Prólogo
Para…
Aqueles que atravessam o inverno de suas almas, esperando pela aurora.
Aqueles que, como Selene, enfrentaram e sobreviveram às suas próprias “tempestades”.
Aos amores que vão e vêm.
E aos corações que se reconectam depois do frio.
E, principalmente, a todos os que perdemos, saibam que vocês continuam vivos no mais profundo de nossos corações e memórias.
O amor nada mais é do que a eternização de uma alma e a chama que mantém vivo aqueles que o sentem.

Quando os lobos uivam ao gelo
Dizem que os pesadelos são espelhos, reflexos distorcidos do caos em nossa realidade. Minha história começa assim, com um sonho agonizante, o presságio de eventos surreais que viriam a seguir.
A luz suave do dia ilumina o local onde estou, trazendo uma calma temporária. No entanto, essa tranquilidade é ilusória, dissipa-se rapidamente quando o pesadelo, faminto como uma fera, me envolve mais uma vez. O frio na espinha me lembra que, por trás da beleza da vida, existe um abismo de medo que não posso ignorar. A paz é como o gelo fino sobre o lago, bonita, mas deveras perigosa.
No pesadelo, estou diante de um lago esbelto, sem qualquer vestígio de memória que me faça reconhecer o lugar, fazendo-me perceber que nunca estive ali.
As silhuetas de lobos selvagens transitam por entre as árvores do outro lado do lago, fiscalizando-me de longe e distantes o suficiente da minha carne. Se parecem com as memórias que luto para esconder profundamente dentro de mim, prontas para romper as cicatrizes e fazer-me sangrar.
O dia se exibe radiante, o céu quase branco, sem nuvens, e o sol, intenso, derrama seus raios sobre tudo, atravessando seus feixes por entre as folhas das copas das imensas árvores que ladeiam o lago.
A água brilha sob a luz do sol, refletindo o céu límpido, uma sensação opressiva insiste em me invadir. O peso em meu peito é como correntes invisíveis, que me mantém presa em um mundo sem saída. Meu olhar busca, desesperado, uma maneira de escapar dessa armadilha.
Estou nua, caminhando em direção ao lago. O frio me faz estremecer e sorrir, mas não me incomoda. Continuo, até que meu corpo desaparece na água esverdeada que me envolve suavemente. Só então percebo: aquele lago é a analogia da minha mãe.
Dentro da água ouço meus próprios batimentos cardíacos pulsando em meus ouvidos e o uivo distante dos lobos famintos. Até me dar conta que preciso sair ou morrerei de frio, senão sem ar. Quando tento emergir, percebo que estou presa em um lago congelado. Uma película esbranquiçada, rígida e espessa cobre a superfície. Fecho os punhos e soco o gelo com força, repetidamente. Até que minhas mãos sangrem, até os ossos das falanges se esfarelarem.
A cena se distancia e vejo meu corpo afundado sob o gelo opaco, frágil e sem vida. Enquanto ao meu redor tudo se tornou branco, domado pela nevasca.
Percebo que essa é minha morte.
A morte que já reside em mim, embora meu coração ainda batesse.
Deveria ter me entregue aos lobos, lutado pela minha vida – certamente seria um fim mais digno. Mas continuei fugindo, mais e mais, virando a cara para o passado e buscando algo perdido em um presente fraturado.
Já tentei fugir tantas vezes. Corri para longe do precipício, mas ele sempre me alcança. Agora, não me restam mais opções senão me entregar ao frio…
Vejo meu corpo sem vida flutuando abaixo do espelho congelado.
E como todas às vezes que tenho esse pesadelo, acordo com lágrimas quentes escorrendo dos meus olhos e entrando nos meus ouvidos.
Na solidão escura de meu quarto, os olhos dourados dos lobos me espreitam, famintos, aguardando o momento certo para devorar sua presa frágil.

Fiquei de pé no penhasco gritando:
me dê uma razão
Alguma força te levou porque eu não rezei?
E estava escrito,
Fui amaldiçoada como Eva foi mordida
Ah, foi punição?
Acho que uma mulher mais fraca
já teria perdido a esperança
Uma mais forte não imploraria,
mas eu olhei para o céu e disse
Por favor,
tenho estado de joelhos,
mude a profecia
Adeus, adeus, adeus
Você era maior que todo o céu
Você era mais do que um curto período de tempo
E eu tenho muito o que lamentar
Tenho muito o que viver sem
Eu nunca vou saber
O que poderia ter sido, teria sido
O que deveria ter sido você
hoax + the prophecy + big than the whole sky – Taylor Swift
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