Capítulo 13
A memória viva em meu coração
Um novo ano surgiu no horizonte. Lenine e eu passamos a virada juntos no topo daquela montanha, acampamos por um dia na natureza selvagem que já nos era familiar. Foi como nos velhos tempos, só que melhor, pois havia aquela expectativa gostosa de nos conectarmos emocionalmente novamente. Embora toda a tristeza que compartilhávamos, também havia felicidade, como se não estivéssemos há um ano separados e mais alguns meses de distanciamento após o falecimento de nossa filha.
Neste ano, não houve fogos de artifício, estávamos longe demais da cidade para apreciá-los, restou-nos apenas uma noite de luar de tirar o fôlego, o que nos rendeu lindas novas lembranças fotográficas.
Tivemos tempo para falar sobre tudo. Meu marido delata a mim toda a trajetória de dor que enfrentou com o que aconteceu com nossa filha. Depois foi a vez de me falar como se sentiu ao me ver destruída dia após dia. E explica porque não me procurou durante todo esse um ano. Lenine me deu o espaço que precisava, ele sabia que quando estivesse pronta iria procurá-lo. E então diante do Natal solitário e doloroso, passou por sua mente se por acaso ele não se esbarraria comigo aqui na trilha. Ele não tinha muitas esperanças, mas pegou o pouco que tinha e arriscou. Afinal, ele não tinha mais nada a perder, assim como eu.
Acolhi sua dor como se fosse minha, porque se for sincera é de fato nossa. Dou a ele todo o suporte que não fui capaz de fornecer naquela época. Eu ato a minha mão de volta a dele com força. As alianças douradas ainda estão em nossos dedos. Nunca estivemos separados de fato. Dentro de nossos corações e nossas almas ainda somos casados, ainda nos amamos profundamente. E ainda vejo isso no brilho dos seus olhos. Ainda há esperança, ainda existe um nós. Eu só quero curá-lo com todo meu amor.
Conto a ele sobre minha jornada, sobre Aurora e Lenine acredita em cada uma de minhas palavras como se fosse uma verdade absoluta. Fica emocionado ao ouvir a descrição da versão de nossa filha que veio ao meu encontro. E ele disse que uma certa raposa o seguiu por toda a trilha. Fiquei intrigada.
— Tem certeza que não era um graxaim-do-campo? — Questiono, afinal, não existem raposas por aqui. O mais próximo disso era o graxaim, também conhecido como raposinha-do-campo.
— Não, era uma raposa, daquelas de pelagem laranja. — Ele insistiu.
O que me fez concluir que talvez a tal Madame Moira não houvesse intervindo apenas em minha jornada.
Deixamos a tal raposa de lado e fazemos a trilha para casa juntos, passamos quatro dias acampando pelo caminho de volta o que nos deu uma sensação tranquila de que estamos concluindo juntos nossos antigos rituais.
A melhor parte é quando Lenine decide voltar para casa comigo, o lugar de onde ele nunca deveria ter saído. Ele sorri ao ver a nossa típica árvore de Natal montada na sala.
— Falta um pouco de cor, mas ainda assim me faz sentir em casa. — Ele comenta parando diante dela.
— A cor acabou de voltar para casa. — É o que respondo, o fazendo sorrir.
Tomamos banho juntos. Aparo a barba de Lenine. Este é um momento que guardarei para sempre em meu coração. A cada camada de pelos que deixava seu rosto, trazia a vida de volta ao seu olhar. Antes ele parecia um homem das cavernas que acidentalmente viajou para a época errada e sofria profundamente a separação de sua família. Não resistimos em fotografar esse momento também, apenas alguns dias e já estávamos fabricando memórias juntos de novo.
Ligamos para nossos familiares para dizer que estamos vivos, mas omitimos o fato de que estamos juntos novamente. Precisamos cuidar de nós primeiro antes de qualquer coisa.
Havia algo que decidimos fazer a caminho de volta para casa. Entramos no quartinho da Aurora, revisitamos as fotografias da minha gestação. Sorrimos e choramos. E principalmente nos permitimos sentir. Abraçamos aquela mantinha amarela que a embrulhou com ternura no dia do seu nascimento. Lhe contamos as aventuras que vivemos. E sabemos que ela pode nos ouvir.
Lenine deixa beijos por toda minha face, ele seca minhas lágrimas com seus lábios e repete o quanto me ama um milhão de vezes.
Sinto pela primeira vez em muito tempo que estou mais do que viva.

Na noite
Venha sentar na janela
Para ter uma vista melhor
Se o mundo cair aos pedaços
Ao menos estarei com você
Eu te salvarei
Você também me salvaria
If The World Falls To Pieces – Young Summer

É verão e está nevando em Nevoeiro do Sul.
Lenine e eu estamos abraçados em nossa varanda observando pequenos flocos brancos caírem do céu e cobrirem o chão. Não é a primeira vez que isso acontece em Santa Catarina. Devido à altitude, cidades vizinhas como São Joaquim recebem inesperadas nevascas no inverno do ano. É claro que os eventos são raros e sutis, não duram muitos dias e agora, nevando em pleno verão, só pode ser uma reação sobrenatural.
“Mexer com o tempo envolve consequências”, é o pensamento que me ocorre enquanto repouso entre os braços de Lenine.
Depois da trilha e de tudo o que deixamos para trás, estar em casa juntos novamente parece um sonho. Neste novo ano, a cidade amanhece coberta por uma nevasca inesperada, transformando tudo ao nosso redor.
Observamos a neve que cobre as ruas, as casas, as árvores, como um manto delicado e silencioso. A vizinhança também deixa suas casas, maravilhados com o fenômeno inexplicável. As crianças soltam gritos eufóricos, pondo a língua para fora enquanto tentam capturar um floco de neve.
Cada cristal que cai traz uma promessa de recomeço. Respiro fundo, deixando o ar gelado encher meus pulmões. Sinto a renovação, a pureza desse momento.
Lenine olha para mim e sorri, seus olhos refletindo a mesma sensação que pulsa em mim. Não precisamos dizer nada para entender o que isso significa. Esta neve é mais do que um fenômeno raro; é uma bênção, uma chance de recomeçar.
Seguro sua mão, e ele a aperta, entrelaçando nossos dedos como se quisesse selar essa promessa invisível entre nós. O mundo parece limpo, refeito, como se o próprio inverno tivesse decidido nos dar um presente.
Deixamos a proteção de nossa varanda e vamos para o jardim para sermos banhados pelas estrelas de neve.
— Meu bem, seja o que for que tu fez, desencadeou algo no universo. Ainda bem que tu foi corajosa o suficiente para regressar no tempo, só para voltar para os meus braços.
Abro um sorriso apaixonado, aproximando mais nossos corpos ao rodear meus braços em seu pescoço.
— Eu causaria um colapso no universo quantas vezes forem necessárias, só pra ter você aqui.
Os flocos caem em nossos rostos, derretendo-se em pequenas gotas e sorrio. Pela primeira vez em muito tempo, sinto que o que passou está realmente lá atrás, coberto por essa camada branca e brilhante de esperança.
Ficamos ali, imóveis, deixando a neve cair enquanto um novo futuro nos aguarda.

Todas essas pessoas pensam que o amor é para se mostrar
Mas eu morreria por você em segredo
Peace – Taylor Swift

Ontem foi dezembro, hoje é janeiro.
Ontem eu estava quebrada e destruída até a alma.
Hoje estou inteira e feliz nos braços do homem que amo.
Estamos no cemitério, ajoelhados diante do túmulo de nossa bebê. Trouxe um buquê de violetas e girassóis para minha bela Aurora. E algumas palavras que eu e o pai dela escrevemos juntos.
Hoje fechamos um ciclo que por muitos dias se manteve aberto. Mais especificamente 621 dias desde que ela se foi.
— Preciso confessar uma coisa, filha. — Começo a falar, deixando o desabafo que se forma dentro de mim encontrar o vento misericordioso. — Estive tão perdida em dor e solidão, que não percebi que sufocava o que tinha de mais precioso… sua presença em meu coração.
A eternização de sua existência no ato de amá-la.
Eu tentei enterrá-la com toda a minha dor. E isso é algo que levará um tempo para eu me perdoar.
Mas quero que saiba, Aurora, que você está mais viva do que nunca.
Uma vez eu disse que o maior presente que poderia lhe dar é a vida. E hoje honro para cumprir essa promessa. Pois, você está no ar que respiro, em cada batimento cardíaco, em todas às vezes que olho para seu pai e sinto meu coração acelerar, quando te reconheço nas feições dele, quando me vejo no espelho e me lembro o quanto é parecida comigo. Você está na aurora, a claridade que aponta no nascer da manhã e são os raios de sol no pôr do sol. Sua presença ecoa em nossa casa. Nas fotos que registramos de sua curta vida dentro de mim.
Se eu vivo, você vive, Aurora.
Hoje entendo que a neve precisava cair para a aurora poder surgir.
Sua passagem na terra pode ter sido pequena, mas a marca que você deixou não tem tamanho.
Vamos mantê-la viva em nós, essa é a promessa que fazemos a você.
Te amamos, nossa Aurora.

Tempo, tempo místico
Me ferindo, e depois me curando completamente
Havia pistas que eu não vi?
E não é tão bonito pensar que
Todo esse tempo existia algum
Fio invisível
Amarrando você em mim?
Invisible String – Taylor Swift
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