Capítulo Quatro
natureza, fazenda, animais e o crush
A viagem até o hotel-fazenda que Amin reservou não era longa, apenas uma hora de estrada, porém, com a nevasca vieram os imprevistos na estrada. Não havia nevado o suficiente para paralisar tudo, mas o necessário para acrescentar duas horas a mais para nossa viagem. Sem falar que tive que instalar as correntes nos pneus, para uma viagem mais segura e isso nos custou pelo menos uma hora a mais antes de finalmente pegar a estrada. Em qualquer outra circunstância eu estaria surtando, mas depois que conheci Amin, estou me colocando em situações imprevistas sem perder a cabeça atoa.
Antigamente eu era extremamente cuidadoso com o fato de planejar tudo antes e seguir à risca. Preciso me sentir totalmente no controle da minha vida, saber que sou um adulto que está fazendo tudo corretamente. Se um pequeno detalhe dava errado, já me sentia desesperado.
Contudo, meus pensamentos estão mudando gradualmente, levar uma vida mais relax me parecia mais saudável. Amin é extremamente organizado e está tudo bem se tudo não sair nos conformes, contando que ele tente realizar o máximo possível de itens prioritários em sua lista. E essa é a vida, cheia de imprevistos. Para que ficar estressado se é impossível não ter problemas ao longo do caminho.
Apertei o volante e respirei fundo focando na estrada, estava dirigindo de forma muito cuidadosa, nós chegaríamos de uma forma ou outra. Mas tudo se tornou um verdadeiro martírio quando o Song se denominou DJ da trilha sonora da viagem.
Tenho certeza que você sabe quais músicas vão tocar a viagem inteira, né? Ah, vamos lá, você sabe… Vou dar uma dica: começa com Twyla e termina com Willow. Bufei. Santo pai eterno, não aguentava mais ouvir o nome dessa mulher, mas a essa altura já estava infectado e o vírus da Willow corria por minhas veias.
O que significa que com dez minutos de viagem já estava cantando Romantic Generation com o Amin. Os vidros da janela foram abertos deixando o ar puro e gélido invadir o interior do automóvel, cantávamos altíssimo abusando das nossas cordas vocais. Um caminhão passou no sentido contrário da rodovia e buzinou para nós, Amin acenou, todo feliz. A música tinha uma batida contagiante e gosto da letra da canção. Passa uma ideia de liberdade…
Era disso que eu precisava, liberdade! Abrir a jaula do bloqueio criativo e jogar a chave fora, me entregar completamente aos meus dias de glória. Deixar de ser um paspalho que se estressa com coisas mínimas e está evitando viver para não causar problemas.
Vou ser honesto, não foi um completo martírio, estava mentindo. Só queria dizer que nunca me senti tão feliz e vivo em toda a minha existência até agora. Por isso, te faço a pergunta mais óbvia: como não se apaixonar por Amin Song?
Me pegava desviando rapidamente o olhar da estrada para vê-lo por um milésimo de segundo. Amin estava segurando a garrafinha de água – que representava um microfone –, cantando com seus olhos fechados e um sorriso tão grande no rosto que fez meu coração errar as batidas. E quando eu era pego no flagra, seu olhar brilhavam para mim, sustentando meu olhar e inclinando a cabeça em um gesto simples para prestar atenção na estrada. Admiro o fato dele não ter vergonha alguma de cantar ou dançar na frente de um completo estranho. Amin deixa as pessoas verem sua alma, é completamente cativante.
Em determinados momentos, ele colocava a mão na minha coxa e dava um leve aperto, outrora acariciava levemente a minha nuca. Toques que não duravam muito, mas era tudo para mim…
E este é aquele momento que você começa a aceitar o fato de que tudo que a pessoa faz é simplesmente encantador.
Está acontecendo…
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— Jonah, é tudo tão mais bonito do que no anúncio! — Amin abriu as persianas com tanta vontade que o barulho das rodinhas nos trilhos foi irritante, diante dele a visão que tínhamos é espetacular.
Árvores de grande porte já possuíam acúmulo de neve nos galhos e enormes agulhas de gelo. Um lago enorme estava completamente congelado – mas não é seguro para patinar, o gelo é frágil, de forma que não podemos nem mesmo pisar – com uma ponte antiquada no meio, onde é seguro fazer uma travessia.
Ele abriu a porta de correr e quando o ar puro lhe abraçou, o garoto abriu os braços para permitir o toque do vento. Essa é a cena que abraço ele por trás e sussurro em seu ouvido o quanto estou feliz por estar aqui com ele. O quanto ele é bonito… O quanto o quero e…
Balanço a cabeça negando meus próprios pensamentos.
— É simplesmente inspirador. — Falei colocando minha mala ao lado da cama de solteiro que escolhi – à qual é justamente ao lado da cama do Amin, a um passo de distância. Pelo menos ele não escolheu um quarto de casal, isso significa que ele não está me forçando a nada e tem respeito por mim.
Caminho calmamente até ele, que está se debruçando perigosamente sobre o parapeito da sacada.
— Cuidado aí! Primeiro, não voe baixo demais para que as penas se molhem no mar e caiam. Segundo, não voe alto demais para que a cera derreta com o calor do sol[1]. — Brinquei o segurando pela cintura para fazê-lo firmar os pés no chão. Logo me coloquei ao seu lado, observando tudo, mas senti seus olhos me devorando, como se o simples toque ferrasse com suas estruturas.
Nós estamos jogando, Song? Que reine a tensão sexual, mas não vou foder o meu vizinho. E se eu…
Pare, Jonah, não existe e se…
— Dédalos e Ícaro. — Ele disse e abriu um sorrisinho tímido. Assenti uma única vez de forma firme, confirmando. Era exatamente isso o que havia citado.
— Ei, vamos logo aproveitar tudo? Estou muito ansioso para andar a cavalo. — Disse subitamente e quando me virei para olhá-lo o peguei de surpresa, seus olhos ainda estavam sobre mim e suas intenções são tão claras que me deixa tonto, Amin ficou vermelho.
Logo ele balançou a cabeça em concordância – um tanto atordoado ainda –, segurou minha mão e voltou ao seu estado de espírito natural, me puxando para fora do quarto. Só deu tempo de alcançar a câmera que havia trago para o fotografar.
E ele não me deu folga. Após pegar as bicicletas para percorrer a fazenda e visitar cada atração, Amin tinha uma listinha para seguir – como o bom guia turístico que ele é. E essa lista pude ver e acompanhar. Eram coisas simples como comer frutas frescas, abraçar filhotes de ovelhas, fazer anjos e bonecos de neve e até tive que empurrar ele no balanço do pequeno parquinho de madeira – mesmo tendo uma placa escrito que é apenas para crianças. Mas ora, meu vizinho tinha claramente a alma de uma.
Nós transitamos pelo local repleto de natureza usando nossas bicicletas, já que era um tanto longe um do outro. E quando chegou a hora de finalmente andar a cavalo, Amin se recusou a chegar perto de um, alegando ter medo.
Por fim, ele ficou com a câmera enquanto galopei pelo pasto vasto de grama-baixa e uma camada fina de neve, depois escovei meu cavalo cor marrom-terra como agradecimento e lhe alimentei com as maçãs que o cuidador nos ofereceu. Percebi que Amin ficou interessado no animal que estava demasiadamente calmo e carinhoso, com jeitinho consegui convencer a passar a mão no pescoço do animal e isso me rendeu fotos incríveis, pois ele realmente amou o fazer.
Nós tiramos tantas fotos e fizemos tantas filmagens que quando começou a escurecer a máquina fotográfica apitou pedindo bateria, por isso decidimos voltar para o nosso quarto e nos vestir para o jantar ao redor da fogueira que teria hoje.
Enquanto importava as imagens para meu notebook, Amin tomou banho e em seguida foi a minha vez. Ele fez questão de secar e pentear meu cabelo e fiquei impressionado com o resultado, nunca vi meus cachinhos tão definidos e hidratados antes. Acho que até meu cabelo precisa de um pouco mais de Amin em sua vida.
Após prontos, vestimos casacos pesados – por causa do frio – e fomos famintos para a reunião entre hóspedes e funcionários.
Estava tudo tão delicioso, Amin ficou o tempo todo conversando com umas senhoras responsáveis pela cozinha da fazenda, tudo para conseguir todas as receitas que elas estavam dispostas a conceder a ele. E meu caderninho se tornou mais dele do que meu, ele ficou desesperado anotando tudo que teve dor na mão, enquanto eu já estava com a barriga pesada de tanto comer.
Fiz um pratinho para ele, pois bem na hora que ele parou de tagarelar e rir alto com as senhoras, a música começou. Fiquei batendo palmas com o pessoal ao redor da fogueira enquanto ele comia e assistia. E se livrou do prato com rapidez para agarrar meu braço e me arrastar para o centro da festa, fui obrigado a dançar country com ele. Sim, batendo as botas no chão ao redor da fogueira e tudo mais. E nos serviram uma bebida alcoólica quente que nunca ouvi falar na minha vida, mas estava deliciosa.
Já era quase meia-noite e nossas pernas doíam, nosso corpo estava tão cansado que finalmente decidimos ir para a cama. Amin pulou nas minhas costas e me fez carregar ele até o nosso quarto. Parecíamos mortos-vivos o que me obrigou a cuidar do pacotinho cansado. O ajudei tirando suas botas, depois coloquei a pasta de dente em sua escova – escovar os dentes e vestir o pijama nunca foi tão difícil. Após o cobrir para dormir, ele se enfiou de maneira fofa embaixo da coberta grossa e pediu para aumentar o aquecedor. Parece um neném.
Quando já ia desabar na cama – após atender todas as ordens do meu rei – ele pediu baixinho:
— Jon, junta sua cama na minha, não quero dormir sozinho. — Ele já estava se entregando ao mundo dos sonhos, mas uniu forças para me pedir isso. — Juro que não vou te atacar.
E como poderia negar? Seria tão insensível! Por isso, usei as últimas porcentagens de forças que tinha no meu corpo para empurrar minha cama até colar-se a dele.
Antes de finalmente fechar os olhos, senti ele encostar seu pé no meu, só assim ele teve paz para finalmente dormir, como se precisasse de certeza absoluta que eu estava ali.
Acho que o Amin tem medo do escuro.
E eu ainda tenho medo de como isso vai terminar.
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Amin Song é um pacotinho pesado e grudento, digo isso porque seu peso está praticamente todo em cima de mim. Uma perna sobre a minha me prendendo como se eu pudesse simplesmente fugir no meio da noite, sua cabeça repousa em meu peitoral enquanto respira de forma tranquila e possui um semblante de sono bom. Uma de suas mãos repousa em meu abdômen e começo a pensar se existe uma criatura mais fofa no mundo do que ele. Tenho certeza que a resposta é não.
Ele deve estar pensando que sou um dos seus gatos, é a única explicação que tenho para ele estar tão agarrado a mim. Não sei como me mover e sair dessa armadilha sem o acordar, por isso fico uns dez minutos admirando sua feição angelical e pacífica. Seus olhinhos estão inchados – no entanto, sei que os meus estão três vezes maiores. A boquinha avermelhada está escorrendo um pouquinho de baba no canto que se encontra encostado na minha camisa. Às vezes ele tem uns espasmos engraçados e seus dedinhos que se abrem e fecham, fazendo cócegas na minha barriga.
Song, só quero saber como vou resistir aos seus encantos naturais?
Já passa de oito horas, viajar para passar o tempo todo na cama não é um dinheiro bem aproveitado, mas tenho certeza que Amin não está preocupado com isso. Afinal, descansar faz parte de se livrar de um bloqueio criativo e a essa altura já havia pago minha dívida de sono com meu próprio organismo.
Me sentia extremamente bem…
Suspiro fundo e quando finalmente tomo coragem para começar tirando sua mão do meu abdômen, seus olhos se abrem e Amin pressiona fortemente sua mão contra minha barriga, na intenção de a manter ali.
— Bom dia, Jon-Jon. — Diz de modo fofo e esfrega a bochecha lentamente sobre meu peitoral, seguidamente abrindo um sorrisinho bonitinho, parecendo um dos seus gatos manhosos. Caralho de sorriso bonito para porra. — Aí minha nossa senhora do bafo matinal!
Amin de repente se afasta de mim ao se sentar na cama e cobrir sua boca com as duas mãos, seus olhos estão tão arregalados que parecem estar prestes a saltar para fora das suas órbitas.
— Jonah! Me desculpa! — Sua voz saiu completamente abafada e minha reação é rir; cai na gargalhada por Amin estar realmente preocupado com seu bafo, como se eu também não o tivesse. Ele reprova minha risada, pois me olha feio, joga o edredom para o lado saindo da cama com pressa e caminhando rapidinho para dentro do banheiro sem dar um pio.
Ainda risonho, levanto da cama e vou até à porta do banheiro, encostando na parede ao lado esperando a minha vez de usar o recinto.
— Sério que você está preocupado com seu bafo matinal? Amin, isso não é necessário. Já parou para pensar que também tenho?
Infelizmente a vida não é como nas novelas.
Suspiro profundamente, encosto minha testa na porta ouvindo tudo que ele faz lá dentro. Cinco minutos depois ele abre a porta com seu sorriso brilhante e toda confiança de que sua boca está cheirosa.
— Acha mesmo que eu vou arriscar perder meu maior crush por causa de um bafo matinal? Nem pensar, Sr. Ambrose. — Passou por mim, dizendo e quase roçando aquele bundão em meu quadril.
Crush?
Desde quando ele tem um crush em mim?
Quer dizer, já sabia que ele estava interessado, mas não que estivesse há tanto tempo.
— Desde quando você tem um crush em mim? — Ok repetir isso em voz alta soava bastante ridículo.
Jonah Ambrose, querido, Amin Song está tão na sua. E você está tão enferrujado que em todo esse tempo tem ignorado os sinais.
Song está mesmo a fim de mim, talvez antes mesmo dessa história de lista e bloqueio criativo. Por que é que ninguém me falou? Isso explica porque a Sra. Sams ficou perguntando sobre minha vida amorosa no dia que ela me pediu para comprar sabão em pó para ela; seu único propósito era conseguir informações necessárias para o Amin poder investir.
Só queria saber o que se passa na cabeça dele em relação a mim. Talvez isso acalmasse meus medos e inseguranças.
Amin riu e negou com a cabeça.
— Esquece… — Deu de ombros assim de repente, enquanto procurava algo na sua mala. Oh, não… Ele está desanimado. Talvez ele tenha desistido por eu ser um lerdo. Ou quem sabe ele estava com vergonha de assumir? Droga.
Mas não era isso que eu queria? Ser só amigos.
Estou cometendo um erro tremendo e eventualmente perdendo um homem incrível.
Porra, Jonah.
“A pessoa certa e no momento certo vai surgir, mamãe”, dizia em relação a minha temida vida amorosa. Nunca tive pressa para o amor. E agora que alguém realmente fascinante chegou, estou relutante e ele está escapando pelos meus dedos.
— Vai logo fazer suas coisas, já perdemos tempo demais. — Atirou um pacote em minha direção e eu agarrei. — Se puder vestir isso, você vai me fazer um friendzone muito feliz.
Ah, Amin, posso ver o quanto você está decepcionado comigo. Sou um frangote. Ele esperava atitudes de mim. Provavelmente se achava bom o suficiente para me conquistar e por Deus, Amin, você é tão, tão bom que estou perdendo a cabeça.
— E-eu… E- — Ele balançou a cabeça negando minha tentativa de falar. É tudo muito recente e Amin está indo mais rápido do que posso acompanhar. Talvez por ele me ver com outros olhos a mais tempo.
— Não, Jonah, não. Está legal? Realmente entendo, você não quer nada além de amizade comigo. E prometo, não fiz a lista na intenção de conseguir um namorado. Embora realmente esteja tentando impressionar e ser notado. — Amin encarou o chão com um sorriso frio, depois olhou para mim e tentou melhorar seu sorriso colocando mais sinceridade. — Está tudo bem. Não posso esperar que passe a me desejar da mesma maneira de uma noite para o dia.
Assenti levemente, sinceramente não sei o que dizer.
— Me desculpa. — Sussurro quase inaudível.
Ele apenas dá um aceno firme e sigo para o banheiro, me trancando no recinto. Fiz o que tinha que fazer tudo no modo robótico, pois meus pensamentos estavam no cara perfeito lá fora.
E me encarei no espelho tentando dar um jeito no meu cabelo que por incrível que pareça está menos embaralhado, graças a Amin. Ao mesmo tempo, me encontrava pensativo e consequentemente estressado comigo mesmo, é incrível a minha falta de compreensão em relação as minhas atitudes. O cara lá fora é tão perfeito para mim que me assusta para caralho. Eu sei, ele não é os outros que já tive, ele não é como aquelas pessoas e é injusto compará-lo aos meus antigos relacionamentos. O problema está mesmo em mim, não sei como fazer isso… Realmente não quero magoar ele e estragar tudo.
Lavei meu rosto e me obriguei a deixar isso de lado, abri o pacote que ele me entregou. Era um suéter cor amarelo com estampa de gato – com um chifre de unicórnio e um arco-íris brilhante – escrito uma frase da música da Twyla: “Kittens are the new style” – e que obviamente não sei qual é. Pensei mil vezes em não usar essa coisa brega, mas então olhei para o tio chato no espelho e mandei ele ir à merda.
Amin gosta tanto de amarelo, já perdi as contas de quantas vezes o vi usar essa cor – é o que penso enquanto sorrio bobo e me visto.
A blusa que ficou justa demais nos meus braços, mas de resto estava perfeito. Abri a porta do banheiro e quando saio vejo que meu vizinho está me esperando e, detalhe fofo: ele usando a mesma blusa que eu.
Amin Song comprou blusas idênticas para nós dois.
Ele me olha e olho para ele, nós dois sorrimos de um jeito sincero. Meu coração dispara quando mil vezes disse que não iria me apaixonar pelo meu vizinho.
— Vamos? — Song veio até mim, trazendo a câmera, me olhou nos olhos e segurou minha mão. — Sei que deve estar se perguntando por que roupas iguais. E sei que é mais habitual que namorados façam, mas não se implica apenas a casais. Só quero tirar fotos legais com você.
— Ei, não precisa explicar. — Me viro para ele e seguro sua outra mão. — Eu amei. Não é ruim parecermos um casal.
Droga, Jonah, não faz isso com ele. Maldita mania de falar sem pensar.
E como consequência seu rosto se iluminou.
— É sério? Jonah, não brinca comigo, não me dê esperanças e depois as arranque de mim. Eu gosto de você há um tempão e pensei, por que não? Por que não tentar conquistar alguém tão incrível como você?
Seu desabafo é repentino, como se minha fala tivesse acionado um gatilho. Ele me puxou mais para si, suas mãozinhas subiram pelo meu peitoral e se colocou na ponta dos pés para ficarmos face a face. Sua mãozinha quentinha estava na minha nuca e eu gosto muito dessa sensação, mais do que deveria. Tanto tempo sem ser tocado assim, com nítidas intenções afetivas, que qualquer investida do Amin se torna algo grande dentro de mim.
Eis as consequências de se privar do amor por tanto tempo, quando acontece é de uma vez. Como uma onda gigante te afogando na praia. Impossível nadar contra o oceano.
Song, eu poderia te beijar agora como nunca, mas enquanto encaro seus olhos, estou tremendo de medo.
— Jon, você vale tanto a pena. Me deixa te mostrar que também sou valioso. — Ele diz olhando profundamente em meus olhos.
Me desestrutura inteiramente. Finalmente, deixo o impulso do meu coração tomar as rédeas da situação.
— Amin! Por Deus, você é valioso, vejo isso. Você faz coisas por mim que ninguém fez e é a melhor pessoa que conheci. Tem a capacidade de mexer inteiro comigo e me fascina imenso, mas… Sendo sincero, a verdade é que estou com medo de te magoar. Realmente, preciso ir devagar. Muito, devagar.
Estava tão assustado enquanto lhe dizia isso, abrindo meu coração, mostrando para ele o quanto fodidamente ferrado eu estava.
Amin tocou minha bochecha enquanto olhava tão preocupado em meus olhos. Ele consegue me entender e isso é tão valioso. Sinto que ele me compreende inteiramente.
— Alguém te machucou, e muito. — Concluiu.
Fechei meus olhos de imediato. Tão facilmente ele não só achou, mas tocou meu ponto fraco. Não conseguia falar sobre isso.
— Posso esperar o quanto for necessário, até que se sinta preparado para arriscar comigo. — Suspirou pesadamente. Imagino que não deve estar sendo fácil para ele. Nunca seria só sexo com o Amin, jamais o usaria assim. Prefiro ir devagar, no meu tempo e fazer tudo isso ser incrível como deve ser. Quero me apaixonar de verdade por ele. — Confio cem por cento em você. Não vai me machucar, Jonah. E mesmo que aconteça, estou disposto a correr o risco, e quando acontecer, estou disposto a lutar para consertar.
— Você não sabe o que diz, não tem ideia do quanto complicado posso ser. Eu sou um escritor, Amin e não é à toa. — Sou a pessoa mais confusa do mundo, quero fazer mil coisas e acabo mesmo é não fazendo nenhuma. A única maneira de encontrar equilíbrio na minha vida é colocando tudo para fora em forma de palavras.
E isso não o faz arregar, pelo contrário, firmemente ele diz:
— Jonah, você não pode me dizer se estou pronto ou não para amar alguém seja ela quem for. As pessoas são pessoas, elas são complicadas e isso é ser um humano. E escolher um parceiro se resume a simplesmente aceitar seus defeitos como aceito suas qualidades, todo mundo é imperfeito, erra e é chato. Eu sou chato para caralho. Odeio ficar sozinho. Tenho uma fissura assustadora por organização e limpeza, fico bravo fácil, gosto que as pessoas me obedeçam, que tudo seja do meu jeito na hora que quero e como quero. E etc. e etc. E Jon, preciso de alguém que me ajude a ser um ser humano melhor todos os dias. Mas porque eu também estou disposto a ajudar essa pessoa a ser durante toda minha existência ao lado dela.
É muito intenso. Muito recente e profundo. Amin não queria só um amante, um namorado ou um amigo. Ele queria tudo isso e um pouco mais. Um parceiro, um amor para vida. E ele acredita que esse alguém sou eu.
— Amin… — Tremi em seus braços e ele me abraçou, encostou nossas testas ainda sustentando nosso olhar intenso.
— Só preciso que me dê espaço, só isso. Apenas se abra um pouco para mim e deixe o resto comigo. Ok?
Confio nele.
— Ok. — Assenti com firmeza, podia fazer isso. Podia deixar ele entrar um pouco… Podia deixar ele tentar.
Pois, a única pessoa que me magoou, fui eu mesmo. Me machuquei tanto, que não consigo abrir espaço para mais ninguém. Tenho tanto medo da minha escuridão machucar o Amin, que tenho vontade de sair correndo toda vez que sinto vontade de beijar ele.
— Só me diz uma coisa… — O olhei muito seriamente e ele concordou levemente balançando a cabeça. — Por que eu?
Amin sorriu e descolou nossas testas para me olhar nos olhos. E sabe quando a pessoa olha no fundo da sua alma através de seus olhos? E nessa conexão você sente tudo o que ela está sentindo? Toda sua profundidade e toda a sua essência. Amin me mostrava isso apenas fitando minhas orbes. E disse, não para o mero Jonah, mas minha alma:
— Porque você entre todas as estrelas era Marte.
[1] Jonah citou os ensinamentos de Dédalos para seu filho Ícaro, conhecidos por arquitetarem um plano de fuga envolvendo as asas de cera que desenvolveram. Contudo, Ícaro ignorou as lições de voo que recebeu ao desejar ir mais e mais alto, suas asas de cera derreteram-se com o calor do sol, causando então sua morte ao cair e se afogar no mar.
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