Capítulo 4
Em busca do meu eu perdido
— Lenine! Não… não pode ser! — Grito com pesar, quando recobro a consciência e percebo que estou no chão da minha sala, com os pensamentos completamente embaralhados, segurando aquela mesma fotografia que tremia em minhas mãos.
O riso de Lenine ecoava pela sala vazia e o toque de seus dedos parecia ainda estar nas bordas desgastadas da foto. O vazio que ele deixou era mais que um silêncio; era uma presença áspera, quase tangível, que se insinuava em cada canto escuro da casa. Até o ar parecia carregado, como se o próprio ambiente absorvesse a dor, devolvendo-a na forma de sombras e ecos.
— Me leve de volta! — Ordeno exaltada. — Faça isso de novo! Mande-me de volta… — Choro, implorando aquela fotografia. Lágrimas caem sobre a superfície.
Sou surpreendida ao receber uma descarga elétrica. Ouvi o estalo quando a eletricidade disparou pelo meu braço como uma serpente viva, forçando um grito dos meus lábios e fazendo a foto cair no chão. No reflexo, jurei ver uma sombra familiar, algo além do físico, como se a essência dele ainda me observasse, presa naquela imagem desgastada.
Encaro a foto boquiaberta, vejo um brilho intrigante ressoar por sua superfície, como se fios desencapados encostassem em uma poça d’água. Assustada, me arrasto para longe, até estar apoiada com as costas contra o sofá.
— O que foi isso? — Indago a mim mesma.
Observo as minhas mãos, estou inteira…, mas o formigamento é real. A dor latejante explodia na minha testa e minhas mãos fervilhavam como se a eletricidade ainda percorresse minhas veias.
Fecho os olhos por alguns segundos, só pra me acalmar e compreender tudo que aconteceu…
Não foi a primeira vez que supostamente entrava para dentro de uma foto. Era algo inusitado, mas pelo meu fanatismo por viagens temporais… posso concluir, de certa forma, que voltei no tempo através de uma foto. Mesmo que momentaneamente, ainda que não tenha o poder de alterar o passado, consegui reviver um momento através do registro dela em uma imagem.
Permito-me flutuar na nostalgia ao rever o homem que amei em nossos anos mais felizes. As lembranças de Lenine ainda estão frescas em minha memória, é como se uma perspectiva sobre aquele dia fosse adicionada ao meu ser. Era nítido o quanto ele me amava, o quanto nos pertencemos de corpo e alma, e constatar tudo isso só me faz lamentar ainda mais o nosso trágico fim.
Ter essa visão panorâmica faz o peso de tudo desmoronar sob os meus ombros…
O choro rompe por minha garganta. Abraço meus joelhos contra o peito, escondendo o rosto. Deixo a dor sair em forma de lágrimas e lamentos.
Intrigante como, quando tudo acabou, não queria vê-lo de nenhuma maneira, sua presença se tornou insuportável para mim, os meses foram passando e a falta dele se transformou em um sentimento físico, fazendo com que um ano após a nossa separação eu finalmente sinta arrependimento.
Queria tanto poder voltar atrás e desfazer as últimas palavras amargas ditas. No entanto, como lidar com a dor das promessas quebradas e com as feridas que nós mesmos causamos? Não sei se Lenine me perdoou…
Daria tudo, qualquer coisa, para tê-lo de volta, para que ele estivesse aqui.
Mas o deixei ir.
Tudo o que nos aconteceu levou à nossa destruição, ao nosso inevitável fim. Só me resta lamentar pelo grande amor que perdi.
O espaço que Lenine deixou é vasto e profundo, impossível de preencher, como um abismo que ecoa todas as nossas promessas e juras quebradas. Nossa história era de alma e destino. Um destino deveras cruel que nos separou de forma lasciva. E parte de tudo isso é inegavelmente minha culpa e talvez essa realidade seja a mais difícil de aceitar.
Nestes últimos meses, tudo o que tenho feito é ignorar a dor esmagadora… ignorar o vazio que ele deixou. Ignorar o quanto sinto sua falta, a parte vazia do armário, sua ausência na nossa cama, os cafés da manhã solitários e o frio que passou a ocupar o seu lugar ao meu lado.
Sigo como um morto-vivo, desejando não me lembrar que um dia ele existiu.

Eu devia ter te feito perguntas
Pedido para você escrever para mim
Porque cada pedaço seu
Seria tirado de mim
Marjorie – Taylor Swift

A dor de cabeça não passa, me pego deitada na cama grunhindo de dor. Não sei o que aconteceu, mas reviver aquelas memórias roubou toda a minha energia. Passei horas escrevendo tudo em meu diário a fim de compreender melhor os acontecimentos.
Sou interrompida pelos meus pais, que me ligam às 20h. O barulho ao fundo indica que a casa está cheia de vozes familiares, eles comemoram o Natal sem mim, como deve ser.
Me recusei a ir para a Bahia, onde todos encontrariam o pesar que carrego sobre meus ombros, quis poupar minha família desse fardo. A dor era só minha e de mais ninguém. Não quis compartilhá-la nem mesmo com Lenine, que era meu melhor amigo e marido, quem dirá quaisquer outras pessoas. Nem mesmo a minha mãe tinha acesso à dor em meu coração. E mesmo que ela tivesse implorado para vir me fazer companhia, não permiti.
Após conversar o básico com o meu pai que sempre foi um homem de pouco papo e muito sentimento, digo um “eu te amo” e ele entrega o telefone para minha mãe que desata a falar tudo que cozinhou para a ceia.
Me perco nas doces lembranças do abará que mainha costuma fazer no Natal por ser uma das minhas comidas favoritas, um abraço distante, um cheiro de lar perdido no tempo. Chego a salivar de vontade e vem o arrependimento de não ter voado para o Nordeste neste fim de ano. Hoje, me resta apenas o eco dessas memórias, tão reais quanto inalcançáveis.
— Você está se alimentando direitinho, minha filha? — Ela questiona, a voz carregada de inquietude. Não importa o quão velho você fique, sua mãe sempre vai se preocupar com o fato de você estar se cuidando corretamente.
— Sim, mãe, por favor não se preocupe, é Natal.
— Sinto tanta sua falta.
— Eu também sinto a sua, mainha.
— Por favor, tome um analgésico, ninguém merece sentir tanta dor de cabeça. — Ela implora, já ciente do meu estado.
Eu assenti, como se ela pudesse ver.
— Preciso ir, esqueci a TV ligada e vou… eh… assar um pernil.
— Selene, sei muito bem quando está mentindo.
Dou risada e ouço sua indignação do outro lado da linha telefônica. Ela tenta falar sobre o passado, sei que quer mencionar Lenine, mas ignoro e dou um fim a conversa antes que ela perceba o quanto estou arruinada.
— Aproveite meus sobrinhos por mim, beijo mainha, manda um abraço para o painho e todo mundo aí de casa. Te amo. Feliz Natal!
Espero ela se despedir e desligo o telefone. Fiquei olhando para a tela apagada, ouvindo o silêncio se espalhando ao meu redor. A quietude do quarto, a luz fria, as sombras amplificavam a solidão que me envolve. Parte de mim queria ter dito algo mais, qualquer coisa que diminuísse a distância entre nós, mas a outra parte – aquela que sempre acaba ganhando –, só queria se esconder.
Por que é tão difícil para mim compartilhar o que sinto de verdade? Parece que existe uma barreira invisível entre mim e as pessoas que amo, um muro que eu mesma construí e agora não sei como derrubar. Uma onda de solidão tomou conta do meu peito, misturada com uma culpa que não sei como lidar. Se ao menos eu conseguisse dizer a eles…, mas a ideia de me abrir, de mostrar que não sou tão forte quanto aparento, me apavora. Eles não me entenderiam, talvez nunca entendessem.
Lembro-me de um tempo em que as coisas eram diferentes. Minhas tardes de sábado eram na cozinha com mainha, nós preparávamos acarajés juntas, ela fazia questão de me ensinar cada um dos seus truques. O sol entrava pela janela da cozinha enquanto minha mãe fazia os preparos. Eu estava sempre rindo de uma piada que painho tinha contado. Lembro da sensação quente e segura daqueles sábados, do jeito que eles me olhavam, como se eu fosse o centro de tudo. Naquela época, não existiam essas barreiras invisíveis, nem essa distância. Éramos nós três, uma unidade.
Mas agora… agora, era como se houvesse um abismo entre nós. Como se aquela conexão tivesse sido desfeita e eu me tornasse uma estranha para eles, e talvez até para mim mesma.
Esfrego meus olhos, passo as mãos pelo rosto e suspiro profundamente. Levo minha mão até a minha testa e pressiono na tentativa inútil de cessar a dor. Minha mente está pesada, nebulosa, não consigo pensar com clareza. Pulo da cama e calço minhas pantufas, me arrasto até a cozinha, onde pego um copo d’água para tomar um analgésico.
A nostalgia ainda dominava o meu ser, fazendo-me lembrar de um dos rituais fieis com Lenine. Logo após o Natal, assim que meus familiares voltavam para a Bahia, fazíamos uma trilha aqui na nossa cidadezinha. Nevoeiro do Sul era um pedaço de nós; cada pedra, cada caminho da trilha guardava ecos de nossas risadas e juras de amor aos sussurros. Aquelas árvores que dançavam sob o vento noturno testemunharam nossos melhores e piores momentos. Voltar ali, mesmo sozinha, era a única forma que eu via de me encontrar novamente. Para encontrar ele novamente.
Éramos apaixonados pelo Parque Nacional Vale do Cedro Azul. Além de ser um momento de aventura juntos, explorando e fotografando a natureza que tanto nos encantava, vivíamos dias de amor naquelas florestas, eram os meus dias favoritos do ano que se encerrava. Voltávamos a tempo para o Ano Novo, este que sempre passamos sozinhos, na companhia apenas um do outro, no terraço de nossa casa, fazendo juras de amor tanto com palavras quanto com nossos corpos.
Eu daria tudo para recuperar esses momentos.
E então me lembro que em minha atual realidade, o perdi. E nunca terei isso de volta.
“Talvez seja hora de revisitar suas cicatrizes em formato de memórias.”
Não era a voz de Moira que soava em minha mente, mas o lembrete de suas palavras, que finalmente acendeu algo dentro de mim.
Cada foto era como uma marca gravada, carregando uma parte daquela felicidade distante e dolorosa. Eu sempre pensei que cicatrizes eram sinais de cura, mas as minhas só pareciam ficar mais profundas, como feridas eternamente abertas. Eu precisava enfrentar o que essas imagens escondiam.
Largo o copo d’água que ainda estava segurando, me desencosto da bancada da cozinha e rumo em passos rápidos até o porão da nossa casa. Desço as escadas inacessíveis com cuidado, aperto o interruptor e dou graças aos céus pelas luzes se acenderem. É um porão de memórias, cheia de bagunças sem lugar que guardamos ao longo da vida. E cheio de objetos que certamente preciso ignorar para não ter uma crise. Meus pés guiam-se para prateleiras específicas.
Tenho estado morta por tanto tempo. Vivendo no automático, apenas vagando por aí e fingindo que existo enquanto fotografo o mundo. O trabalho é meu único refúgio, a última chama que aquece meu coração congelado.
Mas, agora, algo maior estava me chamando, gritando para mim. Eu queria encontrar a cura, o conforto de voltar a viver uma vida feliz e em paz. Queria deixar o passado para trás, me despedir de tudo que um dia me machucou. Precisava disso porque queria desesperadamente viver. Me bastava estar morta, permaneci assim por tempo o suficiente. Moira tinha razão. Eu precisava encarar isso e um desafio como esse soava perfeito.
A decisão estava clara em minha mente. Faria uma trilha sozinha, pela primeira vez. Enfrentaria de uma vez por todas todos os meus fantasmas. E colocaria a prova o meu novo suposto poder ou o que quer que isso seja.
As fotos eram, definitivamente, as minhas memórias em formato de cicatrizes e encarar elas em meio a intimidadora natureza selvagem era a melhor forma de me exorcizar. De encontrar por entre as árvores a Selene que matei há tanto tempo. Aquela mulher cheia de sonhos e amor que está perdida na bagunça de dor e sofrimento dentro de mim.
E faria isso cem por cento lúcida.
Uma decisão firme se formou dentro de mim. Cada lágrima derramada foi como uma camada da minha dor se dissolvendo, revelando uma vontade renovada. Eu não seria mais refém das memórias, das fotos, do passado que tanto me assombrava. Pela primeira vez em muito tempo, senti que poderia respirar novamente, sentindo a vida retornar aos poucos.
Meu primeiro passo? A trilha.
Começo a pegar todos os utensílios que preciso. Barraca, saco de dormir, lanternas, cantil, cordas e tudo que estava perdido e empoeirado em meu porão. Meu coração estava descompassado, batendo em ansiedade pelo que estava por vir. A dor de cabeça ainda estava ali, mas agora sequer me incomodava.
Minha antiga mochila de trilha rasgou, por isso tenho que me virar com uma não adequada, de couro marrom, mas grande o suficiente para entulhar várias coisas. Preciso ser inteligente desta vez. Sozinha, e com caminhos difíceis à frente, devo preparar tudo minuciosamente. Antes que me perca, paro tudo que estou fazendo para montar uma lista em meio a bagunça que já se formou em minha mesa de jantar que virou palco de tudo que preciso levar.
Me preparei com todos os itens essenciais: utensílios de cozinha e alimentos não perecíveis; um mapa físico e um canivete, prontos para qualquer eventualidade. Levaria ainda apito de emergência, kit de primeiros socorros e repelente, além de protetor solar e sacos para descartar o lixo adequadamente. Para o dia a dia, separei roupas leves, capa de chuva e um kit de higiene com lenços umedecidos. Finalmente, com o caderno e a caneta em mãos, estava pronta para registrar cada momento da aventura.
E é claro o item indispensável: minha câmera digital.
Meu coração disparava a cada objeto que colocava na mochila, cada um desses itens representava mais do que apenas equipamento; eram peças da minha jornada para superar o passado. Itens esses que ainda me prendiam a histórias vividas com meu marido. A lanterna, tão essencial agora, era a mesma que usávamos para explorar as florestas ao anoitecer. Mas o antigo cantil de alumínio desgastado pelo uso, ah, esse era especial, contava histórias não apenas de nós dois, mas dos pais de Lenine, visto pertencer a eles antes.
Seguro-o diante dos meus olhos, roço a ponta do meu indicador pelos arranhões e amassados como se pudesse me recordar de cada um deles. Como a vez em que Lenine o deixou cair em uma trilha íngreme e tivemos que descer para recuperá-lo. Mas o que mais amava era a pequena gravação feita por ele, nossas iniciais, L&S acompanhado de uma frase: “juntos no topo e através do tempo”, algo simples, mas que remete a toda nossa história e que, agora, me toca profundamente, fazendo meus olhos arderem. Um sorriso triste enfeita meus lábios, lembrando-se das risadas e da leveza que sentíamos juntos durante as nossas aventuras.
É claro que minha mochila fica pesada e quase transbordando, mas conto com o fato de estar em boa forma e ter costume de fazer esse tipo de trilha. Hora de fazer valer anos de pilates, musculação e corridas. Dou um jeitinho de caber tudo.
Eu não estava apenas me preparando para uma trilha. Estava me armando para enfrentar o labirinto de cicatrizes que guardo. A floresta seria meu confessionário, o chão firme sob meus pés uma âncora contra as dores que eu mesma plantei e agora precisava arrancar, raiz por raiz.
Dou um check nos itens da lista e percebo que tenho tudo pronto para minha viagem, sinto meu coração cheio de ansiedade e me lembro do quanto Lenine amava nossas trilhas. Sou surpreendida por uma súbita sensação de frio que percorreu minha espinha.
Olho para nossa casa solitária e abandonada, decido que não posso fazer essa viagem sem antes dar vida a esse lugar. E é por isso que passo o meu Natal trazendo as caixas de enfeites do porão para a sala, monto pelo menos a árvore, ela fica pouco enfeitada, apenas algumas bolinhas vermelhas e o pisca-pisca amarelo.
Me aconchego no sofá com uma das mantinhas que sempre deixo por ali, com as luzes centrais apagadas e deixando apenas as de Natal brilhando no escuro. Tomo isso como uma luz no final do túnel, o lampejo de esperança que doma meu coração. Estou ansiosa pelo que me aguarda naquela floresta. E percebo que o momento finalmente chegou.
Escolho enfrentar a solidão que vesti como um manto por tanto tempo.
A trilha será o começo do meu reencontro comigo mesma.

Casa está em chamas,
Deixe tudo para trás
Escuro como a noite,
Deixe que o relâmpago te guie
Hora de ir para o lado de fora
Hora de sair para fora de si
Step Out – José González
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