Capítulo 5
Quando as cicatrizes te lembrarem
O ar estava fresco na manhã de 25 de dezembro quando comecei a caminhar pela Trilha dos Ventos, dentro do Parque Nacional Vale do Cedro Azul. A neblina suave pairava sobre a trilha, envolvendo as árvores, e o frio penetrava a pele. Ao meu redor, os cedros altos formavam um caminho sombrio e acolhedor e o som das folhas ao vento era o único ruído que quebrava o silêncio do lugar.
A caminhada inicial foi tranquila, repleta de nostalgia, mas logo a ansiedade tomava conta de mim. A trilha é solitária já que nessa época do ano ninguém vem frequentá-la, só uma vez, Lenine e eu encontramos um ser humano vagando por aqui, um velho senhor que se dizia observador de pássaros, uma figura adorável que veio da Europa para desbravar sozinho o Brasil. Fora essa eventualidade, a trilha era vazia; seria apenas eu e a natureza selvagem.
Sabia o que me aguardava entre essas árvores: lembranças intensas, compartilhadas com o homem que um dia foi meu marido. Descartei a possibilidade de usar meus fones; queria ouvir o que a natureza tinha a me dizer. Não demorou para minha câmera começar a disparar constantemente, especialmente na minha primeira parada, a Clareira Bosque dos Cedros Velhos. Faço uma pausa para respirar e absorver a serenidade ao meu redor. Surpreendo-me ao ver aves de rapina impressionantes.
Me abaixei por entre os arbustos para fotografar um ninho de gavião-caramujeiro no topo das araucárias. Com tamanho médio, plumagem predominantemente marrom e um peito claro, ele possui um bico forte e garras afiadas, adaptadas para caçar pequenos vertebrados, como roedores e aves.
A imponência das araucárias me faz sentir pequenina diante da grandeza da natureza – majestosos pinheiros com copas em forma de guarda-chuva e troncos altos e retos, criando uma atmosfera grandiosa. Seus ramos, cobertos por folhas em forma de agulha, oferecem abrigo a diversas espécies de aves e pequenos mamíferos. Agora, no Natal, as araucárias estão adornadas com pinhas – o famoso pinhão tão consumido especialmente pelo Sul do Brasil –, que caem ao chão em busca de luz e vida.
Aproveitei a pausa para esboçar alguns desenhos em meu diário, hidratar-me e comer algumas barras de cereais. Mas mantive meu foco na trilha; afinal, quanto mais eu me atrasasse, mais demoraria para encontrar o ponto de acampamento e não queria correr o risco de isso acontecer antes do anoitecer. Andei aproximadamente 12 km, o que levou cerca de 6 horas e meia.
Ao chegar à Fonte das Almas, um lugar que parecia ter saído de um conto de fadas, senti uma energia especial no ar. A água jorrava com um suave murmúrio, sussurrando segredos antigos para aqueles que se permitissem ouvir sua melodia tranquilizadora. As pedras ao redor estavam cobertas por uma fina camada de musgo verdejante, criando um tapete macio que acolhia meus pés.
As árvores, altas e imponentes, pareciam observar minha presença, enquanto a luz filtrava através das folhas, criando padrões dançantes no chão da floresta. A brisa fresca carregava o aroma terroso da vegetação e um leve perfume floral, intensificando a sensação de que aquele lugar era mais do que apenas um ponto de parada: era um espaço sagrado.
Montar o acampamento foi um ritual em si. A cada movimento, a água da fonte parecia brilhar sob a luz do sol poente, refletindo a paleta de cores quentes que envolvia o céu. Enquanto armava a barraca, não pude deixar de olhar para a água cristalina que parecia convidar-me a me aproximar. Ao me inclinar, vi o fundo da nascente repleto de pequenas pedras e cascalhos; a superfície da água, calma e límpida, refletia meu semblante.
Havia algo de mágico naquela fonte. A água emanava uma qualidade única, como se pudesse purificar não apenas o corpo, mas também a alma. Senti uma vontade irresistível de mergulhar, de deixar que a correnteza levasse não apenas a sujeira de minha jornada, mas também as preocupações que pesavam sobre meu coração.
Ao redor, a natureza continuava vibrando com vida. O canto distante de pássaros, o farfalhar das folhas ao vento e, por vezes, um leve ruído que poderia ser um animal se movendo na vegetação densa. Era como se a própria floresta estivesse atenta à minha presença, observando cada passo e cada pensamento.
Enquanto a noite se aproximava e o céu escurecia, acomodei-me perto da nascente, pronta para refletir sobre tudo que havia vivido até aquele momento. A água parecia prometer que, ali, à beira da Fonte das Almas, eu encontraria as respostas que procurava. Senti como se um chamado maior guiasse meu coração. Com uma fogueira improvisada já acesa, sustentada por pedras e alguns galhos, abri a lata de biscoito que trouxera comigo, repleta de lembranças dos últimos anos ao lado de Lenine e de todas as cicatrizes que tentei evitar a todo custo.
Precisava fazer isso. Por mim.
Minhas mãos tremiam ao remover a tampa. Procurei por uma fotografia em específico, a encontrei com facilidade e engoli seco ao encarar a imagem refletida. O revestimento liso que cobria a foto começou a brilhar, senti um vento frio soprar em minha nuca. Eletricidade deslizando pelas minhas veias. Ouvi vozes distantes ganhando força enquanto algo poderoso corria em minha direção. Minha visão se tornava turva e eu sentia que estava em queda livre.

Dessa vez, era menos assustador. Abri os olhos com pressa, já sabendo o que me aguardava. Ansiosa, coração na boca. Eu o veria.
Lenine logo apareceu diante de mim, estávamos de mãos dadas no banheiro da nossa casa. Sorrio diante desse dia caótico.
E preciso voltar um pouco antes desse momento…
Tudo começou em agosto quando estabelecemos uma nova rotina nas sextas-feiras: tomar vinho, comer fondue enquanto jogávamos xadrez na nossa sala, após um dia cansativo de trabalho. Por algum tempo isso se tornou nosso ritual de casal.
Vinho misturado ao calor das provocações… não tinha outro lugar para terminar senão na cama – não necessariamente nela, é claro. E confesso que fomos um pouco descuidados nessas situações, felizes demais com o álcool esquentando nossas veias.
E setembro chegou trazendo com ele algo que mudaria nossas vidas para sempre. Não demorou muitas semanas para que os primeiros sinais se manifestassem… comecei a sentir um enjoo severo, tão forte que não conseguia trabalhar direito. Demorou algumas semanas para ligarmos os fatos. Acordei Lenine numa noite, sacudindo-o.
— O que foi? — Ele se sentou assustado.
— Sonhei com um bebê. — Soltei, arrepiada dos pés à cabeça.
— Ok. — É tudo o que Lenine diz, coçando os olhos.
— Lenine, eu sonhei com um bebê e estou enjoada há duas semanas. Era para minha menstruação ter descido três dias atrás e até agora nada.
Ele ouve ainda sonolento e aos poucos vejo a expressão de seu rosto mudar drasticamente, seus olhos quase saltam para fora das órbitas. Era comum que minha menstruação atrasasse, mas somando isso aos sintomas…
— Tu acha que…?
— Sim! Vinho, sexo desprotegido…
— Mas o médico disse que tu poderia ter dificuldade, por causa da SOP.
Síndrome dos Ovários Policísticos. Eu recebi o diagnóstico quando tinha 17 anos, no começo nem mesmo os médicos sabiam explicar o que é, mas com estudos compreendi que era uma síndrome metabólica que envolvia o meu processamento da insulina em meu corpo. Não necessariamente ligada a cistos nos ovários – que podem ou não aparecer como um sintoma. A SOP envolve uma quantidade de problemas em nosso corpo, cada caso é um, entre os sintomas pode se apresentar: irregularidade menstrual, acne, crescimento excessivo de pelos, apneia do sono, depressão, ansiedade, obesidade e infertilidade.[1]
Essa doença crônica não tem tratamento e nem cura, como uma síndrome metabólica ela pode ser controlada. Aprendi a conter a minha SOP através da alimentação, atividade física, qualidade do sono e suplementação. Minha vida foi da pior para a melhor em dois tempos, mas ainda assim, poderia ter dificuldade para engravidar. Portanto, mais do que a minha preocupação com o atraso, era o medo de descobrir que meu corpo não pudesse me dar essa resposta que tanto desejávamos ter um dia.
— Desde que comecei a modular minha SOP, minha menstruação ficou consideravelmente mais regulada. O que significa que, sim, posso estar grávida.
— Tá. — Lenine dá um pulo da cama, usando apenas samba-canção e com o tronco nu.
Sinto um calor subir em mim ao observá-lo. Tem razão em estar grávida dele. Quem não ficaria? Meu marido é um gostoso. Ok, foco, Selene!
— O que temos que fazer? — Ele questiona, o pobrezinho completamente aterrorizado e perdido.
Nos encaramos através da iluminação penumbra. O quarto estava escuro, com apenas meu abajur ao lado da cama aceso. Piscamos lentamente enquanto esperamos nosso cérebro despertar e encontrar uma resposta.
— Acho que um teste!?
— É claro! — Ele dá um tapa em sua própria testa e vai em direção ao guarda-roupa para vestir uma camisa.
Garanto que o meu marido – um contador e especialista em administração de negócios – é muito mais esperto e inteligente quando não está sob a forte influência do sono mesclado a notícia de que, talvez se torne pai.
— Vou à farmácia, faz um chimarrão pra gente, vamos precisar.
— Vou fazer só para você, acho melhor eu evitar cafeína.
— Tu tem razão. — Ele concorda, pulando pelo quarto enquanto calça um tênis esportivo. Ele está ridículo, usando moletom, samba-canção e calçados casuais. Ele vem até mim e deixa um selinho suave em meus lábios. — Vou num pé e volto noutro.
E assim ele deixou nossa casa atrás de uma farmácia 24 horas. Enquanto isso, visto meu roupão e vou até a cozinha, ponho a água para aquecer enquanto preparo a típica bebida gaúcha, coloco erva-mate na cuia formando uma montanha inclinada. Deixo a chaleira aquecer a água apenas um pouco, me certificando que fique levemente morna para cevar a cuia e não queimar a erva. Quando está úmida, insiro a bomba no lado oposto, tomando cuidado para não misturar a erva seca com a umedecida. E espero Lenine voltar.
Fico encostada à pia, perdida em pensamentos. Não sei exatamente o que estou sentindo, mas parece que o mundo estava paralisado. Olho para nosso quintal através da janela da cozinha e vejo pontinhos brancos caindo do céu e se assentando suavemente no chão. Está nevando. Isso me faz lembrar que estou presa em uma lembrança, uma fotografia…
Alguns minutos depois e ouço o motor da garagem abrir, o carro ser estacionado e a chave da porta se movimentar, meu coração começa a acelerar. A porta da entrada se abre com um leve rangido e Lenine entra trazendo consigo várias sacolas. Ele me observa com um sorriso nervoso e cumprimenta:
— Olá, mãe do ano. — Diz, imitando um tom de galã.
— Você não pode fazer isso comigo. — Desfiro um tapa fraquinho em seu ombro, fazendo-o rir. — O que você trouxe? Além do teste, óbvio. — Pergunto, apontando para as sacolas demais para apenas um teste.
— Doces! — Sua mão se afunda na sacola e ele volta com um pote de creme de avelã, doce qual ele sabe que sou apaixonada. — Afinal, a mulher que vai ser mãe, precisa de açúcar.
Fico um pouco emocionada com o gesto dele, esse homem deve ter saído de um livro escrito por uma mulher, só pode. Nem ouso estragar a surpresa mencionando que eu deveria evitar açúcar para ter uma gestação saudável, só hoje mereço um mimo.
— Você é terrível, Lene. E é por isso que te amo loucamente. — Digo enquanto observo seus olhos e tenho minha cintura agarrada por ele.
— E foi bem assim que a gente botou essa criança dentro do seu ventre. — Ele brinca, agora desperto e cheio de adrenalina. A personalidade brincalhona dele sempre foi meu fraco. Amo cada detalhe do meu homem.
Aquela madrugada definitivamente se tornou um dia marcante.
Vamos até a copa e Lenine despeja o conteúdo da sacola na mesa de jantar enquanto pego uma colher na cozinha e trago seu chimarrão, entregando-o antes de tomar para mim uma colherada generosa de creme de avelã. Antes de devorar o doce, abro um bombom de pistache e coloco por cima. Lenine observa minha criação com um sorriso bobo. Posso ler seus pensamentos: “desejo de grávida”, reviro os olhos e paro a colher a centímetros da boca para arregalar as pálpebras.
— Oxente, que isso? Teste de gravidez pra um batalhão? — Questiono perplexa ao notar finalmente a quantidade de caixas que ele comprou e cada um de uma marca diferente.
— Achei que a gente iria querer ter certeza, sabe? Não quero arriscar. — Ele dá de ombros.
Concordo com ele enquanto degusto o paraíso em uma colher. Após entendermos todo o processo, seguimos para o banheiro juntos e de mãos dadas. Fazemos tudo com muito cuidado.
Nós dois sempre fomos tão apaixonados. Lenine parecia mais alto e robusto do que nunca. A forma como o cabelo dele caía sobre os olhos enquanto ele tentava manter a atenção no que estava fazendo me fazia sorrir. Assim que coloquei o teste na amostra de urina, percebi que tudo estava se concretizando em mim. A realidade nos atingia aos poucos.
Seríamos pais.
Sequer havíamos planejado ter filhos no momento, deixaríamos para depois dos 30. Entretanto, estava acontecendo e ao contrário de muitos casais, estávamos preparados. Queríamos muito o nosso bebê.
Esse é o atual momento da foto, quando estamos de mãos dadas de frente a pia do banheiro, esperando os palitinhos exibirem finalmente o resultado. Lenine me observava com um sorriso nervoso, mas havia algo mais nos seus olhos, um brilho que revelava o quanto ele também estava surpreso, mas feliz. Ele se aproximou de mim, tocando meu rosto com ternura, segurando-o em suas duas mãos grandes e calorosas, me olhou com aquela expressão que sempre me fez sentir segura.
— Eu não poderia estar mais feliz, meu bem. — Antecipa sua felicidade sem nem ao menos saber o que o universo de fato preparou para nós. — Independente do resultado, quero que saiba que isso, nós, e nossa família, é tudo que quero. Eu te amo, guria.
— Eu também te amo muito, além do tempo.
— Sempre além dele. E em todas as linhas temporais.
— Em todos os universos. — Concordo, encantada por seus olhos brilhantes e me entregando ao beijo que ele me dá.
Aprofundamos o contato de nossas bocas até sermos interrompidos pelo alarme do celular dele, indicando que o tempo acabou. Nos encaramos apreensivos, sem coragem de soltarmos nossas mãos atadas para conferir.
— Tudo bem. Estou pronta.
— Também tô.
Eu pego o teste.
E quando o resultado se tornou óbvio, um sorriso involuntário escapou de meus lábios. Olhando de volta para Lenine, percebi que tudo ficaria bem, mesmo que isso significasse cair de paraquedas numa realidade inesperada.
É nítido.
Positivo. 2-3 semanas.
Estou grávida.
O teste estava ali, diante de mim. Um simples pedaço de plástico que mudaria tudo. Meu corpo tremia, não de medo, mas de uma estranha mistura de excitação e apreensão. Lenine, com sua energia característica, transformava o momento em algo mais leve, mas, no fundo, eu sabia que as coisas estavam prestes a mudar.
Meu marido começa a pular de alegria, nós nos abraçamos e choramos juntos no nosso banheiro. Passamos horas a fio sentados no pequeno tapete, de frente um para o outro, fazendo planos sobre o nosso futuro.
Quando amanheceu, nos arrastamos para a cama na intenção de dormir um pouco antes do nosso expediente de trabalho, mas simplesmente não conseguimos parar de falar sobre o nosso bebê, imaginando como seria sua personalidade, sua aparência, o quartinho, as roupinhas… tudo.
É uma felicidade genuína, é algo místico e poderoso. Uma alegria de tamanha imensidão que não cabia só em nossos corações. Me lembro claramente da felicidade de Lenine, o brilho em seus olhos, a vontade de ser pai. Não qualquer pai, o melhor do mundo.
Se eu pudesse…
Ah, se eu pudesse… ficaria presa nesse momento para sempre.
Houve uma época em que estávamos tão felizes que olhávamos um para o outro e nos perguntávamos: como poderíamos desejar mais? Já temos tudo, estamos completos. Mal sabendo que o simples fato do nosso amor transbordar e gerar um ser metade de nós dois, era exatamente o que nos faltava.
A alegria arrebatadora me envolveu num véu de fantasias. Por alguns minutos, quase acreditei que essa era minha realidade novamente.
No entanto, o reflexo do homem que amo começou a desaparecer, levando-me para outro lugar. A nossa fotografia diante do espelho, comigo segurando o teste positivo, começa a virar um borrão escuro conforme a neve começa a tomar o lugar das minhas lembranças…

Mas eu consigo nos ver perdidos nas memórias
Agosto se transformou em um instante no tempo
E eu consigo nos ver enrolados em lençóis
Agosto foi degustado como uma garrafa de vinho
Porque você nunca foi meu
August – Taylor Swift

[1] Se você possui pelo menos 2 dos sintomas citados procure um médico ginecologista e/ou endocrinologista para investigar o seu caso. Não sou médica, mas sou portadora e estudante da SOP e quis compartilhar essas informações em prol de ajudar outras pessoas que sofrem com os sintomas assim como eu.
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