Capítulo 7

O amanhã ficará para depois

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Estou quase morta, à beira de abandonar este mundo.

A neve cobre meu corpo nu como um manto gelado, congelando-me enquanto meu espírito abandona lentamente a carne. Tudo ao redor é branco, vazio, uma escuridão silenciosa. Minha alma morreu há tanto tempo. Sou só um corpo ambulante.

Me desfaleço em lágrimas.

Me despedaço em dor.

E isso é o mais próximo que cheguei de sentir algo nesses últimos meses.

Um farfalhar de folhas e o barulho de um galho trincando me faz escancarar os olhos.

A poucos metros, um cervo. Tão próximo que mal respiro.

Estou paralisada e ele também, ciente da minha existência.

Seus grandes olhos redondos são duas esferas âmbar que me chamam atenção.

Todavia, ele continua imóvel, permitindo que o observe profundamente, que grave e desenhe cada detalhe dele em minha mente. É um cervo-do-pantanal, um animal de grande porte. Uma fêmea – concluo pela ausência de chifres. Sua pelagem é de coloração marrom-avermelhada com manchas brancas em áreas como o rosto e as pernas. Não estamos no pantanal, mas estamos muito próximos do Rio Esperança – o que explica sua aparição.

Ela parece calma, mas seus olhos revelam uma desconfiança natural. Simplesmente não posso perder a oportunidade. Portanto, cuidadosamente, alcanço minha câmera pendurada em meu pescoço, levo-a até a altura dos meus olhos e enquadro o cenário perfeito.

No instante em que aperto o botão, descubro a presença de mais um ser. Um pequeno filhote se esgueira desengonçadamente por trás de suas pernas. Ele me olha com curiosidade, enquanto sua mãe reage ao barulho da máquina e imediatamente fica em estado de alerta.

Penso em dizer que não vou machucá-los, mas temo que uma palavra sequer os faça fugir dali. Diante do desespero da mãe, o filhotinho roça a cabeça em sua lateral. Ela leva o focinho até ele e isso me basta para desabar. Tudo o que vem me acontecendo nos últimos dias me faz cair de joelhos no chão terroso, no meio da trilha, de frente aos cervos.

Choro.

Deixo sair tudo que me faz sangrar.

Ali, entre as árvores, finalmente morro.

Sinto o vento, o toque dos primeiros raios de sol, a terra entre meus dedos, o farfalhar das folhas, os pássaros cantando, a água que desce… ouço tudo. Me torno parte da floresta. E apenas me entrego a todas as memórias que vem me revisitar.

 

 

Como saber?
Eu encontraria você onde o espírito encontra os ossos
Em uma terra esquecida pela fé
Vindo da neve
Ivy – Taylor Swift

 

 

O som do vento era como um sussurro constante. Sentia o peso do frio em cada passo, como se o próprio ar ali estivesse impregnado de lembranças e ecos de uma história maior que eu. Os cedros altos me cercavam, imóveis e solenes, suas copas perdendo-se na névoa espessa que dançava no ar, transformando a floresta em um espaço suspenso entre o real e o intangível.

Conforme me aproximava do acampamento, uma fina neblina envolvendo as copas das árvores parecia refletir a confusão em meu coração, enquanto a majestade das árvores refletia a força que preciso encontrar perdida em meu ser.

Após concluir a Trilha dos Ventos cheguei à Cachoeira das Pedras Brancas, fiquei por um momento parada, absorvendo o cenário quase mágico. A neblina subia da queda d’água e se misturava ao verde-escuro das árvores e ao musgo que cobria as pedras. Olhando ao redor, senti como se a paisagem refletisse meu coração – coberto por uma névoa de tristeza que, apesar de tênue, estava sempre ali.

Posteriormente, caminhei ao redor do local, aproveitei para juntar madeira, desfrutar de um pé de amoras e erguer o acampamento, volto à minha caixa de recordações. Não sou transportada para nenhuma foto, apenas fico admirando lembranças de dias quentes ao lado de Lenine. Essas memórias, que antes aqueciam meu peito, agora parecem tão distantes quanto a própria cachoeira.

Gradualmente, o sol começou a atravessar a neblina e aquecer levemente a trilha. Senti a mudança na minha pele, como um sussurro que me dizia que, dali em diante, tudo iria piorar.

Enquanto observava a magnitude da cachoeira, retirei uma foto do bolso, desgastada pelo tempo e pelos toques repetidos de dedos saudosos. Era uma imagem de Lenine no dia do nosso casamento, com aquele sorriso que sempre iluminava os dias mais sombrios. Ah, o nosso casamento, um dia épico de sol e inesperado pela chuva. Um arco-íris enfeitava o horizonte da nossa cerimônia ao ar livre, tornando aquele momento ainda mais inesquecível.

Sentindo um nó na garganta, rocei os dedos pela borda da foto, como se o contato pudesse, de alguma forma, trazer a presença dele para perto.

Fecho os olhos e um flash de memória me atravessa: nós dois juntos, em um campo florido, o som das risadas ecoando em meio ao vento. Abri os olhos e, por um instante, a tristeza pareceu dissolver-se, como a neblina ao redor da Cachoeira das Pedras Brancas.

A água caía com força ali, projetando gotículas que refletiam os primeiros raios de sol. O ambiente parecia pulsar com vida, e, ao mesmo tempo, trazia uma serenidade que não sentia há tempos. “É só o começo”, disse para mim mesma, tentando capturar a força daquele instante.

Essa trilha deixou de ser apenas uma caminhada. Agora é uma jornada para enfrentar as sombras no meu coração e, quem sabe, redescobrir as partes congeladas de mim mesma.

Senti a pressão de uma nova lembrança me envolvendo e desta vez o vazio ao meu redor parecia mais denso, como se eu estivesse afundando em um mar de sentimentos, revivendo cada cicatriz e cada ferida que pensava ter deixado para trás.

Uma memória ronda meus pensamentos só esperando que me concentre o suficiente para deixá-la vir à tona. Decido que é hora de lhe dar espaço. É o momento de deixar toda essa avalanche de neve vir e me enterrar o mais fundo possível na minha dor.

Escalo algumas rochas próximas à cachoeira e ouvindo a sua canção tranquilizadora, me permito viajar no tempo sem precisar de foto alguma.

 

 

Fiquei de pé no penhasco gritando: me dê uma razão
Não quero nenhum outro tom de azul além de você
Nenhuma outra tristeza no mundo serviria
Você sabia que ainda dói sob minhas cicatrizes
De quando eles me destruíram
Querido, isso foi tão difícil quanto
Quando eles me destruíram
Hoax – Taylor Swift

 

 

— Sr. e Sra. Orlandini, agradecemos por estarem aqui. Sabemos que este é um momento difícil e queremos fornecer todas as informações necessárias sobre a situação da sua filha. — Explicou calmamente a obstetra.

No dia após o ultrassom, fomos cedo à clínica para nos reunir com os especialistas que poderiam ajudar. Desde ontem não pronuncio uma palavra sequer, não consigo falar com Lenine, não consegui nem mesmo conversar com a minha mãe. Sinto que se qualquer coisa sair da minha boca isso se tornará realidade.

Lenine está à frente de tudo, o tempo todo segurando a minha mão.

— Estamos aqui para entender o que está acontecendo. Pesquisei um pouco sobre o assunto, mas honestamente… — Ele deixa os ombros caírem quando solta o ar profundamente, meu marido está acabado, mal dormimos pela noite e o fato de ter me retraído e me calado o deixou ainda mais abalado.

— Para começar, vamos compreender a Osteogênese Imperfeita. — Minha médica começa a explicar: — Conhecida também por “ossos de vidro” é uma condição que afeta a formação dos ossos. A OI pode ser hereditária, passando de pais para filhos, ou ocorrer como uma mutação espontânea.

O Dr. Antônio, pediatra, foca a atenção em nossos rostos quando diz:

— Esse diagnóstico significa que, ao nascer, ela pode ter múltiplas fraturas e deformidades. Essa condição não possui cura, mas há tratamentos focados em melhorar a qualidade de vida, incluindo fisioterapia, medicamentos para fortalecer os ossos, e, em alguns casos, intervenções cirúrgicas.

— Embora a gravidade da condição possa variar, as expectativas de vida para bebês com OI são limitadas. Infelizmente, muitos não sobrevivem mais do que algumas horas ou minutos após o parto. — Explicou o ortopedista.

Um silêncio curto e doloroso perdurou na sala por poucos minutos.

— Ela está sofrendo? — Minha voz saiu, trêmula. Um fio doloroso demais. Engoli seco e prossegui: — Doutores, a minha filha sente dor?

Lenine está tremendo, posso sentir enquanto mantemos nossas mãos atadas.

— Ela não está sentindo dor. — Um breve silêncio recaiu. O endocrinologista continuou: — É importante ressaltar que, enquanto ela estiver dentro de Selene, e o grau da OI não se agravar, ela estará bem. O ambiente uterino é seguro e confortável e ela não sentirá dor nem desconforto.

Meus ombros caem em alívio, solto Lenine para levar ambas minhas mãos trêmulas ao meu rosto, passando as palmas por meus olhos e pele, tentando compreender se isso é um pesadelo ou é de fato a minha realidade.

— Podemos trabalhar juntos para desenvolver um plano de cuidados para vocês, caso decidam prosseguir com a gestação, vamos monitorar a saúde de Selene e da bebê de perto. — Pronuncia-se a fisioterapeuta.

— Como é? — Ralho em um tom de voz incrédulo. — Prosseguir com a gestação? Você está mesmo insinuando que mataremos nossa filha? — A essa altura já estou de pé, gritando. — Não vou tirar o meu bebê, ouviu? Não vou… eu não posso…

— Selene, por favor. — Lenine me segura pelos ombros.

— Eles acham que vou desistir da minha bebê, Lenine.

— Não vamos tirar a nossa bebê, meu amor.

— Selene, não foi isso que a Elza quis dizer. — A minha médica de aproxima com cautela. — Mas como médicos, precisamos que você reflita e faça uma escolha.

— Escolho ter a minha filha! — Minha voz está alta e estou tremendo dos pés à cabeça. — Isso não mudará. Está decidido. Se ela está segura dentro de mim, então vou gerá-la com todo meu amor, darei o melhor de mim, mesmo que ela tenha prazo de validade, ela é um ser humano e merece viver o tempo de vida que tem disposto. Mesmo que doa a verdade, mesmo que eu saiba que ela morrerá em algum momento, enquanto puder dar vida a ela, eu vou. — E deixo tudo sair, todas as palavras que tenho mantido dentro de mim desde que soube.

Se for para sentir, que eu sinta até o último segundo. Se for para amar, que eu ame mesmo que a despedida me esmague.

Os presentes me observam, com pena, resignados à minha decisão. Eu nem sabia se isso era possível, mas esperava que sim. Tinha que ser.

Inconsolável, Lenine me ajuda a sentar novamente. Tento respirar, mas o mundo está girando. Não vou tirar minha filha. Meu bebezinho merece viver, mesmo que apenas dentro de mim. Como um ser humano pode dizer algo horrível assim?

— Peço desculpas pela forma que me retratei, entendo ser um momento muito delicado. — Diz a tal Elza, claramente com remorso.

— E se de fato decidirmos continuar a gestação, é possível que ela não sobreviva ao parto? — Lenine toma a frente.

— Sim, essa é uma possibilidade. — A Dra. Sampaio afirma com afinco. — Quanto maior o grau de gravidade da OI, pior se torna o caso da gestação e do feto. O nosso tipo é um intermediário possibilitando manter a gestação até o final, considerando que até o momento o bebê não apresenta sofrimento. No entanto, se o tipo evoluir para severo, pode haver riscos significativos para a saúde do feto e complicações durante o parto. Observamos que muitas mães preferem levar a gestação até o final, tendo a oportunidade de conhecer seus filhos, mesmo que por um curto período. Isso pode proporcionar algum conforto e ajudar a lidar com o peso emocional.

— O que mais devemos considerar?

— Devemos pensar no impacto emocional e físico para vocês. — Dr. Antônio explica. — Se decidirem continuar, podemos oferecer suporte emocional e opções para tornar os momentos que tiverem com sua filha tão significativos quanto possível. A verdade é que, mesmo que o tempo juntos seja breve, muitos pais encontram valor e amor na experiência de estar com seu filho.

— Me prometam que não a deixarão sofrer. — Peço, cabisbaixa, sem nem conseguir direcionar o olhar para minha obstetra. — Por favor, se em qualquer momento descobrirem que ela não está bem, tomem as medidas necessárias.

— Como sua médica e amiga, não deixarei que a nossa pequena guerreira sofra, Selene. Você tem a minha palavra. — E quando ela diz isso, estou olhando no fundo dos seus olhos e enxergando neles uma mãe que sabe exatamente o que estou passando.

Respiro fundo. Meu olho está com aquele tique de ansiedade, fazendo a pálpebra inferior tremer o tempo todo. Sinto que vou vomitar tudo e qualquer coisa dentro de mim. E não paro de estremecer, o tempo todo estou a ponto de me esfarelar.

O que você faria se descobrisse que seu bebê não poderá viver ao nascer? A minha menininha nem havia nascido, nem sequer conheceu o mundo e já tinha data de validade. Eu sentia que iria me despedaçar ali mesmo, naquela sala, diante dos médicos. Não existia nada no mundo que pudesse consolar nossos corações magoados.

Nesse momento, odiei a vida com todas as forças.

Só havia uma coisa que eu podia fazer por minha bebê…

— Só quero que a nossa filha saiba que foi amada.

Lenine me olha com ternura e sei que concorda comigo, seus dedos estão entrelaçados aos meus e sinto que é tudo que preciso para não desabar aqui e agora.

— Se vocês decidirem continuar, nós estaremos aqui para apoiá-los em cada passo. O mais importante é que essa decisão seja feita conforme o que sentem que é melhor para vocês e para a sua filha. — Aconselha o endocrinologista. — Estamos prontos para ajudar de todas as maneiras possíveis, seja durante a gravidez ou após o nascimento.

— Então vamos pensar sobre isso. — Lenine diz, assentindo. — Obrigado por serem tão compreensivos.

 

 

O Natal ainda acontece, o universo não para por causa da nossa dor, nossos familiares chegam e a primeira coisa que acontece é uma reunião em família ao redor da árvore. Lenine conta tudo que está acontecendo. Minha mãe começa a chorar e vejo-a questionar aos sussurros para os céus: “por quê?”. Ela me toma em seus braços e choramos juntas, a família toda entra em profundo pesar. Painho soluça. Lenine finalmente deixa suas defesas caírem e desaba nos braços de seus pais.

A nossa véspera mais parecia um enterro. Acho que nunca nos sentimos tão tristes assim. Nem mesmo quando Vó Ana faleceu.

Até que durante a ceia silenciosa e triste, mainha diz:

— Ela está viva.

Todos param o que estão fazendo para observá-la.

— Minha neta tá viva dentro de você, Selene. Portanto, devemos celebrar a sua vida. Enquanto ela estiver bem, enquanto seu coraçãozinho estiver batendo, não há porque não sentir felicidade. Você terá a sua bebê, minha filha e isso é tudo que temos agora. Deixe o amanhã para depois. Hoje celebraremos. Hoje seremos felizes.

E acho que nunca houvera palavras que fizessem tanto sentido.

Meu pai repousa sua mão em cima da dela com os olhos marejados e assente cheio de orgulho.

— Tua mãe tem razão, querida. — Lenine diz enquanto sinto sua mão descansar em meu ventre. — Tudo que mais quero é amar a nossa filha enquanto você puder mantê-la viva.

Um calor gradual vai preenchendo meu coração assombrado e derretendo aquele frio que se instalou no segundo que soube do diagnóstico. Encarando a esperança cintilar nos olhos de Lenine, eu soube que queria isso tanto quanto ele.

— É tudo que também quero, amor.

Todos os presentes se entreolham com a certeza de que essa era a melhor decisão para todos nós. Merecíamos amar esse bebê. Eu ainda estava grávida, minha filha ainda estava bem. Portanto, deixamos a alegria entrar, porque era o que tínhamos naquele momento. E nos agarramos com todas as forças, mesmo que fosse difícil.

As luzes de Natal foram acesas, sorrisos sobrepuseram as lágrimas, começamos a celebrar o nascimento do menino Jesus, tal como a vida da bebê dentro de mim.

Foi um dos mais emocionantes finais de ano de nossas vidas. Tiramos fotos de cada pequeno momento. Vivemos cada instante. Aproveitamos a existência da vida em meu ventre.

E foi assim durante toda a minha gestação.

Lenine passava horas conversando com nossa bebê, alisando minha barriga, sentindo-a proferir chutes, parecia dançar, exalando vida. Foi essencial viver a gestação dela, senti-la viva e bem dentro de mim; acompanhar sua formação, contar histórias a ela, dar-lhe sabores e momentos únicos em sua curta existência. Mesmo que a cada mês o fim se aproximasse.

Montamos o quartinho, compramos as roupinhas, como se nada de ruim estivesse fadado a acontecer. Ignoramos a dor, deixamos a felicidade acima de tudo. E juntos Lenine e eu fomos um pouco mais felizes. Nos permitimos viver esse momento tão especial em nossa história. Contemplamos a dádiva de ter uma vida crescendo dentro de mim.

E eu não mudaria nada.

Nem uma vírgula.

Eu gestaria você, minha filha, em todas as linhas do tempo existentes.

 

 

Eu vejo toda a luz que nos levanta
Batendo nas bordas de nossas asas
Estrelas se reúnem diante de nós
Para iluminar o caminho sob nossos pés
Ei, coragem seja minha bússola
Inicie um incêndio profundamente
Porque eu corro com tudo e nada
Mesmo quando eu não sei por onde começar
Nós caímos
Nós voamos
Nós ficaremos bem
Meu amor
Todos ficaremos bem
We’ll All Be Alright – Amy Stroup

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