Capítulo 10
A solidão há de me envolver
Eu gostaria de dizer que estava pronta para deixar minha filha partir. Lenine e eu sempre soubemos que esse dia chegaria, mas nada no mundo poderia realmente nos preparar para isso. Mesmo após oito meses plenos de felicidade, enquanto carregava nossa filha, sua partida deixou em mim um vazio fatal.
Finalmente pude viver toda a dor e destruição que aquilo causou ao meu ser. Desde a descoberta da doença até segurá-la sem vida em meus braços. Libertei tudo o que estava segurando enquanto cumpria o propósito de gerá-la com alegria. Toda às vezes que engoli o choro, quando quis surtar, quando amaldiçoei o destino, quando não tive forças… agora tudo rompia para fora de mim.
Deveria ser um crime enterrar uma criança.
Não fizemos velório; era doloroso demais velar o corpo da nossa filha. Juntamente de nossos familiares, fomos direto para o cemitério onde enterramos o corpinho da nossa bebê. Foi triste, frio e devastador. Não deveria existir algo mais triste do que isso. Pedi encarecidamente que ninguém me prestasse condolências, pois não existiam palavras que pudessem me consolar.
Tudo que menos precisava era ouvir “sinto muito”. Eu sei, eu também sinto, e sinto tanto que morri junto dela. Meu mundo perdeu a cor. Tudo que queria era me deitar naquela terra para ser enterrada com meu bebê.
Lenine fez um lindo elogio fúnebre para nossa filha:
“Aurora, nossa pequena luz, nosso raio de sol… foi tudo para nós, desde o primeiro instante. Um presente breve, mas eterno. Tão breve… tão dolorosamente breve.
Nos seus olhos, tão doces, e no seu toque suave, encontramos o verdadeiro sentido de nossa existência, o que nos faz viver.
Embora sua passagem tenha sido curta… ela nos ensinou sobre o amor incondicional. E sobre a beleza de cada momento, mesmo os mais fugazes.
Nos mostrou, também, como ser felizes, mesmo quando estamos em pedaços. Nos ensinou a ver felicidade onde a esperança já se foi.
Você foi… e será sempre a fusão de nossas almas. O elo invisível que nos unirá para sempre. Não importa onde esteja, filha, saiba que aqui na Terra você será amada.
Assim como jurei à sua mãe, em todas as linhas do tempo… sempre te amaremos. Você será eterna em nossos corações.
Agora, Aurora repousa no céu, brilhando para nós, junto aos nasceres e pores do sol, iluminando nossos corações com a lembrança de que o amor… é o único capaz de transcender o tempo e a ausência.”

Voltamos do enterro direto para casa. Sentada na cama, ainda em choque, Lenine tentava se aproximar se ajoelhando ao meu lado.
— Selene… por favor, fale comigo. — Sua voz estava embargada de dor. — Eu preciso saber que tu ainda está aqui, que não te perdi também. Não aguento mais esse silêncio.
Hesito, desviando o olhar.
— O que você quer que eu diga, Lenine? Não há mais nada para dizer. Ela se foi.
— Você sabe que a perdi também, não sabe? Que tá doendo dentro de mim ter que enterrar a nossa bebê. Que não suporto te ver assim… destruída. Que daria minha vida para mudar tudo isso!
— Eu sinto muito… — Sussurro, fria e incapaz de dar apoio a ele nesse momento.
— Selene, nós ainda temos um ao outro. Ainda temos uma vida pela frente. Você é tudo que me resta agora. Não me deixe sozinho nisso.
Ah, meu bem, eu sinto muito, sinto tanto por machucá-lo dessa forma. Porque quando me isolei, você também ficou sozinho e ao invés de segurar a sua mão, eu soltei.
— Eu já estou sozinha, Lenine. Não existe mais vida para mim.
— Então é isso? O nosso amor não vale nada para ti?
Me levanto e olho em seus olhos para destruir a sua alma e o seu coração com o que digo em seguida:
— O nosso amor foi enterrado junto com a nossa filha, a sete palmos de terra…
O deixo sozinho em nosso quarto, vou direto para o banheiro onde removi minhas roupas, entrei debaixo do chuveiro e comecei a chorar a ponto de pensar que iria explodir de tanta tristeza. Quando me dei conta, Lenine estava ali comigo, debaixo da água, me abraçando e chorando junto comigo. Ele não sabia, mas naquele instante meu coração já estava morto. Acho que esse foi o último toque que trocamos antes de tudo chegar ao fim.

Acontece que a liberdade não se mostrou nada além de saudades suas
Desejando ter percebido o que eu tinha quando você era meu
Eu sinto falta da sua pele bronzeada, do seu doce sorriso
Tão bom para mim, tão certo
E como você me segurou em seus braços aquela noite de setembro
A primeira vez que você me viu chorar
Back To December – Taylor Swift

Não há muito o que falar sobre o fim senão a verdade crua e resumida. Os meses seguintes foram horríveis. Não sei dizer se tive baby blues, depressão pós-parto, luto ou a unção de tudo isso. Só sei que a tristeza passou a fazer parte de mim. Parei de trabalhar, de comer, de me socializar, parei de falar com Lenine.
Minha existência se resumia a ficar sentada em minha cama, olhando para o nada e relembrando a face da minha bebê. Me lembro de ver Lenine se destruir para tentar me reerguer. Ele precisava me alimentar, dar banho e tentava conversar comigo todos os dias. Mas eu nada respondia. Era só um vazio ambulante.
— Me diga o que tenho que fazer, Selene, e farei. Faço qualquer coisa para vê-la bem. Qualquer coisa para te ter de volta.
Doía no fundo do meu ser ver alguém que amo sofrer tanto, mas simplesmente não conseguia reagir. Não há explicação para o que me aconteceu. Lenine recorreu aos meus pais, a ajuda médica e nada.
Nada e nem ninguém podia me ajudar, porque não era como se alguém tivesse que fazê-lo. Afinal, nada e nem ninguém podia trazer a minha bebê de volta.
Foi em uma manhã de agosto quando simplesmente me levantei da cama e voltei ao normal como se nada tivesse acontecido. Lenine tentava falar sobre o incidente, mas eu desviava a todo custo. Decidi que iria apenas viver como se tudo aquilo não tivesse acontecido. Meu marido percebeu a mudança repentina e, embora confuso e aliviado, acabei o magoando profundamente.
Foi aí que as brigas começaram.
— Então é isso? Tu vai levantar um dia e fingir que tudo foi um pesadelo? Que a Aurora nunca existiu?
Evitando seu olhar, apenas respondo:
— Só quero seguir em frente, Lenine. Viver. Focar no que ainda temos.
— E o que nós temos agora? Tu passou meses sem dizer uma palavra pra mim, sem ao menos olhar na minha direção, e agora… tu quer que eu simplesmente finja também? Que aceite que foi só uma fase?
— Faço o que for preciso para sobreviver, Lenine! — Exclamo, começando a ficar exaltada. — Ou você acha que vou passar a vida inteira chorando? Você não entende o que é perder algo assim.
A expressão de Lenine muda instantaneamente para chocado.
— Não entendo? Perdi minha filha também, Selene. Mas pelo visto, também te perdi, e ninguém mais pareceu notar isso.
Levanto da nossa mesa de jantar e exausta encerro a discussão:
— Talvez eu tenha morrido junto com ela… não há mais nada em mim.
Dou-lhe as costas.

De repente, neste verão, está claro
Eu nunca tive a coragem de minhas convicções
Enquanto o perigo estiver próximo
E ele está logo na esquina, querido
Porque ele vive em mim
Não, eu nunca poderia te dar paz
Peace – Taylor Swift

Naquele primeiro dezembro, após perdermos nossa filha, decidimos não fazer a nossa trilha costumeira. Em uma certa noite em casa, após uma tentativa de passar a véspera de Natal com a família de Lenine – o mesmo que tanto insistiu para que fossemos –, eu me encontrava exausta e silenciosa, parada em nossa cozinha, mexendo distraidamente em uma caneca de chá enquanto Lenine parecia estar à beira de um colapso.
E o tornado vem raivoso em minha direção.
— Eu não aguento mais isso, Selene. Esse vazio. A forma como tu simplesmente… se fecha. Parece que não importa o quanto eu tente, nunca vou ter a minha esposa de volta. Acho que te perdi no mesmo dia que perdi a Aurora, e tu… tu nem tenta, nem por um segundo, lutar para voltar.
Eu sequer consigo olhá-lo.
— Já disse que estou fazendo o que posso. Para mim, estar aqui, vivendo cada dia, já é um esforço enorme. — Deixo a sinceridade fria sair por entre meus lábios e levo a xícara de chá até a boca, degustando de sua calmaria que pouco faz efeito em meu interior.
— Isso? Isso é viver pra ti? Fugir de tudo que um dia significou algo? De nós? Do que um dia fomos? — Sua voz soa incrédula, a cada segundo o magoo mais.
Incomodada com suas cobranças a essa hora da noite e num dia tão difícil quanto o Natal, cujo preciso lembrar, ano passado estávamos celebrando felizes com nossa família, grávidos da nossa filha; coloco a caneca sobre o balcão com força e finalmente encaro o homem diante de mim. E o tsunami vem me rasgando de dentro pra fora.
— Você fala como se fosse fácil! Como se eu pudesse apenas escolher esquecer o que aconteceu!
— Esquecer? Eu nunca te pedi para esquecer! Mas preciso de ti aqui. Preciso da mulher que amei, que me casei, não dessa… sombra que insiste em me lembrar da perda o tempo todo. É como se… como se tu estivesse morta também.
Uma risada amarga escapa, quase sem querer, carregada de dor. Eu não podia fingir que estava tudo bem.
— Talvez eu esteja. Talvez você não tenha percebido que a pessoa que você gostava nunca mais vai existir. O que quer que eu faça, Lenine? Que finja que não sinto? Que sorria pra você e finja que está tudo bem? Porque se é isso, eu não sou capaz.
Lenine está me encarando, ele mantém nossos olhos conectados, ele enxerga a ira dentro de mim enquanto vejo a mágoa dentro dele. Somos espelhos, reflexos do que não gostaríamos de ver nunca um dentro de outro. Somos animais selvagens se estranhando em meio a selva.
— Não quero que finja, mas quero que me deixe tentar. Eu tentei lutar por nós, mas tu… tu só se entrega a essa dor e nos deixou de fora! E eu tô exausto, Selene. Tô cansado de tentar segurar algo que só eu quero.
O observo profundamente, sentindo todo o gelo do meu coração formar minhas próximas palavras.
— Talvez você devesse parar de tentar, então. Se isso está te destruindo, vá embora, Lenine. Ninguém está te obrigando a ficar.
A expressão de Lenine é de quem levou um soco no estômago; ele passa a mão pelo rosto, procurando palavras que não vêm. Conheço Lenine há mais de 20 anos e em todo esse tempo jamais o vi assim. Tudo isso só prova o quanto o destruí profundamente. E é tudo minha culpa. Não mereço seu amor, sua bondade, sua luta intensa por nós dois. Ele está sozinho e não posso mais o manter perto de mim.
Com a voz falha, ele engole seco e diz:
— É isso que tu quer? Que eu vá embora? Depois de tudo o que passamos? Depois de todas as promessas?
— Promessas não trazem a Aurora de volta. Promessas não curam o vazio que ficou aqui dentro. Talvez… talvez seja melhor assim. Eu não sou a mesma, Lenine, talvez nunca mais seja.
Vejo os olhos do meu amor ficarem marejados.
— Tu é minha esposa, eu a amo. Te fiz uma promessa no altar e quebrá-la nunca foi uma possibilidade. — Ele solta uma risada soprada e debochada, cheia de incredulidade. — Mas é preciso reconhecer quando algo chega ao fim e me dói perceber que talvez isso tenha acontecido conosco. Ainda não aceito, não quero tomar essa decisão. Não posso simplesmente te deixar aos cacos, Selene. Devíamos enfrentar isso juntos…
— Mas é exatamente disso que preciso, Lenine. Ficar sozinha. Parar de te machucar com a minha dor, porque isso não vai passar nunca. — Sinto uma dor massacrante no meu coração, mas preciso libertá-lo da escuridão que pertence só a mim. — Eu te liberto de quaisquer promessas que tenha me feito um dia.
Nunca pensei que o brilho em seus olhos direcionados para mim iria um dia se apagar. No entanto, como uma noite sem estrelas, seus olhos se afogam em escuridão diante da mulher de pedra diante de si. Uma lágrima rola as maçãs da face de Lenine e rapidamente some por entre os fios grossos de barba que cobrem seu rosto.
— A Aurora foi um presente, sabia? Sua vida foi curta, mas ela é muito mais do que isso, Sel. Ela foi tudo pra mim. Tu gerou a nossa filha pelo tempo que pôde, fez de tudo para que ela vivesse a vida que lhe foi predestinada e me orgulho muito da sua força, porque, honestamente, não é qualquer um que consegue fazer o que tu fez. E entendo que por causa disso, tu tá destruída. Mas…
— Não tem “mas”, Lene. Por favor, pare de falar nela. Isso só me machuca mais.
Ele solta os ombros e assente em rendição. Sei que ele já não tem mais forças.
— Selene, não sei mais o que fazer. Sinto que tudo o que tento só piora as coisas entre nós. Não é como se eu quisesse ir, mas… talvez devesse me afastar, deixar tu respirar. Talvez eu esteja só… te sufocando.
— Eu nunca pedi para você ficar, Lenine. Talvez isso seja o melhor. Pra você.
Com uma dor evidente, ele nem tenta mais segurar as lágrimas.
— Melhor pra mim? Tu acha que quero ir embora? Que quero te deixar aqui, sozinha, com tudo isso? Tô fazendo isso porque… porque não sei mais como te ajudar. Parece que qualquer coisa que eu faça só aumenta a sua dor. E eu… eu não quero ser mais um peso pra você.
— Não tem como ninguém aliviar o que sinto. Então, sim, talvez seja melhor você ir. Você já fez tudo o que podia, Lenine.
Ele me encara, vasculha meu rosto, lê a minha postura e tenta invadir dentro de mim com seu olhar magnético. Sem sucesso, uma vez que a nossa conexão se quebrou há muito tempo. Mas ele insiste, continua tentando encontrar alguma reação, algum sinal de que eu ainda queira que ele fique.
E não dou.
Porque nem eu mesma sei se quero isso.
— Então é isso? Tu quer que eu vá? Que desista de nós? Porque, Selene… se eu sair por aquela porta, será para que tu possa ter o espaço que precisa, mas… não sei se consigo viver sem ti.
Desviando o olhar do seu, reúno forças para acabar com isso de uma vez.
— Talvez seja o que você precisa. Uma chance de viver. Porque aqui… comigo, Lenine, tudo o que você encontrará é escuridão. Eu já não sei o que é amar alguém, nem a mim mesma.
— E você acha que consigo seguir em frente, sabendo que tu está aqui, sozinha, presa nessa dor? Selene, eu daria tudo para te ver sorrir de novo, mas… — Ele engole seco, tentando conter o choro. — Talvez eu seja parte do problema, e não da solução.
— Não sei se há uma solução pra isso. — Minha voz é quase inaudível, então solto o que tenho segurado dentro de mim por muito tempo, temendo magoá-lo: — Preciso confessar que a sua presença é como um fantasma para mim. Eu te olho e vejo a nossa filha. Não consigo mais suportar isso.
E isso finalmente acaba com o que restou dele. E por fim o faz entender o que está acontecendo. O que sempre esteve diante de seus olhos e teimou em negar. E ainda assim, diante da verdade cruel, ele me implora com os olhos e novamente descobre que não tem mais nada para ele ali.
Dando um passo hesitante para trás, ainda sem conseguir tirar os olhos dos meus, ele finalmente diz:
— Então eu vou…, mas só porque não sei mais o que fazer. E talvez… talvez essa distância te ajude de alguma forma. Mas saiba que… se um dia tu precisar, eu volto. Mesmo que seja só para ficar em silêncio ao seu lado.
— Talvez eu tenha me perdido de você quando perdi tudo, Lenine. Eu… sinto muito. — É tudo que consigo lhe dizer com o olhar perdido no chão aos meus pés.
Lenine hesita mais uma vez.
— Eu te amo, Selene. E é por isso que… vou te dar esse espaço. Mas não pense que isso significa que desisti de nós. Estou indo porque preciso acreditar que, em algum momento, tu encontrará a si mesma. E talvez, quem sabe, encontre o caminho de volta pra mim também.
E o amor da minha vida finalmente sai do cômodo, me deixando sozinha em meio ao silêncio pesado em nossa casa. Me sento em uma cadeira da cozinha enquanto o ouço revirar o guarda-roupa e fazer as malas. Mal consigo respirar nos minutos que se passam. Penso se ele não vai voltar atrás, se não virá até aqui e implorará para ficar. No entanto, isso não acontece. Lenine apenas atravessa o corredor em direção à saída sem me dirigir mais nenhum olhar sequer.
Até que finalmente ouço a porta se fechando.
E é definitivo.
Só restou eu e meus pedaços espalhados pelo chão, lidando com a solidão que escolhi para mim.

E você levou cinco minutos inteiros
Para arrumar nossas malas e me deixar com isso
Segurando todo esse amor aqui fora no corredor
Eu acho que já vi esse filme antes
E eu não gostei do final
Você não é mais minha terra natal
Então, o que estou defendendo agora?
Você era minha cidade
Agora estou em exílio, vendo você partir
Exile – Taylor Swift & Bon Iver
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