Capítulo 8

O tempo é inevitável

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Parei à beira do precipício, ofuscada pela vastidão do Vale do Horizonte Perdido. A brisa fria acariciava meu rosto com uma leveza cortante e o som distante do vento sussurrava lembranças que eu tentava enterrar. O céu, tingido de laranja e rosa, parecia um lembrete cruel da beleza que havia perdido. A cada passo nas trilhas desafiadoras, sentia que me aproximava de um momento decisivo, onde o peso das minhas memórias se tornava quase insuportável.

Fiz uma pausa para desenhar uma ilustração do tatu-galinha que avistei forrageando durante o crepúsculo de ontem. A intimidadora coruja-orelhuda que manteve seus gigantes olhos amarelados por boa tarde da noite, observando-me como se faz com uma presa. E o assustador sapo-de-chifre que encontrei em minha barraca nesse amanhecer. Estou fazendo um diário de bordo, com descrições dos animais com que me deparei, os cenários inspiradores e toda a transformação espiritual que estou vivendo.

Me pergunto se um dia poderei compartilhar tudo que escrevi com Lenine, para que ele pudesse ver toda a transformação que vivi e o quanto lutei por mim, para que pudéssemos um dia, talvez, voltarmos a ser nós. No entanto, tento não encher meu coração de esperança, pois acredito que ele tenha seguido em frente, como tudo deve ser. Mesmo que ainda não estando separados no papel, espero que ele esteja bem. Tudo que posso desejar agora, além da sua felicidade, é encontrar a minha.

Tento deixar a tristeza de pensar em Lenine de lado, como um pouco de granola e bebo água. Uma borboleta-azul bate asas em minha direção, ela pousa sob a minha mochila deixada de lado por sobre umas pedras. Levo meu dedo indicador cautelosamente até ela, para minha sorte ela não bate asas para longe, pelo contrário. Majestosamente ela apoia suas pernas longas em meu dedo e consigo trazê-la ao alcance de meus olhos. Fico fascinada com cada detalhezinho seu, sua cor estonteante. Frágil e confiante, as nuances do seu azul resplandeciam contra a luz suave do entardecer, como se quisesse me transmitir uma mensagem silenciosa.

Coloco-a próximo de uma ampla localização de plantas e flores selvagens, aproveito o cenário perfeito para fotografá-la. Aquele pequeno ser representava uma jornada parecida com a minha. Ao redor, as orquídeas e malvas balançavam levemente com a brisa, criando um tapete vibrante onde outras borboletas poderiam pousar e continuar o ciclo de vida. Era como se todo o cenário ao meu redor estivesse em perfeita harmonia com aquela despedida.

Não quero me despedir da borboleta, mas ela deve seguir seu próprio caminho. A observei abrir as asas, pronta para alçar voo para longe de mim. Elas se moveram lentamente, como se cada batida fosse uma promessa. Antes de voar, ela parou brevemente, quase como se se despedisse de mim com aquele olhar efêmero. E então, em um instante, ela se desprendeu da planta que repousava e se lançou ao ar, dançando entre as pétalas e as folhas como uma despedida silenciosa e, ao mesmo tempo, uma celebração. E, então, partiu, deixando um eco de liberdade no ar.

Lembrei-me das palavras de Moira: “Como uma lagarta em sua crisálida, se ela fugir da metamorfose, jamais poderá contemplar a dádiva de voar.” Senti-me como uma lagarta que atravessava uma longa escuridão, presa em um casulo de mágoas e transformações inevitáveis. Eu ainda estava em queda, lutando para alcançar a superfície. Mas, no fundo, ansiava pelo momento de abrir minhas asas e, assim como aquela borboleta, me desprender do que me acorrentava para enfim voar.

E quero tanto voar.

Mas primeiro vem a queda. E esta está sendo árdua.

A exaustão física se mistura ao cansaço mental; sinto-me como Atlas[1], com o peso de séculos de dor sobre meus ombros. Esgotada de entrar tão profundamente nas camadas do meu passado. Entretanto, após alcançar tanto, não podia simplesmente regressar. Precisava seguir até o final da trilha. Portanto, que eu seja mais atenta ao meu mapa e pare de ignorar as paredes a serem escaladas. Que eu encare os lobos da floresta rosnando mais forte e a cada segundo mais próximos.

Toco a foto enfiada no fundo do meu bolso. E me deixo ser levada, permito que a magia aconteça…

Aquela que tanto evitei ver por todo esse tempo, mas que Lenine insistiu em tirar.

A única foto que temos da nossa filha. No dia que ela nasceu e deu seus últimos suspiros em meus braços.

 

 

Naquele maio completei 8 meses de gestação, minha filha estava praticamente completa. Pesava 2,5 kg, tinha 40 cm de comprimento e estava ganhando peso rapidamente. Posso sentir chutes e movimentações mais fortes. Os órgãos vitais estão quase totalmente desenvolvidos. Os pulmões continuam amadurecendo. O sistema imunológico está se desenvolvendo, recebendo meus anticorpos. Ela se desenvolvia rapidamente; cada movimento dentro de mim era um lembrete de sua vida crescente. Ela começou a reagir a estímulos externos, como sons e luzes. O espaço no útero está começando a ficar mais apertado e ela está começando a entrar em posição para o parto.

Lenine e eu estamos radiantes, vivendo a nossa gestação de forma especial e única, não deixando que a tristeza da realidade nos assombre por muito tempo. E isso não significa estarmos o tempo todo felizes, porque estaria mentindo. Por vezes não tínhamos forças para manter a máscara de felicidade e deixávamos a tristeza e o medo domar nossos corações – mesmo que por um curto período de tempo. Contudo, nos mantemos firmes, um dia de cada vez, sempre colocando o outro pra cima.

Cada dia que passava nos deixava mais aflitos com a possibilidade de tudo acabar. Portanto, nos certificamos de aproveitar cada pequeno detalhe e instante juntos, tiramos férias, viajamos, levamos nossa pequena para conhecer a praia, experimentar vários sabores de sorvetes, comidas e tudo que há de bom nessa vida. Passamos o carnaval na minha amada Bahia e pude mostrar a ela detalhes preciosos do lugar onde cresci.

Não apenas nós, mas seus avós paternos e maternos aproveitavam cada segundo que podiam. Painho, com aquele sorriso largo e olhar caloroso, contou todas as piadas que lembrava, arrancando de mim risos genuínos e um conforto inesperado. Mainha contou sobre as receitas da família. Sandra, a mãe de Lenine, falou sobre seu restaurante de frutos-do-mar. Edgar, meu sogro, contou tudo sobre pescas para nossa pequena. Os tios também aproveitaram, cada um à sua maneira. Todos próximos a nós, tentavam desfrutar da minha gestação de algum modo.

Isso nos fez sentir tão confortáveis, tão felizes por sermos incluídos. Ninguém questionou nossas decisões, pelo contrário, tudo que recebemos foi um apoio sem fim.

Sinto a bebê mexer animada diante de cada nova voz que vem falar com ela, cada estímulo, as músicas que colocávamos para ela ouvir. Tudo que fazíamos sentíamos um retorno dela dentro de mim. Era único. Como pais diante de uma situação tão delicada, sentimos um alívio ao perceber que demos a ela, mesmo que limitadamente, uma vida.

Um dos meus momentos favoritos são nossos rituais noturnos, após o banho, Lenine passa hidratante por todo meu corpo, me ajuda a me vestir e repousa a cabeça sob minhas coxas, fica encostado a minha barriga conversando com nossa filha.

Quando meu marido estava ali, podia sentir a suavidade de sua respiração se misturar com os pequenos movimentos dela dentro de mim, cada palavra de carinho, um lembrete de que ela estava crescendo e se fortalecendo.

Como uma boa boba apaixonada, fico acariciando seus cabelos e o observando com paixão. Concluindo que escolhi o homem certo para estar ao meu lado. E me dói saber que ele não poderá ser o pai que tanto deseja pra nossa filha. E sou obrigada a afastar esses pensamentos, porque se eu permitir só por um segundo, nunca mais vou parar de chorar e não quero que minha filha sinta essa tristeza em mim. Quero transmitir a ela apenas o melhor, pois isso é tudo que poderei dar a ela como sua mãe.

Estava tudo bem, a gestação ia bem, apesar do risco. Estávamos atentos, nos consultávamos constantemente, a Dra. Sampaio fez questão de acompanhar de perto cada semana de gestação. Monitoramos tudo cuidadosamente e ainda assim não previmos o que acabou acontecendo…

Em uma consulta de check-up, minha obstetra virou-se para nós com um semblante preocupado. Seu olhar pesado pairava sobre nós, senti meu coração acelerar.

— A condição de sua bebê se agravou. — Começou, com a voz firme, mas suave, enquanto avaliava nossas reações. — A saúde da filha de vocês pode estar comprometida.

Senti um frio na barriga. Olhei para Lenine, cuja expressão se tornara sombria. Com uma de suas mãos ele segurou a minha fortemente, a outra repousou sobre minha barriga. As palavras da médica foram como um golpe, cada sílaba corroendo a esperança que tentei preservar. Senti o chão desaparecer sob meus pés.

— Estive monitorando a condição do feto. — Continuou a médica, consultando o tablet em sua mão. — E, em decorrência de problemas como o aumento do risco de fraturas ou complicações, preciso recomendar a indução do parto.

— Indução? — Lenine interrompeu, a voz tensa. Meu marido perdia raramente o controle e agora podia sentir a sua energia emanando nervosismo. — O que isso significa exatamente?

A obstetra respirou fundo, como se pesasse suas palavras.

— Significa que não podemos esperar mais. A situação da sua filha é delicada, e quanto mais tempo ela passar dentro de você, maiores são os riscos. E isso inclui você, Selene.

As palavras dela ressoaram na sala, uma sinfonia de preocupação e desespero.

Eu não dava a mínima para mim. Mas para a bebê…

O lar seguro que construí para minha filha já não era mais tão seguro. Ela estava começando a sofrer. E esse era o meu pior pesadelo. O frio inundou-me novamente, abraçando-me com sua dor.

Olhei para Lenine, que agora tinha a expressão de quem estava lutando contra uma tempestade interna.

— Mas… você tem certeza? E se ela não estiver pronta? — Murmurei, minha voz quase um sussurro. — E se essa não for a hora certa?

— Há sempre riscos, Selene. — Respondeu a médica, sua voz cheia de empatia. — Mas o risco de deixá-la mais tempo dentro de você é maior. Precisamos agir para garantir a melhor chance possível para ela.

Havia tantas promessas que queria ter cumprido. A minha filha, ainda tão pequena, merecia tudo o que o mundo tinha a oferecer, mas o que eu podia lhe dar era… apenas o suficiente?

A sala parecia girar ao meu redor. Uma parte de mim queria gritar, a outra apenas desejava que tudo isso fosse um pesadelo. Lenine passou o braço em volta dos meus ombros, o tempo todo mantendo sua palma em minha barriga, trouxe-me contra seu tronco ao encontro do seu calor, como se dissesse que estávamos juntos nisso, não importava o que acontecesse.

— O que mais precisamos saber? — Perguntou, sua voz mais calma agora, mas a tensão ainda evidente.

A médica fez uma pausa, observando-nos antes de responder.

— Vamos discutir todos os detalhes, as opções e o que podemos esperar do procedimento. Estou aqui para ajudá-los em cada passo desse caminho.

Mas sua voz já não fazia mais parte da minha realidade, tudo se tornou distante e vazio enquanto eu encarava a nova face dos fatos que nos assombravam.

 

E você sabe que eu faria tudo por você
Sentaria com você nas trincheiras
Te daria minha vida selvagem, te daria um filho
Te daria o silêncio que só acontece quando duas pessoas se entendem
É o suficiente?
Eu te daria meu Sol, te daria o meu melhor
Mas a chuva sempre virá se você estiver comigo
Peace – Taylor Swift

 

 

[1] Atlas é uma figura da mitologia grega que foi condenado por Zeus a carregar o mundo nas costas para sempre, como castigo por liderar as batalhas de Cronos e dos Titãs contra os deuses do Olimpo.

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