Capítulo 2

Guarde mais dor até explodir

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Estou há horas vasculhando as 213 fotos que tirei nos últimos dias. Fotografias de paisagens, animais, pessoas desconhecidas, casas, prédios, receitas e até decorações de Natal… São momentos, histórias que já ficaram no passado. Juntei tudo no carro e após conferir se não havia deixado uma foto sequer para trás, estou sentada no tapete felpudo do meu estúdio, varrendo cada uma das fotografias pela milésima vez. Procurando incansavelmente pelo cardigã roxo.

Fotografar é um envolvente véu de emoções. Desde a alegria ao capturar momentos felizes até a nostalgia ao reviver memórias através de imagens. Cada foto conta uma história única. Sempre me pego perdida nelas por horas. No entanto, hoje, não há felicidade alguma em procurar em meio a essas memórias. Não quando a minha sanidade está em jogo. Toda a calmaria se dissipou com a chegada do desespero, um misto de raiva e esperança de provar a mim mesma que não imaginei tudo aquilo.

Era real demais para ser mentira.

“Você precisa falar sobre isso, Selene.”

A voz daquela mulher vinha e voltava em minha cabeça, fazendo-me sangrar.

Não posso me sentir daquela forma novamente, não posso permitir que o passado me abrace. Isso vai me destruir.

“Querida, a dor foi feita para ser sentida.”

— Cala a boca!

“A dor é nada mais do que sua.”

— O que mais você quer de mim?!

“Ela foi feita para te transformar.”

— Pare…

Agarro meus cabelos, puxo minha cabeça para entre minhas pernas dobradas e sinto a enxurrada de lágrimas despencar de meus olhos.

“Seu coração está soterrado sob densas camadas de neve…”

— Só para, por favor… — Suplico a minha mente, as lágrimas se fazem presentes novamente, rolando face abaixo.

“… você se afoga um pouco mais, presa entre a escuridão e a superfície.”

Meus olhos embaçados encontram finalmente o que eu tanto procurava, aquela maldita fotografia tirada hoje cedo, com as mãos trêmulas a alcanço, enxugo as lágrimas e tento entender o que está estampado na impressão.

As árvores do parque.

O banco de madeira.

O gatinho tricolor.

E mais nada.

“Diga o nome dele.”

— Não…

Sinto como se a minha alma deixasse meu corpo lentamente, um frio absurdo toma conta do meu ser. Está nevando. Flocos de neve caem ao meu redor, enquanto uma camada de geada densa começa a cobrir o sofá, as cadeiras, os álbuns de fotos, a impressora e os refletores… O perfume dela me revisita, como se sua presença, mesmo que não física, estivesse ali.

Pisco atordoada e amasso a fotografia em minha mão.

Até que aquela maldita velha sussurra em minha mente uma última vez…

“DIGA O NOME DELA!”

 

E X P L O D O!!!

 

Um grito pavoroso rompe boca afora, do mais fundo do meu ser em direção ao mundo cruel, eu despenco, caio e me estilhaço em milhões de pedacinhos.

As luzes piscam descontroladamente, o estúdio montado a minha frente rouba a energia poderosa que escapa de dentro de mim, os LEDs se acendem e em seguida se explodem em uma poeira fina e perigosa de vidro. Os refletores emanam uma luz cegante que faz minhas orbes doerem. A impressora dispara a fazer impressões, cuspindo papéis para todos os lados. A lente da câmera no tripé trinca, flashes disparam na minha direção, fico cega pela claridade branca…

A luz me puxou para dentro dela, tudo estava tão claro que doía. Não consigo ver nada, apenas uma imensidão branca e fria.

Antes de ser arrancada de onde estou, noto uma canção soando em meus ouvidos e me apego a letra como se fosse um escuro de proteção do que quer que esteja por vir…

 

 

Seu coração está soterrado sob densas camadas de neve.
Você se afoga um pouco mais.
Presa entre a escuridão e a superfície.
Ninguém está vindo lhe salvar.
Comece a nadar.
Comece a cavar.
Talvez seja hora de revisitar aquelas tuas cicatrizes,
que um dia foram momentos.
As memórias de um tempo em que você era feliz.

 

 

A imensidão branca vai se dissipando aos poucos e dando nitidez ao cenário para o qual sou levada.

Pardais cantam, criancinhas dão risadas e gritinhos ao fundo, ouço o farfalhar suave das folhas distantes com o passar do vento. O cheiro fresco de terra molhada me enche as narinas enquanto o vento cortante me arrepia a pele.

Meu coração dispara, pulsando com força.

Eu estava de volta ao parque.

Recorro imediatamente ao smartwatch em meu pulso.

São 10h13min.

Sentindo meu corpo inteiro formigar, olho para frente e me deparo com Moira parada de frente ao banco, as mãos cruzadas à sua frente, encarando-me sutilmente com o gatinho tricolor aos seus pés, roçando-lhe as canelas.

Poderia simplesmente fugir, meu carro está estacionado logo ali, só preciso ignorar a existência dessa mulher que desde que se esbarrou comigo virou minha vida de cabeça para baixo – como se já não estivesse bagunçada o suficiente.

Mas não fujo.

Minhas pernas criam vida própria e como um furacão avanço em sua direção, parando diante dela que apenas me encara em uma expressão neutra. O intrigante perfume de incenso, madeira e violetas deixa no ar um resquício de algo etéreo, como se estivesse sempre entre o presente e o passado.

— Quem é você? E o que fez comigo? — Ralho entre dentes, rangendo como um animal enraivado.

Moira não diz uma palavra, ela apenas estica os lábios com sutileza, abaixa-se e toma o gatinho em seus braços, aninhando-o contra seu cardigã felpudo, fazendo-o ronronar.

— Algumas memórias, por mais bonitas que sejam, carregam segredos sombrios.

É o que ela diz, sinto meu sangue ferver em minhas veias.

— Você só pode estar tirando uma com a minha cara, sua velha maldita.

Meus xingamentos não a afetam. Ela continua implacável, acariciando o gatinho.

— Acha que estou brincando, minha cara? Isso não é nem o começo. Já viu a verdade nua e crua que você se esforça tanto para esconder? Aposto que não vai gostar quando descobrir toda a destruição que causou a si mesma. — Seu tom de voz é cortante como o frio. — Você não entende, Selene. Não entende que não estou aqui para ser sua inimiga. Estou apenas aqui para te mostrar a verdade. A dor, o medo… tudo isso faz parte de quem você é agora.

Moira continua a me desafiar:

— Você sempre tentou fugir da dor, mas ela te segue, não é? Como uma sombra que cresce a cada passo. Tenta se afastar, tenta esquecer, mas vai sempre se lembrar. Então, diga, Selene… Você vai correr para sempre?

Sinto-me pressionada, como se ela me desse um ultimato. Talvez eu não tenha capacidade de lidar com essa louca. Moira baixa o olhar para o gatinho tricolor, acariciando-o com um toque delicado.

— Você não entende. A dor nunca desaparece. Não importa o quanto você grite. O mundo não te espera. Você realmente acredita que pode escapar disso? Que não está atolada até o pescoço naquilo que você tentou deixar para trás? Comece a nadar, Selene. Comece a cavar… antes que a escuridão te consuma.

— Você não sabe nada! — Grito e só então percebo que ninguém do parque ouviu, nenhuma alma reparou no meu ato descontrolado. Estou gritando com uma velha senhora em um local público e ninguém dá a mínima.

Começa a nevar.

Os flocos brancos simplesmente despencam do céu e caem sob meus fios de cabelo, ficando presos entre meus cachos. Lentamente o manto vai cobrindo o chão e tudo fica tão frio.

— O que está acontecendo?

— O tempo está acabando, Selene. — Constata a velha. — Há certas imagens que só devem ser capturadas com os olhos da alma.

— Mas… o que… — Estou atordoada, sem palavras.

Então, algo se encaixa. Ela quase tem razão. Mas meus olhos não são o suficiente; preciso provar que não estou alucinando. Preciso tirar uma foto.

Pego minha polaroid pendurada em meu pescoço, olho através do visor e disparo um click bem na cara dela. No mesmo instante o chão se abre sob meus pés e eu sou puxada para um abismo, como se uma força invisível tivesse me lançado para a escuridão, sem esperança de retorno.

 

Tenho me sentido tão solitário
Fugindo de casa
Agora, já estou sozinho
Há muito tempo
Você tem tentado conversar comigo
Me contar a verdade
Agora finalmente estou pronto
Para deixar você fazer isso
Heavy – Shawn Mendes

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