Capítulo 9

O sol que se foi

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22 de abril.

Odeio o destino por destruir os nossos dias 22 dessa maneira.

A sala de parto estava tomada por um silêncio solene, interrompido apenas pelo som dos aparelhos e pelo murmúrio constante da equipe médica. O ar era denso, carregado de uma tensão quase palpável, sentia cada batida do meu coração acelerado. Lenine estava ao meu lado, segurando minha mão, os olhos fixos em mim, como se pudesse absorver toda a dor e ansiedade que eu sentia.

Luzes fortes estavam direcionadas para mim, tornando tudo mais vívido e real. O ambiente era frio, mas minha pele suada era prova do medo e do esforço. Senti uma onda de dor intensa, e, logo em seguida, ouvi a voz da médica, serena e firme.

— Você está indo bem, Selene. Respire fundo. Estamos quase lá.

Eu queria responder, dizer que estava com medo, que não sabia se conseguiria. Mas as palavras não vinham; só a respiração entrecortada e o calor das lágrimas que ameaçavam escapar. Meu corpo tremia, oscilando entre a exaustão e a esperança.

O silêncio foi rompido por um som frágil e agudo. Um choro. Pequeno e hesitante, mas cheio de vida. Meu coração deu um salto, e, de repente, todo o medo e a dor se dissolveram.

A médica sorriu por trás da máscara.

— É uma menina forte. — Os olhos da médica brilhavam por trás da máscara.

A enfermeira trouxe nossa filha envolta num cobertor amarelo-claro que mainha tricotou especialmente para ela. Quando a colocou em meus braços, senti como se o mundo inteiro tivesse parado.

A princípio, eu não podia acreditar que aquele ser tão perfeito e belo havia sido gerado por mim. Ela era tão pequena, tão frágil, e, mesmo assim, irradiava uma força que jamais imaginaria. Olhei para Lenine, que agora tinha lágrimas nos olhos e ele se inclinou sobre nós, acariciando o rostinho dela com os dedos trêmulos.

— Bem-vinda ao mundo, nosso pequeno raio de sol. — Sussurrou com a voz embargada.

Selei um beijo suave na testa dela, sentindo o calor e o peso de sua presença em meu peito. Era como se todas as dúvidas e incertezas fossem substituídas por um amor incondicional e avassalador. Olhando para o grande amor da minha vida e para o pequeno ser que fizemos, naquele instante, soube que enfrentaríamos o que viesse. Estávamos juntos, e agora, éramos três.

Podíamos fazer isso, precisávamos. Os próximos minutos seriam tudo o que teríamos pelo resto de nossas vidas.

Lenine e eu mantivemos nossa filha nos braços o máximo possível. Ela ficou quietinha, serena, calma… repousando tranquilamente em nosso calor. Nos emocionamos analisando cada pedacinho dela. Os dedinhos tão pequenos com uma unha mais fina que uma folha de papel. Os pezinhos gordinhos que mais pareciam pequenos pães. Os olhos castanhos-claros de Lenine que pareciam o mais puro mel. Os cachinhos iguais aos meus no topo de sua cabecinha. A boquinha idêntica ao de mainha, formando um biquinho. O narizinho achatado de painho. Uma marquinha de nascença no braço igual Lenine e seu irmão tem.

Deixamos que ela segurasse – mesmo que fraca – os nossos dedos, nós podemos sentir o toque de nossa filha e esse era o maior presente que havíamos recebido.

Nós vimos o nosso coração fora do corpo, a fusão perfeita de nossas almas.

O nosso amor é lindo.

Ela era linda.

Tão perfeita.

Eu e Lenine mantínhamos os olhos nela, cada um à sua maneira, tentando gravar cada minúscula respiração dela. E, quando as lágrimas nos venceram, nós cantamos juntos. Nossas vozes eram frágeis, quase sussurradas, mas era como se, naquele instante, o mundo inteiro estivesse em silêncio para ouvir nossa despedida.

Cantamos para Aurora enquanto a vida deixava seu corpo.

 

You are my sunshine, my only sunshine.
You make me happy when skies are grey.
You’ll never know, dear, how much I love you.
Please, don’t take my sunshine away.[1]

 

Sabia que jamais conseguiríamos esquecer aquele momento. Cada nota carregava um pedaço do nosso amor, uma promessa que desejávamos eternizar. Senti o aperto de Lenine ao meu lado, como se ele quisesse protegê-la com sua própria força. As palavras da música eram uma prece, um pedido quase desesperado. E mesmo assim, enquanto cantávamos, nós dois sabíamos que o céu havia decidido.

Ao segurar sua pequena mão e sentir a suavidade de sua pele uma última vez, o silêncio voltou, trazendo uma espécie de paz.

Aurora era nossa.

Sempre seria.

 

 

O que morreu não permaneceu morto
Você está viva, você está viva na minha mente
Marjorie – Taylor Swift

 

 

[1] You Are My Sunshine canção de Jimmie Davis e Charles Mitchell.

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