Epílogo

Uma canção à Aurora

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É inverno e está nevando em Nevoeiro do Sul.

E não posso evitar relembrar a trajetória mística que vivi naquele Natal.

Alguns anos se passaram e a vida nos presenteou de formas que, naquela época, jamais poderíamos ter imaginado. Estou aqui, na mesma varanda onde Lenine e eu testemunhamos aquela nevasca inesperada em pleno verão, sentindo agora o frio suave do inverno e o calor silencioso do amor que construímos. Em nosso quintal vejo a figura ilustre de duas menininhas brincando encantadas com os primeiros flocos que caem do céu enquanto nosso cachorrinho corre ao seu redor.

Sinto a presença do meu marido se aproximando de mim, ele me entrega uma xícara fumegante de chá enquanto acaricio minha barriga, onde carrego nosso terceiro filho. Desta vez, é um menino.

Um ano depois dos fatos que nos fizeram regressar para o nosso amor, descobri a gravidez da Helena, nossa filha mais velha. Ela tinha apenas 9 meses de vida quando fui surpreendida por Lilian, a recém-promovida a filha do meio. E agora teremos Elias, nosso garotinho.

A neve antes era um lembrete de perda e saudade, hoje se derrama sobre Nevoeiro do Sul como um símbolo de renovação, paz e continuidade. Cada floco que cai traz consigo uma lembrança, uma certeza de que, apesar de tudo, estamos exatamente onde deveríamos estar. Olho para Lenine, que sorri e me envolve em um abraço, unindo-nos em um calor que supera o frio daqui de fora.

— Parece um sonho, não é? — Sussurra e apenas concordo, encostando minha cabeça em seu ombro.

— A boa notícia é que não vou acordar. — Declarei, aliviada. — E tampouco voltar no tempo. — Rimos em uníssono. — Meu lugar é aqui, com vocês, onde meu coração está.

— Confesso que quando imaginava a felicidade ao seu lado, não chegava nem perto disso. — Ele diz com um sorriso lindo enfeitando seus lábios.

— É mesmo? Eu meio que superei os seus sonhos?

— Ah, sim, definitivamente sim. — Lenine sela seus lábios aos meus e me beija com ternura, sinto seu coração bater contra minha mão apoiada em seu peito. — Te amo.

— Se existem multiversos, como teorizamos outro dia, saiba que eu me apaixonaria por ti em todas as linhas do tempo. — Recito as próprias palavras dele para retribuir seus sentimentos.

Seus olhos brilham cheios de admiração e trocamos um beijo novamente.

— Juntos no topo e através do tempo. — Ele recita, dando-me uma piscadela que me deixa de bochechas quentes.

— Papai? Papai? — Somos interrompidos por Helena que desata a chamá-lo.

— Sim, minha guriazinha. — Lenine responde, atento.

— Vem brincar com a gente.

Meu marido sorri para mim e sussurro um “vai lá” quando sela meus lábios novamente em despedida. Ele corre para o quintal já pegando Lilian nos braços e girando-a no ar. Dou risada quando vejo que ele precisa repetir a ação com a mais velha.

Sinto um movimento suave ao meu lado e nem preciso olhar para saber quem está aqui. É aquela velha madame danada que vive me perseguindo.

Moira, a senhora do parque e dos meus sonhos e, talvez, um anjo disfarçado, está aqui assistindo à cena com seus olhos cheios de sabedoria e ternura. Desde o nosso retorno a Nevoeiro do Sul, Moira desapareceu. Sua aparição repentina agora deveria me assustar, mas não acontece, porque sei que não tenho mais nada a temer. Sei que eu lutaria com unhas e dentes para manter essa minha linha do tempo, esse meu universo, do jeitinho que está.

— Eu disse que você ainda veria dias melhores, não disse? — Comenta Moira, com aquele tom inconfundível que parece sempre saber mais do que revela. — A neve, minha querida Selene, é só o início. Ela cobre o passado, mas deixa o solo fértil para o que ainda está por vir. Afinal, logo após o inverno, vem a primavera.

Sorrio para ela, lembrando de tudo o que essa mulher significou para nós. Ela é mais que uma fantasia; é uma guia, uma presença que trouxe luz nos momentos mais escuros. Graças a Moira pude me reencontrar e regressar para os braços do homem que amava. Por causa dela pude enxergar que estava tentando assassinar a lembrança da minha filha, ao invés de eternizá-la em mim.

Moira olha para minha barriga e coloca a mão ali, num gesto gentil. Um calor confortável se espalha, como se uma bênção silenciosa estivesse sendo oferecida.

— Esse será um grande presente para vocês. — Profere, olhando para a cena da minha família brincando no quintal. — Algo me diz que ele veio ao mundo trazendo ainda mais luz.

— Devo muito a você. — Comento, sentindo meu queixo tremer.

— Não, querida, você não me deve nada. Eu quem te devia. Mas acho que minha missão aqui acabou há tempos.

— Acho que é hora de deixar você partir, não é?

— Não há mais nada aqui para essa velhota.

Dou uma risada baixa.

— Adeus, Madame Moira.

Moira se afasta silenciosamente, com um último olhar afetuoso. E, enquanto ela desaparece na imensidão branca, sei que estará sempre ali, como uma guardiã silenciosa do amor e das memórias que continuaremos a construir.

— Mainha, tu não vem? — Lilian me grita.

— Estou a caminho! — Respondo de volta.

Sinto Elias se mover em meu ventre, arrancando-me um sorriso. Observo tudo que tenho, a minha casa, minha família, o amor que fundei ao lado de Lenine. A nevasca cobre a paisagem como um véu branco e puro, sinto uma paz indescritível. A saudade de Aurora, nossa primeira filha, que partiu cedo demais, ainda está presente, mas agora ela é uma presença suave, como o toque da neve no rosto.

E posso concluir que aprendi muito desde que ela se foi.

Aprendi que, assim como o amor, o luto é eterno; nunca haverá um dia em que você simplesmente esquecerá alguém que tanto amou. Não há tempo que cure uma ausência amada. A verdade é que o luto ensina a eternizar o amor. E por mais que pareça impossível, a dor vai diminuir, conforme os anos se passarem, vai se tornando menos aguda, mas jamais esquecida. O luto se torna uma ferida cicatrizada, sempre presente, para jamais ser esquecida, mas já não dói mais tanto assim. O tempo conforta e não há lugar melhor para aqueles que já se foram, do que as memórias belas que eles tatuaram em nossos corações. Não mais associados a lágrimas e tristezas profundas, mas sim a mais plena e pura felicidade.

Estaria mentindo se dissesse que ocasionalmente a cicatriz vai coçar e você vai arrancar aquela típica casquinha de machucado cicatrizado – como fazíamos na infância. Arderá um pouco, talvez saia um pouco de sangue, mas o choro já não dura por tanto tempo, pois as memórias serão sempre o bálsamo que faz a dor passar, como as mães que assopram os joelhos ralados.

E espero que, ao lembrar-se de quem deixou saudades, tenha à mão um imenso álbum de fotografias, para, assim como eu, viajar no tempo através delas.

Viva plenamente o seu hoje e não se esqueça de fotografar cada detalhe.

Fecho os olhos e murmuro, quase em silêncio:

— Obrigada, Aurora. Obrigada por nos ensinar a amar de verdade.

Ali, cercados pela neve que uma vez representou tristeza, percebemos que ela agora é um símbolo de renovação e vida.

Quando alcanço a festa no meu quintal, Lenine me puxa para um abraço apertado, enquanto nossas pequenas correm ao redor. Os cristais de gelo que caem suavemente, nos envolvem, assim como o amor que atravessou os momentos mais difíceis, crescendo e florescendo.

Nosso amor, nosso lar, nossos filhos – e essa nova vida crescendo em mim – são as respostas que sempre busquei e o futuro que sempre desejei. E, ao lado daqueles que amo, em um inverno que já não traz a dor de antes, sei que estamos exatamente onde deveríamos estar, onde sempre pertencemos.

Afinal, talvez o amor verdadeiro seja isso: um lar que você leva para sempre no coração, mesmo quando algumas partes passam a viver apenas em nossas memórias. A força do amor é tão grande que não há neve que possa cobri-lo.

O amor cura.

O amor eterniza.

O amor é o único capaz de transcender o tempo e a ausência.

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