Capítulo 3

As memórias que tenho evitado

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Às vezes, você precisa se permitir ser destruída para então se reconstruir.

Acordo pela quarta vez no dia sem compreender o que está acontecendo ao meu redor e considerando a possibilidade de me internar… estou cansada desses apagões constantes que me fazem questionar a realidade.

Quando ergo o olhar para o meu estúdio, percebo que a neve, de fato, não existia. O perfume peculiar da velha senhora se foi. Sinto que continuo segurando a fotografia vazia, sem a presença horripilante de Moira. Seguidamente, outro fato da realidade me atinge: as luzes, as câmeras, os computadores destruídos e queimados eram a prova concreta de que nem tudo era fruto da minha imaginação.

Encaro tudo perplexa, com os olhos arregalados e minha respiração falha. Fico com medo de não estar sozinha, de algo além da minha compreensão estar me perseguindo – como naqueles filmes de terror.

Aterrorizada, alcanço minha mochila e, ainda sentindo a textura da foto amassada em minha mão, saio correndo. Tranco tudo antes de me apressar até o carro e disparar de volta para casa.

Volto no piloto automático, em silêncio, tentando afastar as sombras dos acontecimentos de hoje que rondam minha mente.

Chego em casa e a primeira coisa que se passa em minha cabeça é: deveria ligar para minha mãe? Contar que perdi o controle de vez? Mas como explicar o que nem eu mesma consigo entender? Ela está em outro estado, só causaria um infarto no coração da pobrezinha. Um banho certamente deve curar tudo isso. E com esse pensamento, num instante estou na banheira. Mergulhada na água quente, encaro os ladrilhos frios, tentando organizar os fragmentos do que aconteceu. O calor que me aquece é um refúgio provisório. Tão temporário quanto os ecos que preenchem essa casa vazia. Fecho os olhos, tentando afastar as imagens e sons que ainda se repercutem no fundo da minha mente.

Após lavar e finalizar meu cabelo, secando-o parcialmente com secador, decido almoçar o restante da lasanha que está há três dias esquecida na minha geladeira. Abri uma garrafa de vinho do Porto, enchi a taça exatamente como uma dama não deve fazer, e coloquei um dos meus discos de vinil favoritos para tocar: o álbum Down the Way, do duo Angus & Julia Stone. Fiquei desfilando pela casa só de roupão. Passo a tarde assistindo “O Estranho Mundo de Jack”, o que me ajudou muito a ignorar a insanidade que me ocorria. E por hora é como se nada de estranho tivesse acontecido.

O barulho de buzinadas e vozes animadas dos vizinhos da frente me faz espiar pela janela. Os familiares distantes chegavam para desfrutar o Natal em família. Eles estão felizes se abraçando e comemorando. O quintal está todo enfeitado e daqui consigo ver a árvore de Natal pela janela.

Minha casa está vazia. Ao contrário dos meus vizinhos, aqui só resta minha existência solitária e vã. Essas paredes um dia foram palco de um grande amor. Tudo que resta agora é dor e uma solidão lasciva.

Houve uma época em que meus Natais eram cheios de cor e alegria. Fazia questão de enfeitar cada pequeno detalhe. Meus pais, minha irmã e sua família vinham da Bahia para ficar conosco, assim como meus sogros e cunhados que partiam de São Joaquim, para cá. Era nosso acordo, as páscoas eram no Nordeste e os finais de ano no Sul.

Entretanto, hoje, minha casa está pálida, sem sequer uma única bolinha vermelha, sem nada. Apenas um cartão de Natal que ganhei de uma cliente querida e deixei abandonado na mesa de cabeceira do quarto. A solidão ecoava como um assobio triste vindo de uma brecha de uma janela esquecida aberta. Meus passos arrastados pela casa são os únicos ecos de vida que ressoam por essas paredes.

Ele sentiria tanto ao ver o que me tornei.

Lembrar dele me faz dar um pulo da poltrona que estou sentada bisbilhotando os outros.

Lenine…

Ele é tudo de que preciso agora. A lembrança dele me atravessa como uma faca afiada. O meu grande amor se tornou uma ferida que nunca irá se cicatrizar.

Meus olhos recaem sobre a mesa de centro, onde caixas de fotos repousam como velhos tesouros, esperando serem desvendadas. Costume esse que fazíamos em todo Natal.

Me permito ser conduzida pelo impulso de meu coração quando minhas mãos agarram uma das latas de biscoito, aquelas com estampa bonita que a gente cisma de guardar pela beleza, dentro delas estão armazenadas todas as memórias em formato de fotos. E são tantas…

Basicamente toda a minha história de vida. Toda a história de amor que vivi ao lado de Lenine por mais de 20 anos.

Amo fotografias desde muito pequena. No meu aniversário de 7 anos, Lenine me deu uma câmera polaroid, a mesma que tenho até hoje. É vintage, aquele modelo antiquado que faz as fotos serem impressas por baixo e tem uma pintura de arco-íris na frente.

Mesmo que atualmente eu seja apaixonada pelas câmeras digitais, sempre opto pela câmera instantânea de sempre, só pelo fato de as fotografias serem impressas na hora.

Minha lente estava sempre focada em Lenine, em nossos momentos felizes desde a infância.

A família Orlandini se mudou temporariamente para a Bahia quando a mãe de Lenine, dona Sandra, uma renomada chef de cozinha, abriu um restaurante em nossa cidade. Eles viveram em Ilhéus por alguns anos, mas logo que o restaurante se tornou um sucesso, um dos irmãos de Lenine assumiu a gerência, fazendo com que ele e seus pais regressassem para Santa Catarina, onde investiram no restaurante da sua cidade natal.

Ao mesmo tempo, me mudei provisoriamente para São Paulo para estudar fotografia. Nessa época, Lenine e eu namorávamos a distância e nos víamos a cada três meses, conforme nossos estudos permitiam. Quando terminei o curso e me profissionalizei na área, tinha 20 anos e Lenine me propôs em casamento. Como ele trabalha como contador do restaurante em São Joaquim e administra os negócios da família, resolvemos morar em Nevoeiro do Sul, na região sul do Brasil.

Mudar da Bahia para Santa Catarina não me assustou, embora fosse muito apegada a minha família, o curto período que passei em São Paulo com minha irmã me preparou para isso. Amava Ilhéus com todo meu coração, mas amava ainda mais Lenine e ficaria com ele aonde quer que fosse. A distância que precisamos enfrentar apenas nos fez perceber o quanto precisávamos ficar juntos – prometi a mim mesma que jamais nos afastaríamos novamente. Aonde ele fosse eu também iria e vice-versa. O lugar onde vivemos era só um detalhe para mim – embora, precise confessar, sinto uma saudade danada do solzinho da Bahia.

Lembrar de nossa história e dos desafios que enfrentamos juntos me arranca sorrisos, nós sempre fizemos de tudo pelo nosso amor, mesmo diante das barreiras que nos foram colocadas. Lutamos com unhas e dentes por nós.

Alcanço uma lata azul de biscoitos amanteigados e sorrio ao retirar a tampa e dar de cara com uma foto minha e de Lenine nos beijando na rede no quintal dos meus pais, debaixo do pé de manga cheio de fruta madura. Enquanto nossa família se reunia na piscina numa tarde de domingo. Foi o nosso primeiro dia de namoro, quando ele pediu permissão ao meu pai.

Nossos dias 22 se tornaram especiais, a data que celebra nosso amor.

22 de dezembro, foi quando finalmente concluímos que o nosso destino era ficar juntos.

Assim que toco a fotografia, sinto minha cabeça girar, tudo ao meu redor fica turvo, a foto cai de minhas mãos e sinto que me tornei a Alice caindo na toca do coelho.

Flashes de toda minha vida invadem meus pensamentos, me levando para tantos momentos numa velocidade absurda, mas nunca focando em um só acontecimento. São só borrões de lembranças preciosas. Um zumbido soa em meus ouvidos, causando-me uma irritação, até que cessa quando sou sugada para outra dimensão…

 

 

Sou envolvida por uma luz branca que conforme vai cessando passa a dar cor ao mundo ao meu redor, começo a me acalmar ao sentir meus pés firmes sobre o chão, só que esse chão não é o de minha sala.

O cheiro do ar é familiar, com aquele aroma doce vindo do jardim da minha mãe e a fragrância amadeirada da mangueira no quintal.

Abro os olhos e me vejo debaixo do pé de manga da casa dos meus pais. Ouço vozes risonhas ao fundo e percebo que minha mãe está saindo pela porta da cozinha, equilibrando uma bandeja com copos de suco de goiaba para a família, enquanto meu pai ajusta os óculos e faz piadas, provocando risos em todos. Minha irmã, Sabrina está contando sobre sua faculdade, lembro-me que nessa época a pouco ela havia sido admitida no curso de advocacia em São Paulo.

Espera… isso foi há cerca de 14 anos…

Só então me dou conta em que ano estou.

Tudo isso já aconteceu…

O que significa que…

Não.

Isso não é possível.

Olho para as minhas mãos, mas a fotografia desapareceu. Em vez disso, estou segurando um livro da Charlotte Brontë, Jane Eyre – um dos meus filmes favoritos –, que Lenine me deu no dia em que fez o pedido ao meu pai. Abro a capa, ali está a dedicatória que ele escreveu:

“Para Selene, a guria da minha vida.

Entre todas as palavras que um livro pode conter, são estas que escrevo para ti. Jane Eyre sempre foi uma história de coragem, intensidade e de encontrar forças para se erguer, mesmo diante das sombras.

Assim como Jane, tu ilumina o que toca e enxerga beleza onde poucos veem. Espero que, ao ler essas palavras, tu se lembre de que os maiores sentimentos nascem do coração, e que, mesmo quando estivermos distantes, meu pensamento estará em você.

Mas, minha amada, temo que a história de Jane e de seu grande amor seja uma lição que não podemos repetir. Não quero que nós dois percamos aquilo que construímos. Não permitirei que o destino nos afaste ou que as sombras nos consumam, como aconteceu com eles antes de ficarem finalmente juntos. Contra as regras das grandes histórias de amor, nós enfrentaremos os obstáculos juntos, sem nunca soltarmos a mão um do outro. Se há algo que aprendi, é que o amor verdadeiro exige coragem, e nunca permitirei que o nosso amor se perca, nem que os erros do passado se repitam em nossas vidas.

Se existem multiversos, como teorizamos outro dia, saiba que eu me apaixonaria por ti em todas as linhas do tempo.

Do seu namorado,
Lenine”

Sorri diante da declaração calorosa do rapaz que amava, sentindo-me novamente como naquele dia, uma boba apaixonada. Uma adolescente de 15 anos que mal sabia possuir em suas mãos o grande amor da sua vida. Algo raro e extremamente precioso que um dia… ela iria perder…

Se ao menos eu soubesse…

Fecho os olhos diante da sensação que a brisa morna contra o meu rosto me traz, fazendo-me regressar aos dias mais felizes da minha vida, e sinto a leveza de estar novamente em um tempo onde as preocupações não pesavam, onde tudo era repleto de cor e som.

E de repente…

Meu coração dispara a mil só de sentir a sua presença.

Lá está ele, Lenine, com os olhos brilhantes, o sorriso fácil, me olhando como se eu fosse o centro do universo. Ele se aproxima, como fazia sempre, com passos lentos e despreocupados. Meu coração bate acelerado, porque sinto que, de alguma forma, estou de volta. É como se o tempo tivesse voltado, como se eu tivesse realmente a chance de reviver aquilo que só existia em lembranças.

— Tu vai continuar me olhando ou vai entrar na rede comigo? — Ele ri e o som da risada me atinge com a força de uma onda, me aproximando do mar sem eu sequer precisar estar em uma praia.

Me indago mentalmente se isso tudo está mesmo acontecendo. Devo estar sonhando. Mas sinto perfeitamente a sensação da grama abaixo de meus pés descalços e o cheiro de tudo é tão real. O sol escaldante me lembra que sim, estou na Bahia, diante do catarinense que se mudou para meu bairro quando ainda éramos crianças e se tornou o amor da minha vida.

Se isso é um sonho, espero que eu morra sonhando. Que nunca mais tenha que acordar para encarar aquela realidade dolorosa novamente. Quero ficar aqui, nessa linha do tempo, em um universo que a vida não destruiu tudo de mais belo que eu tinha. Em uma versão que eu não me destruí.

Dou um passo para trás, tentando organizar meus pensamentos, mas Lenine apenas estende a mão para mim. Vejo a aliança prateada em seu dedo, aquela que simboliza nosso namoro previsível, nossos pais já esperavam há tanto tempo. Nossa família reunida no quintal está em êxtase, comemorando o nosso amor juvenil.

Confusa e completamente imersa no momento, entrelaço meus dedos aos dele e me deixo guiar até a rede. Como poderia recusá-lo? Se estava delirando, se isso era um sonho, eu aproveitaria o máximo possível, por ser uma época e um tempo em que o nosso amor era inabalável.

Eu só quero ser feliz com Lenine por mais alguns minutos.

É como se cada detalhe da cena estivesse gravado em minha mente, mas agora com mais cor, mais calor, mais vida. Tudo está exatamente como nas fotos: a rede pendurada, as mangas maduras caindo, o brilho no olhar de Lenine. Sinto que estou entre o sonho e a realidade, cada segundo se torna precioso.

Conforme me acomodo ao lado dele, uma sensação mista de felicidade e dor preenche meu peito. Sei que essa é uma memória, sei que estou de volta a algo que não posso mudar…, mas, por algum motivo, sinto que essa viagem tem um propósito.

Ele acaricia meu rosto com ternura e o toque é tão real que, por um segundo, esqueço que estou presa entre o passado e o presente.

Eu não sabia antes, mas agora que o perdi, posso compreender todas as sensações que ele me causa ao simplesmente tocar a minha pele. É um arrepio profundo, um bater de asas em minha barriga, um calafrio que estremece minha alma e faz meu coração pulsar enquanto escreve seu nome.

— Tu sempre me olha como se estivesse me vendo pela primeira vez, sabia? —  Ele murmura, com uma intensidade que me faz lembrar do quanto o amei, do quanto ainda o amo.

E respondo mentalmente: “mas é a primeira vez, Lenine, a primeira vez em muito tempo…”. Faz um ano que você juntou as suas coisas e foi embora da nossa casa. Um ano sem te ver, sem falar com você, sem sentir seu calor e tão pouco seu cheiro. Um ano que lamento profundamente o nosso fim. Um ano e honestamente um pouco mais do que isso.

Fecho os olhos e me permito aproveitar o momento, querendo me agarrar a ele por mais tempo. Em meio a toda essa nostalgia, uma nova ideia começa a se formar. Talvez esse retorno, essa viagem no tempo, seja mais do que apenas uma lembrança dolorosa. Talvez seja uma chance de compreender algo que deixei para trás, um pedaço de mim que ainda precisa ser curado.

É uma chance de fazer tudo diferente. Se voltei no tempo, quer dizer que reviverei cada segundo da minha vida, tudo de novo.

Meu coração se acelera com a possibilidade, meus olhos se enchem de lágrimas.

— O que foi, minha baianinha arretada? Tem algo te incomodando? Sei que demorou para o pedido vir, mas agora que toda nossa família já sabe e nos apoia, não vou sair do seu lado. — Ele me garante, acariciando meus fios de cabelo.

Sinto um nó apertar minha garganta com tanta força que parece que vou simplesmente desfalecer em seus braços.

— Eu não vou te perder dessa vez, Lenine.

Ele uniu as sobrancelhas em confusão. Tenho certeza que não foram essas palavras que lhe disse naquela época, mas são essas palavras que deixam minha boca agora.

— Como poderia me perder um dia, Selene? Meu coração te pertence. Agora que me amarrei em tu, não te solto por nada. Pode o céu desabar, que não arredo o pé de ti.

— Prometo não te perder novamente… — Repito aos sussurros com dor escorrendo pela minha voz, enquanto as lágrimas quentes rolam por meu rosto e não resisto, selo sua boca com a minha em um beijo suave. Meus lábios tremem e o beijo é um desastre, ouço o click de uma câmera, um flash é disparado contra nós.

Não foi assim o beijo dessa foto, não foram essas palavras e fico em choque quando percebo que estou mudando o passado, ao menos, estou revivendo e não sei se isso é uma coisa boa. Quer dizer, brincar com o tempo é perigoso. Você pode acabar estragando tudo lá no futuro. Afinal, toda escolha tem uma consequência e geralmente não é boa.

Efeito borboleta.

A possibilidade de mudar o lindo relacionamento que tive com Lenine me assusta. Eu certamente alteraria o nosso fim, mas nunca tudo que vivemos num futuro depois desse dia, por mais confuso que isso soe.

Meus pensamentos são arrancados de mim quando o primeiro floco de neve cai sobre meu rosto, bem em minha bochecha esquerda, Lenine leva o polegar até ela e pressiona contra minha pele, sinto o gelo derreter e escorrer por minha pele.

Ele sequer se assustou com o fato de estar nevando na Bahia. O que me fez rapidamente chegar a uma nova conclusão, estou vivendo uma ilusão. Isso aqui é só na minha cabeça, não sei se choro de tristeza ou se fico aliviada por não estar ferrando com o futuro que já foi escrito. Tudo que sei é que a neve representa uma coisa…

O fim.

Me afasto assustada, a nevasca é um lembrete do que estava por vir. Tudo isso iria acabar e eu não estava pronta para deixá-lo novamente.

Não quero perder Lenine.

Quem tirou a foto foi a minha irmã, sorrindo para mim com a polaroid apontada em nossa direção.

— Vocês são o meu novo casal favorito de romance! — Diz Sabrina, sorrindo de orelha a orelha. Mal sabendo que ela acaba de me tirar tudo, não que fosse sua culpa.

E logo recebo a confirmação dos meus temores.

Lenine começa a desaparecer diante dos meus olhos.

O cenário se torna distorcido.

O chão se abre.

Despenco.

 

Você trouxe à tona o melhor de mim
Uma parte de mim que eu nunca tinha visto
Você pegou minha alma e a purificou
Nosso amor foi feito para as telas de cinema
All I Want – Kodaline

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