Capítulo 12
PARTE III
Sob a Luz da Aurora

Deixe ir
Sou feita de retalho de cacos de vidro. Já fui tantas coisas, o mais belo jarro, uma taça fina e cristalina, um pingente de gelo e agora sou algo novo, de novo, mas feita de cacos.
Fechei os olhos e respirei fundo, permitindo que a essência da terra molhada e das flores silvestres me envolvesse. A imagem da minha filha, com seu sorriso doce, os olhinhos cheios de vida, iluminava minha mente como um farol em meio à escuridão. Mas logo, a lembrança foi eclipsada pela sombra de Lenine, a lembrança de uma de nossas brigas constantes, próximas ao nosso fim, suas palavras cortantes ecoando nas profundezas do meu ser.
“Já não estamos sofrendo o suficiente? Por que você não consegue simplesmente deixar isso para trás?”, uma de suas milhares de perguntas reverberava dentro de mim, um eco persistente que me seguia a cada passo. Balancei a cabeça, tentando afastar os fantasmas, mas era impossível ignorar a verdade: o passado estava intrinsecamente ligado a quem sou. Para seguir em frente, precisava confrontar o que havia deixado para trás.
A paisagem ao meu redor pulsava com vida própria, como se estivesse testemunhando minha luta interna. Abrindo os olhos, observei as montanhas majestosas que se erguiam ao longe, desafiando-me a continuar, a escalar não apenas os cumes físicos, mas também os emocionais que me prendiam.
Determinada, comecei a caminhar novamente, cada passo representando uma pequena vitória sobre o peso das minhas memórias. No entanto, havia uma pergunta que queimava em meu coração: o que realmente significava deixar o passado para trás?
Continuei a avançar pelas trilhas íngremes, absorvendo a beleza crua ao meu redor. As flores silvestres dançavam ao vento e o sol começava a se esconder por detrás das montanhas, lançando sombras longas e inquietantes. A cada passo, sentia a tensão em meu peito afrouxar um pouco mais, como se a natureza estivesse me permitindo respirar.
Foi então que, ao desviar meu olhar para o chão, vi um movimento rápido. Uma serpente, longa e esguia, deslizou pela trilha, passando a poucos centímetros dos meus pés. Meu coração disparou, mas a calma logo tomou conta de mim ao perceber que não havia perigo. A serpente, com suas escamas brilhantes e padrão intricado, parecia um fragmento da própria terra que ganhava vida.
A criatura não se deteve, seguindo seu caminho em um silêncio quase meditativo. Admirei sua graça enquanto se movia, sentindo uma conexão inexplicável. Me lembrei de como as serpentes trocam de pele, abandonando o que não lhes serve mais para renascer em algo novo. Era como se aquela serpente representasse tudo que enfrentei até ali: a luta, a transformação, a resistência.
“Talvez eu também possa fazer isso”, pensei, observando-a desaparecer entre as rochas e a vegetação. Um sorriso involuntário surgiu em meu rosto, como se a presença daquela serpente tivesse me concedido uma revelação sutil. Em vez de temer o que poderia surgir do meu passado, eu poderia escolher deixá-lo ir, assim como a serpente deixava sua pele velha para trás.
Com essa nova perspectiva, avancei mais decidida, o coração mais leve. As memórias de minha filha e as dores que carregava pareciam um pouco menos pesadas, como se a serpente tivesse me mostrado um caminho: o de transformação. Se eu quisesse deixar realmente o passado para trás, precisaria ser corajosa o suficiente para aceitar que cada memória, cada dor, era parte do meu crescimento.
Enquanto continuava minha jornada, a visão daquela serpente ficou gravada na minha mente. Era um lembrete de que, mesmo quando nos sentimos presos em nossos próprios demônios, sempre há uma oportunidade de renovação, uma chance de seguir em frente. E assim, com o horizonte à minha frente e o sol se pondo atrás de mim, avancei, deixando para trás a trilha do Vale do Horizonte Perdido, as sombras do passado.

Depois da nossa grande separação
Há um nascer do Sol glorioso
Manchado com as cintilações de luz
Do vestido que usei à meia-noite
Deixe tudo para trás
Haverá felicidade depois de você
Mas já houve felicidade por sua causa
Ambas as coisas podem ser verdadeiras
Existe felicidade
Assombrado pelo olhar nos meus olhos
Que teria te amado por uma vida inteira
Deixe tudo para trás
E existirá felicidade
Happiness – Taylor Swift

No último dia da minha jornada, atingi finalmente o Monte do Sereno. Após ter percorrido aproximadamente 37 km de desafios, dor e transformação; a trilha me levou a um lugar onde o céu parecia tocar a terra, e o ar estava impregnado de uma pureza que eu não sentia há muito tempo. A cada passo que dava, as memórias de dor e arrependimento começavam a se dissipar, como a neblina que se ergue sob a luz do sol.
Quando cheguei ao cume, parei para respirar, meus pulmões queimando e meu coração acelerado. Olhei em volta e a paisagem era de tirar o fôlego. A neve cobria o chão como um manto branco, e no horizonte, as montanhas se erguiam majestosas, banhadas em um brilho dourado. Subitamente, como se o universo estivesse me esperando, o sol apareceu, lançando seus raios sobre mim pela primeira vez em muito tempo.
Senti o calor se infiltrando em minha pele, como se estivesse derretendo as camadas de gelo que haviam se acumulado em meu coração. Era uma sensação indescritível – a luz do sol acariciando meu rosto, trazendo consigo um conforto que não sabia que precisava. As emoções que mantinha guardadas, trancadas a sete chaves, começaram a derreter. A dor que antes me aprisionava parecia estar se dissipando, dando espaço para algo novo, algo que não conseguia nomear, mas que sabia ser essencial para a minha cura.
Lembrei da minha amada Bahia, do calor e da energia vibrante que ela me envolvia. Embora também ame Santa Catarina, o frio me causa certo desconforto. Lá em Ilhéus a gente acorda com o calor do sol já beijando a pele. Aqui, no frio, parece que o corpo nunca esquenta.
Daqui de cima pude vislumbrar todo o caminho que trilhei, cada pequeno desafio emocional que lutei com unhas e dentes em meio às árvores e aos animais selvagens que cruzaram meu caminho. A memória de minha câmera repleta de registros de tirar o fôlego, meu diário de bordo cheio de desenhos e lembranças que planejo revisar sempre que precisar relembrar o quão forte sou e tudo que passei.
Fechei os olhos e deixei que o calor do sol me envolvesse, um abraço gentil que parecia sussurrar que era hora de deixar ir. Era como se cada raio de luz estivesse trazendo à tona as partes de mim que estavam escondidas nas sombras da minha dor. Eu estava ali, naquele ponto mais alto, finalmente pronta para enfrentar as emoções que há tanto tempo havia ignorado.
Assisti à neve se dissipando lentamente, dando lugar a uma mata verde e cheia de vida. Esta já não se fazia mais necessária. Se antes era meu coração gélido preso em um lago congelado, agora estava na superfície flutuando sob os poderosos raios de sol emanados pela Aurora.
Alcanço a minha câmera e enquadro o cenário perfeito para uma fotografia. As montanhas verdes, o salpicar de raios solares, pássaros voando, o brilho da natureza. Disparo um click perfeito.
Golden Hour.
O período de tempo logo após o nascer do sol e antes do pôr do sol, quando a luz solar é mais suave, quente e dourada. A luz está mais difusa, criando uma atmosfera suave e agradável, com sombras mais longas e cores mais quentes, podendo resultar em fotografias com uma iluminação especialmente bonita e natural.
A hora dourada representava a minha transição, fechando o ciclo com chave de ouro. Finalmente vejo tudo com clareza. E só posso desejar que o destino tenha reservado um futuro melhor para mim. Mesmo sem Lenine, eu precisava seguir em frente.
Lenine…
Ah, seu nome fazia meu coração acelerar de um jeito sobrenatural.
Com a alma transbordando um sentimento genuíno, me sento no topo da montanha e começo a escrever algumas reflexões. Estou consumida por palavras e pensamentos quando ouço uma aproximação ser delatada pela natureza.
Bom, alguém que também está fazendo essa trilha chegou ao topo como eu.
A figura de um homem começou a se formar enquanto saia por entre as árvores e arbustos, e, gradualmente, se tornou familiar.
— Selene?
— Lenine?

Talvez isso seja apenas um pensamento esperançoso
Provavelmente um sonho estúpido
Mas se nos amássemos novamente, eu juro que te amaria direito
Eu voltaria no tempo e mudaria tudo, mas não posso
Então se a sua porta estiver trancada, eu vou entender
Back To December – Taylor Swift

Larguei tudo que estava fazendo ao chão e me coloquei de pé num pulo.
— O-o q-que você está fazendo aqui? — Questiono, sentindo um formigamento terrível percorrer meu corpo dos pés aos fios de cabelo. De repente, me dei conta de que talvez estivesse alucinando mais uma vez. Só podia ser um sonho. Esbarrei em uma foto e drasticamente viajei no tempo de novo. — Isso é um sonho! Não é real! — Desatei a repetir para mim mesma.
— Selene, isso não é um sonho. — Delatou Lenine, senti que ele estava mais próximo de mim. — Abra os olhos, por favor. Tu não precisa ter medo. Sou eu. Lenine.
Imediatamente escancarei as minhas pálpebras, sentindo a urgência em seu pedido. Desesperada para que isso não fosse um sonho.
E não era.
Lenine estava ali, parado no topo da montanha, de frente para mim, contracenando contra o horizonte incrível de paisagem. Meu coração acelerou de um jeito arrebatador, fazendo meu peito vibrar com uma urgência inesperada. É como uma sensação de alívio repentino, como se um peso invisível estivesse sendo lentamente retirado de seus ombros, liberando o espaço para respirar mais livremente. Como se a atmosfera se iluminasse, dissipando o peso no ar e permitindo uma nova respiração, quase como se o mundo ao seu redor estivesse desabrochando.
— É melhor tu se sentar. — Diz Lenine, tocando meu braço ao segurar-me pelo cotovelo. Foi nesse momento que percebi que estava prestes a desmaiar.
Concordando com ele, sou guiada de volta para a pedra onde descansava e recorro a umas boas goladas de água enquanto o homem ao meu lado faz o mesmo.
A ficha começa a cair…
Ele também havia decidido enfrentar a trilha.
Hesitei por um instante, a velha dor do passado me apertando. A culpa volta a me consumir lentamente. Não sou a única precisando de cura, Lenine também havia sido destruído no processo. Entretanto, algo me impulsionou a avançar, ele estava aqui e não queria perdê-lo novamente. Era minha hora de lutar por Lenine e faria isso com unhas e dentes.
Afinal, ele havia me feito um último pedido antes de partir:
“Estou indo porque preciso acreditar que, em algum momento, tu encontrará a si mesma. E talvez, quem sabe, encontre o caminho de volta pra mim também.”
— Lenine? — O chamei, minha voz era um misto de esperança e receio. Ele se virou lentamente e um sorriso hesitante brotou em seu rosto, como se o sol também tivesse encontrado espaço em seu coração.
Lenine possui os olhos castanhos tão claro quanto mel, seu cabelo é liso e em tom amarronzado bem escuro, sua pele é clara e levemente bronzeada; a barba costumava ficar sempre aparada, mas agora preenche completamente seu rosto como um manto sombrio que deixava seus olhos – antes de cheio de vida – carregados de dor e sofrimento e tornava sua expressão descontraída agora mais sombria.
Meu marido estava destruído de uma maneira que nunca cogitei encontrá-lo.
— Selene… — Respondeu com uma sinceridade que me tocou o âmago.
O senti próximo e um feixe de esperança brilhou em seus olhos, a distância que antes nos separava agora era um mero eco distante. A conversa fluiu naturalmente, como se não houvesse passado entre nós, embora soubéssemos que as feridas ainda estavam aqui, profundamente enterradas.
— Tive esperança de encontrá-la por aqui, afinal era nosso ritual costumeiro. Mas não sabia se tu viria. — Confessou, pude sentir a vulnerabilidade ressoar em sua voz.
— Eu precisava… precisava entender… tudo. Eu. A Aurora. Nós. — Respondi sinceramente, enquanto os olhos dele permaneciam fixos em mim, como se buscasse as respostas que estavam escondidas nas entrelinhas do que um dia tivemos.
— Eu vejo. — Lenine balança a cabeça em consentimento. — Consigo enxergá-la novamente, como se aquela neblina se dissipasse e o sol voltasse a tocar o seu rosto, enchendo-a de vida. Como tem que ser e como era antes de tudo.
Sinto minhas bochechas queimarem diante dos seus olhos deslizando por cada centímetro da minha pele. Faz um ano que não nos falamos. Um ano sem ouvir a voz dele. Sem o ver. Apenas vivendo a solidão do espaço que implorei para que ele me cedesse. E vejo agora que Lenine também não conseguiu seguir em frente. Como poderíamos? Pertencemos um ao outro. Estávamos feridos. Sequer tivemos coragem de nos separar diante da lei dos homens.
Não estávamos prontos para enfrentar essa dor, será que estávamos agora? Ou lutaríamos pelo nosso casamento? Tudo é muito recente, mas com toda convicção posso afirmar: estou pronta para lutar pelo meu homem.
— Não sei se você foi capaz de me perdoar, não tenho ideia da luta que tem travado por minha causa, Lenine. Os danos que te causei certamente são imperdoáveis, mas mesmo assim, quero ser egoísta o suficiente para lhe pedir uma única conversa. Uma decisiva.
Lenine ergue as sobrancelhas e engole seco. Desvia o olhar, hesitante, antes de encontrar meus olhos novamente.
— Selene… não há nada para perdoá-la. — Ele diz, pacificamente. — Meu bem, nós estávamos enfrentando algo muito maior. A dor da perda de nossa filha era tão grande que ia além do nosso amor. Eu sofri, sim, muito, quis morrer. Mas não te culpei nem por um momento. Sei que dissemos palavras duras um ao outro, mas não era nós, e sim a dor. Tudo que me restou foi dar a ti o tempo que precisava para se reconstruir.
Não podia ser real. Isso não é certo. Não mereço o perdão dele.
Me levanto atordoada e me aproximo do precipício, abraço a mim mesma circulando meus braços cruzados contra meu tronco.
— Não posso permitir isso. Não deixarei que você se quebre inteiro por minha causa novamente. — Desabafo sentindo meu coração se resumindo a meros fragmentos.
— Selene, essa decisão não cabe a ti.
Sinto a presença de Lenine em minhas costas, a sua respiração atravessando meus fios de cabelo e tocando minha nuca.
— Não tem ideia do que passei nesse tempo longe de ti. Acho que devo ter ido ao inferno e voltado umas três vezes. Minha vida perdeu completamente o sentido, tu levou esse seu sol contigo e, sem ti, nunca teria conhecido dias de verão. Tu é o ar que respiro, o sangue que flui em minhas veias, as batidas frenéticas do coração que me mantém vivo, a razão pela qual minha alma pode resistir até mesmo a perda mais dolorosa. Sem ti não existe um hoje, tão pouco um amanhã. E foi por isso que subi essa trilha sozinho, para te encontrar de alguma forma em meio ao caminho que trilhamos juntos tantas vezes. E eu encontrei a minha resposta, Selene, está diante de mim. E agora, tudo que posso te pedir é: nos dê a chance que nunca tivemos depois do que aconteceu…
Ouço suas palavras com cautela, processo-as por longos minutos.
— Você ficou me esperando por todo esse tempo?
Sinto seu toque em meus braços e ele finalmente abraça meu corpo com o seu.
Se um dia duvidei do destino, isso caia por terra agora. Seja o que for que isso signifique, uma força maior fez nós dois decidirmos fazer essa trilha para então nos encontrarmos no fim dela. Para darmos uma nova chance a um amor que nunca deveria ter chegado ao fim. O meu lugar é ao lado dele, como sua esposa. E o lugar dele é comigo, completamente feliz.
— Meu lugar é ao seu lado. — Lenine verbaliza meus pensamentos, fazendo-me suspirar enquanto me derreto em seus braços. — Selene, quero voltar para casa. Preciso voltar para ti, pois não sei mais quanto aguento sozinho.
Meu coração dispara diante do peso de suas palavras, vê-lo tão ferido assim me faz perceber que estamos naquela cozinha novamente, naquela madrugada de Natal enquanto implorava para Lenine ir embora em nome da minha cura. Agora invertemos os papéis e ele precisa de mim para se curar. Mas não me quer longe e sim o mais próximo possível.
Essa é a minha chance de consertar tudo e me agarro com força.
Viro-me lentamente até encontrar seus olhos.
— Não te deixarei nunca mais, Lenine.
O abraço com força.
— Juntos no topo e através do tempo.
É o que ele recita para mim com a voz falha. Como poderia me esquecer do nosso mantra? Sinto quando o corpo dele começa a tremer, suas lágrimas penetram por meu casaco e molham a minha pele. O deixo se desfazer em um choro de alívio e dor. E o agarro forte, o aperto contra meus ossos, arrancando tudo dele e destruindo seus demônios em meus ossos banhados pela luz do sol.
No fim das contas, terminamos como Jane Eyre e Edward Rochester. Arruinados em mil pedacinhos, mas juntos. Lamento ter quebrado essa promessa a Lenine, mas agora tudo que me importa é estar em seus braços novamente. E dessa vez não sairei nunca mais. Mesmo que o mundo desabe sobre nossas cabeças.
Passamos horas a fio falando sobre tudo. As mágoas que nos afastaram, as escolhas que nos levaram a nos perder. As palavras eram como o sol que iluminava nossas almas, e, à medida que compartilhávamos nossas verdades, o clima ao redor se tornava mais ameno, refletindo a possibilidade de um renascer.
Pude perceber que, assim como a neve derretia sob o calor do sol, nossas defesas estavam se dissolvendo. A dor do passado ainda estava presente, mas agora havia um espaço para algo novo – a chance de curar as feridas que um dia pareciam irreparáveis. Juntos, naquele ponto mais alto, começamos a reescrever a história que havíamos deixado para trás.

Eu não sabia se você iria se importar se eu voltasse
Eu me arrependo bastante disso
Estacionei o carro na estrada para o mirante
Poderia ter seguido meus medos até o fim
E talvez eu não saiba exatamente o que dizer
Mas eu estou aqui na sua porta
Eu só queria que você soubesse que essa sou eu tentando
this is me trying – Taylor Swift
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