Capítulo 6
PARTE II
A Neve Tem que Cair

Sinta o abraço da neve fria
Sou arrancada violentamente de volta à realidade, as mãos no chão e um golpe no estômago; estou sem ar, lutando para respirar. Leva um tempo para processar o que está acontecendo, estou em crise, soluçando, chorando, convulsionando, meu corpo todo treme violentamente. Estou no meio do mato, entre as árvores, diante da fogueira, enquanto a lua ilumina com dificuldade as copas verdes.
Está frio.
Tudo está congelando, inclusive no âmago do meu ser: meu coração, minha alma desolada e amaldiçoada.
Passei horas deitada no chão em posição fetal, encarando a madeira crepitando, tremendo de frio; meus pensamentos são uma imensidão branca, um vazio que dói.
Eu deveria correr como um lobo.
Fugir para longe de todo esse pandemônio ressuscitando dentro de mim.
Abandonar tudo sem olhar para trás.
Mas como poderia dar as costas à verdade?
Essas fotografias são a minha história, elas contam tudo sobre mim e o amor que vivi ao lado de Lenine. Elas contam sobre o meu bebê.
Tenho evitado a realidade por muito tempo e a vida até que tem sido gentil comigo, fazendo-me sobreviver a cada dia sem a necessidade de encarar o que tanto tenho ignorado, mas agora não tem mais volta, agora o destino cobra caro por tanto tempo em negação. Uma força maior está me obrigando a ficar de olhos escancarados e encarar de uma vez por toda essa escuridão fria dentro de mim. Estou de joelhos implorando aos céus que cessem a luta contra mim.
A verdade é que não posso desistir nem por um segundo. Preciso ir até o fim. E pela primeira vez em muito tempo descobri que tenho forças. Sou forte para um caramba e consigo fazer isso. Preciso fazer isso por mim mesma.
Quando as lágrimas cessam, corrijo a minha postura e me sento novamente, estou inteira suja, tem folhas, galhos e terra em meus cabelos desgrenhados. Estou um caos. E acho que isso nunca soou tão certo. Como poderia exigir o contrário quando é essa a confusão que habita em mim? Nosso exterior é o reflexo da nossa alma.
Com esforço sobrenatural me coloco de pé e quando o faço fico surpresa ao finalmente perceber que tudo ao meu redor está branco. A neve veio e cobriu tudo, restando apenas o centro ao redor da fogueira em sua forma original. O frio me faz estremecer, mas meu subconsciente está com plena convicção que embora sinta frio, não corro o risco de ter uma hipotermia. Os galhos esqueléticos estão nus, vários deles carregam pingentes pontiagudos de gelo, outros apenas sustentam uma quantidade de neve os fazendo envergar. Os arbustos viraram grandes bancos de neve, o chão tornou-se o véu de uma noiva. Todavia, o barulho da água fria e límpida da Fonte das Almas continuava fluindo sutilmente, a água não estava congelada.
Cambaleio em direção a fonte, me inclino em direção ao pequeno laguinho que se forma ao redor da singela queda d’água. Mal posso ver meu reflexo devido à penumbra, sou surpreendida por um misterioso coaxar que me fez dar um pequeno pulo. O som grave e contínuo me surpreende e arrepia cada pequeno fio de cabelo do meu corpo.
Sozinha no completo silêncio e ao redor da água, meus olhos captam a presença ilustre de um cururu grande e robusto me observa de uma pedra na margem oposta. O sapo estava parado, como se fosse uma estátua antiga observando outro mundo. Seus olhos dourados e verdes refletindo a luz com um magnetismo sobrenatural. Ele me encara com uma profundidade enigmática carregada de intimidante.
Considerando meu estado mental, não era assustador pensar que está tentando falar comigo, como se quisesse vir, sentar-se ao redor da fogueira e delatar-me seus segredos antigos e selvagens. Seu olhar me transmite esse sentimento, me mostra a essência de um ser que pertence a dois mundos: a terra e a água.
Ou talvez ele esteja aqui para me envenenar com sua substância tóxica usada como defesa contra predadores. Talvez eu seja uma ameaça. Não dá para saber, mas eu queria ser como ele: sábia, misteriosa e perigosa.
Seja o que for, o sapo pouco se importava com a minha presença irrelevante, contanto que não atravessasse os limites impostos entre nós dois. Ele era o meu presságio, um velho e sábio guia espiritual, oferecendo algum tipo de sinal ou “sussurro” da natureza para mim naquele momento.
Cada passo representava a liberação das memórias pesadas que me acompanham.
Recomponha-se.
A sua jornada está apenas começando.
Junto minhas mãos em formato de concha e as mergulho na água, o cururu sequer se move com a movimentação. Trago a água até meu rosto e enxáguo a sujeira encrostada as lágrimas secas. Respiro profundamente e volto para a minha fogueira, minhas mãos trêmulas recuperam a fotografia ao chão, sendo surpreendia pelo choque elétrico ao tocá-la, resisto a sensação angustiante e a devolvo para a lata de memórias.
E, sem querer, acabei encontrando uma nova lembrança.
Me jogo contra minha barraca aberta, deitada sobre o saco de dormir e encaro o teto azul que subitamente se desfaz diante de meus olhos, fazendo-me encarar pedacinhos do céu noturno por entre as frestas dos galhos de árvore.
Um floco de neve cai em minha direção e se acomoda na ponta do meu nariz.
Foi quando ela finalmente apareceu para mim, um feixe de esperança para meu coração perdido em escuridão. O céu ficou escuro e luzes começaram a ressoar suavemente por baixo das estrelas.
Era ela.
A chegada arrebatadora da neve convidou-a para se juntar a minha trajetória de ruínas.
A aurora boreal.
O céu escuro parecia um quadro vivo, pulsando com cores que nunca imaginei existir. As luzes dançavam em verdes e roxos, ondulando como se estivessem respondendo a uma música que só a natureza ouvia. As estrelas brilhavam entre as luzes coloridas, fiquei hipnotizada, sem palavras, sentindo-me minúscula diante daquela beleza imensa, como se estivesse tocando algo além do mundo, algo mágico e efêmero que se esvaía com a mesma suavidade com que apareceu.
E ela me trouxe algo, felizmente não tão belo quanto sua existência.
Ouço as vozes, vejo flashes. Meus pés estão sendo arrancados do chão e levados ao passado novamente.
Num segundo não estou mais na minha realidade, sou lançada de volta a uma lembrança distante…

Todos os círculos em que nos movemos
Lembre-me do amor que temos
Se estamos procurando pela mesma coisa
Então por que ainda estamos sofrendo?
Eu tenho falhado ultimamente
Eu pensei que o amor era verdadeiro
Mas a solidão também venceu
O amor está se esgotando, talvez
Eu vou encontrar a solidão sem você
Circles – WILDES

É dezembro. Caloroso, mágico e encantador dezembro. A casa está inteira enfeitada para o Natal, a típica árvore que Lenine e eu montamos juntos. Nossa despensa está cheia, os quartos de hóspedes prontos para receber nossos familiares. E estamos a mil, ansiosos pela chegada da nossa época favorita do ano.
Esse é o nosso primeiro Natal grávidos, estava de 4 meses e uma barriguinha sutil começava a aparecer. Nosso bebê alcançou o tamanho de uma manga e está forte e saudável como nunca. É dia 22, o dia em que comemoramos o nosso amor e caiu justamente na data de um ultrassom.
Por volta das 16-20 semanas é realizada uma ultrassonografia morfológica de segundo trimestre. Esse exame é importante e bastante detalhado, por ajudar a verificar o desenvolvimento físico e a saúde do bebê, além de identificar possíveis anomalias estruturais. O que significa estarmos muito nervosos para saber o resultado, é claro que sabíamos que estava tudo bem com nosso bebê, mas é inevitável não ficar assustado.
— Pronta, benzinho? — Perguntou Lenine ao parar ao meu lado e envolver a minha mão com a sua. — O que tanto te intriga? — Ele questiona, com relação ao fato de estar parada na nossa sala observando algo por longos minutos.
— A estrela no topo da árvore está torta. — Concluo.
— Amo sua atenção aos detalhes. — Ele suspira fundo, me dá um beijo estalado na bochecha e vai até a árvore, com uma facilidade devido a sua altura, ele ajusta o enfeite no topo e depois aponta para a imagem de ultrassom pendurada entre os demais enfeites. — Vamos tirar uma fotinha nova da nossa manguinha hoje.
— Tô contando os segundos para ouvir o coraçãozinho dela de novo. — E passo a mão no inchado em minha barriga, onde minha filha cresce. De repente, um pensamento passa por minha cabeça, alcanço minha polaroid repousando sobre a mesinha de centro da sala e a levo de encontro a Lenine. — Uma foto do nosso Natal feliz. — Aponto-a para nossos rostos sorridentes, ambos ao lado do exame enfeitando a árvore. O nosso primeiro ultrassom, aquela que confirma a existência da nossa bebê.
Sim, uma menininha. Uma bela e arretada baianinha catarinense.
Espero a máquina expelir a fotografia e posteriormente aguardamos apreensivos pela revelação da imagem e só após conferir o resultado, satisfeitos, a deixamos em nossa caixa de memórias e concluímos que agora, sim, podemos ir.
Saímos de casa rumo a clínica onde estou fazendo meu pré-natal. Esperamos pacientemente na recepção e quase temos um infarto quando somos chamados.
A sala da clínica era iluminada, mas a luz parecia não conseguir dissipar a tensão que sentíamos no ar. Lenine estava ao meu lado, segurando minha mão com firmeza, a presença dele era um porto seguro em meio à incerteza que me envolvia. A expectativa de ver nosso bebê me deixava ansiosa e animada, mas também havia uma sombra de medo que não conseguia afastar completamente. Só preciso ouvir da boca da médica que estava tudo bem com a nossa filha.
A radiologista entrou com um sorriso tranquilizador e enquanto ela preparava os equipamentos, tentava me concentrar nas instruções que ela dava. Quando o gel frio tocou minha barriga, um arrepio percorreu meu corpo e dei um leve sobressalto. Lenine apertou minha mão e o olhar dele me acalmou, mesmo que temporariamente. A tela piscou dando vida as primeiras imagens que começaram a aparecer. Era incrível ver aquela forma pequena, frágil e perfeita se movendo. Cada batimento do coração que a radiologista descrevia era uma sinfonia de vida que ecoava em meu ser.
O exame morfológico começou. A anatomia da nossa manguinha estava perfeita, coração, cérebro, coluna vertebral, membros, órgãos internos e placenta. O profissional mede a circunferência da cabeça, o comprimento do fêmur e a circunferência abdominal para verificar se o crescimento está adequado para a idade gestacional. A quantidade e a qualidade do líquido amniótico são analisadas. O posicionamento e a integridade da placenta são verificados.
Já estávamos quase acabando quando percebi uma mudança na expressão da radiologista. Um peso sutil se instalou no ambiente e a maneira como ela moveu o transdutor com mais cautela fez meu coração disparar. O frio que havia sentido inicialmente agora se transformava em uma sensação pesada de apreensão.
— Alguma coisa errada? — Lenine perguntou, sua voz carregada de preocupação. Olhei para ele e a mesma inquietação que eu sentia refletia em seus olhos.
A radiologista hesitou por um momento antes de explicar.
— Peço que aguardem por um instante que vou chamar a Dra. Sampaio para dar uma olhadinha. — E com suas palavras a profissional deixa a sala.
Meu coração começa a parar, as batidas estão lentas e dolorosas. Começo a sentir tremores severos em meu corpo inteiro.
— Está tudo bem, querida. — Lenine sussurra, tentando transmitir uma calma que nem ele sente, mas mal podia ouvi-lo. Sua voz era um fio distante e fraco.
Pisquei minhas pálpebras incomodadas com as luzes, brancas demais, frio demais.
Não notei quando a minha obstetra entrou na sala. Todavia, ela veio, me cumprimentou, sentou-se ao aparelho e trocou olhares com a radiologista.
— Vocês se incomodariam de vir até a minha sala, por favor?
Eu estava em choque, incapaz de existir.
Lenine me ajudou a sentar, me vestir, me arrastar até o consultório dela qual já estávamos familiarizados. Sentada de frente para a médica, ela começou a explicar.
— Os ossos do bebê parecem um pouco… delicados. — Ela começa a dizer e sou instantaneamente anestesiada, tudo ao meu redor para, até meus batimentos cardíacos parecem cessar, eu seguro o ar em meus pulmões firmemente. — Os exames de imagem podem indicar uma condição chamada Osteogênese Imperfeita. — As palavras dela reverberaram na sala, um frio gelado percorreu minha espinha.
A realidade da situação me atingiu como uma onda. O chão pareceu desmoronar sob meus pés. Senti uma pressão esmagadora no peito. Fechei os olhos com força como se um monstro estivesse diante de mim. Respirei profundamente e lembrei-me de todas as vezes que sonhei com esse momento, a expectativa de criar nossa filha e agora a incerteza se instalava entre nós. Um sonho que agora parecia se dissipar, uma dor silenciosa começou a se enraizar dentro de mim. Num segundo o universo havia me dado ela de presente, noutro estava arrancando-a de mim.
Olhei para Lenine e a preocupação em seu rosto fez meu coração doer. O que isso significava? O que estava acontecendo com nossa filha? Eu queria ser forte, mas naquele instante, me senti como uma fina camada de gelo, prestes a eclodir sob a ameaça de qualquer singelo toque.
A obstetra continuou a explicar e as informações se misturavam em minha mente.
“Ossos mais frágeis.”
“Riscos de fraturas.”
Eu não queria imaginar nossa bebê enfrentando algo tão doloroso. Com os olhos fechados, respirei fundo, tentando controlar a tempestade de emoções que me inundava.
Quando a consulta terminou e a médica juntamente da clínica nos ofereceu todo um suporte, um time de especialistas seria formado em prol do nosso caso. Pediatra, ortopedista, endocrinologista, fisioterapeuta, todos os profissionais necessários para nos auxiliarem no caso.
Os termos bebê e gravidez saudável mudaram drasticamente para:
“Gravidez de risco.”
“Sofrimento fetal.”
Senti como se o mundo estivesse desmoronando ao meu redor. Lenine passou o braço pela minha cintura enquanto saímos da sala, ele sabia que eu estava prestes a desabar. Entretanto, seu toque pouco me confortava. Seu olhar me demonstrava que não estava sozinha, então, por que me sentia esquecida em um universo abandonado? Era claro, eu não era a única a sofrer. Estávamos juntos nessa.
Naquele momento, sabia que a estrada à frente seria difícil. Tinha convicção de que o amor que compartilhamos, a força que encontrávamos um no outro, era maior que qualquer desafio. Caminhando juntos, nossos olhares se cruzaram, naquele instante senti uma faísca de esperança.
Independentemente do que o futuro reservava, estávamos prontos para enfrentar tudo, lado a lado. Não tínhamos todas as respostas, mas uma coisa era certa: juntos, podemos superar qualquer obstáculo. E, acima de tudo, nosso amor pela bebê era mais forte que qualquer medo que pudesse surgir.
E essas são as mentiras que contei para mim.

Tudo o que dissemos está gravado na pedra
Não consigo esquecer as palavras que você falou
Ecoando pela casa vazia
Como você me assombra
Eu sempre te sinto na minha pele
Na fúria dos ventos
E para longe você voa pelos céus enegrecidos
Todas as minhas feridas estão abertas
Eles não vão curar sem o seu amor
Tentei limpar minha mente perturbada
Muitas vezes
Juntos nós sangramos
Mas eu não vou curar, então
Diga que você sempre vai me assombrar
Ghost – WILDES
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