Capítulo 11

Deixe, apenas deixe…

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“Conhecereis a verdade, e ela vos libertará.”[1] A verdade que tanto me aprisionou, que devorou minha carne enquanto eu ainda estava viva. Pude sentir os dentes afiados trucidando minha pele. O peso da culpa que se alastrou como uma sombra até consumir a minha alma pouco a pouco.

Culpa pela morte da minha filha.

Culpa por destruir Lenine.

O peso de todas as peças finalmente se encaixava e percebia o motivo de estar aqui, no meio da floresta, traçando uma trilha que tinha tanto valor para nós dois. Eu precisava me reencontrar e achar o caminho de volta para casa.

O ar estava denso, e o ambiente, que sempre se moldou a mim, agora me aprisiona em minha jaula de demônios e dor. Meu fôlego é arrancado de meus pulmões, tento escapar, no entanto, quanto mais corro, mais ela se aproxima de mim…

Ela.

A verdade vestida de culpa.

Os fatos que tentei deletar da minha existência.

A minha bebê morreu.

O meu casamento chegou ao fim.

A neve despenca do céu com força.

Estou sozinha, perdida em meus próprios pensamentos. Cada detalhe se repete em minha mente, fragmentos de memórias que agora parecem cacos de vidro. O mundo ao redor parece suspenso e a dor é tão intensa que parece me cortar por dentro. O peso das minhas próprias escolhas me afunda mais e mais para dentro da imensidão gélida e pálida. E odeio toda essa maldita nevasca que tirou tudo de mim. Minhas mãos tremem e fecho os punhos até as unhas quase furarem minha pele.

Olho ao redor e vejo os flocos caindo lentamente, a brancura sufocante que sempre me fez sentir pequena e impotente. Contudo, agora, a paisagem parece uma tela em branco, pronta para ser manchada com o confronto que encararei de uma vez por todas.

O vento assobia ao redor, ecoando como um lamento, enquanto adentro a neve densa. Uma matilha de lobos surge no horizonte e avança em minha direção. A ventania chicoteando contra a pelagem densa e cinza. Os olhos amarelos faiscando diante da minha presença. Devorem-me, faça-me esse favor.

Em meio aos lobos, vejo um cachecol roxo escuro aparecer em meu campo de visão, trazendo consigo a presença ilustre de quem me trouxe até aqui.

A velha Madame Moira.

Como uma líder daqueles canídeos, sua presença é fria, implacável – uma figura de sombra e gelo. Ela me olha com um sorriso tranquilo, quase desdenhoso. Para ela, tudo sempre foi um jogo, me ver quebrada apenas a satisfaz mais.

Não consigo conter o cão raivoso dentro de mim, ele rosna, mostra os dentes e planeja rasgar tudo que cruzar meu caminho.

— Por quê? Como pôde destruir tudo que eu amava? — Grito para a maldita velha. Seja o que ela for, não podia ser bom.

— Você ainda insiste em me culpar, mesmo depois de tudo que aconteceu? Tantas lições ignoradas… será que você não aprendeu nada em meio a essas árvores, Selene? Quantas vezes precisarei te fazer sangrar até que enxergue a verdade que tanto tem ignorado?

A raiva transborda em mim, mas logo se mistura com a sensação de esgotamento. Meus músculos gritam, mas minha mente já não responde. Apenas a vontade de terminar isso me move, uma força sem mais motivos.

Avanço, gritando todas as palavras que guardei, cada acusação e cada lágrima que mantive trancada dentro de mim por todo esse tempo. Os lobos partem para cima de mim, desvio de cada um deles, derrapando na neve, rolando e fazendo o que for preciso para sobreviver e alcançar o meu alvo. Todavia, quando chegava perto o suficiente de Moira, ela se desfazia em pó diante de meus olhos e ressurgia em um ponto mais distante, fazendo-me correr atrás dela, tentando alcançá-la diversas vezes. Lutando bravamente contra os lobos que me perseguem e, ao mesmo tempo, protegem sua líder.

Já não sinto mais frio – ou talvez o frio agora estivesse dentro de mim, como se fôssemos um só. A dor se mistura ao clima gélido ao redor, meus pés se afundam no chão branco enquanto a ataco, mas ela não para e finalmente os lobos me alcançam.

Suas garras e presas afiadas rasgam minhas roupas, perfuram minha pele e arrancam pedaços atirados contra a neve. Não sinto dor alguma, o que me dá forças para continuar lutando contra eles. Agarro um pelo colar de pelos em seu pescoço, pressiono meus dedos contra seus olhos, fazendo-o soltar um grito sôfrego. Entretanto, são sete lobos e cada um deles me ataca de um lado. Meus braços e pernas são sacudidos pelo aperto de suas mandíbulas fortes.

Mesmo exausta, não me rendo. Cada golpe, cada grito é carregado de meses de ressentimento e dor. E sei que essa luta eu já perdi, não carrego nenhuma esperança de sair viva. Por isso, tudo que quero é acabar logo com a minha existência inútil. Quero que tudo isso pare. A neve, a dor, a culpa e a velha Moira, de uma vez por todas.

Quando sinto que perdi sangue demais e a força abandonou completamente meu corpo, me rendo derrotada. Os lobos se afastam, deixando o que restou do meu corpo caído sob a neve. O imaculado manto branco se tornou um tapete de sangue.

Subitamente o chão abaixo de mim começa a derreter, caio para dentro daquele lago que me persegue em pesadelos. Fico ali, flutuando entre o gelo e a água escura, assistindo à dança caótica dos flocos que caem do céu em minha direção. Não estou mais com medo, nos braços da morte encontro finalmente a paz que tanto desejei.

Ouço os passos da velha senhora se arrastarem em minha direção, pelo reflexo do gelo vejo-a pairar sobre mim. Suas mãos vêm em minha direção, penetram a fina camada e me puxam para fora do lago congelado. Moira me toma em seus braços e seu calor instantaneamente começa a me aquecer, não tenho forças para lutar contra ela, então apenas me entrego ao seu aconchego.

Me pergunto porque ela me salvaria? Não era sua intenção me destruir?

Tento encarar seu rosto, mas minha visão é turva. Estou fraca demais, cansada de tanto lutar contra meu passado. Diante dos meus olhos, vejo Moira assumir a forma física da minha mãe, usando um belo vestido cor púrpura.

— Mainha… — Sussurro, um sorriso sutil escapa por meus lábios.

— Shh… não diga nada, querida. Acabou agora. Toda a dor se foi…

Lágrimas escorrem violentamente pelo meu rosto, enquanto uma luz irradia da minha mãe, tão intensa que me deixa cega. Sou dominada pela branquidão e levada para outro universo. Um belo, pacífico e repleto de alegria.

 

Oh, pelo menos podemos dizer que tentamos
Agora não temos mais nada a perder
As chamas parecem bonitas se você esquecer o que elas podem fazer
Se eles soubessem
Que nunca desistimos, que não caímos sem lutar
If The World Falls To Pieces – Young Summer

 

 

É um vasto campo de violetas com um velho carvalho imenso próximo a uma queda d’água. Estou usando um belo vestido branco que balança com o passar do vento. Uma raposa-vermelha passa em disparada bem ao meu lado, sua pelagem alaranjada cintila ao toque dos raios de sol, ela avança pelo campo deixando um caminho para trás. A direção que ela toma é de encontro a uma árvore imensa.

A árvore é imponente, com tronco espesso e retorcido, cujas raízes parecem se entrelaçar com a própria terra. Suas folhas, de um verde profundo, brilham suavemente sob a luz do sol, exalando uma aura misteriosa. No tronco, há marcas e runas que se iluminam com a chegada da raposa. Suas flores mágicas desabrocharam, liberando um perfume doce como um antídoto. É uma árvore antiga, guardiã de segredos e magia ancestral.

Caminho em sua direção e conforme vou me aproximando vejo a silhueta de uma gangorra presa aos seus galhos mais fortes. E sentada nela há uma criança, a qual a raposa protege, repousando ao seu lado.

É ela.

Uma linda menininha.

Eu a reconheceria mesmo que passassem mil anos.

Meu coração jamais poderia se esquecer daquela que gerou dentro de mim.

— Aurora? — Chamo, com lágrimas banhando minha face. — Filha.

A garotinha sorri para mim e deixa o balanço para avançar em minha direção.

Meus pés começam a se mover rápido, corro com todas as minhas forças.

A cada passo a distância se encurta, até que finalmente nos encontramos como dois trovões cortando o céu.

Quando nossos corpos se envolvem em um abraço, meus joelhos cedem ao chão. O mundo parece se calar ao redor de nós. O cheiro do cabelo cacheado de Aurora me embriaga, e seus olhos claros como mel são o reflexo dos meus próprios sentimentos.

Minha filha está aqui.

— Mamãe. — Ela diz e sinto que meu coração vai explodir. — Você veio.

— É claro que vim. — Sinto seu calor, seu cheiro, como no dia que nos conhecemos no hospital. — Eu te amo, Aurora. Eu te amo muito. E sinto muito. Você merecia viver…

— Mas eu nunca morri. — É o que ela responde e toca com meu rosto com ternura.

Fecho os olhos para apreciar seu calor.

Eu imploro, isso tem que ser real, por favor.

— Eu nunca morri, mamãe. Sempre estive aqui. — Aurora me olha, seus olhos me atravessam e suas palavras chegam como um raio. Ela toca o vão entre meus seios, onde meu coração bate desesperadamente.

Minha mente explode.

Agora… agora tudo faz sentido.

Toda a minha jornada até aqui.

O mundo ao redor parece se silenciar, como se o universo esperasse pelo momento em que a minha última lágrima caísse.

— A neve tem que cair, mamãe. Só assim a Aurora poderá vir.

 

 

E se eu não soubesse a verdade
Eu pensaria que você está falando comigo agora
Se eu não soubesse a verdade
Eu pensaria que você ainda está por aí
Marjorie – Taylor Swift

 

 

[1] João 8:32

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