo Reinos de Elysian. Incrível! Você escreve para o público gay! Estou sem palavras… Ah, Jonah, você é incrível!
Amin Song me abraçou.
Tagarelou um monte de assuntos ao mesmo tempo, e simplesmente me abraçou, estava tão chocado que nem respondi. E quando se afastou para ver meu rosto ele mordeu o lábio e soltou um suspiro baixinho.
- que. isso. significa?
— Ah… Ok. — Disse-lhe ainda meio boboca com tudo isso. — Certo. Quer me contar como foi essa descoberta e-
— Jonah, agora não dá, vamos logo que precisamos sair imediatamente ou vamos perder. — Amin me puxou pela mão, levando até o hall de entrada onde pegou meu sobretudo e começou a me vestir com rapidez. Não sei se ele estava fugindo ou não da minha pergunta, não tinha tempo nem para pensar, o baixinho era rápido demais. — Antes que comece a perguntar, nós vamos ao meu apartamento, vai acontecer uma coisa que não posso perder por nada nesse mundo. Calça os sapatos, anda logo, Ambrose!
Estava bastante estabanado, mas imediatamente sussurrei um “sim, senhor” e calcei minhas botas, logo sendo puxado para fora de meu apartamento. Amin apertou o botão para chamar o elevador umas cinquenta mil vezes seguidas, só parou quando as portas de metal se abriram. Sua perna não parava de balançar – um gesto claro de ansiedade. E ficou surpreendentemente calado – não que me importe, o problema é que não consigo acompanhá-lo.
Finalmente o elevador abriu na portaria, Amin continuou me puxando pelo pulso e sorrio sem graça para meu porteiro que assiste à cena hilária sem entender bulhufas.
Fomos diretamente para seu prédio, passando pelo porteiro dele e um inquilino que conversava com o mesmo, eles pararam só para me ver pagar mico. Pegamos o elevador para a cobertura do Song que, novamente, apertou os botões de forma ansiosa.
— Não se assuste com a decoração do meu apartamento, realmente amo o Natal. — Disse-me quando se aproximava da porta e a abriu entrando rapidamente. — E ah, cuidado, temos muitas criaturas pequenas por aqui.
Logo ouvi o típico “meow” das pequenas criaturas que ele citou, mas não é pelos cinco gatos gorduchos de Song que me encontrava paralisado e estático de boca aberta. Não.
“Não se assuste com a decoração do meu apartamento, realmente amo o Natal”, esperava tudo menos estar no Polo Norte – sim, exatamente onde o Papai Noel confecciona os presentes de Natal. Juro, tento não ficar assustado, mas é impossível! É, ele ama essa época festiva.
A casa do Song é como uma cidade de New York[1], tudo era extremamente exagerado e muito enfeitado. Como isso é possível? Até os gatos estavam usando roupinhas natalinas. Fechei a porta atrás de mim, tirei meus sapatos ainda observando tudo, enquanto isso, Amin catava cada um de seus gatinhos gordos nos seus braços os chamando pelo nome enquanto eles soltavam miados em protesto devido aos apertos. Ele estava realmente tentando carregar cinco gatos ao mesmo tempo.
Impactado, caminhei pela sala que mais parecia o Rockefeller Center[2], tinha até a bendita árvore de Natal enorme, só faltou a pista para patinação no gelo. Amin é simplesmente inacreditável.
— Vem logo, Jonah, você vai perder! — Sua voz soou alto de um canto da casa, pisquei atordoado pelas luzes de pisca-pisca, só então senti o aroma delicioso de algo como bolo.
Precisei atravessar a cozinha e cada potinho de biscoito na bancada também tinha um enfeite com um babadinho natalino em volta. Céus.
A frente fria me atingiu em cheio, vinda da porta de correr da varanda, cujo está aberta. E lá estava Amin, conforme me aproximava e se revelava para mim. Olhando ansiosamente para o céu e falando com seus gatos.
— Ah! Segura aqui! Cuidado que o Davy é meio arisco. — Pediu já me estendo um dos bichos.
O tal Davy de pelugem cor caramelo me olhou desconfiado, se encolheu meio receoso, só depois que cheirou minha mão é que por fim deixou que o pegasse. Ele me deu três gatos no colo e nunca vi uma cena tão sem jeito como essa em que tento segurar três gatos de uma só vez. Estávamos na varanda a qual normalmente o vejo, Amin olhava para cima sorrindo tão contente…
— Veja, Jonah, os primeiros flocos de neve. — Ele avisou e olhei para o céu.
A primeira neve caía.
Era isso. Ele queria assistir aos primeiros flocos de neve comigo e seus cinco gatos.
O floco pequeno e delicado cai sobre minha bochecha e um dos gatinhos tenta bater a patinha em um segundo floco caindo ao redor do meu corpo. Gatos pesados – devo ressaltar.
E foi quando virei o rosto e ali estava…
Amin Song, com a língua para fora, tentando pegar um floco com a boca.
Meu coração parou.
Nunca havia ficado tão fascinado com tamanha singularidade e peculiaridade de alguém antes. Tão rápido assim, simplesmente olhei para ele e me encontrei encantado. Amin é simplesmente… Único.
Quando menos esperava, meu vizinho estava sustentando meu olhar e, novamente, naquele mesmo dia, ele ficou ruborizado. Ignorando totalmente os princípios de espaço pessoal, ele me abraçou de lado enquanto ainda olhava para o céu. Não que me importasse com espaço pessoal agora, na verdade, que se dane. Amin merecia, por tudo que ele estava fazendo por mim, se esforçando como ninguém nunca havia feito antes.
Sinceramente, se não fosse por ele jamais teria feito algo tão simples e essencial como assistir a primeira neve cair. Acho que estava dormindo esse tempo todo… São momentos assim que nos fazem perceber como cada detalhe da vida e da natureza é belo.
— Agora vai nevar para valer e toda a neve que cair aqui nesse terraço, vai ser minha. — Falou todo sorridente, amando o fato de ter sua neve particular. — Venha, assei cupcakes e tive todo o cuidado de decorar com a carinha do Shiro, só para você.
Ergui a sobrancelha e soltei uma risada antecipada.
— Você desenhou a cara daquele buldogue no pobrezinho do cupcake? — Oh, sim, ele fez. — Quem faz bullying aqui agora, Sr. Song?
Amin fez uma cara de convencido.
— Shh, Jonah, fica caladinho e vem comer. — Passou por mim e entrou na cozinha, o segui, me mantendo em seu encalço. Ele largou os gatos, lavou as mãos para abrir o forno e tirar de dentro uma travessa cheia de cupcakes com a cara do Shiro. Meu vizinho foi tão fiel que fez até os dentinhos tortinhos. — Gosto muito do Shiro, mas não posso negar que ficou muito engraçado. Fala sério!?
Quando me dei conta, nós dois estávamos quase rolando no chão de tanto gargalhar, os músculos de minhas bochechas sendo puxadas dolorosamente, minha barriga também doía e Amin segurava a sua com força, mostrando que a dele também estava doendo.
— São os cupcakes mais engraçados que já vi, como fez isso? — O olhei enquanto ainda ria, mas agora consideravelmente menos.
— Tenho uma impressora para papel de arroz, o desenho era uma foto que tirei, mas por causa do efeito que adicionei se torna um estilo aquarela. Não ficou fofo? A Sra. Sams nunca poderá saber disso. — Ele estava certo sobre a dona do cão.
— Genial. — Me levantei e o ajudei a levantar também. — Agora eles realmente estão pedindo para serem mordidos. Parece delicioso.
— Vá em frente. — Disse Amin, me incentivando a comer. Pego um bolinho e levo até a boca, dando uma mordida enorme na cabeça do Shiro, só sobrou a metade da cabeça onde ainda exibiam seus dentinhos. — Ficou bom? — Amin mordia os lábios de ansiedade para saber o que achei.
É claro que está perfeito, fecho meus olhos enquanto mastigo. Há recheio em abundância, a massa é tão macia e pouco doce – para equilibrar com o excesso de cobertura e recheio. O sabor é creme de baunilha com chocolate. Perfeito.
— Ficou surreal, estou impressionado. — Fui logo finalizando o primeiro cupcake com mais uma abocanhada. Amin bateu palmas e deu pulinhos de satisfação também comendo um bolinho na sequência.
Nós tomamos chá comendo os cupcakes do Shiro, sentados no sofá rodeado de gatos, olhando pela janela da sala vendo a neve cair. Amin contando disparadamente que estudou culinária por um tempo em Toronto, mas teve que trancar a faculdade quando voltou para Vancouver, contudo ele já tinha zerado a vida fazendo um trilhão de cursos de confeitaria. Ele gosta dos doces, foi o que me disse.
— Anne, Gilbert, Diana, Davy e Roy. — Repeti cuidadosamente os nomes dos seus gatos.
— Isso! — Seu sorriso de satisfação é enorme. — Anne está prenha, Gilbert é o pai. — Ele estava me apresentando seus “filhos” agora, os quais são seus gatos gordos.
Anne é a gata de pelo branco com manchas cinza-claro. Gilbert é o gato de cor cinza-escuro. Diana é a gata-preta que odeia todo mundo. Davy é o gato caramelo super mal-humorado e travesso. Roy é o desaparecido de cor rajada, ele realmente gosta de privacidade e não tem humor para ficar próximo da visita – mas segundo meu vizinho, ele é um amorzinho quando quer.
— Vou ser avô, dá para acreditar, Jon?
Jon. É assim que ele passou a me chamar do nada. Ri negando com a cabeça, avô de gatos, meu deus. Amin realmente ama esses animais.
— Davy! Sai daí agora, você vai destruir a minha árvore.
Amin se levantou indo até o gato que estava literalmente dentro de sua árvore, ele queria bater as patinhas nas bolinhas de natal. Com dificuldade, ele o tirou dali enquanto eu acariciava a barriga enorme de Anne – que deitou no meu colo como se fosse dona dali. Enquanto minha palma deslizava pela barriga quentinha e redondinha, podia sentir os filhotinhos se mexendo lá dentro. Pelas minhas contas são quatro. E tenho certeza absoluta que Amin vai querer ficar com todos eles.
— Ela realmente gostou de você, Jon. — Amin sorriu todo apaixonado e satisfeito.
Parece-me que o fato de sua filha felina gostar de mim, é muito importante para ele. Os gatos não são meus animais favoritos, mas gostei dos gatos do meu vizinho.
— Acho que você não reparou, mas o nome que dei-lhes tirei de um livro. Não sei se você chegou a ler, Anne of Green Gables³, escrita por Lucy Maud Montgomery. — Amin agora possuía um semblante suave enquanto acariciava o pelo macio de Diana. — Quando era pré-adolescente, ganhei um box com todos os livros, amava-os tanto. Infelizmente os perdi na mudança, mas aí quando adotei os gatinhos, nomeei eles com o nome dos personagens que mais gostava. Quer dizer, o Davy é porque ele é arteiro como o personagem que lhe deu o nome. Mas o restante, amava-os muito.
Ouvi muito falar nesses livros, embora não tenha lido, pois, quando menino gostava mais do tema de investigação policial, só depois me abri para novas possibilidades. Mas Anne é um clássico muito famoso por aqui, além da autora ser canadense, o livro se passa na Ilha do Príncipe Eduardo[3], um lugar incrível que também pertence ao nosso país. Percebi que havia ali um valor emocional muito significativo para Amin. Sorri grandemente.
— Achei incrível. São ótimos nomes, uma ótima maneira de eternizar memórias.
Amin me olhou tão suavemente, como se… Como se ele estivesse apaixonado. Minha nossa. Isso não está acontecendo. E antes que comece a ter um surto interior, ele coloca Diana no chão e se levanta dando um pulo.
— E agora, penso que devemos animar um pouco as coisas. — Disse Song indo até um cômodo da casa voltando com pantufas de animais e um disco de vinil da Twyla Willow[4]. — Já disse que sou fã da Twyla Willow? Pois bem, uma das coisas que mais amo fazer é cantar bem alto e dançar como se ninguém estivesse me olhando. Me faz… ficar em paz, sabe? Libera todo e qualquer peso do meu espírito, e, Jonah Ambrose, você definitivamente precisa se soltar mais.
Ergui uma sobrancelha o encarando.
— Você está me chamando para dançar e cantar Twyla Willow? — Cruzo meus braços já deixando claro pela minha expressão que isso não vai rolar.
— Não, de forma alguma, não estou chamando. Estou ordenando e não me venha com mais, pois você concordou que iria fazer tudo que eu escrevesse na lista. E adivinha, eu escrevi! E o que você tem contra a Twy?
Ele é ótimo em usar as coisas que concordei sem nem me lembrar de ter concordado. Julgando sua expressão ameaçadora, nesse momento, é melhor que eu não tenha nada contra Twyla Willow ou esse será muito provavelmente meu último suspiro de vida.
— Não tenho nada contra a Twyla, mas realmente não sou fã. Verdadeiramente, nem sei quais são as músicas dela. — Já devo ter ouvido uma ou outra na rádio, mas só. É que sou muito apegado à playlists e acabo não descobrindo novas canções.
— Sabe sim! Você já deve ter ouvido por aí. — Disse ele enquanto afastava o tapete para deixar o piso brilhante e liso exposto.
— Mas se ajuda, adoro a Taylor Swift, bem que elas poderiam fazer uma música juntas, né? — Comento brincando e ele me olha ameaçador.
— Elas já fizeram. — Afirmou o que fez meu queixo cair. — E eu amei… — Suspirou apaixonado.
— Nossa, realmente não sou nenhum pouco atualizado. — Até a Sra. Sams é mais esperta e atualizada do que eu. — Mas ok, vamos dançar Twyla.
— Se não souber cantar, só se mexe como uma minhoca-louca e está tudo certo. — Disse, dando de ombros como se não fosse óbvio.
Uma minhoca-louca? Meu deus.
— E se você estiver mentindo sobre o que realmente escreveu na lista? — Touché. Até onde sei, ele pode muito bem estar inventando tudo.
— Por acaso tenho cara de mentiroso, Ambrose? Você disse que confiava em mim. — Reviro meus olhos, eu disse aquilo, eu fiz aquilo, concordei com isso e blá, blá. — Para de fugir e encare os fatos. Agora calce essas pantufas, se elas te servirem.
Ele me entregou justamente a pantufa de flamingos rosas. Peguei aquela pelúcia para os pés e o encarei levemente irritado.
— Por que fiquei com a pantufa de flamingos rosas e a sua é de leão? — Isso não soa justo, o único fofo aqui é o Song.
— O que você tem contra flamingos e a cor rosa? São só pantufas. — Deu de ombros e virou de costas para colocar o disco de vinil na vitrola vintage no meio da sala.
Ele escolheu a posição da canção que queria e então um som contagiante começou a tocar alto. A bundinha redondinha e empinadinha de Amin chacoalhou de lá para cá quando a batida da música preencheu o recinto. Foi a coisa mais gostosa e mais fofa que já presenciei.
— Vem logo, seu bobo!
Balancei a cabeça negando enquanto calçava minhas pantufas e o fã número um da Twyla virou-se na minha direção e começou a cantar com a diva.
Song caminhou dançando na minha direção, obviamente ele sabia a letra de cor e sorteado, além de que cantava muito bem. O primeiro refrão chegou e ele me puxou para escorregar no seu chão, com a ajuda da pantufa e o chão liso – dançar essa canção em específico foi muito mais divertido.
Quando me dei conta, não fui relutante, estava imitando os passos de Amin e dançando a canção de forma insanamente animada ou como uma minhoca-louca – como ele mesmo havia dito.
Só sabia cantar o refrão, mas era o suficiente para o Song que, a propósito, possuí uma voz tão bela. Não sabia dizer quem canta melhor a Willow ou ele. E sinceramente, ela que me perdoe, mas ver Amin cantando com todas as suas forças e dançando como se o mundo fosse acabar, sem sombra de dúvidas, ele é muito melhor do que a cantora canadense.
Ele subia no sofá, pulava, então voltava para o chão dando um mega escorregão. Começou a perseguir seus gatos que saem correndo em disparada assustados com seu papai doidão.
Dancei, segui sua coreografia, fiz seus gatinhos dançarem com movimentos engraçados o que arrancou boas risadas do menor, aproveitamos até nos sentirmos esgotados. Há muito tempo não gastava tanta energia assim, a não ser na academia. Tarde da noite vi Amin riscar dois itens da sua lista secreta e misteriosa. Ele me levou até a portaria, então me abraçou para se despedir, e disse: “Boa noite, Jon”, me deu um beijo na bochecha e voltou todo sonolento para seu apartamento.
Fiquei ali parado como uma estátua, completamente desacreditado em tudo que havia acontecido nesse dia. Morrendo de medo de acordar e descobrir que é tudo um sonho.
Quando finalmente deitei na minha cama, encarei o teto escuro e me dei conta que sentimentos desconhecidos vieram me visitar. Sentimentos que a tanto tempo não sentia, pois, se tornaram estranhos. Meu coração estava quentinho, batendo ansioso, o rosto de Amin desenhado perfeitamente na minha mente.
É cedo demais para dizer, mas está acontecendo…
Corro o risco mortal de me apaixonar pelo meu vizinho, Chamin Song.
[1] New York: Referência ao Natal nova-iorquino que é, literalmente, coisa de cinema.
[2] Rockefeller Center é um complexo de 19 edifícios comerciais localizado em New York. Durante a época natalina é onde há uma árvore de Natal enorme e uma pista de patinação no gelo.
[3] A Ilha do Príncipe Eduardo é uma das províncias marítimas do leste do Canadá.
[4] Elizabeth Twyla Willow é uma cantora e compositora canadense. Suas composições narrativas geralmente se concentram em clássicos romances com uma pegada juvenil. A cantora é adorada pelo público jovem e apaixonado, principalmente por escrever músicas sobre liberdade de amar, tendo consequentemente como alvo o público LGBT+ e geralmente usado como símbolo o arco-íris. É uma criação fictícia para contribuir com o enredo da história.
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